quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Wladimir Dias Pino


Um gênio: com um pino a mais ou a menos!
Wlademir Dias Pino é uma figura, não somente no sentido figurado da palavra. No sentido mais amplo que a palavra pode alcançar. É um homem que trabalha, compõe, recompõe, poemiza com figuras, formas e cores. A sua palavra é gráfica, pois ele, um homemgráfico, viveu enfronhado nas gráficas abarrotadas de bobinas de papel, tinta, linotipos, a vida toda. "Eu nasci dentro de uma gráfica"...  Bom ponto de partida para começar a entender um pouco sobre sua poesia visual. A arte que vem de Wlademir não é coisa pra se entender tão facilmente, mas é inegável que ela surge com uma estética depurada, delicada, com significados múltiplos e liberta das obviedades complacentes.




Wlademir, junto a e escritores e intelectuais da década de 1960, participou da fundação do movimento denominado poema processo e do concretismo. É um homem alinhado com a contemporaneidade. O tempo passa para todos, menos pra ele que tem vitalidade intelectual de um jovem.  


Lembramos dele mostrando e discorrendo sobre a estética das linhas de quebra da “piçarra”. O fazia com tanto ardor, que parecia estar falando de uma obra de arte. Acredito que ele já deve ter colocado das simetrias e assimetrias dessas rochas moles, de plano inclinado, encontradas facilmente em Cuiabá, num de seus trabalhos. Sua obra deve ser emparentada com as linhas da piçarra.
Livro-poema
Wlademir Dias Pino revolucionou nosso entendimento das artes. Numa entrevista com ele, em meados dos anos 80, conversamos bastante sobre o tal do pós moderno. Sabíamos que ele era verbete da enciclopédia britânica e que lançara seu primeiro livro com uns quinze anos. "Entendeu o que eu disse, o que eu te expliquei? Se não, não tem importância, porque daqui a uns quinze anos você vai entender". O poeta visual já me tascou essa, expressa assim diante de jovens que tentavam beber de sua fonte rara e preciosa.

No início desta semana chegaram notícias dessa figuraça, há vários anos radicado no Rio, sua cidade natal. Uma exposição no espaço Oi Futuro foi aberta com 700 poemas seus. Seu conceito de arte e sua elaborada produção são mirabolantes e traduzem uma pegada meio científica. Classifico-o como um artista bastante racional, mas autor de uma estética que combina sensibilidade e inspiração. Um artista genial.




Certa vez, pesquisando sobre ele nas altas madrugadas, me deparo com um depoimento do brilhante Octavio Paz, poeta e ensaísta mexicano, ganhador do Nobel de Literatura em 1990, que apontou Wlademir como o principal poeta visual do mundo. Antonio Houaiss considerava como “um dos mais perspicazes pesquisadores visuais no Brasil”. Assim é Wlademir um desses artistas que...

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Gente que parece que é

Bené Fonteles ou ...
Gente que a gente pensa que é, mas não tem certeza!!!! Em quantas esquinas da vida já não demos de cara com alguém que... será que é? Não, acho que não é. Mas poderia ser... Êta dúvida atroz. O melhor é chegar junto e conferir. Senão, é se conformar, e morrer com a dúvida. Quer coisa mais chata do que não se lembrar de alguém que nos encontra e cumprimenta efusivamente? E, pra não ser indelicado, você assume uma cara de paisagem, acompanhada por um risinho pra lá de amarelo. Pior de tudo é consentir com a falsidade.
Juro que me constrange muito quando alguém conta fatos ocorridos, me insere na história, acrescenta, pra florear, mentiras deslavadas, se gaba de algo que não me lembro e, pra me matar de vez, me convoca publicamente soltando o famoso: “Lembra? Nossa... foi demais!”. Situações como essas eu ainda não consegui cortar e dizer pra fulana ou cicrano: “Olha aqui seu fdp, não foi nada assim, caralho! Fui eu quem fiz isso não você, babaca!”. Sempre engulo seco, porque não tenho coragem, não gosto de ver ninguém se sentindo humilhado. Tem gente que precisa de se achar, chamar atenção, contar vantagem. Não preciso disso, então deixo. 
Edgard Navarro?
Não fica pra traz o constrangimento de confundir alguém. Ainda bem que a ficha cai sempre depois. Uma das últimas vezes que vivenciei uma situação dessas foi numa apresentação da Orquestra de Mato Grosso, no Cine Teatro Cuiabá. Na entrada tumultuada, muita gente chateada por não ter conseguido ingresso, gente se abraçando, cumprimentando... Eis que vejo uma pessoa super querida. Ela sorri, me cumprimenta, apresenta sua mãe e... troca meu nome. Rapidamente corrijo. Ela fica visivelmente chateada. Para desanuviar, digo que não tem importância, que o mais legal é nos encontrar...  que é assim mesmo, que eu também confundo muito, esqueço, que trabalhamos com tanta gente e trolólóló. Sua mãe observa nosso diálogo repleto de escusas aprovando as nossas justificativas. O assunto logo é esquecido. Bom, estão me chamando. Vou entrar. Despeço-me com um beijo no rosto e um “tchau Otília, até mais ver, eu te procuro! Despeço-me de sua mãe, que me olha com ar incrédulo! Ao me acomodar na poltrona, uma imagem... não, uma informação... não, uma verdade. Meu Deus! ela não é a Otília Pignati. Ela é a Lídia Bocaiúva. E o tempo inteiro eu certa ser a Otília. Dos males o menor, ambas são médicas homeopatas e queridíssimas por mim. 
  
Gueron ou


Lau?
    
Serra Nosferatus


Nosferatus Serra
"Olha lá Lorenzo, aquele é o Bené Fonteles", me disse a Fátima, lá em Brasília no sábado passado quando estávamos almoçando. Olho e fico na dúvida. Seria mesmo o Bené, aquele artista que morou vários anos em Cuiabá e depois se mudou pra Brasília?  Levanto-me para o segundo tempo da refeição. Aproveito que o suposto Bené também está se servindo e defino minha estratégia. Estamos frente a frente, eu de um lado buffet e ele do outro. Sem olhar pra ele, solto: "Você não é o Bené Fonteles?". Necas de resposta.
Volto pra mesa e a Fátima dispara: "E aí, era o Bené?". Não era, claro, mas podia ser que fosse o Bené e que ele estivesse ficando meio surdo. No dia seguinte, conferindo as matérias que haviam saído nos jornais sobre o Festival de Brasília de Cinema, eis que vejo uma foto do suposto Bené, que não era ele mesmo, mas sim o Edgard Navarro, cineasta que dirigiu um dos filmes em competição, "O Homem que Não Dormia".Ser confundido com outra pessoa ou confundir fulano com beltrano acontece na vida de qualquer um. Isso provoca situações embaraçosas e engraçadas. Já fui confundido com o juiz Rocha Matos, aquele mesmo que teve problemas com a justiça. Uma vez, no cinema, em Brasília, até um porteiro perguntou a umas amigas que estavam comigo se eu não seria o tal magistrado. Mas já fui protagonista de um curioso caso, onde fui confundido com outra pessoa.
Paulo Macalé

  
Jards Silvino?


Lorenzo, ficha suja 

Sexta-feira, dia de feira aqui no bairro, chego mais tarde e caminho apressado de volta ao lar. A boca estalando pra tomar aquela cervejinha gelada, enquanto me desvio do povaréu que transita pela feira. De repente... "Derlei..." Diz uma senhora me olhando. Aiaiai, penso. Não sou Derlei, mas tenho certeza de que a mulher sabe que sou. Educado, vou parando e a cumprimentando. Junto a ela, outra mulher. Tenho quase certeza que nunca vi nenhuma das duas, mas, jornalista conversa com muita gente e depois se esquece. Já fui professor também, outra profissão que nos expõe a multidões.

Seria Xico Sá da família
Muppets?

Não tenho tempo pra explicar isso e nem preciso. Minha cara diz que não estou entendendo bem do que se trata. E ela emenda: "Derlei tá metido... Outro dia encontrei com ele e fingiu que não me conhecia". Ela diz isso entabulando conversação comigo e puxando a cumplicidade da outra que, certamente, também acha que sou o Derlei. "Como vai sua mãe Derlei?". Antes que eu responda, a mulher prossegue. "Encontrei com ela num supermercado lá no CPA outro dia". Agora sim, fudeu de vez. Sou obrigado a limpar os pratos. "A senhora está me confundindo. Não sou Derlei e minha mãe, que mora no Rio de Janeiro há mais de trinta anos, quando vem passear aqui, dificilmente vai supermercado”. Ela ainda tenta argumentar algo, mas minha expressão sincera acaba colocando um ponto final no equívoco. E acredito que o Derlei seja bem parecido comigo. Onde andará Derlei, esse sósia ou quase isso que tenho, mas que nunca vi mais gordo ou magro? 
  
Lorenzo, versão "Seu Madruga"
 
Fátima, versão "Chiquinha"

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Não choro porque meus olhos ficam feios

O choro é livre. Chororô. Chorão. Chorinho. Chorado. Choramingar é um choro meio minguado e pranto já é muito choro. Homem que é homem não chora, quando a mulher vai se embora. Que coisa mais machista. Buáaaaaa. Snif. A conversa hoje aqui é essa: o verbo chorar. E não precisa ser com copiosas e fartas lágrimas. Pode ser apenas os olhinhos marejados, que nem o do tamanduá. "O olhinho dele tava merejando, que nem o do tamanduá mirim". Totó, um cidadão rural, lá das bandas do Livramento, que habitava o sítio do meu finado avô Bento Pires, me ensinou essa certa vez. Nunca mais esqueci.
Totó, um dia comprou uma fubica, um daqueles carrinhos tipo calhambeque, e providenciou para que fosse pintado em seu parachoque a seguinte frase: "se fui pobre, num me alembro". Quando me lembro dessas histórias antigas, saudosista que sou, a vontade que sinto é de chorar. Quanto mais velho, mais manteiga derretida.
A única espécie a chorar é o ser humano. A externalizacão de sentimentos como medo, tristeza, depressão, dor, saudade, alegria exagerada, raiva, aflição, indignação, insegurança, felicidade e outros, na maioria das vezes, vem em choro, com derramamento de lágrimas.   O choro está relacionado aos nossos instintos de defesa e comunicação.

Cry baby
O ser humano, além de chorar, é capaz também de simular o choro. Tenho certeza de que algo ou uma imagem lhe vem à cabeça: criança birrenta,  gritando e esperneando pra conseguir algo http://www.youtube.com/watch?v=ZjZrx0ZOKRs). Pior, se não for corrigida, quando adulta, continuará a utilizar desse subterfúgio para conseguir o objeto do desejo. O choro simulado é usado também na dramaturgia e ensinado nos cursos de formação de atores e atrizes. Quando esses não conseguem se entregar totalmente ao sentimento e debulhar-se em lágrimas, é normal utilizarem um tal de “cristalzinho japonês” à base de menta (hummm, tô entendendo...). O choro simulado, como dá pra perceber, é uma arma muito poderosa e não são apenas os artistas e crianças que utilizam dessa peculiaridade humana.  

Carpideiras, as profissionais do choro

Chorando as pitangas
Enfim, chorar faz bem a saúde. Homem e mulheres relataram que se sentem melhores após chorar, certo alívio. Chorar lava a alma que ainda bem não é tão grande nem tão pequena, porque o ser humano produz em média 500 ml de lágrimas por ano!
Composição da lágrima: água, muco, lipídios, proteínas, magnésio, potássio, enzimas antibacterianas, dentre outros. Agora quando as lágrimas são verdadeiras elas são ricas em manganês.
Por causa de uma colombina...
Por que a maior parte das pessoas parece que, instintivamente, tenta disfarçar o choro? "Chorei, não procurei esconder...". É só parte da letra de uma música, "Volta por Cima". 
Ao final da sessão de "Rock Brasília - A Era de Ouro", no festival de cinema que acompanhamos no último weekend, debulhamos em lágrimas. Pudera, Vladimir Carvalho, o diretor do documentário, entrevistava dois roqueiros e convocou Briquet Lemos, pai dos roqueiros Fê e Fábio Lemos, do Capital Inicial, para finalizar a coisa.

O choro contagiante de Briquet
Briquet, cujos depoimentos entremeiam o filme inteiro, retorna à cena e titubeia, engasgado com lágrimas, antes de se manifestar. Num gesto de grandiosa generosidade, responde que aprendeu com os filhos. Fez lembrar o Guimarães Rosa: "A gente aprende mais com os mais novos". Numa entrevista no Festival de Cinema de Paulínia, onde o filme foi vencedor, ele já tinha declarado: "Nós nos contrapomos às tendências que levam famílias a se apoderarem da memória de seus membros, que são pessoas públicas". Quanta sabedoria, quanto preparo pra enfrentar a vida com galhardia.
Nosso "chorado" de Vila Bela da Santíssima Trindade

Pixinguinha, a expressão do chorinho


Um primo, há vários anos, confundiu as palavras. Disse que do olho de alguém escorreu um milagre. Tinha razão, porque lágrimas e milagres não possuem apenas semelhanças na escrita. Então, na verdade, precisávamos dizer que as lágrimas devem ser sempre bem vindas. Fazem parte da vida e de momentos dela em que a emoção preponderou e umedeceu o gesto do olhar. Mesmo que seja uma furtiva lágrima, que remete à ária homônima da ópera "O Elixir do Amor", de Donizetti, esse líquido que orvalha nossos olhos não precisa, necessariamente, ser contido.


"Que distância!
Não choro
porque meus olhos ficam feios".
(Oswald de Andrade)



"Acabou chorare
Ficou tudo lindo".

(Moraes e Galvão)



domingo, 2 de outubro de 2011

Cinema: Oi Brasília!

Brasília tem uma cara que é só dela. Percebemos e vivenciamos o comportamento e atitudes das pessoas e seus registros. A capital brasileira, apesar da pouco tempo, tem uma trajetória muito bacana, que vem sendo construída por pessoas envolvidas e dispostas a fazer parte dessa história.
Sabíamos que o nosso último dia acompanhando o Festival de Brasília ia ser intenso, mas superou todas as nossas expectativas e fomos surpreendidos a medida que as horas passavam.  Começamos com uma palestra sobre a estética audiovisual para celulares, feita por um especialista. Os números são surpreendentes: há mais usuários de telefonia móvel do que brasileiros, no Brasil (obvio!). A nova mídia mostra sua força e seu potencial. Impossível escapar da tecnologia. Bom, depois que já estão experimentando “chipar” o cérebro humano para captar imagens dos nossos sonhos... esperar mais o quê??????


Depois, um passeio pela cidade com o Nicolas Behr, poeta arroz de festa em Brasília. Caminhando com ele pelas espaçosas avenidas, toda hora ele era espreitado, abordado e saudado.  Sujeito engajado. Ele conhece a cidade e sua história como a palma da mão (árvores, sua gente, seus points). Com esse conhecimento pinta e borda sua poesia realista e bem humorada.

 
Igreja N. Sra. Fátima, 1ª do DF

Pequizeiro na superquadra
Com ele fomos conferir um movimento contra a corrupção onde uma galera, em pleno Eixinho (acessível somente aos pedestres e veículos não motorizados, aos domingos), curtia pintando faixas e vendendo camisetas divulgando a Marcha Contra a Corrupção – voto aberto/ficha limpa, que vai rolar no próximo dia 12 em todo Brasil. Mais informações no www.movimentocontraacorrupção.org.br. E de lá fomos bater um rango no Beirute, restaurante tradicional da cidade, fundado em 1964.


À tarde, direto para o Cine Brasília. Acompanhar mais filmes, conversar com pessoas e buscar novidades. Assistimos ao documentário “Rock Brasília – Era de Ouro”, de Wlademir Carvalho, filme emocionante. Choramos até ficar envergonhados. Com uma delicadeza impressionante, Carvalho montou seu longa dechavando entrevistas espontâneas e muitas imagens de arquivo.
Equipe (parte) e diretor de Rock Brasília
 
Euforia coletiva com Rock Brasília

A partir da trajetória de bandas como Legião Urbana, Plebe Rude e Capital Inicial, Wladimir esbanja seu talento para contar histórias, associando rock’n’roll, política, família, engajamento etc. Interessante é que o filme conta a história do rock de Brasília de uma forma cronológica que faz com a gente se sinta inserido, como se fora a também a nossa história. O filme começa com muito humor, torna-se tenso a partir da sua metade e termina num raro tom emocional. Ficamos embasbacados e felizes por obra tão bonita e tocante. Um documentário imperdível. O público ovacionou, gritou, berrou, rock’n’roll.  
Outra arte do encontro que o Festival me propiciou: reencontrar uma amiga, papabanana, radicada em Brasília há vários anos e que ajudou a cuidar deste blogueiro quando criança. Até ai, legal!!! Acontece que Terezinha da Mata, ou melhor Gii, como a conheço, para minha surpresa, estava no elenco do curta “Deus”, de André Miranda. Negra e bela Gii é requisitada para filmes e peças publicitárias, pelas produtoras brasilienses. Emoção e alegria rever Gii e sua filha, Gisele.
Gii, Lorenzo e Gisele
O Festival ainda está rolando. Termina nessa segunda, quando serão anunciados os vencedores de 2011. Foi um grande prazer estar aqui. Muita gente jovem, interessante, fazendo deste festival o melhor do Brasil.

Joel Barcellos, o "astro"


Tietagem da braba. Baba baby


Esse é nosso!!!!