quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Filosofia + ócio = felicidade

Nosso post hoje é motivacional. Queremos estimular a quem nos lê a enfrentar tarefas árduas, que implicam em encarar com garbo e coragem o calor cuiabano. E quebrar a rotina. Fazer algo diferente, inusitado, debaixo desse sol estarrecedor que cozinha nossas cabeças. Muita gente que nos encontra, pergunta como é que conseguimos tantos assuntos. Ora, esta dupla aqui está sempre indo à luta. Em busca de estímulos e experiências que valham a pena.

E confessamos: hoje cometemos um exagero. Submetemo-nos a usar os próprios fazedores do blog a um atrevimento, talvez, descabido para alguns. Nos propusemos a ser verdadeiras cobaias humanas, dessa experiência. Aceleramos nossos afazeres matinais e, logo no início da tarde, rumamos para um discreto curso d’água, 40 km, malemá, de Cuiabá, na direção que leva a Chapada dos Guimarães. E vivenciamos com incrível voracidade o causticante sol a pino. Na bagagem filtro solar, sunga e biquíni, nos pés o bambolê (havaiana), toalha de banho, uma dessas água mineral H2O (ô trem sem graça) e o que mais? Ah, sim. Nossa máquina fotográfica indefectível, que só no caminho percebemos que estava sem a bateria.



Sei lá há quantos anos não íamos nesse lugar. A pequena ponte que passa sobre o Rio Claro era um mero local de passagem. Desta vez, lá paramos. Grande expectativa a nossa. Como estaria o local? Como essa arrojada pauta repercutiria em nosso texto? Quem ou quantas pessoas lá encontraríamos? Essas e muitas outras perguntas, nossos visitantes terão que descobrir por conta própria no decorrer das palavras e imagens que aqui estão. Vocês sabem que o Tyrannus não costuma se preocupar muito em deixar tudo tão (rio) claro. E temíamos pelas imagens captadas, já que todas foram feitas por nossos celulares.


Bom, o que vimos e experimentamos, foi bom. Muito bom. Ótimo. Quase excelente. Recomendamos, que de vez em quando façam algo assim. É difícil sair da rotina. Mas faça por você! Tomar um banho de rio... num ambiente tranquilo, refrescante, com suas águas cristalinas e frias. Ficar de bobeira olhando os cardumes de lambaris, riscadinhas e piquiras alvoroçados nos farelos de petiscos e sentir e rir com seus beliscões pelo corpo. Tem ainda de lambuja o murmúrio das águas e canto de passarinhos na mata.  




Nesse ambiente tranquilo de puro lazer deu até vontade de filosofar, porque vocês sabem que a filosofia é filha da utilidade e o pai da ciência é o ócio.
Filosofia + ócio =
 
Tchibuuummmmm

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A gente nunca sabe o que


"Me queimo num fogo louco de paixão, anjo abatido"
"Maldito é a mãe", vomitou para a câmera Jards Macalé, exímio músico e letrista incrível, num documentário apresentado por Nelson Mota sobre os malditos da música brasileira. Os malditos estão em todas as artes, cantando por toda a parte, amparados por engenho e arte.  
Rotular é com a imprensa e a academia gosta. Usa e abusa. Há necessidade de se rotular tudo, para compreender melhor a origem da criação e contextualizá-la, ou simplesmente porque facilita o que não é entendido. Itamar Assumpção, Jorge Mautner, Tom Zé, Arrigo Barnabé e Luiz Melodia, entre outros, são citados no breve doc de Mota. São artistas de inegável qualidade, mas que nunca gozaram de um reconhecimento significativo e também não levantaram um dedinho sequer para facilitar nada. Quem estiver preparado que aprecie o biscoito fino: “diz-me com quem tu andas que eu te direi quem és”. O mundo é assim: benditos prum lado, malditos pro outro... Entre eles, outros universos rotuláveis. E as injustiças estão por toda a parte. Mas há a certeza de que muitos malditos, preferem, ou teriam preferido, o tal rótulo.
 Entre as características dos poetas malditos está a abominação às regras e normas sociais, desobedientes de carteirinha e recusam ideologias instituídas. Talvez, se assim não o fossem, sua criação literária não vingaria. Daí, que para um maldito publicar um livro, não é coisa fácil, geralmente. E essa arte, que parte de um comportamento subversivo, nem sempre torna-se conhecida por muitos.


 

"No ziper a surpresa que já tarda,
 calcinha imitando pele de leoparda"

O termo maldito surgiu entre os franceses no século XIX. Foi cunhado por Alfred de Vigny, numa peça dramática, onde se referia aos poetas como uma raça para sempre maldita entre os poderosos da terra. O poeta  francês François Villon, que viveu no século XV, foi o primeiro a receber esse rótulo na história da literatura. Ou seja: Villon nem chegou a saber que era maldito.


O primeiro maldito

Com base em tudo que já foi dito aqui, podemos sugerir que aconteceu um quase milagre ontem em Cuiabá. Dois livros de poesia, ambos com o selo da Carlini e Caniato Editorial. Um de Antônio Carlos Lima, Toninho ou Toím, poeta, inspirado, mas que tem lá algo de maldito. Se ele disser para o Tyrannus “Maldito é a mãe”, aceitaremos. Gostamos dele, de seus versos e adquirimos “A! Pô! Cá! Ali! Psiu!”.  
  


"Endurecer-se é mole. Duro é manter só ternura
quando a coisa fica dura"


O outro livro, “Sábado – ou cantos para um dia só”, traz os poemas de Marta Cocco, versejadora de fibra que honra a boa tradição literária cuiabana. Marta, que tem uma formação acadêmica, e é estudiosa, escreve como conhecedora das liberdades que são necessárias para que a poesia voe alto.



"O mundo anda e andamos todos doentes deste
 jeito de viver"

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Tô ficando velho


(*)
Tempos atrás o maior temor do ser humano era a morte. Hoje, não mais. De um passado recente pros dias atuais desenvolvemos o medo, o terror, da velhice.
Esse comportamento não é exclusivo daqui. É mundial, por isso a indústria cosmética, a medicina estética e a geriatria crescem em escala geométrica. Os consumidores desses produtos são vorazes e cada vez mais numerosos. O Brasil já não é um país de jovens. É um país que envelhece e envelhecerá a olhos vistos. O mundo está ficando cada vez mais velho, graças aos poucos filhos gerados e a longevidade que recrudesce.  
A busca pela juventude eterna é mais contundente naqueles que tem mais visibilidade. Artistas e políticos, por exemplo, buscam quase que obsessivamente maquiar a verdadeira idade. O site imdb, o mais premiado do planeta, enfrentou há poucos dias uma pendenga com sindicatos hollywoodianos. Motivo: registra entre as informações o ano de nascimento de todo mundo.

Cauby Peixoto:" E me tranquei no camarim"...
 
Elza Soares de Louis Armstrong a Lobão

O jornal Folha de São Paulo soltou, por estes dias, reportagem interessante sobre o excessivo uso de botox e cirurgias que disfarçam a idade. O alvo eram, principalmente, atrizes, que não medem esforços para disfarçar a idade. Só que com as TVs com imagens cada vez mais perfeitas, o prejuízo dos artifícios que se verifica na expressão facial das estrelas fica demais evidente. Ou seja: a atriz era pra estar chorando, mas a pele da face está tão esticada, que ela parece rir. Aí não tem drama que resiste.
Renata e Christiane espremendo pra interpretar
Mas o furacão avança, impiedoso. Podemos dizer que o ser humano, atualmente, anda mais prevenido, porque antes de temer a morte, teme o envelhecimento. E o mercado de trabalho também reage. Dança conforme a música. Hoje em dia, há tantos jovens competindo de igual pra igual por um emprego, colocação, posição, e com tantas habilidades tecnológicas, que manter a aparência mais jovem chega a ser uma “ferramenta” contra a exclusão.

Mickey Rourke antes e depois...
Interessante que a imagem de pessoas velhas  associadas a afeto, bondade, carinho, para os jovens, já não é mais a mesma coisa. Ficamos sabendo que no Japão, muitos jovens evitam se sentar junto de pessoas velhas nos metrôs, porque não gostam de cheiro de gente velha. Esse fato me remete ao saudoso Lourenço Boabaid: “Mulher velha fede cupim, home velho fede bode”. 
Ronald Biggs, malandro véio
 
Millor Fernandes: sem estilo, mas sempre jovial

Reza a lenda, ou a Bíblia, que o homem mais longevo de toda a história da humanidade teria sido Matusalém, que para cada palavra que pronunciasse tecia 200 parábolas louvando Deus. Entre seus netos, um muito famoso, Noé. Aquele mesmo que construiu a conhecida “arca”. O curioso é que os vestígios da nossa pesquisa para elaborar este texto extremamente siderado indicam que Matusalém teve o seu fim com o episódio do “dilúvio”. Talvez tenha sido excluído da “arca”, será que naqueles tempos havia segregação contra os mais velhos? Sei lá. O que sabemos é que Matusalém viveu 969 anos.
Matusalém não pegou essa barca!
E o tema em torno da juventude, lógico, descamba para a ficção. “O Retrato de Dorian Gray”, belíssimo livro do irlandês Oscar Wilde, é um prato cheio para se adentrar na temática com arte. “O curioso caso de Benjamin Button”, filme dirigido por David Fincher, também pode ser considerado como boa arte.
Seria Oscar Wilde o Dorian Gray?
 
Brad Pitt amanhã, vai encarar?

Discorrer sobre a velhice é assunto interminável. Outro dia ouvimos um comentário espirituoso/maldoso sobre um senhor que fez um tanto de plástica no rosto, só que como não fez cirurgia na testa as rugas ali existentes são usadas quando ele coloca chapéu, é só atarraxá-lo. A genial Dercy Gonçalves (*) retrucou quando foi “acusada” de velha por um jovem: “A minha velhice é permanente, mas a sua juventude é transitória”. “Tomo no ôio”

domingo, 20 de novembro de 2011

"Em cena"

"A era do rádio"
Duas apresentações do Coral Sescanta abriram nossa temporada de fim de ano. Depois de sete meses ensaiando e curtindo de montão essa história de soltar a voz, com um repertório bastante variado, subimos no palco do Sesc Arsenal sábado e domingo. Era hora de mostrar nosso trabalho coletivo, participando das apresentações dos grupos musicais que esse “S” mantém.

Na plateia um público entre 150 e 200 pessoas. Cremos que gostaram da nossa performance, porque os aplausos foram calorosos. O interessante é que, além da questão musical, desta feita, houve a orientação de que cada coralista adotasse um figurino que remetesse aos anos 50, quando o rádio era o grande canal de comunicação.

"Mulheres à beira de um ataque de nervos"


"O incrível exército de Brancaleone"


As mulheres entram em parafuso atrás de modelitos, penteados, badulaques, acessórios, maquiagem. Da parte dos homens, muitos bigodinhos, daqueles bem cretinos, chapéus, suspensórios, gravatas. O cenário: um programa de rádio com plateia, simulando um estúdio daqueles de antigamente com apresentações ao vivo para uma público ardoroso.



"O mágico de Oz"

"Assim era Hollywood"

"Ensina-me a viver"


"Esplendor na relva"


"Vestida para matar"
 

"Eles não usam black tie"


Antes, durante e depois das apresentações foi um tal de “cada pose um flash”.  As fotos aqui postadas (algumas do blog Fuzuê das Artes, e outras nossas), trazem legendas que remetem a filmes. Foi uma tentação irresistível se deparar com toda essa produção visual, concebida pela cabeça de cada coralista. Vai aqui a nossa brincadeira e um grande carinho por todos que integram o Sescanta.   


"Sob o céu que nos protege"

"Garotas selvagens"
 
"O poderoso chefão"


"Flores de aço"


"O pecado mora ao lado"


"A última tentação de Cristo"


"Dona Flor e seus dois maridos"


"Faça a coisa certa"

 

"Laços de ternura"

sábado, 19 de novembro de 2011

Ode a Keats


“Brilho de uma Paixão”, filme sobre John Keats (1795-1821), poeta inglês, considerado o último romântico. Hoje incensado e canonizado pela crítica literária, Keats, morreu com apenas 25 anos, acreditando ser um fracasso. Olha, a combinação de cinema com poesia é uma tentação cá pra nós.

Somado a isso, o fato de que a direção é de Jane Campion, cineasta neozelandesa de “O Piano”, filme que acumulou prêmios em 1993, entre eles, Oscar, Globo de Ouro, Palma de Ouro e Bafta. Quem faz um filme como “O Piano”, é quase certo, não fará algo tão desprezível. De fato, desde o começo de “Brilho de uma Paixão”, percebe-se que estamos diante de um filme sensível, inteligente e produzido esmeradamente.

O“Brilho de uma Paixão” estava gravado há alguns dias, na sexta-feira chegou a sua hora aqui em casa. Peguei um livro de John Keats que já li avidamente, para reler alguns poemas e me inspirar. Não foi a coisa correta, talvez, porque poesia romântica é coisa do passado e não é qualquer hora que a gente sai lendo poesia e se convence. Para ler poesia, também é preciso de inspiração. Acho que isso me faltou. “Esse John Keats é um chato”. Sim, cometi esse sacrilégio. Não espalhem, por favor.
Pouco depois, firmei os olhos no filme que estava rolando, assim, meio invejoso, porque uma parte do Tyrannus já se mostrava embevecida com ele. Que beleza, quanta poesia no filme. Uma poesia visual. Imagens surpreendentes que mais pareciam uma sequência de obras de arte. E que interpretação de elenco, quanta verossimilhança na narrativa em torno da vida de Keats, aqui mostrado totalmente envolvido com a sua poesia e com a paixão correspondida, mas não consumada, por uma bela jovem. 


“Brilho de uma Paixão” me remeteu ao título de um livro incrível do mato-grossense Ricardo Dicke, “O Salário dos Poetas”. Sem conseguir ganhar dinheiro com seus versos e, atolado em dívidas, Keats comeu o pão que o diabo amassou. Por causa das dificuldades financeiras, renegava seu amor. Para completar, como romântico que se presa, tratou logo de contrair uma grave doença pulmonar. 
Pouco a pouco, fui me envolvendo totalmente com a história. Lemos  uma crítica sobre o filme, classificando-o como um quadro. Não há como negar essa força pictórica que emana da obra. Mas também o julgamos como um grande e belo poema, pela qualidade do roteiro e dos diálogos apresentados. Ao final, um magnífico poema de John Keats é descortinado. E a poesia romântica desse autor mostra-se altaneira e inspirada. Um filme terno e justo, à altura do grande poeta.     
"Aqui descansa um homem cujo nome está
escrito sobre a água"
Ode a um Rouxinol
Meu coração dói, e um torpor aflige
Meus sentidos, como se ébrio de cicuta,
Ou sorvido algum vapor de ópio
Um minuto passou, e no Letes afunda:
Não é inveja de teu fado feliz,
Mas feliz em tua felicidade -
Tu, lúcida - alada Dríade do bosque,
Em tal melodiosa trama
De faia verde, e de sombras inúmeras,
Cantaste o Verão à plena garganta.

Ó fruto da vinha! Que repousas
Tanto tempo na profunda terra,
Degustar de flora e verdes campinas
Dança, canção provençal, e diversão,
Ó taça cheia do caloroso Sul,
Cheia de real e rubra Hippocrene,
Com espuma cintilante até a borda
E a manchar a boca púrpura,
Que beberei, e deixar o mundo não-visto,
E contigo sumir na floresta sombria:

Afaste, dissolva, e esqueças tudo
O que entre as folhas jamais conheceste,
O tédio, a febre, a irritação
Aqui, onde os homens em gemidos mútuos
Onde o torpor abala tristes cãs,
Onde os jovens pálidos, débeis, morrem,
Onde pensar é ser cheio de mágoas
E desespero no olhar;
Onde a Beleza perde o olhar lustroso,
Ou o Amor gasta-se no dia seguinte.

Para longe! Eu desejo voar contigo,
Não guiado por Baco, e seus convivas,
Mas nas invisíveis asas da Poesia,
Mesmo que a mente se atrase confusa:
Estarei contigo! Suave é a noite!
E por sorte a Rainha-Lua no trono,
Cortejada por suas brilhantes Fadas;
Mas aqui lua não há
Salvo a brisa que desce do céu
Em penumbras e trilhas sinuosas.

Não posso ver flores aos meus pés,
Nem o incenso a flutuar sobre os ramos,
Mas, nas trevas suaves, aprecio cada um
Onde a bela estação oferece
A grama espessa, e a árvore silvestre;
O espinheiro-branco, e a flor pastoral;
Violetas a murcharem sob as folhas,
E o broto de plena Primavera,
O almíscar-rosa, de vilho orvalhado,
O zumbir de moscas em tardes de Verão.

Sombrio eu ouço; e por muito tempo
Meio atraído pela suave morte,
A chamei com nomes doces nas rimas,
Para arrebatar meu fôlego calmo;
Pois parece proveitoso morrer,
À noite, cessar tudo sem dor alguma,
Enquanto derramas toda a tua alma
Em semelhante êxtase!
Cantarias ainda, em vão, meus ouvidos
Ao teu nobre requiém viraram relva.

Não nasceste para morrer, ave eterna!
Gerações ávidas não te derrubam;
Ouço nesta noite a voz já ouvida
Outrora por imperador e curinga;
Talvez a mesma melodia na trilha
Ao triste coração de Rute, saudosa,
Ansiava o lar, em pranto, no exílio;
O mesmo a encantar outrora
Mágicas janelas, abertas à espuma
De mares bravios, em terras lendárias.

Desolado! as palavras ressoam
A levar-me de ti à minha solidão!
Adeus! A fantasia não ilude
Como dizem, ela, a falsa ninfa.
Adeus! Adeus! Teu queixoso hino finda
Além das campinas, além dos riachos,
Além das colinas, já sepulto
Nas clareiras do vale próximo;
Foi uma visão, ou um devaneio?
Foi-se a melodia - acordei ou durmo?