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domingo, 2 de outubro de 2011

Cinema: Oi Brasília!

Brasília tem uma cara que é só dela. Percebemos e vivenciamos o comportamento e atitudes das pessoas e seus registros. A capital brasileira, apesar da pouco tempo, tem uma trajetória muito bacana, que vem sendo construída por pessoas envolvidas e dispostas a fazer parte dessa história.
Sabíamos que o nosso último dia acompanhando o Festival de Brasília ia ser intenso, mas superou todas as nossas expectativas e fomos surpreendidos a medida que as horas passavam.  Começamos com uma palestra sobre a estética audiovisual para celulares, feita por um especialista. Os números são surpreendentes: há mais usuários de telefonia móvel do que brasileiros, no Brasil (obvio!). A nova mídia mostra sua força e seu potencial. Impossível escapar da tecnologia. Bom, depois que já estão experimentando “chipar” o cérebro humano para captar imagens dos nossos sonhos... esperar mais o quê??????


Depois, um passeio pela cidade com o Nicolas Behr, poeta arroz de festa em Brasília. Caminhando com ele pelas espaçosas avenidas, toda hora ele era espreitado, abordado e saudado.  Sujeito engajado. Ele conhece a cidade e sua história como a palma da mão (árvores, sua gente, seus points). Com esse conhecimento pinta e borda sua poesia realista e bem humorada.

 
Igreja N. Sra. Fátima, 1ª do DF

Pequizeiro na superquadra
Com ele fomos conferir um movimento contra a corrupção onde uma galera, em pleno Eixinho (acessível somente aos pedestres e veículos não motorizados, aos domingos), curtia pintando faixas e vendendo camisetas divulgando a Marcha Contra a Corrupção – voto aberto/ficha limpa, que vai rolar no próximo dia 12 em todo Brasil. Mais informações no www.movimentocontraacorrupção.org.br. E de lá fomos bater um rango no Beirute, restaurante tradicional da cidade, fundado em 1964.


À tarde, direto para o Cine Brasília. Acompanhar mais filmes, conversar com pessoas e buscar novidades. Assistimos ao documentário “Rock Brasília – Era de Ouro”, de Wlademir Carvalho, filme emocionante. Choramos até ficar envergonhados. Com uma delicadeza impressionante, Carvalho montou seu longa dechavando entrevistas espontâneas e muitas imagens de arquivo.
Equipe (parte) e diretor de Rock Brasília
 
Euforia coletiva com Rock Brasília

A partir da trajetória de bandas como Legião Urbana, Plebe Rude e Capital Inicial, Wladimir esbanja seu talento para contar histórias, associando rock’n’roll, política, família, engajamento etc. Interessante é que o filme conta a história do rock de Brasília de uma forma cronológica que faz com a gente se sinta inserido, como se fora a também a nossa história. O filme começa com muito humor, torna-se tenso a partir da sua metade e termina num raro tom emocional. Ficamos embasbacados e felizes por obra tão bonita e tocante. Um documentário imperdível. O público ovacionou, gritou, berrou, rock’n’roll.  
Outra arte do encontro que o Festival me propiciou: reencontrar uma amiga, papabanana, radicada em Brasília há vários anos e que ajudou a cuidar deste blogueiro quando criança. Até ai, legal!!! Acontece que Terezinha da Mata, ou melhor Gii, como a conheço, para minha surpresa, estava no elenco do curta “Deus”, de André Miranda. Negra e bela Gii é requisitada para filmes e peças publicitárias, pelas produtoras brasilienses. Emoção e alegria rever Gii e sua filha, Gisele.
Gii, Lorenzo e Gisele
O Festival ainda está rolando. Termina nessa segunda, quando serão anunciados os vencedores de 2011. Foi um grande prazer estar aqui. Muita gente jovem, interessante, fazendo deste festival o melhor do Brasil.

Joel Barcellos, o "astro"


Tietagem da braba. Baba baby


Esse é nosso!!!!

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Nicolas Behr, brilho de diamantino

Tudo se transforma em poesia no olhar de Nicolas Behr. O verso simples é catapultado dos  flagrantes cotidianos, que vida a lhe apresenta. A ambiência do cerrado está impregnada em seus escritos e contracena livremente com o contraponto urbano. Nicolas é um poeta contemporâneo amigo da natureza. Sorte das cidades (como Diamantino, Cuiabá e Brasília) que têm um elo perdido/encontrado com este versejador de mão cheia e coração aberto para a vida.  Nicolas é um daqueles poetas que faz a gente imaginar que a poesia é coisa fácil de se inventar. Mas... vai fazer!
Infância é não-lugar
Infância é sitio arqueológico
procura inútil
Infância é perda, remorso
irrecuperável manga

Durante a maior parte de minha adolescência frequentei as margens do Rio Coxipó. Um lugar hoje chamado de Chácara dos Pinheiros. Três tias, irmãs de minha mãe, moravam com suas famílias em chácaras vizinhas nas margens desse rio que cedeu seu nome a toda uma região de Cuiabá. Na primeira metade dos anos 70 o rio Coxipó entrou em minha vida pra nunca mais sair. Hoje... coitado do rio, receptor de grande parte do esgoto da cidade, vítima de agressões ambientais de toda (má) sorte. Nicolas, que tem a mesma idade que eu, também frequentava essas chácaras. Disputávamos um caiaque de fibra de vidro que era de um dos meus tios. Entre sarãs, sinimbus, lambaris, peraputangas, martim-pescadores, bemtevis, figueiras, marimbondos etc desfrutávamos de uma exuberante natureza que, tenho certeza, ficou cravada em nossas memórias.


Ribeirão do ouro
atravessar o ribeirão
pulando entre as pedras é fácil
dificil é tirar aquelas pedras do lugar
viver é tirar pedras do lugar
recordar é tentar recolocá-las de volta

No início dos anos 80 morei quase um ano em Brasília e lá fiquei sabendo da proezas poéticas de Nicolas. Ele foi, talvez, a expressão maior da poesia de mimeógrafo que surgiu no Brasil, como que seguindo a ideologia punk do "faça você mesmo". Já nesses tempos em que a poesia aflorava com força em Nicolas, era possível flagrar sua relação química com o verso. Tudo se desmancha em poesia na vida dessa sujeito. Há um quê de Lavoisier em seu verso, a força maior deste planeta é a natureza; onde nada se cria ou se perde: tudo se transforma.


Eixos que se cruzam
pessoas que não se encontram
Em entrevista ao Diário de Cuiabá, a respeito da expectativa que tem sobre os efeitos de sua palestra, o poeta despachou: "Gostaria que houvesse polêmica, discordância, inquietação, e que algumas perguntas ficassem no ar, que saíssemos de lá com algo interessante na cabeça a nos martelar pelos próximos dias". Imagino que ele tenha se referido ao poder transformador que a poesia exerce nas pessoas. A palestra de Nicolas vai explorar o tema "Literatura e Cidade" e acontece a partir das 19h30 (nesta quarta), no Sesc Arsenal. A entrada é franca, mas é preciso chegar mais cedo para retirar a senha e garantir um lugar.

A cidade é isso mesmo
que você está vendo
mesmo que você
não esteja vendo nada

Em seus versos a gente consegue perceber a completude da proposta da poesia, essa arte que existe praticamente desde que o mundo é mundo, antes mesmo do poder comunicativo do ser humano se concatenar e se tornar linguagem, primeiro na oralidade, e depois na escrita. A poesia de Nicolas nada deixa passar. Seus versos se traduzem em filosofia, lirismo, metáforas, ritmo, sensualidade, forma, rima, não rima, poder de síntese e outras coisas... Bem, essas outras coisas que me fugiram da memória enquanto escrevo estas linhas.

A flor do pequi
às vezes
é utilizada
na confecção de poemas
como este

Depois de dizer tudo isso sobre uma poesia com conteúdo tão vasto, mas normalmente embalada em versos curtos, pode até parecer que há um grau de complexidade nesses versos. Ledo engano. Nicolas verseja absoluto como portador de uma simplicidade rara, daquelas que qualquer poeta persegue durante uma vida inteira, mas, que não se encontra em qualquer esquina da vida. Ser simples no que tem a dizer e dizer muita coisa. Talvez seja essa a maior qualidade do poeta. Bem vindo Nicolas. Faça-se o verso!
A flor sonha
com poléns
e estames
e acorda
toda molhadinha