quarta-feira, 21 de setembro de 2011

1 ano com Tyrannus Melancholicus

"Um lance de dados jamais abolirá o acaso" (Mallarmé). "Nonada" (Guimarães Rosa), beirando às 3 horas da madrugada descobrimos, ontem, que o primeiro post do Tyrannus aconteceu dia 21 de setembro de 2010. Portanto, Tyrannus Melancholicus, esse blog de nome esquisito, comprido, difícil e bonito, emplaca seu primeiro ano.
O Tyrannus surgiu de uma (re)conjunção carnal, intelectual e almal (relativo a almas) que foi selada com uma viagem à Europa: "ao velho mundo, com velhos amores" (Luis Moreno). Viajar é preciso. E tome um ano de viagens precisas e imprecisas que compartilhamos na maior.. .

Mas que trabalho, meu Deus! Propostas e acordos feitos e relaxados pelo cansaço, pela escassez de tempo e, pior, de ideias, assuntos... Inserimos aqui textos com a nossa cara, abordando assuntos variados, inclusive a falta de assunto. Nossos bichos, miojo, romanesca, erros, androginia, gases, sonhos, temores, gafes, futebol, frustrações, política, desabafos, bafões, temas factuais, trocentas dicas culturais, até mesmo uma pegada meio reality show; enfim, crônicas cotidianas em que expomos nossa opinião ou a falta de. Isso tudo e mais alguma coisa foi moldando e esculpindo o estilo deste blog.

Jogando bozó, com Mallarmé

 Assuntos mais sérios que são indicadores dos vícios da sociedade em que vivemos pintam esporadicamente. Não tem como não expor a indignação diante de certas mazelas e assim fazemos. Na verdade, as pautas aqui vivem à deriva e surgem, muitas vezes, de uma hora para a outra sem pedir licença. Simplesmente vão se instalando e alastrando.

Com o Tyrannus fomos à Europa, Rio, Sampa, Chapada, Livramento, Poconé, Bonsucesso, Guariba. Assistimos shows de jazz, Ballet Giselle, concertos da Orquestra da UFMT e Estado, dança moderna Fukushima, exposições, debates literários (Marçal Aquino,Tezza, Rufatto e Nicolas Behr), cantamos no coral Sesc Canta, registramos casamento, festas de família, visitas, aniversários, natal, reivellon... Muiiiitos livros, muiiitos filmes, principalmente em casa, e até instituímos um “concurso interno de contos”, já temos dezoito, inéditos e maravilhosos, na nossa opinião.    



Humor é o nosso sal, ingrediente que tempera nossas vidas + uma pitada de filosofia, mesmo que seja profunda como um pires,  engrossa e dá o ponto no caldo do Tyrannus. A informalidade é regra básica. O esforço à duas cabeças e quatro mãos entra em cena na hora de atualizar. É trabalheira mesmo. Seja nos textos, seja nas imagens, tudo aqui é edição elaborada pra apresentar um conteúdo pelo menos razoável aos nossos visitantes.



Nossos amigos, leitores, não sabemos direito como se referir a estas pessoas que, na maioria, têm nos agraciado com palavras de entusiasmo, apoio e carinho. É gratificante ser contestado via emails e comentários por Gabriel, Eliane, Nely, Salete, Valéria (fotógrafa titular), Soraya, Anadyr, Ney, Giselle, Ivens, Graça, Kátia, Vera, Glorinha, Rosinha, Elianne, Ginho, Gervane, Julio Japonês, Eduardo Pherreira, Moema, Mimi, Ruth, JP, Juliana, Mauricio, Luciana, Danilo (hors concours, nos comentários!!!), Roberto, Prudêncio, Waldir, Keiko, Nívia, Maria, Everton, Bebeto, Fabrício, Gibran, Aclyse, Marisa, Marigema, Bia, Martha, Marta, CAA, Taubaté, Rosy, Rosi, Daniel, Nishi, Mikey, Gislaine, Walfrido, Adriana, Mônica... perdão, se esquecemos de alguém!         



Adoramos o inusitado e, falando em visitante, ontem à tarde, sol a pino, nesse calorão cuiabano que poucas criaturas aguentam, eis que aparece em nosso quintal um baita lagarto tiú, bicho não temente ao sol, habitante secular do cerrado. Vai saber como ele aqui chegou... Só sabemos que não tem como desprezar o registro desse improvável acontecimento. Cuiabá, nossa casa é “Mundo Cerrado”!!!!


À noite, em altíssimo astral “Mundo Cerrado” em forma de livro-poemas, chegou, acompanhado pelo Coral Sesc Canta, entoando o ritmo quente do maracatu e "Acalanto", de Caymmi, com um solista especial, o pai do poeta - Alayr Falcão, estudioso de canto lírico há várias décadas. Emocionante para todos que presenciaram, e imaginem para o blogueiro que lançava mais um livro e acompanha o pai-solista entoando uma cantiga de ninar. "Eu olhava pra cara de seu pai, e depois pra sua e sentia vontade de chorar" (Carlos Taubaté).


Esses momentos de alegria foram entremeados com momentos de tristeza. Um ente querido, o Hênio, com quem convivemos durante vários anos, foi para o andar de cima. Saímos da festa do lançamento do livro direto para o seu velório. Pensamos um pouco e não titubeamos: um livro com dedicatória foi colocado junto ao seu corpo, carinhosamente. Poetas são criaturas demiurgas, pois têm uma relação mais próxima com os entes celestiais. Pode ser que nessa viagem, ele pegue o livro para ler.
Hênio e Lila
Encerrando esse “post” comemorativo e “sem querer querendo” (Chaves) ser pretensiosos, chegamos à conclusão que a definição cabível para o blog Tyrannus Melancholicus é: “Se queres ser universal começa por pintar a sua aldeia” (Tolstoi). No caso, nossa casa, nossas pequenas e inquietantes vidas (Lorenzo e Fátima). E muito obrigado.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Mundo Cerrado

Com Homero...
O poeta consegue expressar os pensamentos, momentos em versos-sentimentos, coisa que parece simples, mas não é bem assim. Não é sempre que há um anjo a lhe espreitar e a versejar odes-inspiração. Na maioria das vezes, o poeta sofre, e muito, a angústia do processo criativo; trabalha para dar vazão, expressar e dar concretude. Quando, enfim, o poema emerge acabado, o poeta exaurido vagueia leve como um espectro... sem dificuldades para atravessar paredes e percorrer espaços distantes.
Amanhã vai ser um dia diferente... muita coisa pra fazer, montar e organizar pro lançamento do livro de poesias do Lorenzo, “Mundo Cerrado”. Essa é a parte que cabe às pessoas que vivem com ele, não é trabalho de poeta... Não, que menospreze ou que não se interesse, simplesmente não faz parte de sua natureza. Ele tem sempre outras coisas pra fazer. Não faz mal, a gente sempre vai e faz. Ao ver seu trabalho concluído, ficamos felizes, um pouco enciumados (pois o que está ali foi seu pertence, de mais ninguém) e quando a poesia é exposta, fragmentos de seus sentimentos, emoções, desejos... são revelados, às vezes pouco velados. A poesia é o locus das verdades verdadeiras.
com Pessoa...
 
Com Drummond
 
e com galera da "Academia dos Mortais"

Nesta terça-feira (20/09), as 19:30hs, no Sesc Arsenal, o Lorenzo vai lançar seu terceiro livro solo: “Mundo Cerrado”, com 93 poemas selecionados entre uns 500, que iniciou escrever quando adolescente. Ele diz não se saber os motivos que levam os poetas a versejar e que as explicações em torno disso tendem para o infinito. "Cada poeta tem seus motivos, com os quais se envolveu e não deixa escapar a mania de versejar". Sob as mangueiras centenárias e sob o calor cuiabano ele compartilhará com seus familiares e amigos esse momento de pura emoção.  



domingo, 18 de setembro de 2011

Maravilhoso Pantanal


Companheiros de viagem, rumo ao Pantanal
Primeira parada, envocando a proteção...

de N. Sra. do Livramento





Bem vindos à pink city
Demais de seco
Capivara observa a graça da garça

Cuide bem do seu amor


 
Vaca atolada aqui é outro papo...
  
Congestionamento no Pantanal
Rainha do pastel!
Moda no Pantanal: cabelo repartido no meio
Madame e Sr. Butterfly


Tarde

+ tarde
  
Nunca é tarde para namorar!


sábado, 17 de setembro de 2011

Exílios

Em muitas ocasiões de nossas vidas cai como uma luva a expressão “dar tempo ao tempo”. Alguns filmes terminam e não vale a pena comentá-los de imediato. Você sente que sua opinião ainda..., na verdade não existe opinião. A sensação é de que você está sob o efeito de um impacto que te deixou no limbo. É preciso que as ideias se ajeitem, que uma ordem se estabeleça, que o que foi visto, vivido e apreendido se sedimente. Sabe aquele bacalhau que você fez e que o restou que foi pra geladeira, pra comer no outro dia, acaba te surpreendendo com o sabor que foi apurado nesse tempo que ficou guardado? Hummmm!!!


“Exílios”, filme premiado com a Palma de Ouro, em 2004 nos pegou dessa forma.  Antes de assistir, na TV Cultura, onde são reprisados os filmes da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, procuramos ler críticas e acompanhamos os comentários que precedem a exibição, com Renata de Almeida e o crítico Leon Cakoff, que é o curador e sempre pinta um convidado que tem algo a ver com a película. Para este filme, que tem a música tão presente e marcante quanto os personagens, o convidado foi o multiartista André Abujamra.



As parcas informações que tínhamos sobre “Exílio” colocavam a fita nas alturas e a gente criou uma baita de uma expectativa. E dá-lhe filme. É a história dos exilados, aqueles que deixaram suas terras em busca de uma vida melhor, e do seu retorno às origens para tentar entender quem são. O casal protagonista Romain Duris (Zano) e Lubna Azabal (Naima) decide retornar à Argélia, terra de onde seus pais vieram, e empreendem nessa odisseia cortando parte da Europa, (França-Espanha) rumo à Argélia, beiradinha da África, onde fica o país do célebre Albert Camus e do craque futebolista que fulminou o Brasil (2006) e entrou de cabeça no peito do adversário, Zinedine Zidane.
"Toda a minha arte é de intervenção; não faria cinema se assim não fosse. Por intervenção quero dizer pelo povo, pela justiça, contra a injustiça. É preciso combater os estereótipos. Só conhecendo o povo de dentro - como eu conheço - isso é possível". 

“Exílio”, dirigido por Tony Gatlif, cineasta de origem argelina e cigana, é pontuado por uma musicalidade que dá o tom, cor, sensualidade e localização dessa viagem (os ritmos variam do techno, ao flamenco e música árabe). As imagens são cheias de simbolismos e de sensualidade. Assistimos ao filme aguardando, talvez, algo inusitado ou chocante, o que acabou não acontecendo. Dormimos e, quando acordamos no outro dia, “Exílios” estava forte e vivo em nossas memórias como uma experiência positiva daquelas que enriquecem. Não chegamos a ficar em transe, como ficam os personagens na parte final do filme. Perfeitamente recomendável.


Por falar em exílio, neste domingo nos exilaremos no pantanal. A intenção é encontrar com jacarés, capivaras, tuiuiús, ipês, cambarás, céu azul, corixos, meandros... reencontrar...um, dois, três... nada mais!!!!  
 

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O rei e a lagartixa

O rei e a lagartixa. Parece uma fábula, mas não é. A entrevista do Roberto Carlos no Jô Soares por estes dias teve na pauta detalhes tão pequenos de nós dois. Nós dois que a gente escreve aqui: Roberto e a lagartixa. Deve ser aquela lagartixinha branca que vive subindo pelas paredes.
“Bicho, eu tenho uma lagartixa no meu quarto. Ela mora num canto do meu closed, já faz um tempão, bicho! Nunca pensei em tirá-la dali. Aquele pedaço é dela, saca, bicho!”. Imagina e é fácil de ver o rei contando essa história entremeada com a clássica risadinha: re... re... re...

Esse é o rei da ex-juventude brasileira, invadindo nossas vidas a mais de 40 anos com seus versos melodramáticos, repletos de mensagens, metáforas e pitadas de cafonices. Mas vá lá, confessa, vai! Tem aquela música do rei que você admite “até que gosto, mais cantada por outro”. E pros contemporâneos de sua majestade... mesmo não querendo admitir tem música dele que é o fundo musical de um momento de sua vida. É mentira ou não? Impossível evitar e nos rendemos: sim, o rei está se apoderando deste texto.

Como deve ser a vida dessa lagartixa que habita o “quase” aposento do rei? Seria esse minúsculo réptil um animal agressivo, bravo, cuja estupidez não a deixa ver que o rei a ama? O rei e suas roupas: só azuis, marrons jamais! A tal lagartixa deve saber dos seus segredos de alcova!

Sua força popular e seu contexto pop romântico exploram e avassalam nossa memória auditiva. “Eu quero um coro de passarinhos...”. Teve gente que achou que era mesmo um couro, sabe, a pele do passarinho.    E só foi entender bem depois que a pegada do menestrel do ieieiê, também era ecológica com “as baleias desaparecendo por falta de escrúpulos comerciais”.


Por causa desse pequeno bicho, cá estamos, quase a enumerar um pout-porri animalesco do cantor. Seria o rei um negro gato e, por conta disso, seu cachorro lhe sorriu latindo quando ele chegou em frente ao portão?  Ou seria o rei um negro gato, de arrepiar, à espreita da sua gatinha manhosa, do Tremendão? Seria o Roberto, ainda, um profundo investigador de moluscos e assim cantou quando achou o bicho num lugar tão inusitado “debaixo dos caracóis dos seus cabelos”?



O rei que também era o rei das manias, e hoje se assume como o rei dos toc’s (transtorno obsessivo compulsivo), não esconde a paranóia quando vê outra lagartixinha, tipo um bebê entrando no aposento da lagartixa rainha. Olha, eu fico meio ressabiado quando ela aparece. Ela é pequena, um bebê, saca? Aí, meu amigo,fico a noite toda de olho pregado na parede, espreitando pra ver se a lagartixona não devora a pequena. Só descanso meu, quando a lagartixa pequena vai embora. O rei é esquisito por natureza. Das manias que diz ter abandonado uma tá aí firme: toda vez que vê uma formiga, ele inexoravelmente tem que constatar se ta viva ou morta (que dó). Pra que? Sabe lá.
 
http://www.youtube.com/watch?v=Nq0GP4yQup4
As perguntas são muitas e, entre o côncavo e o convexo, não conseguimos mais nem olhar para as flores do jardim da nossa casa. Além do horizonte, confesso, eu pus os meus pés no riacho e prefiro as curvas da estrada de santos onde vou cavalgar por toda noite por uma estrada colorida. Sou fera ferida, no corpo, na alma e no coração. E que tudo mais vá pro inferno.