sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Meu irmão quer se Matar


Ontem iniciamos assistir e, por estarmos completamente inebriados com a delicadeza das cenas, a interpretação dos atores, morrendo de sono... então...  stop. Amanhã continuamos. Sábia decisão. O filme “Meu Irmão quer se Matar” (2002) é lindo, doce... uma fábula.

Assim assistimos ao filme: enquanto um se debulhava em lágrimas escarrapachada no sofá, outro aqui, nesse mesmo computador, adiantando a vida para amanhã (sexta-feira). Um de olhos inchados e fixos na telinha, o outro pescando um ou outro trecho. Curioso é que Educação também foi assim. A cineasta consegue imprimir uma linguagem tão própria em suas histórias, tão envolvente, que não atrapalha esse negócio de assistir por partes.



Lone Scherfig é dinamarquesa, que tem duas obras em destaque: “Italiano para Principiante” (2000) que lhe valeu um Urso de Ouro no Festival de Berlim, e “Educação” (2009), que recebeu três indicações ao Oscar: Melhor Filme, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Adaptado.


Educação (com Carey Mulligan e Peter Sarsgaard) vimos há alguns meses e agora, graças ao Festival Internacional de Cinema que rola na TV Cultura (a gente grava todos), rolou Meu Irmão quer se Matar. Em ambos a mesma impressão: elegância, delicadeza, simplicidade.

Atuam no filme: Shirlei Henderson (Alice) mais conhecida pelo seu personagem “Murta que Geme”, um fantasma que vive no banheiro choramingando, resmungando e, claro, gemendo, nos filmes de Harry Porter; Jamie Sivens (Wilbur), o suicida; e Adrian Rawlins (Harbour) que também fez umas pontas em Harry Porter, além da atriz garota Lisa Mckinlay, que tem uma interpretação de gente grande.






A história, apesar do título, não tem nada de bizarro. Dois irmãos órfãos cuidam de uma livraria, falida, herdada do pai. O irmão mais novo é um suicida crônico e ácido. O outro é terno e cuidadoso com o irmão, com as pessoas e com os livros que tenta despertar no irmão a vontade de viver, relembrando a infância e o quanto os pais o amavam. Do outro lado, uma mulher triste, solitária, com uma filha, que trabalha desesperadamente para mantê-las. O encontro inevitável, na livraria, desperta o amor simultaneamente correspondido nos quatro personagens, aliás cinco, porque os livros são protagonistas também. E o filme desenvolve nesse ambiente de carinho, afeição, esperança, com seus personagens nos conquistando. Mais que recomendamos.



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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Tudo tem um nome


Tropo
Gente, cidade, bairro, rua, bar, carro, livro, canção, bicho de estimação e mais um mundaréu de coisas vivas e outras inanimadas. Tudo, tudinho da silva, precisa ter um nome. Alguém tem que dar esse nome. Se a nominação for procedente, for algo elaborado e pensado, muito melhor. Se não for, paciência... Acostuma-se com esse nome duvidoso, ou troca-se.  E além do nome, a palavra oficial que remete a aquilo, ainda tem o apelido.


Hoje foi dia de dedetização aqui em casa. Tascou-se o veneno e saímos de casa à tarde, para voltarmos noturnos. No caminho de volta, de carona com amigas vizinhas, viemos conversando sobre a dedetização e nos indagaram sobre o nome da dedetizadora. Cadê que a gente se lembrava. E enquanto conversávamos sobre esse tipo de serviço, sua eficiência e o preço, também imaginávamos a quantidade e as espécies de insetos que encontraríamos envenenados, me veio a cabeça que Dedetizadora Apocalipse seria uma nominação potente para um estabelecimento comercial dessa natureza.


Formigas, baratas, aranhas e talvez até um rato, talvez seriam as vítimas. Tivemos o cuidado de deixar os gatos Nikita e Tropo pra fora da casa. Só pra constar: Tropo é o mais recente habitante deste lar tiranídeo. Escolhemos seu nome ontem, por causa do livro Trapo, que lemos e curtimos demais. O gatinho é agitadíssimo e de Trapo pra Tropo foi um pulo (do gato). Mas vacilamos. Guimba morreu. Era o peixinho que ficava no aquário em nosso banheiro. E vamos a outros nomes.

Gosto de morar num bairro chamado Recanto dos Pássaros. Ora, meu sobrenome é Falcão e a Fátima estudou ecologia de aves. Já fui editor do jornal que tinha aqui no bairro e se chamava Passaredo. Também gosto de morar numa cidade chamada Cuiabá, nome de origem indígena. Se o nome tem um viés histórico ou, pelo menos pitoresco, e remete a algo significativo, é bacana.

Não gostaríamos de morar num lugar chamado Sociedade Imobiliária Noroeste do Paraná, vulgo Sinop.  Muito menos lugares chamados Nova Mutum, Nova Brasilândia, Nova Maringá, Colíder e Colniza. Bairros com nomes importados como Jardim Leblon, Alphaville, Jardim Vitória, Jardim Fortaleza etc, não servem pra gente. Deus me livre, também, de residir num município nominado como Campos de Júlio, ou num bairro intitulado Pedra Noventa. “Sartei de banda” com a politicagem. Não são nada criativos os nomes citados aqui neste parágrafo. Mas que fique bem claro que nada temos contra essas cidades e bairros, muito menos contra as pessoas que ali residem. Vamos em frente.

Outras cidades de MT têm nomes com significados mais apropriados. Há algumas décadas, próximo ao Rio Verde, no médio Norte do estado, tinha um sujeito chamado Lucas, pioneiro da região. Daí surgiu Lucas do Rio Verde. Faz sentido. Apiacás, no Nortão, homenageia os índios, habitantes originais da região. Há um certo reconhecimento nessas nominações. Bairros cuiabanos como Lixeira, Baú e Goiabeira carregam um pouco da história desta cidade. Achamos que vale a pena.

Flores de lixeira
Flores de goiaba

Meu convívio com a ambiência rural cravou coisas curiosas em minha memória. Conheci um cara que não tinha um pedaço de um dedo do pé, que foi mordido por um jacaré. Seu apelido era “Resto de Jacaré”. Lembro-me de um menino que perdeu a mão num acidente e ficou cotó de um dos braços.  O chamávamos de “Braço e meio”. Apelidos, eu diria, politicamente incorretos, mas espontâneos.  Ainda dos meus tempos de guri que vivia por este cerrado de MT, ficou o nome de um espinho de uma gramínea, que era chamado de ”brigabachá”. Naquela vegetação rasteira, quem pisava descalço, era mesmo obrigado a se abaixar para retirar os espinhos. Conheci esse espinho quase que simultaneamente com o besouro “rola bosta”, que eu gostava de apreciar enquanto desenvolvia suas tarefas vitais com a bosta do gado.


Certa vez, viajando para Barra do Garças, ao passar pelo minúsculo município General Carneiro, fiquei reparando nos detalhes do lugarejo. Eis que me deparo com um bar bastante chinfrim, desses de beira de estrada, que tinha em sua fachada com letras sofríveis: Bar Nostravamus.  Aquilo me caiu como uma profecia.
   
Achamos bonito o nome Brasil. Quando os portugueses descobriram isso aqui havia em grande quantidade, na Mata Atlântica, uma árvore chamada pau-brasil. Sua resina era utilizada para tingir tecidos de vermelho e a exploração dessa espécie foi a primeira atividade econômica desenvolvida em nossa terra. Passado todo esse tempo, o pau-brasil está em vias de extinção e a Mata Atlântica... Ah, coitada da Mata Atlântica. Ela está quase acabando. E a nossa conversa, hoje, acaba aqui.





terça-feira, 2 de agosto de 2011

Crise... nuvens brancas passam

Sonho americano (E. Hopper)
Intensificou-se desde a semana passada a queda de braços entre os republicanos e o presidente Obama para contornar a crise no cenário econômico americano. Quem imaginaria um dia ver os poderosos USA, depois da crise de 29, passar por esse perrengue.

Nosso conhecimento sobre economia é pífio, mas nos lembramos que quando o ex-presidente Bush ia ao Congresso e ao Senado pedir aumento no orçamento para combater o terrorismo ou para aumentar o contingente de soldados na sua guerra particular/fictícia, não tinha muito lerolero não. Saía com as burras cheias da verdinha.

Ficamos cá imaginando o legado que esse p... deixou! Algumas situações que são colocadas nos deixam com a pulga atrás da orelha... aumento de impostos para os mais ricos, saúde pública... isso é motivo para embates. Quando o presidente Obama foi pedir bereré para socorrer os bancos e as empresas automobilísticas, o Congresso e o Senado resolveram a questão sem muitas delongas. Disseram que o Obama deveria ter aproveitado a oportunidade para acordar com as empresas automobilísticas o desenvolvimento de protótipos e combustíveis menos poluidores. Deveria, mas comeu mosca!

Ai, a solidão vai acabar comigo
  
We can... but

Tudo isso, pra dizer que as crises são boas, não na hora, e que devemos aprender com elas. Afinal crise, para os gregos, é separar, decidir, julgar, gerando assim possibilidades de escolhas. Em “Tango, um giro estraño”, um tangueiro menciona a crise na Argentina e diz que procurou a definição no dicionário dessa palavra, crise. “Oportunidade de mudança”, encontrou.


 
O planeta se desenvolve através e pela crise. Uma situação clímax mudou o ambiente propiciando a ocupação e desenvolvimento de seres adaptados a esse lugar. Esses novos inquilinos promoveram alterações extremas, em todos os níveis, que levaram a novas mudanças, inclusive, com extinções em massa. Um novo ambiente é formado com novas espécies e também é modificado, exaurido. Um novo clímax se instala, uma nova onda de extinção avança, para uma nova ordem ser instalada.

 Tyranossauro Recse (extinto)

O ser humano também se desenvolve através e por crises. A existencial nos acompanha desde o nascimento até a morte. Pense bem em “penso, logo existo”. Engraçado que entre um extremo e outro, na crise da meia idade, é onde avaliamos o que se sonhou ou planejou como projeto de vida, e o que foi realizado ou que provavelmente nunca será. A sensação é que o melhor aconteceu no passado, e que é “agora ou nada”. É a hora do “Lobo(a) da Estepe”.

Sem crise de identidade: Lobo Guará

O lobo pensador Herman Hesse
O teatrólogo Aderbal Freire Filho comentou que teve muitas crises, principalmente em relação a idade. Disse que quando chegou aos 30 anos teve uma crise e quando chegou aos 40 anos ele viu que com 30 ele era tão jovem, que não precisava ter passado por esse tormento. Aí ele entrou na crise dos 40 e viu, aos 50... assim foi, de crise em crise. Hoje, com 70, não quer mais saber. Ele crê que ao chegar nos 80, vai reconhecer que aos 70, era jovem...

O lobo feliz
Como todo ser humano, passamos e atravessamos diversas e diferentes crises. Na hora H parecia ser o fim do mundo, mas não sabemos dizer como saímos. De algumas saímos ilesos e de outras com cicatrizes, que hoje acalentamos, alheios. Como disse Leminski, “Distraídos venceremos”.

"Nuvens brancas passam em brancas nuvens"
Eu

Eu
Quando olho nos olhos
Sei quando uma pessoa
Está por dentro
Ou por fora

Quem está por fora
Não segura
Um olhar que demora
De dentro de meu centro
Este poema me olha.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Criador da criatura

O criador da criatura
Você tem só 140 caracteres pra se expressar, gente boa. Aproveite e pense bem no que é que vai escrever. Evite encrencas, ou arme o circo... Se o Tyrannus tuitasse e fosse aconselhar alguém sobre como utilizar essa ferramenta reducionista da comunicação, tuitaríamos algo malemazinho assim. Há exatos 140 caracteres na frase inicial deste post, desde o “Você”, até os três pontinhos da reticência.

Nada temos contra escrever com poucas palavras. Sabemos ser curtos e grossos. É até mais fácil do que ser extenso e simpático. Ser muito extenso, por exemplo, não tem muito a ver com simpatia. Não tuitamos. Não usamos dessa brevidade deste mundão moderno digital. E não temos vergonha, por não usar, tampouco, vontade louca de usar. Mas parece divertido.

Eu, como jornalista e editor, vivo às voltas com as orientações do diagramador do caderno que edito. Acostumei-me com essa de “esta legenda precisa de tantos toques, precisamos de um título de outros tantos toques, encomprida isso aqui, reduz aquilo ali”. Jornalismo também é poder de síntese.

As pendengas, broncas, desentendimentos e bate bocas que já tiveram sua origem no tuiter (sim, aportuguesamos a expressão) são uma coisa espetacular. Não sabemos se o tal do Jack Dorsey, americano que criou o tuiter em 2006 imaginava no que é que ia dar isso. Pesquisando na web, achamos que são quatro as perguntas/respostas que devem nortear o conteúdo de uma tuitada: “o que você está fazendo?”, “O que você está vendo?”, “O que você quer fazer” e “O que quer que os outros vejam?”.  Vai um punhado de exibicionismo nessa conversa.  Mas nada impede de se extrapolar esse modelo de conteúdo. O rigor, pra valer, é mesmo apenas no número de toques.
Conselho do "Dead Man" (J. Jarmusch)
Assim disse José Saramago sobre a proposta do tuiter: “Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido”.
  
Bate boca no tuiter:
Luan Santana X Bruno Mazzeo
“Essa fúria toda é só porque eu disse que o Luan Santana era vesgo. Imagina se eu tivesse dito que ele era... enfim, deixa para lá".  

Ver e conferir

Lily Allen X Katie Nicholl
“Katie Nicholl, acho que você é uma p…! Me deixe fora da sua coluna de m...., você não sabe nada sobre os detalhes íntimos de minha vida”.

Verbo rasgado
 Luciano Hulk X Homero Salles
“Agora o Gugu quer se inspirar também no Lata Velha!!! Hahahaha...Ô falta de imaginação!!!! Tem gente que acho que o povo é burro, né não?”
 “Deixa de ser babaca... você dirige um TAXI que o Gugu dirigia e pensa que pode falar dos outros?”

Vou de taxi... copiando até a mulher
Bruna Surfistinha X Evangélicos
“Acabei de chegar da sessão tortura. Acho que vou virar crente para nunca mais precisar sofrer com depilação”.
“Não sabia que tinha tantos seguidores evangélicos e tal. Me desculpe se os ofendi. Eu estava apenas brincando! Simples assim. Fim”

Na onda errada
Marcelo Tas X Diogo Mainardi
“Sobre comentário daquele colunista da Veja, só tenho a dizer uma coisa: inveja de homem é pior que de ex-mulher”.
“Quem paga meu salário é a Veja, homem-sanduíche, e não o anunciante”.

Antatuitada

Sasha, Xuxa X fãs
“Sou eu Sasha. Estou aqui filmando e vai ser um ótimo filme. Tenho que ir... Vou fazer uma sena com a cobra”.
“Pra quem não sabe minha filha foi alfabetizada em inglês, vou pensar muito em colocar ela pra falar com vcs. Ela não merece ouvir certas mer***”.

Ilariariê...ôôô
Rita Lee X Cuiabanos
“Ok seus putos, eu errei no Matogrosso do Sul. Mas o erro maior foi o d vcs por terem nascido. Meu cordial vão sifudê”.

Resposta dos cuiabanos: "Ah! Vá tomá pacu"


Diante de tanta besteira, fico com Clarice Lispector: “Olhe, tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras”.



domingo, 31 de julho de 2011

Ventos de agosto


Éolo, senhor dos ventos, com Vênus
Depois da meia noite deste domingo inicia o fatídico o mês de agosto. Agosto mês do desgosto, agosto mês do cachorro louco, agosto mês dos infortúnios, agosto mês dos ventos. Vai um pouco de superstição nessa conversa, mas há fundamentação científica.


É um mês porreta aqui prá nós da região central do país. É quando a escassez de chuvas começa a interferir diretamente sobre o meio ambiente e no bem estar e saúde da população. O ar com baixíssima umidade e o aumento considerável de partículas em suspensão (poeira e picumãs se escancaram) leva muita gente aos hospitais, principalmente crianças e idosos. É nessa época que as queimadas urbanas e rurais se intensificam. Em Mato Grosso esse problema se avoluma. Por aqui, em junho, foram registrados 787 focos de calor, segundo INPE. E neste mês piora. O estado segue firme com o título de campeão brasileiro de queimadas.
O vento de agosto é danado. Redemoinhos de poeira aqui e acolá são comuns, ainda mais quando a gente pega uma estrada onde a vegetação foi retirada. O vento de agosto é perigoso, ele é um baita dispersor de poeira e as viroses chegam com força. É preciso também ter cuidados com as pipas (papagaios, pandorgas e cafifas), tanto nas fiações elétricas, sem falar no cerol, nem pensar!!!. Parece besteira, mas não é. E tem marmanjo que vai nessa e até vende essa porcaria para a criançada. Pipa tem lugar certo pra se soltar. Soltar pipa pode ter outro significado... Cafifento!!!
Festival de Pipas na UFMT
A mudança drástica de temperatura é algo corriqueiro neste mês. Frentes frias entram do dia pra noite: dormimos nos 40 graus e acordamos com 17. Ninguém aguenta. Apesar desses destemperos de agosto, não é correto afirmar que nem tudo são flores neste mês. O cerrado torna-se garboso e colorido nestes tempos com seus ipês, cambarás, aricás etc... Um verdadeiro festival de cores.

Aricá, by Ruth Albernaz



Agosto é o mês que tem o seu nome inspirado num imperador romano que mandava e desmandava, quando Roma viveu seu apogeu: Cézar Augusto (63 a.C – 14 d.C.). E do imperador romano para os mosquitos. Eles se adentram em nossas casas com força total, e dizem que essa invasão está associada com as queimadas. Queimada é mesmo ruim, hein?!

Outra agonia deste período é o desperdício da água tratada. Francamente... lavar calçadas e ruas com o precioso líquido... “Pelo amor dos meus filhinhos”, conforme diria o locutor esportivo Sílvio Luiz. Tem tanta gente que não tem água tratada nem para beber!!! É um pecado esse hábito, que não sabemos se é ou não proibido, mas bem que poderia ser. Concordamos que é insuportável a secura, mas de nada adianta gastar litros de água lavando uma calçada, se daqui a pouco a secura e a poeira vão bater novamente. Claro, numa cidade onde se pode fritar um ovo no asfalto, você queria o quê?


Outro vacilo é juntar as folhas das árvores que caem em larga escala nestes tempos e botar fogo nela. Como piora a situação essa prática. Aqui no Tyrannus, nossa ex-secretária varria aquilo que chamamos de jardim (que não é suspenso e nem da Babilônia) pra tirar as folhas caídas. Orientamos a moça para que ela deixasse as folhas. Elas, as folhas, seguram a umidade no solo, impedindo que ele fique exposto diretamente ao sol e, como matéria orgânica, ainda contribuem bastante para o enriquecimento do solo. Olha só... aqui em casa a gente até acha bonito essa folharada seca no chão.    
As folhas do jardim da nossa casa...
Portanto, é isso aí. E vamos tomar fôlego pra aguentar o estio que costuma ser duradouro nesta hora. Reza a tradição cuiabana que mais tarde, talvez setembro ou quem sabe em outubro ou mais tardar novembro, vem a chuva do caju. Mas agora é agosto. Presta atenção!!!

Esperando a chuva do caju

"Vô tomá guaraná, tchupá cadju..." (Vera e Zuleiquinha)




sábado, 30 de julho de 2011

Sábado em Cuiabá

Cuiabá, noite de sábado
Esse mundão tá cheio de músicos talentosos que a gente não conhece. São as gratas surpresas que sobressaltam nossos ouvidos e a nossa sensibilidade. Essa era a expectativa em relação ao “duo” formado por Oswaldo Amorim (violão e guitarra) e André Paulo Tavares (baixo e cia.), que conquistou algumas dezenas de pessoas no jardim do Sesc Arsenal. Uma sonoridade limpa e envolvente, de pegada jazzística.   O Tyrannus foi, assistiu e gostou. Caiu beleza em nosso sabadão.

Entrosadíssimos. Oswaldo e André são cariocas, mas não perguntei se torcem para um mesmo time. Estão radicados em Brasília, onde são professores de música. Ambos têm mestrado em Nova York. Tocam juntos lá se vão uns quinze anos. Com tanta coisa em comum, pode parecer estranho, mas para definir a performance da dupla, a palavra xifopagia serve. Quem ganha com isso é o público. Não é segredo pra ninguém que quando dois ou mais musicistas se unem, harmonia é palavra mágica.


Não morro e nunca morri de amores pelo jazz. Só posso dizer que gosto desse tipo de música, uma porta aberta para improvisos, e praia boa para instrumentistas virtuosos. Para eu gostar mais, ou menos, de uma apresentação de jazz, o repertório é fundamental. Gosto quando os músicos alternam o autoral com composições mais famosas, que o público costuma conhecer. Acho que isso vale para todos os gêneros e não só para o jazz.


Foi essa mistura de autoral com releituras o que rolou. Curti muito uma música (de um deles) inspirada em Baden Powell e também a que fechou a apresentação, arranjo criado para canção popularíssima do nordestino Alfredo Ricardo Nascimento, vulgo Zé do Norte, “Mulher Rendeira”. Não posso responder pelas pessoas das gerações mais novas, mas, quem tem quarenta, cinquenta ou mais, certamente, já entoou essa música pelo menos uma vez na vida. Também curti a versão deles para “Clube da Esquina nº 2”, de Milton e Lô Borges.

Alfredo Ricardo Nascimento = Zé do Norte

Os shows no jardim desse lugar, onde somos habituês, já vem com o certificado de garantia de um astral agradável. Apesar do caráter intimista do jazz, que costuma soar melhor em espaços fechados, houve grande empatia. “Maaanhêeee...”, gritou um pimpolho durante a apresentação, mas isso em nada atrapalhou. Chamou também a atenção uma videomaker mirim que ficou alguns minutos gravando o show com um aparelho celular. “Nós estamos tocando músicas complicadas, mas estamos tocando com o coração”, disse Oswaldo, num intervalo entre as músicas.  Sua fala, cheia de sinceridade, reportou direitinho a ocasião.


Oswaldo e André estavam em Cuiabá desde a terça passada, trabalhando num projeto de intercâmbio musical. Eles ministraram uma oficina gratuita de terça a sexta-feira, que contou com 12 músicos de Cuiabá. “Um baixista chamado Lael me impressionou muito. Um garoto de 12 anos, violonista, também mostrou que é muito bom”. Foi a resposta de André à minha pergunta sobre o que ele tinha achado da oficina.
Então é isso, moçada. Assim foi o nosso sabadão. Sei que teve um outro sabadão, este sertanejo, lá pras bandas da Chapada dos Guimarães, com o Daniel. Sobre esse eu nada vou dizer. Não vi, não sei, mas não tenho raiva de quem sabe, porque o preconceito é coisa muito feia. 



quinta-feira, 28 de julho de 2011

Fados


Canto de nossa tristeza
Choro da nossa alegria
Praga que é quase uma reza
Loucura que é poesia
Um sentimento que passa
A ser eterno cuidado
Em razão duma desgraça
E assim tem de ser, é fado
(Canção Fado dos Fados)

Compartilhar é um ato de alegria. Estamos sensibilizados, felizes com o filme “Fados” (2007) de Carlos Saura, que sempre estamos reprisando que queremos repartir com vocês. Quem não assistiu, procure ver e aos que assistiram, um brinde.

O fado é o orgulho dos portugueses, representa sua alma. É cantado por uma pessoa (fadista) acompanhada de um violão e de uma guitarra portuguesa, suas letras falam do mar, da gente simples, de saudades, nostalgia, ciúmes, destino.


Quanto a sua origem há controvérsias, pode ter vindo das melancólicas cantigas dos mouros; ou da união da “modinha”, composição suave, romântica e chorosa, com o “lundu”, trazido pelos escravos brasileiros à Lisboa (que introduziu batuques lascivos). E ainda há a teoria da origem vir dos trovadores e jograis. O fato é que o fado nasceu em Lisboa e foi à Coimbra pelos universitários. Dessa divisão surgiram dois estilos distintos: o fado de Lisboa que é vadio e escondido; e o de Coimbra que é sentido e choroso.

A primeira vez que assistimos Fados, não foi aquela coisa toda. Claro que ficamos embasbacados com o primoroso trabalho do cineasta espanhol. Cores, luzes, transparências, sombras, sobreposição de imagens... E a história do fado vai se desenrolando musicalmente, quase sem falação. Só cantoria, instrumentos afinados dialogando e danças. O aspecto visual bateu forte, mas o fado em si, não pegou muito. Imagino que não se trata de um tipo de música pra se ouvir sem abrir o coração e sem reparar nas nuances harmônicas e a riqueza melódica proposta.

 

Saura na direção


E lembrar que a primeira vez que assistimos Fados, sugeri que ele poderia funcionar como uma vassoura atrás da porta, o velho truque para espantar visitas! Ouvir fado é lembrar de Portugal. Um dos mais deliciosos capítulos da experiência europeia do Tyrannus. Um dia, andando por Lisboa, fomos parar na frente do Museu do Fado. Cometi o sacrilégio de refugar a visita, um gesto imperdoável. Daqueles pra se arrepender pelo resto da vida.

Posando


Hoje dói, o arrependimento. A partner me consola: “A gente tem que se arrepender de algumas coisas na vida”. Eu continuo: “Uma vida sem erros não é humana. O grande lance do erro é o exercício de reconhecê-lo”. “Voltaremos a Portugal e você repara essa falta”.

Fados, eu diria, foi a minha iniciação nesse gênero musical. Alguns críticos detonaram com o musical. Dizendo que o fado é muito maior do que o que foi mostrado. Certamente. Como há a participação de cantores e músicos de vários países de língua portuguesa, lá estão Toni Garrido, Caetano e Chico Buarque. Parece que não se saíram muito bem. Lemos que só Chico se salvou. Não vamos entrar nesse mérito. Mas há momentos belíssimos neste documentário, que está muito mais pra musical, segundo nossa opinião de iniciantes no fado.

Caê, do Brasil
  
Lura, de Portugal/Cabo Verde 

O filme faz parte de um pacote que também inclui “Tango” e “Flamenco”.  Não é de se duvidar que “Flamenco” deva ser o mais significativo, já que Saura é espanhol. Mas, além de ter nascido na Espanha, ele é um cineasta de projeção internacional, que assinou produções como “Cria Cuervos”, “Ana e os Lobos” e “Mamãe faz cem anos”, entre outros. Sua obra representa um conjunto respeitável.

Há uma teoria nas artes (especialmente cinema e literatura), segundo a qual o artista não deve discorrer (escrever ou filmar) sobre aquilo que não domina. Não sendo Saura um português, talvez não fosse ele o cineasta ideal para assinar documentários sobre fado e tango. E talvez, por causa dessa mesma teoria, “Buena Vista Social Clube”, dirigido por Wim Wenders seja muito ruim (????!!!!!).

Amália Rodrigues, do Fado
Depois de assistir ao filme ou uma apresentação de fado, se te perguntarem o que é o fado, a canção “Tudo isso é fado”, ajuda a responder.


Almas vencidas
Noites perdidas
Almas bizarras
Na mouraria
Canta uma rufia
Choram guitarras
Amor ciúme
Cinza e lume
Dor e pecado
Tudo isso existe
Tudo isso é triste
Tudo isso é fado.