segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Registros Chapados

Rumo à Chapada dos Guimarães...  

Antes um lanchinho na rodoviária




 
Olhar pela janela...




faz bem pra vista!
 
Chegada quase no por do sol

A noite fresca
passear é bom pra cachorro








Encontrar os amigos é bom demais!

No outro dia... muita luz

carinho no preparo do almoço



tempo de colher fruta no quintal





apreciar o trabalho das "Bordadeiras da Chapada"
  
À tarde, passeio bucólico




Visíveis mudanças comportamentais...

sábado, 24 de setembro de 2011

São Longuinho

São Longuinho, São Longuinho, seu eu achar...
Perder o bonde. O avião, a hora, os sentidos, a razão, a vergonha na cara, a carteira, a chave, a cabeça. Ou a oportunidade de ficar calado. Todos nós vivemos perdendo coisas. Materiais e imateriais. Importantes e frívolas. Perder se torna tema recorrente cá no blog, porque é hora de invocar São Longuinho, mas os três pulinhos precisam ser dados. Uma simpatia esse São Longuinho. Ele ajuda a reencontrar o que se perdeu. Já recorremos a essa tal simpatia e dá certo, só pode ser coisa celestial! É que os santos habitam lá pra cima, não sei quantos andares acima de nossas cabeças de simples mortais.
E salve São Longuinho. São Longino, originalmente, é um santo não canônico do catolicismo. Era um soldado que teria perfurado Jesus com uma lança pra conferir se ele estava mesmo morto após a crucificação. Ao perfurar o corpo de Jesus, segundo o Evangelho, um líquido teria saído e respingado na face de Longino que, de imediato, curou-se de uma grave doença ocular e se converteu em seguida. 
 
Mas o que foi mesmo que eu perdi?
Mas achamos que a memória ajuda bastante na hora de achar algo que foi perdido, especialmente, se for algo material. Nossas vidas têm esse tal departamento de achados e perdidos. As rodoviárias, aeroportos e outros espaços urbanos de intensa movimentação precisam ter esse local de apoio coletivo. Nem tudo está perdido.
 
Melhor perder o voo que ser perseguido por um avião


Perdidos na noite, garotos perdidos, perdas e danos, perdidos no espaço, perdidos na selva. Num piscar de olhos nos vêm à cabeça muitas conjugações do verbo perder, para nominar filmes, séries de televisão, peças de teatro etc. Estar perdido gera ação, conflito. E perder algo importante também costuma provocar confusões das mais variadas. Perdeu, tem que achar. É regra.




"Perdidos na noite", quando Faustão era engraçado 



Uma das primeiras experiências de perda que presenciei e que ficou cravada em minha memória vem dos primeiros anos da minha infância. Tio Nhonho, no sítio do meu avô lá pras bandas do Livramento, revirava os cômodos e os móveis da casa procurando algo e eu o seguia humildemente. Queria que ele fizesse uma funda, um estilingue, para eu sair peloteando. “O que cê tá procurando, tio?”. “Meus óculos” (ele tinha um rayban antigaço). “Num é esse que está na sua cabeça?”. E era. Os óculos estavam suspensos sobre sua própria cabeça. Alívio, encontrar um objeto perdido.

Não são raros os casos de pais que perdem suas crianças em locais cheios de gente. E reencontram, graças a Deus. E graças ao serviço de alto falante, às vezes. Katinha, leitora do Tyrannus, nos contou que num jogo no Verdão, de uma hora pra outra, ouviu-se aquela voz tonitruante do altofalante se sobressaindo diante do burburinho colossal da massa: “O serviço de altofalante do Verdão informa: criança perdido”.


Lembramos sempre do caso de um menino (ele era a cara do Henri Kissinger), levado da breca, que perdeu-se da mãe numa loja e foi aquele pampeiro danado. Meia hora depois, no meio daquela gentaiada toda, a mãe de coração espedaçado reencontra o filho que mostra toda a sua ira infantil: “Disgramada... ocê perdeu eu!!!”.

Como estamos num sabadão e ainda dá tempo pra um programa especial. Hora de bater um rango e se mandar pra rodoviária. Se não, a gente perde o ônibus pra Chapada. E chega de perdas. Pois é lá que pretendemos encontrar momentos especiais que precisam preencher o final de semana...   
Diógenes: procurando um homem honesto 
 

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Contos da Era Dourada


Quem conta um conto, aumenta um ponto. Contos remetem à ficção. "Contos da Era Dourada", filme romeno, contraria essa história. São cinco episódios que retratam a decadência da tirania de Nicolai Ceaucescu, ditador da Romênia, com um viés realista e um pé forte, fincado na comédia. A direção geral é de Cristian Mungiu, que escreveu o roteiro e convocou cinco curta-metragistas (Hanno Hofer, Razvan Marculescu, Nstantin Popescu e Iona Uricaru) para que cada um deles dirigisse uma parte. Que beleza... de filme!

Há unidade no filme, embora cada conto nada tenha a ver com o outro, em termos sequenciais, a não ser a atmosfera de fim de um ciclo - o final de um regime político naquele país do leste europeu. Fica a impressão de que não interessa tanto assim, se um governo é de direita, de esquerda, de centro, ou seja lá do que for. Os que estão no poder são tiranos, mimados, hipócritas, mentirosos e têm um séquito de puxa-sacos que adoram maquiar a realidade/verdade, para agradar. Era dourada, uma ova... Essa conversa já era.



A abertura do filme, onde surge a ficha técnica tem um visual incrível, com a câmera descendo escada abaixo, acompanhada pela trilha de um hino ufanista. A narrativa do filme é literária e não é difícil o espectador ter a impressão que está lendo um livro de contos, tamanha a espontaneidade com a qual é trabalhada a carpintaria cinematográfica. Tudo se desenrola de forma natural, embora as sutilezas da linguagem do cinema pontuem o filme inteiro. Não há exageros e sobra o bom gosto de uma estética apurada. O roteiro sugere um tempo de lendas, mas daquelas lendas que trazem dentro de si uma verdade incontestável.


Abre com "A lenda dos vendedores de ar" insinuando o início de uma relação de um jovem casal que vai aplicando golpes inusitados, no nosso ponto de vista. Esse romance é o pano de fundo para que eles tentem faturar algum, simplesmente vendendo garrafas. O casal consegue iludir suas vítimas alegando trabalhar em um órgão público e engarrafam amostras de ar para analisar sua qualidade. Eles pressentem que no futuro próximo terão problemas.

A segunda história, "A lenda do motorista de galinhas", esbarra com um casal numa relação pra lá de desgastada. O homem é motorista, tranporta galinhas, e é tentado, para agradar outra mulher, a ceder-lhe os ovos, que são postos no trânsito com as aves. Ele nada lhe pede e ela nada lhe dá. Mas ele, que surrupiou os ovos, vai pra cadeia.

A terceira, "A lenda da visita oficial", é uma piada. Qualquer semelhança com episódios rocambolescos que vivenciamos aqui no Brasil é mera coincidência (?). Povo é povo em qualquer lugar, em qualquer circunstância. Baixaria é com a gente mesmo! Um pequeno vilarejo se prepara para receber comitiva governamental e isso provoca toda a sorte de arbitrariedades. O mais hilário de todos os episódios.




Em "A lenda do ativista zeloso", um adepto do regime vai parar num lugarzinho fim de mundo com a função de erradicar o analfabetismo. Às voltas com crianças e adultos que se recusam a frequentar a sala de aula, ele fará o possível para não decepcionar o regime de Ceaucescu.

O marketing ridículo que a imprensa oficial - na Romênia e em qualquer lugar do mundo, providencia, para não macular um governo, é o objeto do quarto episódio, "A lenda do fotógrafo oficial". Mais uma bela chance para tripudiar em cima das falsidades e da hipocrisia do poder público. E é isso que o filme faz o tempo inteiro.

"A lenda do policial ganancioso" fecha o filme, narrando a história de um funcionário do regime que tenta mascarar um esquema que lhe valeu um belo porco na véspera do Natal, num tempo de escassez de alimentos. O que ele não contava é que esse porco lhe chegaria vivo, o que significa que ele terá que sacrificar o suíno no seu minúsculo apartamento, tendo como cúmplices seu filho, um garotinho, e a esposa.



O grande destaque de "Contos da Era Dourada" só pode ser mesmo o trabalho de Cristian Mungiu, que nos apresenta um filme de impressionante sobriedade. Ele tem apenas 43 anos e quatro filmes em sua trajetória. Muitos prêmios na bagagem, inclusive, a Palma de Ouro, em 2007, por "4 meses, 3 semanas e 2 dias".  



The End

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

1 ano com Tyrannus Melancholicus

"Um lance de dados jamais abolirá o acaso" (Mallarmé). "Nonada" (Guimarães Rosa), beirando às 3 horas da madrugada descobrimos, ontem, que o primeiro post do Tyrannus aconteceu dia 21 de setembro de 2010. Portanto, Tyrannus Melancholicus, esse blog de nome esquisito, comprido, difícil e bonito, emplaca seu primeiro ano.
O Tyrannus surgiu de uma (re)conjunção carnal, intelectual e almal (relativo a almas) que foi selada com uma viagem à Europa: "ao velho mundo, com velhos amores" (Luis Moreno). Viajar é preciso. E tome um ano de viagens precisas e imprecisas que compartilhamos na maior.. .

Mas que trabalho, meu Deus! Propostas e acordos feitos e relaxados pelo cansaço, pela escassez de tempo e, pior, de ideias, assuntos... Inserimos aqui textos com a nossa cara, abordando assuntos variados, inclusive a falta de assunto. Nossos bichos, miojo, romanesca, erros, androginia, gases, sonhos, temores, gafes, futebol, frustrações, política, desabafos, bafões, temas factuais, trocentas dicas culturais, até mesmo uma pegada meio reality show; enfim, crônicas cotidianas em que expomos nossa opinião ou a falta de. Isso tudo e mais alguma coisa foi moldando e esculpindo o estilo deste blog.

Jogando bozó, com Mallarmé

 Assuntos mais sérios que são indicadores dos vícios da sociedade em que vivemos pintam esporadicamente. Não tem como não expor a indignação diante de certas mazelas e assim fazemos. Na verdade, as pautas aqui vivem à deriva e surgem, muitas vezes, de uma hora para a outra sem pedir licença. Simplesmente vão se instalando e alastrando.

Com o Tyrannus fomos à Europa, Rio, Sampa, Chapada, Livramento, Poconé, Bonsucesso, Guariba. Assistimos shows de jazz, Ballet Giselle, concertos da Orquestra da UFMT e Estado, dança moderna Fukushima, exposições, debates literários (Marçal Aquino,Tezza, Rufatto e Nicolas Behr), cantamos no coral Sesc Canta, registramos casamento, festas de família, visitas, aniversários, natal, reivellon... Muiiiitos livros, muiiitos filmes, principalmente em casa, e até instituímos um “concurso interno de contos”, já temos dezoito, inéditos e maravilhosos, na nossa opinião.    



Humor é o nosso sal, ingrediente que tempera nossas vidas + uma pitada de filosofia, mesmo que seja profunda como um pires,  engrossa e dá o ponto no caldo do Tyrannus. A informalidade é regra básica. O esforço à duas cabeças e quatro mãos entra em cena na hora de atualizar. É trabalheira mesmo. Seja nos textos, seja nas imagens, tudo aqui é edição elaborada pra apresentar um conteúdo pelo menos razoável aos nossos visitantes.



Nossos amigos, leitores, não sabemos direito como se referir a estas pessoas que, na maioria, têm nos agraciado com palavras de entusiasmo, apoio e carinho. É gratificante ser contestado via emails e comentários por Gabriel, Eliane, Nely, Salete, Valéria (fotógrafa titular), Soraya, Anadyr, Ney, Giselle, Ivens, Graça, Kátia, Vera, Glorinha, Rosinha, Elianne, Ginho, Gervane, Julio Japonês, Eduardo Pherreira, Moema, Mimi, Ruth, JP, Juliana, Mauricio, Luciana, Danilo (hors concours, nos comentários!!!), Roberto, Prudêncio, Waldir, Keiko, Nívia, Maria, Everton, Bebeto, Fabrício, Gibran, Aclyse, Marisa, Marigema, Bia, Martha, Marta, CAA, Taubaté, Rosy, Rosi, Daniel, Nishi, Mikey, Gislaine, Walfrido, Adriana, Mônica... perdão, se esquecemos de alguém!         



Adoramos o inusitado e, falando em visitante, ontem à tarde, sol a pino, nesse calorão cuiabano que poucas criaturas aguentam, eis que aparece em nosso quintal um baita lagarto tiú, bicho não temente ao sol, habitante secular do cerrado. Vai saber como ele aqui chegou... Só sabemos que não tem como desprezar o registro desse improvável acontecimento. Cuiabá, nossa casa é “Mundo Cerrado”!!!!


À noite, em altíssimo astral “Mundo Cerrado” em forma de livro-poemas, chegou, acompanhado pelo Coral Sesc Canta, entoando o ritmo quente do maracatu e "Acalanto", de Caymmi, com um solista especial, o pai do poeta - Alayr Falcão, estudioso de canto lírico há várias décadas. Emocionante para todos que presenciaram, e imaginem para o blogueiro que lançava mais um livro e acompanha o pai-solista entoando uma cantiga de ninar. "Eu olhava pra cara de seu pai, e depois pra sua e sentia vontade de chorar" (Carlos Taubaté).


Esses momentos de alegria foram entremeados com momentos de tristeza. Um ente querido, o Hênio, com quem convivemos durante vários anos, foi para o andar de cima. Saímos da festa do lançamento do livro direto para o seu velório. Pensamos um pouco e não titubeamos: um livro com dedicatória foi colocado junto ao seu corpo, carinhosamente. Poetas são criaturas demiurgas, pois têm uma relação mais próxima com os entes celestiais. Pode ser que nessa viagem, ele pegue o livro para ler.
Hênio e Lila
Encerrando esse “post” comemorativo e “sem querer querendo” (Chaves) ser pretensiosos, chegamos à conclusão que a definição cabível para o blog Tyrannus Melancholicus é: “Se queres ser universal começa por pintar a sua aldeia” (Tolstoi). No caso, nossa casa, nossas pequenas e inquietantes vidas (Lorenzo e Fátima). E muito obrigado.