terça-feira, 1 de novembro de 2011

Novas batutas

Vozes e instrumentos de sopro ecoando num antigo prédio na região mais central de Cuiabá. Noite de segunda-feira, diferente das últimas: tranqüila, agradabilíssima. No estacionamento do Palácio da Instrução tentamos fotografar o luar de um ângulo onde a lua brinca de esconde esconde com a escassa folhagem da palmeira imperial. Nossa capacidade com uma câmera, e a própria máquina, nos impede. Algumas fotos na insinuante escadaria que leva ao Salão Nobre acontecem, enquanto a cantoria e os sopros ficam mais fortes. São os preparativos finais para a apresentação desta terça, que celebra o encerramento do curso de regência que vai potencializar a vocação musical de Mato Grosso.

Foram seis meses de curso de regência para coros, bandas e fanfarras. Os futuros regentes são de Cuiabá e de outras cidades. Os maestros Carlos Taubaté e Murilo Alves são os responsáveis pela materialização do projeto, cujo êxito, já garante sua continuidade em 2012. A Secretaria de Estado da Cultura, essa mesma que a gente provoca aqui de vez em quando (sempre é preciso fazer isso), merece crédito nesta iniciativa.






Vale lembrar que onde há um regente, cabe pelo menos uma dezena de músicos. Murilo Alves destaca que hoje, em Mato Grosso, é mais fácil conseguir instrumentos e montar uma banda, do que achar um regente capacitado. E os novos regentes, oxalá, deverão agir na contramão dessa carência. Não precisa ser um músico de carteirinha, acadêmico, ou escolado, pra saber que na música coletiva, o regente é a figura principal. É ele o grande chefe malacuiauê, como diriam os índios lá do Xingú.


Além de pensar e elaborar textos quase todos os dias, a dupla do Tyrannus faz outras coisas, entre elas, participar de um coral. Uma atividade onde aprendemos música, canto, convivência, coletivo, nos dá prazer e alimenta o espírito. Qué mais o que?  




Uma olhadinha no ensaio do coro, uma bisoiada na banda, lá e cá, fotografando e reparando nas pessoas que vão tocar, cantar e no nervosismo dos futuros regentes. E depois, pra coroar acompanhamos o coro e a banda atuando juntos. De arrepiar, lindo! Deu pra apostar nossas fichas num belo espetáculo nesta terça, a partir das 20 horas no Cine Teatro Cuiabá. No repertório interessante mistura de erudito e popular. A apresentação contará com o reforço de músicos do Instituto Ciranda, da Orquestra Jovem de Nova Mutum e do Madrigal do Avesso.

Os ingressos, uma pena, talvez não sejam suficientes para todos que queiram ir. Cada aluno recebeu uma cota que deve distribuir a familiares e amigos. Mas não custa nada dar uma ligadinha para a Secretaria de Cultura (3613 0201) pra checar se ainda rola. É isso aí... Como se costuma dizer ao ator que vai entrar em cena... Merda!!!      




segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Rosalvo Caçador


Rosalvo hoje
Cinema é arte poderosa que congrega praticamente todos os outros fazeres artísticos. Desde a última segunda-feira Cuiabá vinha experimentando a maioridade do maior evento mato-grossense do audiovisual. Além de seis ou mais horas diárias de projeção de vídeos, curtas, médias e longas metragens; oficinas, debates, mostras paralelas e outros derivados rolaram na cidade. O 18º Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá virou Cinemato, uma denominação interessante. Nome novo, problema velho: o público que comparece às sessões, no geral, somando todos os dias, não corresponde à trabalheira e ao investimento que rola para a produção de um evento desse porte. Uma pena.

E nem vamos enveredar por esse assunto aqui. Não há a intenção de culpar ou desculpar quem quer que seja. Sobra lamentar e, infelizmente, desconfiar que o cuiabano não gosta tanto assim da sétima arte, pelo menos no que se refere ao cinema brasileiro. “Acompanho festivais por aí e quase sempre as salas estão cheias”, diagnosticou uma mulher que viaja por esse mundo afora e acaba de se mudar pra Cuiabá. Mas, todos os anos, há uma galera que bate ponto e comparece. Como estes blogueiros aqui. Neste ano, por razões profissionais, não sobrou tempo e o Tyrannus só compareceu no último dia.


A Herança, com Rosalvo (1970) 


O Cinemato homenageou Rosalvo Caçador neste ano. Um ator brasileiro das antigas, radicado há décadas em Cuiabá. Rosalvo, entre 61 e 75, trabalhou em mais de 20 filmes, atuando sob a direção de cineastas significativos da cinematografia brasileira como Mazzaropi, Ozualdo Candeias, Walter Hugo Kouri, Zé do Caixão e Carlos Reichenbach. Estava enfatiotado no foyer do Cine Teatro Cuiabá esbanjando simpatia, no aguardo da projeção de “A Herança”, de Ozualdo Candeias, filme de 1970, onde é narrada uma história baseada em Shakespeare. 
Me descobriram...

Festival de cinema sem tietagem dá aquela sensação de que ficou faltando alguma coisa. Se aparece algum ator de cinema, que também mostra a cara em novelas, pronto: o assédio é infalível. Neste ano sobrou para o ator Heriberto Leão, que integrou o júri oficial. Heriberto, gentil e paciente, deixou-se fotografar ao lado de inúmeras mocinhas. Isso só no domingo, mas ficamos sabendo que ele foi assediado diariamente. Neste último dia, veio com um bonezinho na cachola, não sabemos se pra diferenciar o visual, ou pra tentar passar despercebido, mas não deu certo.

Beth Formaggini, premiada com Angeli 24 horas


Uma coisa curiosa que costuma acontecer em nosso Festival é a presença de um público bem maior em alguns filmes prata da casa. Têm vezes que o cinema chega a ficar lotado e, terminado o filme do realizador regional, a plateia desaparece como que por encanto. Que coisa! Ouvi dizer que isso também acontece em outros festivais por aí. Não me parece um procedimento muito adequado, sei lá, parece coisa de torcida organizada e algo assim meio provinciano, bairrista. Ou será que vão só pra votar, porque o júri popular também pesa? Digo isso, porque nem todos os realizadores de Cuiabá precisariam desse artifício para ganhar um troféu. 


Como não acompanhamos o Cinemato em seu passo a passo e não tive saco pra acompanhar a premiação, coisa que sempre atrasa e se prolonga, preferi voltar pra casa, em tempo hábil pra assistir pedacinho de um documentário sobre a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ficou órfã recentemente. A gente aproveita e dedica este humilde post ao Leon Cakoff, idealizador da Mostra e grande entusiasta da sétima arte. E chega de conversa, porque tá tarde e a segundona braba vem vindo.




Os vencedores do Cinemato

Júri Oficial:

VÍDEO
Melhor Vídeo: Elogio da graça
Direção: Pcycle
Edição: Elogio da graça
Prêmio Especial do Júri: Mopo-i: O menino manoki
Fotografia: Mañhana cest carnaval
Roteiro: Rai sossaith
Melhor vídeo mato-grossense: Ao relento

CURTA METRAGEM
Melhor Filme: Depois da queda
Direção: Angeli 24 horas
Montagem: Angeli 24 horas
Fotografia: A fábrica
Interpretação: Fábula das 3 avós
Roteiro: Depois da queda
Prêmio especial do júri: A fábrica
Menção honrosa: Acercadacana
Trilha sonora: Angeli 24 horas
Direção de arte: A obscena senhora D

MÉDIA METRAGEM
Melhor Filme: A musa impassível

Júri Popular
Vídeo: Ferocidade entre a urbe e a flora
Vídeo mato-grossense: Mopo-i: O menino manoki
Curta: Depois da queda
Média: A musa impassível

LONGA METRAGEM
Melhor Longa: Estamos juntos:
Direção: Estamos juntos
Roteiro: Estamos juntos
Interpretação: Estamos juntos
Fotografia: Mãe e filha
Som: Estamos juntos

O crítico Cid Nader trocando ideias com algum realizador


domingo, 30 de outubro de 2011

Cinco dias sem Nora


Filmes que não requerem grande esforço para ser entendidos, e que nada chama tanta atenção em matéria da técnica cinematográfica, mas que valem a pena ser assistidos.  Porque são histórias bonitas e, acima de tudo, bem contadas. Sempre lembrando que tudo que é escrito aqui, ou quase tudo, está impregnado por uma dosagem de opinião pessoal. “Bem vindo” (França/2009) e “Cinco dias sem Nora” (México/2008) são os filmes que fizeram a nossa cabeça nos últimos dois dias e chegou a hora de repassar. É difícil discorrer sobre dois filmes sem comparações, similaridades ou as dissimilaridades.



Em “Cinco dias sem Nora”, dirigido por Mariana Chenilla, o discurso é o passado e Nora, personagem ausente é, talvez, a principal protagonista. Os acertos e erros de vidas em comum são passados a limpo e o presente é ajuste de contas, dos ponteiros do relógio. Na vida conjugal o amor costuma ser subjugado pelas mágoas, dúvidas, descontentamento e tristezas inexplicáveis. Este drama, com leves pitadas de humor, roteiro pela própria diretora, desenvolve-se a partir de uma situação totalmente inusitada que vai colocar em xeque conflitos religiosos e as delicadas relações entre as pessoas.  




Em “Bem vindo”, direção de Philippe Lioret, não há passado. O presente é a preparação para o futuro. Um jovem iraquiano se submete a um longo trajeto por terra e mar para, ilegalmente, tentar chegar a Londres, onde está a sua amada. Na França, em dificuldades para seguir viagem, aproxima-se de um ex-atleta, professor de natação e a relação entre eles é o fio da meada no desenrolar da história. O professor, que separou-se recentemente da esposa, descobre que não foi capaz de caminhar nem dez metros quando a mulher disse que o abandonaria. Vê, então, no exemplo de um jovem inexperiente, que correr atrás do amor pode ser algo recomendável. Ou não!
  
Os dois filmes em questão nos transportam para o complexo terreno das relações humanas. Deixam transparecer que, por mais complicada que seja a situação, dá-se um jeito. E depois, não há mesmo outra coisa a fazer a não ser encarar os fatos e tocar a vida.   





 

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Parna Chapada dos Guimarães


Que maravilha, que privilégio viver a menos de 60 km de um Parque Nacional, no caso o de Chapada dos Guimarães. Visitar uma unidade de conservação, depois de quatro dias confortavelmente instalados, em poltronas macias, ar condicionado a mil, atentos e às vezes nem tanto, às experiências e debates com a participação de uma dezena de experts na área de turismo em unidades de conservação, partimos com 40 congressistas, entre alunos de graduação, professores e empresários, para a mais próxima e bela área protegida de Cuiabá.
O jornalista e ambientalista Marcos Sá Correa diz que os europeus criaram os museus para perpetuar e socializar os  fabulosos acervos produzidos pela inteligência e cultura humana e que o maior legado dos americanos ao mundo foi a ideia dos parques nacionais, que promovem a reaproximação do homem com a natureza, protegendo significativas e importantes áreas, de possíveis alterações provocadas pelo homem.  






O Parque Nacional Chapada dos Guimarães foi criado devido à reivindicação de ambientalistas e de Ongs da região, em 1987. Seus objetivos, de acordo com a legislação, são: “preservação de ecossistemas naturais de relevância ecológica e beleza cênica, possibilitando a realização de pesquisas científicas e o desenvolvimento de atividades de educação e interpretação ambiental, de recreação em contato com a natureza e de turismo ecológico”. Essa citação é clara e cristalina como as águas que nascem na área protegida.    
    




Morar perto desse Parque e conviver com essa proximidade requer reflexões. De que forma, por exemplo, as sociedades cuiabana e chapadense se manifestam em relação ao Parque Nacional de Chapada dos Guimarães? Os chapadenses parecem mais envolvidos, principalmente o comércio e a administração municipal, mas com posicionamentos controversos e grotescamente errôneos em relação à sua administração e seus objetivos conservacionistas. Cuiabá, que detém a maior porção da área em seu território, parece não enxergar o Parque como um vetor de oportunidades de negócios, de desenvolvimento intelectual,de lazer e recreação para sua população. Caso o Parque não existisse, muito provável, a especulação imobiliária seria muito mais interessante para alguns setores da sociedade.



Nossa chegada ao Parque foi pela manhã. Fomos recebidos pelo seu chefe e dois analistas que repassaram um pouco da história, das perspectivas de futuro, dos problemas e, principalmente, como aconteceria a viagem técnica, que estava prevista como parte da programação do Congresso de Natureza, Turismo e Sustentabilidade.  


Passeamos pelas trilhas e visitamos cachoeiras e locais de rara beleza durante quatro horas aproximadamente. Uma canseira braba, mas sempre amenizada pelas refrescantes águas e as cachoeiras aliviando a tensão. As paisagens espetaculares e os detalhes da fauna do cerrado completavam essa experiência única, que brota desse contato respeitoso com a natureza. A dupla aqui do Tyrannus, que conhece a região, muito antes da implantação do Parque, claro que se esbaldou e relembrou dos “velhos tempos”.



Encontramos, por acaso, com o Prudêncio de Castro, professor da UFMT com uma turma de alunos. Geólogo referiu-se assim quando nos avistou: Olha lá um Tyranossauro Rex!!! Tyrannus Melancholicus é um ave, os cientistas dizem que as aves são répteis evoluídos!! Tudo a ver.
O Parque Nacional de Chapada dos Guimarães é inesquecível. Ouvi de repente o Lorenzo dar um grito quando entrou debaixo da cachoeira. Um cara do meu lado disse que era um grito primordial. E que devemos tentar dar uns gritos primordiais, de vez em quando, faz bem. Não entendi bem, mas achei legal!
Ontem dissemos que ficamos “pedestres” por seis anos, isso não é verdade: somos pedestres por natureza: andamos, caminhamos. Somos seres terrestres.  
Resolvemos registrar a emoção e a alegria que vivemos hoje. Dedicamos nossas palavras e imagens, especialmente, aos congressistas que compartilharam conosco este dia divertido, mas também de muito conhecimento.

Que maravilha, que privilégio viver perto de um Parque Nacional, pense nisso e invista: você vai gastar pouco, ganhar muitas horas felizes, muito sol, água fresca, ar puro, paisagens deslumbrantes e muiiiiitas lembranças, registradas ou não em fotos e filmes, desses momentos com a natureza.





sob cachoeira
o homem é caverna:
poesia grita (LF)

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Carro novo

Depois de seis anos, eis que vamos encarar os problemas da mobilidade urbana,  motorizados.  Um carro não fazia parte dos planos, aconteceu... um presente irrecusável. Pra um dirigir, nunca foi prazeroso, pro outro nunca soube o que é lidar com um veiculo motorizado. Não quer, recusa-se terminantemente.
Mas, nem tudo está perdido. Pelo contrário: ter um carro significa um montão de vantagens. O direito de ir e vir funciona de forma muito mais ágil (esperamos). E não sou capaz de me imaginar perdendo a paciência, sofrendo e xingando no meio desse trânsito caótico que vigora em Cuiabá (!???). Depois de ter sido pedestre por meia dúzia de anos, não vai ser um sinal fechado o objeto do desejo de meu ódio.  Tem outra coisa, andar de taxi não dá mais, tá muito caro. Até um tempo atrás compensava, agora não mais.
Vou ter saudades das viagens de ônibus (não das horas que fiquei esperando nos pontos, do desconforto, do calorão), mas das pessoas, dos acontecimentos,  que até me divertida, reparando nas pessoas e na cidade, pelas molduras das janelas. Essa andação de ônibus, aliás, me inspirou muitas crônicas. Posso dizer que sou um privilegiado porque, nunca precisei do transporte coletivo em horários de pico.


Mas a vida passa. Dirigindo meu gol branco, cor da paz, me antevejo num sinaleiro emparelhado com um leitor deste blog. “-Olá! Como vai? -Eu vou indo. E você, tudo bem? -Tudo bem! Eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro... E você?”

No trânsito louco de cada dia, a faixa de segurança combina com um diálogo amistoso. Minha vida de pedestre muita coisa me ensinou. Por exemplo, não sentir tanta raiva enquanto me locomovo pela cidade. Raiva, sabe, não presta pra nada. Pode ser resultado de uma falta de comunicação, de uma noite mal dormida... etc! “-Tudo bem! Eu vou indo, em busca de um sono tranquilo... Quem sabe? –Quanto tempo! –Pois é, quanto tempo!”


Êta mundão acelerado. Tempo é o que nos falta cada dia mais. Fugir dos engarrafamentos, passar os outros pra trás... Leis do bicho homem/coisas do trânsito. Até chegar num sinal vermelho e ter que parar. O palavrão quase saindo da boca pra fora. Não posso perder tempo porque meus compromissos me aguardam. “-Me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios! –Qual, não tem de quê! Eu também só ando a cem! –Quando é que você telefona? Precisamos nos ver por aí! –Pra semana, prometo, talvez nos vejamos... Quem sabe?”

Uma bela experiência em minha vida de pedestre, coisa recente. Atravessar a faixa e fazer com que os carros parem e aguardem minha travessia é coisa que gosto de fazer. É meu direito. É lei. Mas o faço com prudência, porque não sou suicida. Outro dia ousei e percebi que vinha um carro veloz, que freou e aguardou minha passagem. Fiquei meio sem graça e achei que o motorista estaria puto da vida... Percebi, com o canto do olho, que ele abria o vidro. “Vai me xingar”, imaginei. Virei o rosto e olhei pra ele assim mesmo. “Me desculpe... foi mal!”. O motorista arrasou.
Direção defensiva é isso aí e muito mais comportamento decente. “-Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das ruas...”. Por falar em tanta coisa a dizer, nós aqui do Tyrannus adoramos os comentários que nos chegam... Mesmo que seja algo mais ou menos do tipo: “-Eu também tenho algo a dizer, mas me foge à lembrança!”