domingo, 20 de novembro de 2011

"Em cena"

"A era do rádio"
Duas apresentações do Coral Sescanta abriram nossa temporada de fim de ano. Depois de sete meses ensaiando e curtindo de montão essa história de soltar a voz, com um repertório bastante variado, subimos no palco do Sesc Arsenal sábado e domingo. Era hora de mostrar nosso trabalho coletivo, participando das apresentações dos grupos musicais que esse “S” mantém.

Na plateia um público entre 150 e 200 pessoas. Cremos que gostaram da nossa performance, porque os aplausos foram calorosos. O interessante é que, além da questão musical, desta feita, houve a orientação de que cada coralista adotasse um figurino que remetesse aos anos 50, quando o rádio era o grande canal de comunicação.

"Mulheres à beira de um ataque de nervos"


"O incrível exército de Brancaleone"


As mulheres entram em parafuso atrás de modelitos, penteados, badulaques, acessórios, maquiagem. Da parte dos homens, muitos bigodinhos, daqueles bem cretinos, chapéus, suspensórios, gravatas. O cenário: um programa de rádio com plateia, simulando um estúdio daqueles de antigamente com apresentações ao vivo para uma público ardoroso.



"O mágico de Oz"

"Assim era Hollywood"

"Ensina-me a viver"


"Esplendor na relva"


"Vestida para matar"
 

"Eles não usam black tie"


Antes, durante e depois das apresentações foi um tal de “cada pose um flash”.  As fotos aqui postadas (algumas do blog Fuzuê das Artes, e outras nossas), trazem legendas que remetem a filmes. Foi uma tentação irresistível se deparar com toda essa produção visual, concebida pela cabeça de cada coralista. Vai aqui a nossa brincadeira e um grande carinho por todos que integram o Sescanta.   


"Sob o céu que nos protege"

"Garotas selvagens"
 
"O poderoso chefão"


"Flores de aço"


"O pecado mora ao lado"


"A última tentação de Cristo"


"Dona Flor e seus dois maridos"


"Faça a coisa certa"

 

"Laços de ternura"

sábado, 19 de novembro de 2011

Ode a Keats


“Brilho de uma Paixão”, filme sobre John Keats (1795-1821), poeta inglês, considerado o último romântico. Hoje incensado e canonizado pela crítica literária, Keats, morreu com apenas 25 anos, acreditando ser um fracasso. Olha, a combinação de cinema com poesia é uma tentação cá pra nós.

Somado a isso, o fato de que a direção é de Jane Campion, cineasta neozelandesa de “O Piano”, filme que acumulou prêmios em 1993, entre eles, Oscar, Globo de Ouro, Palma de Ouro e Bafta. Quem faz um filme como “O Piano”, é quase certo, não fará algo tão desprezível. De fato, desde o começo de “Brilho de uma Paixão”, percebe-se que estamos diante de um filme sensível, inteligente e produzido esmeradamente.

O“Brilho de uma Paixão” estava gravado há alguns dias, na sexta-feira chegou a sua hora aqui em casa. Peguei um livro de John Keats que já li avidamente, para reler alguns poemas e me inspirar. Não foi a coisa correta, talvez, porque poesia romântica é coisa do passado e não é qualquer hora que a gente sai lendo poesia e se convence. Para ler poesia, também é preciso de inspiração. Acho que isso me faltou. “Esse John Keats é um chato”. Sim, cometi esse sacrilégio. Não espalhem, por favor.
Pouco depois, firmei os olhos no filme que estava rolando, assim, meio invejoso, porque uma parte do Tyrannus já se mostrava embevecida com ele. Que beleza, quanta poesia no filme. Uma poesia visual. Imagens surpreendentes que mais pareciam uma sequência de obras de arte. E que interpretação de elenco, quanta verossimilhança na narrativa em torno da vida de Keats, aqui mostrado totalmente envolvido com a sua poesia e com a paixão correspondida, mas não consumada, por uma bela jovem. 


“Brilho de uma Paixão” me remeteu ao título de um livro incrível do mato-grossense Ricardo Dicke, “O Salário dos Poetas”. Sem conseguir ganhar dinheiro com seus versos e, atolado em dívidas, Keats comeu o pão que o diabo amassou. Por causa das dificuldades financeiras, renegava seu amor. Para completar, como romântico que se presa, tratou logo de contrair uma grave doença pulmonar. 
Pouco a pouco, fui me envolvendo totalmente com a história. Lemos  uma crítica sobre o filme, classificando-o como um quadro. Não há como negar essa força pictórica que emana da obra. Mas também o julgamos como um grande e belo poema, pela qualidade do roteiro e dos diálogos apresentados. Ao final, um magnífico poema de John Keats é descortinado. E a poesia romântica desse autor mostra-se altaneira e inspirada. Um filme terno e justo, à altura do grande poeta.     
"Aqui descansa um homem cujo nome está
escrito sobre a água"
Ode a um Rouxinol
Meu coração dói, e um torpor aflige
Meus sentidos, como se ébrio de cicuta,
Ou sorvido algum vapor de ópio
Um minuto passou, e no Letes afunda:
Não é inveja de teu fado feliz,
Mas feliz em tua felicidade -
Tu, lúcida - alada Dríade do bosque,
Em tal melodiosa trama
De faia verde, e de sombras inúmeras,
Cantaste o Verão à plena garganta.

Ó fruto da vinha! Que repousas
Tanto tempo na profunda terra,
Degustar de flora e verdes campinas
Dança, canção provençal, e diversão,
Ó taça cheia do caloroso Sul,
Cheia de real e rubra Hippocrene,
Com espuma cintilante até a borda
E a manchar a boca púrpura,
Que beberei, e deixar o mundo não-visto,
E contigo sumir na floresta sombria:

Afaste, dissolva, e esqueças tudo
O que entre as folhas jamais conheceste,
O tédio, a febre, a irritação
Aqui, onde os homens em gemidos mútuos
Onde o torpor abala tristes cãs,
Onde os jovens pálidos, débeis, morrem,
Onde pensar é ser cheio de mágoas
E desespero no olhar;
Onde a Beleza perde o olhar lustroso,
Ou o Amor gasta-se no dia seguinte.

Para longe! Eu desejo voar contigo,
Não guiado por Baco, e seus convivas,
Mas nas invisíveis asas da Poesia,
Mesmo que a mente se atrase confusa:
Estarei contigo! Suave é a noite!
E por sorte a Rainha-Lua no trono,
Cortejada por suas brilhantes Fadas;
Mas aqui lua não há
Salvo a brisa que desce do céu
Em penumbras e trilhas sinuosas.

Não posso ver flores aos meus pés,
Nem o incenso a flutuar sobre os ramos,
Mas, nas trevas suaves, aprecio cada um
Onde a bela estação oferece
A grama espessa, e a árvore silvestre;
O espinheiro-branco, e a flor pastoral;
Violetas a murcharem sob as folhas,
E o broto de plena Primavera,
O almíscar-rosa, de vilho orvalhado,
O zumbir de moscas em tardes de Verão.

Sombrio eu ouço; e por muito tempo
Meio atraído pela suave morte,
A chamei com nomes doces nas rimas,
Para arrebatar meu fôlego calmo;
Pois parece proveitoso morrer,
À noite, cessar tudo sem dor alguma,
Enquanto derramas toda a tua alma
Em semelhante êxtase!
Cantarias ainda, em vão, meus ouvidos
Ao teu nobre requiém viraram relva.

Não nasceste para morrer, ave eterna!
Gerações ávidas não te derrubam;
Ouço nesta noite a voz já ouvida
Outrora por imperador e curinga;
Talvez a mesma melodia na trilha
Ao triste coração de Rute, saudosa,
Ansiava o lar, em pranto, no exílio;
O mesmo a encantar outrora
Mágicas janelas, abertas à espuma
De mares bravios, em terras lendárias.

Desolado! as palavras ressoam
A levar-me de ti à minha solidão!
Adeus! A fantasia não ilude
Como dizem, ela, a falsa ninfa.
Adeus! Adeus! Teu queixoso hino finda
Além das campinas, além dos riachos,
Além das colinas, já sepulto
Nas clareiras do vale próximo;
Foi uma visão, ou um devaneio?
Foi-se a melodia - acordei ou durmo?

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Amigos presentes

Ítalo Calvino
Nós temos muita sorte. Amigos e parentes comumente nos presenteiam com livros. E isso é muito bom. Mauricio Leite nos apresentou a literatura infanto-juvenil e dezenas de escritores e desenhistas/ilustradores fantásticos.  Encontrar com ele é deleite com histórias primorosas, edições esmeradas e ainda sair com algum exemplar pra dar pras crianças (que crianças? nós mesmos, bobó). Mauricio, hoje, mora em Portugal. Trabalha na África, nos países de língua portuguesa levando sua mágica mala de leitura. Saudades...

"De leite"
Recentemente ganhamos de outro amigo, o Nicolas Behr (aquele de Brasília) um livro maravilhoso, “As cidades invisíveis”, de Ítalo Calvino (Companhia das Letras). O autor, cubano de nascimento, é um dos maiores escritores italianos do século XX.

Zenóbia, a cidade delgada

“As cidades invisíveis” está nos inebriando. Tal qual Scherazade provocou no seu sultão, com as histórias das mil e uma noites. Em as cidades... o narrador é o navegante e comerciante Marco Polo, que descreve ao Imperador Kublai Khan, as cidades de seu imenso império. Dois personagens universais: o primeiro, um navegante errante; o outro, imobilizado pelas dimensões grandiosas de seu poder. 


Como Marco Polo, de Veneza, desconhecia o idioma de Kublai Khan, que era da Mongólia, expressava-se através de objetos, gestos, saltos, gritos de maravilhado ou de horror, e imitação de animais. Há dúvidas se o Imperador acreditava em tudo o que o viajante lhe contava. Com o tempo, Marco Polo aprendeu a usar as palavras com desenvoltura, mas, em alguns momentos, as palavras lhe faltavam e ele voltava a utilizar os gestos e expressões faciais e corporais.
As cidades do império Khan, visitadas pelo veneziano, têm nomes femininos. Como Isidora: a cidade sonhada, que só se chega em idade avançada, portanto lá os desejos são recordações. Em Zaíra: a cidade não conta seu passado, ela o contém.  E assim você viaja a Anastácia, Tamara, Zora, Despina, Eufêmia (a cidade em que se troca de memória em todos os solstícios e equinócios), entre outras.

Isaura, a cidade dos mil poços
  
"As cidades..." visão de Nora Sturges

 “Você viaja para reencontrar seu futuro?”, pergunta Khan. “Os outros lugares são espelhos em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá”, explica Marco Polo.



Inexplicavelmente, não é um livro para se devorar com avidez. É para sorver delicadamente seu texto, que nos conecta com a realidade. E nos faz pensar qualé a da nossa cidade, esse espaço que estamos construindo?

Quem traduz essa preciosidade é ele, "a anta": Diogo Mainard


quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Os falsários


A arte imita a vida, diziam os antigos. Reproduzir a realidade, seguindo essa linha de raciocínio, é coisa de artista. Mas, tem artista que quer mais é fazer arte noutros sentidos. Habilidades gráficas superlativas, por exemplo, podem ser direcionadas para diferentes funções. Salomon Sorowitsch, um talentoso judeu que viveu em Berlim, genial em copiar a realidade. Exímio falsificador de documentos, em especial de dinheiro. Por esses motivos foi vitimado pelo Nazismo, uma das maiores aberrações já registradas na história da humanidade.

Esse é o ponto de partida de “Os Falsários”, que faturou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2008. A história verídica de um sujeito que, praticamente, capitaneou a maior falsificação monetária da qual se tem notícia, praticada pelos nazistas, é narrada com maestria pelo diretor austríaco Stefan Ruzowitsky. Um daqueles cineastas europeus que costumam ser subestimados no Brasil, enquanto os enlatados americanos continuam a chegar em pencas.


Stefan Ruzowitsky, Oscar genuíno

Com uma trilha sonora magnífica, à base de muito tango, e uma fotografia rica, “Os Falsários”, também escrito por Ruzowitsky, é uma obra forte, que merece a atenção de todos. Está muito longe de ser mais um filme a abordar o nazismo. Há originalidade e talento nesta concepção. E há também generosidade, isenção e inteligência; qualidades presentes de forma sutil ao longo de toda a narrativa.


O falsário-mor

O filme se baseia em livro autobiográfico escrito por Adolf Burger, outro judeu, protagonista real desta história. Ele foi tipógrafo, preso pelos comandados de Hitler, por falsificar certificados de batismo que livravam a pele de muitos judeus. Burger, aliás, teve participação marcante no desenvolvimento do roteiro e da produção, apoiando o cineasta Ruzowitsky.

 Burger, escrevinhador da operação

August Diehl  (Burger) e Karl Markovics (Salomon Sorowitsch)
olho no olho

“Os Falsários” nos faz questionar principalmente valores éticos. Posturas e ações cometidas, quando a nossa própria vida está em jogo colocam o espectador em xeque. A profundidade psicológica pega pra valer e envolve quem assiste.


A trajetória:

do campo de concentração
  
 a Monte Carlo


terça-feira, 15 de novembro de 2011

Cuiabá contra corrupção

 Fazia tempo que não tinha um dia assim em Cuiabá. A chuva começou a cair na noite de segunda-feira e se estendeu ao longo de toda a terça. Dia cinza. Monocromático. Cuiabá sem sol não é Cuiabá. Dentro de casa, as telas dos nossos artistas iluminam nossos olhos, guardam a luz e a força do astro rei.
É só amainar a chuva pra uma revoada de aleluias ou siriris (cupins vestidos de noivas) inundar o ar. Em voos alucinados buscam seu par. Quando encontram, despem-se de suas asas nupciais, que não são mais necessárias. São reis e rainhas de um império que começam a construir.




Chuva branda, que nos remete à função da água de limpar, lavar e fazer escorrer pelo ralo uma parte mais emporcalhada da história brasileira: a corrupção. Uma centena de pessoas, mais ou menos, não fugiu da chuva e compareceu à Marcha Contra Corrupção, na velha Praça Ipiranga. O coreto da praça foi tomado de assalto pelos manifestantes e para lá convergiam as atenções de todos. Hipoteticamente, seriam apenas 98 pessoas, se excluídos os dois representantes do Tyrannus que pontificaram.



Gente de todos os tipos em todos os sentidos. Muitos colegas e amigos da imprensa e, mesmo os que estavam trabalhando, expressavam uma certa dignidade, acompanhada pela revolta por ter que conviver com a impunidade que ainda é destinada a grande maioria dos corruptos. Tudo muito simbólico, na roupas e nos gestos. As manifestações pelo microfone, que estava livre, eram mais calorosas e se valiam da liberdade de expressão.

A Marcha, que aconteceu em várias capitais brasileiras, centraliza suas reivindicações em três itens básicos: o fim do voto secreto nos legislativos, a aprovação da lei da ficha limpa e tornar a corrupção crime hediondo. Cá com nossos botões e com um tiquinho de ingenuidade, mesmo que dissimulada, uma boa catracada no judiciário em níveis estadual e nacional, até que ia bem, já que, uma frase de efeito que tem acompanhado a Marcha é “a impunidade é a mãe da corrupção”. A respeito da expressão catracada, por favor, entendam da forma que quiserem.

Manifestação em Brasília

e em São Paulo, debaixo de chuva.
 “Fulano comprou São Pedro”... Disse-me um amigo jornalista logo que chegamos na Ipiranga. Ele mencionou o nome de um político, o qual, eu apostaria que mais de 99% dos nossos leitores deve saber de quem se trata, mas, seguindo a orientação de nossa equipe de assessoria jurídica e advogados associados que defendem os interesses de nossa jurisprudência, optamos por não registrar aqui o nome do político dito cujo.
Aqui no lar do Tyrannus foi assim. Enquanto uns foram pra Marcha Contra a Corrupção, teve "gente" que, depois de inúmeros ataques e perseguições aos siriris em revoada, repousa num sono tranquilo. A corrupção não é da índole dele, não está nem aí pra paçoca. Diferentemente do que disse um vereador no interior de São Paulo: a corrupção é da índole humana.

Marchar contra corrupção? Eu vou.

Há 122 anos o Brasil deixou de ser Império e se tornou uma República. Uma data importante para a história brasileira. Só que a realidade atual quis que neste 15 de novembro de 2011 o povo brasileiro improvisasse um outro evento: a marcha contra a corrupção. Essa praga que assola o país de ponta a ponta e com a qual somos obrigados a conviver. Em Cuiabá, com o sol causticante das três da tarde, com o agravante do horário de verão, é o primeiro adversário para que a mobilização corresponda à expectativa.
Marcha Contra Corrupção. Eu vou... Ou melhor: nós vamos, com chapéu e filtro solar. Bom, até esta hora da noite, quando foi feito este post, estamos firmes no propósito de comparece à marcha. Em 1985, o slogan “Eu vou...” foi usado para primeiro Rock in Rio, a dupla aqui do Tyrannus encarou e foi. Tudo bem que se passaram mais de 26 anos quando pegamos o “busu” e enfrentamos os mais de dois mil quilômetros para conseguir o intento, o que quer dizer que já não somos tão jovens. Mas, daqui de casa até o centro da cidade, são só uns 15 quilômetros. Não é possível que a gente não consiga ir.




A concentração está marcada para a Praça Ipiranga, a partir das 15h. E deve acontecer no Brasil inteiro. E em sete de dezembro próximo acontece o Dia Internacional de Combate à Corrupção. Claro que apoiamos essas manifestações, mas é difícil não raciocinar que, se a gente não tem conseguido um combate significativo à corrupção por aqui, em nossa própria cozinha, não parece muito oportuno participar de algo internacional contra a corrupção. A não ser que seja apenas simbólico, só pra constar.

Praça Ipiranga, 1978

Pescamos informações por aí que registram a participação do Ministério Público Estadual na iniciativa. Olha, o MPE, apesar de nem tudo estar perfeito, tem se mostrado um amparo para boa parte da população, que continua cansada de presenciar tanta bandalheira. Critica-se o estrelismo de alguns integrantes dos MPs (estadual e federal), que acabam sucumbindo ao amor próprio... A vaidade sempre foi um problema para algumas pessoas. Mas é injusto dizer que, desde a sua criação, na Constituinte de 88, os Ministérios Públicos nada fizeram.