sábado, 3 de setembro de 2011

O homem é um fabricante de merda


"O homem é um fabricante de merda", é um verso do nosso poeta Sodrezinho. "Cagar é lei deste mundo, cagar é lei do universo, cagou Dom Pedro Segundo, cagou quem fez este verso". Desta trovinha, desconheço a autoria. Mas, por falar em Dom Pedro, um outro, o primeiro, consta a história do Brasil mais atualizada que teria bradado "Independencia ou Morte", o famoso Grito do Ipiranga motivado por uma diarréia braba que o acometeu naquele sete de setembro. E assim já fica aqui a nossa menção ao grande dia nacional que está chegando. E vamos fazer o possível para não retomar o tema, a não ser que... Não sei!

Merda, cocô, excremento, bosta, barro, fezes é resultado ou o produto final da digestão. Elas podem dizer muito de quem as expeliu porque trazem no seu conteúdo informações genéticas (células) e dizer seus hábitos alimentares e até níveis de stress.  
Pisar na merda = boa sorte (?)
Escatologia ou coprologia é o estudo das fezes muito diferente do homônimo na teologia e filosofia, que trata do destino final dos seres humanos, ou seja, o fim do mundo. Nem sempre usamos essa palavra para expressar a nossa ira, insatisfação... ou para mostrar algo sujo. No teatro, por exemplo, é uma maneira de desejar boa sorte.

Quem está enfezado, está acumulando fezes. E isso parece interferir no humor da pessoa. Há outros significados. Dizia-se enfezados para os escravos que carregavam latrinas com excrementos de seus donos para jogar nos rios. Enquanto andavam as fezes lhe escorriam pela cabeça, então ficavam enfezados. Outro vem do fato dos touros que, para demonstrar sua ferocidade, defecam e espalham suas fezes. Daí usar enfezado para pessoas bravas.
Sem cerimônia
 "Arrotou pesadamente e ficou cismando: aquelas iguarias eram suculentas, isso não podia negar. Que prisioneiro saboreava manjares tão deliciosos? Que, depois, lhe rendiam em juros, na sua privada particular, ali no canto, ao lado, discreta, em exsudações penosas, entre demoradas eructações intestinais e borborigmos em cadeia, por caminhos e ductos de trabalhoso fígado e fustigantes bílis, laboriosas evacuações de elaboradas horas que lhe proporcionavam rebanhos de conjecturas que o invadiam em miríades, como invadem os pastos e os campos suas extensíssimas boiadas sem fim". De uma forma erudita, Ricardo Dicke descreveu uma cagada, com riqueza de detalhes. O parágrafo acima está na página 59 de Cerimônias do Sertão, bela obra lançada neste ano pela Carlini & Caniato.

É incrível como esse ato humano, fisiológico, é cercado de cuidados quando o assunto vem à tona. Não é, reconheçamos, um tema que costuma ser tratado livremente e sem pudor. E se assim o fizermos, sem querer ser redundante e já o sendo, pode dar merda. Pode espantar leitores e pode gerar comentários desprezando a abordagem ao ato de defecar e seu produto.


Nestes tempos modernos, está quase em desuso aquele aparelho que, através do telefone, envia documentos de papel. Daí, que 'passar um fax' hoje em dia está em vias de se restringir apenas ao seu significado metafórico que, imagino, vocês sabem qual é. É importante estarmos atentos a esses prolegômenos idiomáticos.

No filme de Philip Kaufman "Henry e June - Delírios Eróticos" (1990), a atriz portuguesa personaliza a célebre Anaïs Nin, que formou com o escritor Henry Miller e sua esposa, nos anos 30, um triângulo amoroso. Lá pelo final do filme, a personagem de Maria solta um curioso ditado português que tem a ver aqui com o nosso assunto: "Se merda tivesse valor, pobre não teria cu".
  
Maria de Medeiros

 Em outro filme, este de Pasolini (um dos que compõe a trilogia "Decameron", "Contos de Canterbury" e "As Mil e Uma Noites"), é apresentada uma cena impressionante. Bom, quem conhece Pasolini sabe do seu potencial para impressionar. Mas a tal cena mostra um diabo gigante e grotesco, mais pela sua retaguarda, peidando e cagando frades franciscanos.

Pasolini
Merda e ouro
"merda é veneno.
no entanto, não há nada
que seja mais bonito
que uma bela cagada.
cagam ricos, cagam pobres,
cagam reis e cagam fadas.
Não ha merda que se compare
a bosta da pessoa amada".
(paulo leminski)

 O arquivo de imagens do Tyrannus tem uma série de fotos que denominamos de "cagadas". As estátuas, coitadas, que não fazem mal a ninguém vivem sendo coloridas pelas cagadas.









 

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Que sexo?

O top sérvio Andrej Pejiic
A gente pensava que se nascia homem, ou se nascia mulher. Mas a história é bem outra, há variações em torno do tema. Alguns com o passar do tempo, descobrem que queriam ter nascido do outro sexo. Sexualidade é algo muito individual e cabe a todos nós respeitarmos as opções do próximo. Não está essa postura, claro, entre os dez mandamentos, mas é de bom tom adotá-la.

Nas artes e na vida há muitos exemplos de personagens/pessoas que passam por essa, digamos, pegadinha do destino. No século XIX uma mulher, que vivia à frente de seu tempo, escandalizou meio mundo. Ela, Aurore Dudevant, era escritora e assinava com o pseudônimo de George Sand, vestindo-se e se portando como homem. Escreveu em quantidade, mas não com muita qualidade. Sua maior proeza, talvez, tenha sido se aproximar de um grande gênio da música, Frederic Chopin, a quem conheceu em 1837 e com ele manteve por vários anos uma união estável.



 

Sand e Chopin por Delacroix

Em "Traídos pelo Desejo" (1992), filme dirigido por Neil Jordan, Stephen Rea é um guerrilheiro do IRA que se envolve com a namorada de um policial que tinha sido sequestrado e depois é morto, mas com quem manteve amizade durante o cativeiro. Ele acaba se apaixonando pela "viúva do amigo". O ator (ou seria melhor atriz?), Jaye Davidson, foi indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante.



Na adaptação para o cinema da ópera Madame Butterfly, de Giacomo Puccini, filme de 1993 dirigido por David Cronenberg, o ator Jeremy Irons se apaixona pela cantora de ópera (John Lone) que também não era uma mulher. Demorou pra descobrir.


Em meados dos anos 80, a atriz Bruna Lombardi interpretou de forma convincente o personagem de Guimarães Rosa, Diadorim, que, na verdade era uma mulher, na adaptação do célebre livro "Grande Sertão - Veredas". Riobaldo, outro personagem que contracenava com Diadorim, era apaixonado por ele, mas, como ambos eram homens, nada rolava. Coitado de Riobaldo... Descobriu tarde demais que Diadorim foi o grande amor de sua vida.



A premiada Cate Blanchett encarnou de forma personalista Bob Dylan no badalado "Não Estou Lá" (2007), filme de Todd Haynes. A belíssima Charlize Theron metamorfoseou-se totalmente para encarnar a assassina em série de "Monster - Desejo Assassino" (2003), filme de Patty Jenkins.



Nosso amigo e leitor do Tyrannus, Luiz Carlos Ribeiro, contou-nos a história de um trabalhador do campo que traçava toda a mulherada da região. Sua mulher p. da vida, se valeu de uma mandinga pra dar um jeito no marido galinha, acabar com sua safadeza! Ela lhe aplicou um chá de rabo de lagartixa assado e o efeito foi superlativo. O caipira virou gay, assumindo-se como uma "bicha rural", que passou a atender pelo pseudônimo de Donana. Dizem que a história é verídica.

Laerte, o cartunista cross-dressing
Voltando ao cinema, arte que produz essas mirabolantes transformações, chegamos á notável performance de Jack Lemmon e Tony Curtis em "Quanto mais quente melhor" (1959), filme espetacular de Billy Wilder. Lemon e Curtis, para se livrar da perseguição de mafiosos, se travestem de mulheres. O elenco traz ainda Marilyn Monroe. O final deste filme é apontado como um dos mais surpreendentes de toda a história do cinema.



O personagem de Lemmon, desesperado, aceita casar-se com um ricaço, bem mais velho. Eles saem na lancha do futuro marido e Lemon decide contar-lhe que, na verdade, não é uma mulher. E o sujeito responde: "nem tudo é perfeito".

 

 

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A força das redes


"Que país é este que junta milhões numa marcha gay, outros milhões numa marcha evangélica, muitas centenas numa marcha a favor da maconha, mas que não se mobiliza contra a corrupção?" (07/07/2011 Juan Arias, correspondente no Brasil do jornal espanhol El País).

Precisou um gringo constatar publicamente essa característica do povo brasileiro. E ele parece ter mesmo razão. Manifestações políticas, passeatas, barricadas são imagens que alguns viram, outros participaram, outros assistiram pela TV ou cinema. Movimentos que marcaram a década de 70, antes da ditadura. Mas... os tempos são outros. Há sim uma luz no fim do túnel.

As indignações estão sendo postas e expostas na internet, nas redes sociais. Mas não só indignações. Uma forma de comunicação ainda não mensurada em toda a sua abrangência vem sendo praticada ordenada e desordenadamente. Mobilizações surgem com uma teclada que se propaga fugazmente, ditadores caem, revoltas e confusões se estabelecem. Políticos, como Barak Obama, se utilizam de forma inteligente da rede mundial de computadores e se consolidam.




A força opressora de poucos poderosos tende a perder espaço. Uma revolta democrática se alastra com a tecnologia. Castradores, canalhas, déspotas, corruptos e corruptores precisam ser nossos alvos. Vão dançar, esperem pra ver!!! Quanto tempo? E como explicar ao jornalista espanhol porque o Brasil não consegue se mobilizar contra a corrupção? Aparentemente, o Brasil, apesar de ser um país que nada de braçadas na tecnologia da informação, ainda não está sabendo tirar proveito dessa realidade.

João Arruda Falcão escreveu na Revista Interesse Nacional o artigo "A Internet e as eleições de 2010 no Brasil". Um texto que apresenta impressionantes dados estatísticos. Os números mostram a dimensão e o poder da internet e das redes sociais: um em cada três brasileiros está conectado à internet (aproximadamente 70 milhões de pessoas), 79% fazem parte de redes sociais (equivalnte a 55 milhões de usuários). O Brasil é o quarto país onde mais se lêem blogs: são dois milhões e seiscentos mil brasileiros atualizando diariamente seus blogs. Entre eles, o Tyrannus.


São 492.750 horas de conteúdos inseridas no YouTube por ano, enquanto a Rede Globo produz 4.500. Falcão diz que hoje as redes sociais agregam jovens qualificados, mas futuramente vão aderir as pessoas sem barreiras de idade, de formação, cultural e/ou profissional. Fica uma impressão que estamos devendo a nós mesmos, pelo menos enquanto esperamos por um futuro que está quaaase chegando.

Os corruptos não merecem nada. Paredão é só o nome de um pacato lugarejo que fica na estrada de Cuiabá para Barra do Garças.


Paredão, uma das paisagens mais lindas de MT

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Ler

Pressupõe-se que o leitor antes de tudo saiba ler. Alfabetizar-se é uma das lindezas da vida. Assistimos esse momento mágico do Vítor, um gurizinho que nasceu aqui em casa. Numa noite estávamos os quatro (Lorenzo, Fátima, Beatriz e Vítor) na sala. Vítor brincava com umas peças de um antigo jogo de palavras cruzadas. Nossa! Quantas noites montando palavras cruzadas! Por um instante Beatriz mostrou para Vítor que, juntando as letras B + O + I, formava-se uma palavra. O Vítor olhou, juntou as letras, repetiu as sílabas. Mas nada de formar a palavra compreensível. De repente: BOI.
Esse instante foi como um flash, a sala se iluminou. Vimos nos seus olhinhos a alegria de ler. Desesperado ele começou a pegar objetos com rótulos para ler. Leu a marca da camisa do Lorenzo que ficava no bolso, foi na cozinha pegou a lata de óleo, pegou revistas... Uma fissura alucinante. Isso foi uma parte da noite. Quando fomos dormir, ele virou-se pra mim e disse: “Tô com medo de dormir e amanhã não lembrar mais!”
Ignat Bednarik
Quando conheci o "Seu Luiz" ele trabalhava na Fazenda Morro do Chapéu, no Manso, (acho que ainda trabalha lá). Ele tomava conta de tudo na fazenda. Uma pessoa incrível, uma prosa de fazer a gente perder a hora. Apesar de sua aparente simplicidade ele era (espero que ainda seja) a erudição popular em pessoa. Sabe aquelas pessoas que nascem sabendo e entendendo de todas as coisas? À noite, quando parte do povo dormia, "Seu Luiz" ia para um canto com o seu Tex nas mãos. Um dia ele me contou como aprendeu a ler. Disse que voltava da escola triste por não aprender a ler. Creio que se achava o mais ignorante dos meninos do mundo. De repente, uma folha de jornal veio voando e parou nos seus pés empoeirados. “Era um papel de bunda”, contou-me e disse que o pegou assim mesmo e pôs-se a soletrar: Ba, na, na... ba, na, na... bana... na, banana!!!!!! "Seu Luiz" relembrou que foi um lampejo, um raio que o atingiu... de inteligência.   

 Enfurnado dentro do ônibus com a cara enfiada dentro de um livro. Tem gente que é assim. Eu. Tu, ele, nós, vós e eles que andam de busu têm o direito de fazer isso. Quando percebemos alguém, em qualquer ligar que seja, lendo um livro, é normal sermos acometidos por uma curiosidade invasiva: “o que será que essa pessoa tá lendo?”
 Ler é uma das maravilhas que aprendemos na infância. Algumas pessoas, com o decorrer do tempo, acabam abandonando completamente esse aprendizado. Uma pena, porque ler é bom demais. Um exercício mental fabuloso, uma forma de adquirir conhecimentos, de se divertir, de ampliar o vocabulário e de entender melhor o mundo. E quando conseguimos nos tornar seletivos e melhorar a qualidade da nossa leitura com o andar da carruagem da vida, aí maninho e maninha, é o apogeu, é a melhor coisa que existe.

Gustave Coubert
Fico com pena de quem está fazendo mestrado, doutorado etc e precisa ler um catatau de coisas. Ah, e os estudantes que se preparam para o vestibular. Esses também são pobres coitados. Precisam saber de um mundaréu de coisas que, provavelmente, na próxima esquina da vida, boa parte do que leram de nada vai lhes valer para o resto da vida. Mas o bicho pega mesmo é pros lados desse povo que segue carreira acadêmica. Troço careta me parece esse academicismo superlativo. Sei que, entretanto, há exceções.

Ronaldo Cagiano
“Lorenzo, estou louca pra me aposentar pra poder ler só o que eu quero”, disse-me a amiga querida e poeta, Marta Cocco. Ela matou a pau, porque o hábito da leitura – essa imersão intelectual benfazeja, precisa estar associada ao prazer.

Artaud por Cristian Barnes

Um conto que acabei de ler do escritor Ronaldo Cagiano, “A Ilha Invisível”, do livro “Dezembro Indigesto”, foi a inspiração maior para este post. O personagem, que parece ser o próprio Cagiano, está lendo dentro de um ônibus em Brasília, totalmente entretido com um fabuloso romance de Albert Camus. Alguém se senta ao seu lado e ele percebe a curiosidade do companheiro de viagem em relação a ele e ao seu livro, mas não consegue dar bola pro cara. Ao final da viagem o sujeito se apresenta como Antonin Artaud e a história termina. A Cagiano, ou ao seu personagem, sobra um resto de arrependimento misturado com perplexidade. Não é todo dia que a gente dispensa uma conversinha com Artaud.


segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Alegria de Emma

Depois de bailarmos no telão, acertamos na telinha. Fugimos do Planeta dos Macacos e viemos parar no cinema alemão moderno que costuma nos surpreender a cada novo título. Nada de Fassbinder, Herzog, Wim Wenders, Fritz Lang, Percy Adlon, entre outros e, muito menos, nada contra eles. São grandes cineastas alemães, responsáveis por belos filmes que marcaram nossas vidas, sendo que alguns deles, ainda na ativa, podem voltar a nos surpreender. A gente torce pra isso.
"A Alegria de Emma", de SvenTaddicken, filme de 2006, preencheu o vazio cinematográfico do final de semana aqui neste lar feliz, embora um pouco melancholicus e tyrannus también. Foi a nossa salvação, diante de um pouco de intolerância que demonstramos para com o filme que tentamos assistir no cinema no sábado (vide post anterior a este).
Inevitável não comparar os dois filmes. É fácil de reparar no que significa um bom roteiro, escrito de forma criativa, elaborado e cerebral, sem apelar para as saídas fáceis e sem estacionar no lugar comum. Porque em cinema é mais ou menos assim: o filme tem que estacionar em local proibido... em cima da calçada, na faixa de pedestre, na frente de uma garagem etc. Chega de sapo parnasiano, de lirismo bem comportado, abaixo os enlatados... Viva a arte do cinema, aquela que mexe com a gente, que faz a gente desentender, que nos emociona de verdade, 'bravo' daquele filme que a gente assiste e sabe que depois dele nunca mais seremos a mesma pessoa.
Pois o jovem cineasta alemão, Taddicken, ganhador de alguns prêmios, mas nenhum espetacular, nos pegou de surpresa. Uma fazendeira falida e um vendedor de carros que descobre que terá sua vida abreviada por um câncer fulminante, têm seus destinos cruzados. 


Desesperado ele rouba um jaguar e dinheiro do seu emprego e sai para o México. Numa fuga desenfreada ele perde o controle (ou propositalmente perde), capota o veículo e vai parar na fazenda de Emma. Da rude Emma, uma alemã, loira, forte (em todos os sentidos: físico e na defesa de seus própositos), que sozinha encara todos os afazeres de sua fazenda (montoeira de afazeres rurais). Porcos e galinhas são os seres por quem ela demonstra carinho e respeito (mesmo na hora de matá-los). Essa é a sinopse deste filme terno e filosófico, uma comédia dramática, que trata sem o menor pudor, mas também sem exageros ou agressividades, o complexo tema da morte.

Mas não é só a morte em si. "A Alegria de Emma", com sua fotografia limpa e impecável, fala do amor, e da amizade, coisas comuns aos seres humanos; mas trata-os com uma permissividade raramente vista. Numa cena em que Emma está tirando as víscera de um porco, ela diz para Max: "as pessoas tem mais medo da morte do que da própria morte". Ela tem razão, às vezes sofremos e vivemos antecipadamente. A Alegria de Emma ensina a viver intensamente o que está sendo vivido. 



sábado, 27 de agosto de 2011

Planeta dos Macacos


Beijo sem antropocentrismo
Matinê no sábado, sessão da tarde. Fomos acometidos por essa nostalgia e às três horas estávamos lá, no escurinho do cinema. Pipoca e refrigerante pequenos e uma água, pela bagatela de R$ 11,50!!!! Como são caros esses aditivos vendidos no cinema. E o pior é que não é permitido levar matula. Quer dizer, pode sim, mas tem que ser escondido.

A inspiração foi o filme "Planeta dos Macacos - A Origem". Filme de entretenimento pra se divertir, nada de expectativas. Precisamos fazer isso de vez em quando já que temos tendência de nos enclausurar. Os comentários gerais sobre o filme, na internet e na TV, prometiam muita ação e emoção.
Sempre que nos deparamos com as reprises e mais reprises de um dos cinco filmes sobre o tal planeta na TV, gostamos de assistir mesmo que pedaços. Neste, mesmo com a tela grande, em menos de uma hora, uma cutucada: não tô gostando, não. Macacos me mordam! Cinco minutos depois, caímos fora.

O primeiro filme de 1968, "O Planeta dos Macacos" é ótimo. A cena final, quando Charlton Heston cavalgando numa praia e dando de cara com a Estátua da Liberdade semi enterrada é antológica. Depois desse filme a indústria do entretenimento desovou várias sequências, uma série de TV, desenhos animados e histórias em quadrinhos. Até Tim Burton, em 2001, explorou a história. Vale lembrar que tudo começou com o romance de Pierre Boule (La Planète des Singes), publicado em 1963. Pra ser sincero, acho que Charles Darwin, com a sua Teoria da Evolução, semeada em 1844, já esbarrava no tema, desbancando o antropomorfismo exacerbado.


Pois é, tentamos. Sou chato pra cinema, mas gosto de me surpreender. Sair prá assistir algo totalmente desavisado, sem ler nada antes é arriscar. Embora isso, na maioria das vezes, seja frustrante, insisto. "Sair pra ver porcaria no cinema, prefiro assistir em casa". Verdade verdadeira.

 Mas este "Planeta dos Macacos - A Origem" é morno demasiado. Personagens fracos, que mais pareciam de um filme infantil, roteiro cheio de clichês descabidos, fotografia sem nada de especial e sem escala: o tamanho do chimpanzé é desproporcional quando contracena com os personagens humanos. Os movimentos do Cesar (o chimpanzé) são computadorizados e com novidades da tecnologia, mas, mesmo assim, me fizeram lembrar as criaturas de um antigo filme, “Jumanji” (1995), um dos primeiros a se utilizar de técnicas de computador para animar personagens. 

Freida Pinto e James Franco 
Estes escritos não devem ser entendidos como uma resenha ou crítica, até porque, assistimos apenas parte do filme. Não seria justo. Até onde fomos, de interessante registramos a consistência do personagem interpretado pelo veterano John Lithgow e a curiosa participação de um expressivo orangotango. O diretor inglês Rupert Wyatt está longe de ser uma referência em cinema. 

Construindo Cesar
Mas também não cabe uma crítica velada ao seu trabalho neste “Planeta dos Macacos – A Origem”. Tudo leva a crer que ele fez o que era pra ser feito. Fica a impressão que o filme é mais um desses caça níqueis (e quantos níqueis), na linha blockbuster. Aquelas produções poderosas financeiramente falando, mas que quase nada têm a ver com o cinema enquanto arte. O lançamento do filme nos USA extrapolou a expectativa em nível de bilheteria, e pelo jeito ressuscitou a série. 


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Steve Jobs e a obsolescência

Steve Jobs. Esse é o cara. Nesta semana uma falação infernal sobre o sujeito, aquele mesmo. Meio arquiinimigo e um pouco falso amigo do Bill Gates. Mas Jobs, cujo nome é trabalho, renunciou o cargo de presidente da Apple, que ele mesmo fundou em 1970. Fica a dúvida: qual deles? O empresário, dono da maior parte das ações da Apple? O visionário, com a mente a 10 ou 100 anos na frente dos demais mortais? Ou aquele com problemas iguais a todo mundo?

Apostamos que o mundo corporativo pensa no Steve Jobs empresário, milionário, audacioso e criativo, capaz de elevar uma marca à estratosfera. O séquito fiel de admiradores pensa no Jobs esteta, onde design, funcionalidade e elegância são fundamentais para seus inventos caírem no gosto do público. Não imaginamos quem pensa no Jobs humano, demasiadamente humano. Só ele mesmo, decerto, quando vai vestir a camisa preta de mangas longas, de gola falsa (St. Croix), sua calça jeans (Levi’s 501) e o tênis (New Balance).


Jobs é chique. Tipo bom gosto predominante. "Pra você dormir bem a noite, a estética, a qualidade, precisa estar em todos os lugares". Ele nasceu em 1955 na Califórnia, filho natural do sírio Absulfattah Jandali, estudante e depois professor de ciências políticas, e de uma jovem americana. Tem uma irmã natural, a romancista Mona Simpson.  Segundo o próprio, foi rejeitado duas vezes: a primeira, pelos pais, que o deram para adoção; e depois pela família que o adotou: eles sonhavam e desejavam uma menina. Claro que deu a volta por cima e se tornou um ícone destes tempos de bytes, chips, memória ran e o escambau.




A tal da geração Y, essa juventude que nasceu interneteira, deve muito a ele. Deve, que eu escrevo, é porque as maravilhas do crediário permitem que novos e novos produtos de alta tecnologia sejam adquiridos em espaços irrisórios de tempo, antes mesmo do produto anterior, que será substituído, se tornar imprestável. Daí que o nome de Jobs, comumente, é associado com a obsolescência programada, uma expressão que descarta explicações. Descartar, aliás, é o verbo.


Persuasão, carisma, temperamental, agressivo, exigente, egocêntrico... São características descritas pelos amigos e companheiros de Jobs, que não consome outra carne que não seja peixe. Quando jovem foi à Índia em busca de iluminação espiritual, voltou budista e fã de LSD. Diferente de Bill Gates não é filantrópico, muito pelo contrário: Ao retornar à Apple em 1997 (ele tinha se afastado em 1984), eliminou todos os programas filantrópicos da empresa.  Algo curioso que ouvimos sobre ele é que a qualidade e a estética imprimida aos produtos da Apple acabaram fazendo com que toda a mídia mundial trabalhasse para o marketing da empresa.


Pois é. Na última quarta-feira ele declarou seu afastamento voluntário do comando da Apple. Foi o suficiente para a empresa tornar-se a maior do mundo de capital aberto. 
  

Seria o legado de Steve Jobs a obsolescência programada, que faz com que o nosso amado aparelhinho envelheça (num estalar de dedos) ao surgiu um novo modelo, que nos envergonhe por estar ultrapassado ou que planejemos descartá-lo por outro I (pod/pad) da vida? A frase abaixo é dele e não é nada descartável: “Você pode encarar um erro como uma besteira a ser esquecida, ou como um resultado que aponta uma nova direção”.


Os prazos de validade de uso e de desejo estão cada vez menores; desejamos, desejamos o novo como se fosse uma paixão avassaladora, indispensável. Não é bobagem sofrer por isso? Quais são os nossos desejos? É bom dar uma pensada nisso.






“O mundo é suficientemente grande para satisfazer a necessidade de todos, mas é demasiadamente pequeno para a ganância de alguns”. (Gandhi)