terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Quanto mais quente, melhor?

Depois de padecer de tanto calor quase o ano inteiro, finalmente, chega o verão nesta quarta-feira, 21 de dezembro. E a estação mais acalorada do ano chega junto com o mais novo filme da franquia Missão Impossível. Missão impossível, cá pra nós, é não reclamar e nem comentar sobre o calor, não ligar o ar condicionado, não tomar cerveja, não abrir a geladeira, não transpirar e “ficar gelo” com a temperatura.
O verão brasileiro é marcado pelo calor e pelas chuvas torrenciais, que já começaram a cair.  Por isso, todo cuidado é pouco nessa época: insolação, desidratação, alergias (por causa dos fungos e ácaros) e outras perebas, decorrentes do clima. E pra complicar têm os efeitos nefastos da comilança e beberagem das festas. Os especialistas dizem que é preciso beber muita água. Mas tem que ser água mesmo. Que passarinho bebe. No verão também é bom dar uma arejada. Trocar de ares. É quando bate uma saudade da brisa marítima. Ou de uma beira de rio mesmo, se o bolso e a conta bancária tornam impossível a missão de uma viagem mais longa.




E chega o verão com as festas de fim de ano no rabo. Tudo para. Nada de trabalhar. É festa e comilança e beberagem em dois finais de semana seguidos. Um no cu do outro, conforme diriam os cuiabanos mais antigos. O espírito natalino é enaltecido e todos vão às compras. Multidões em shoppings e lojas. E dá-lhe crediário.


Toda essa agitação no comércio é o maior tumulto. Um horror. É preciso ter paciência, porque senão, adeus espírito natalino. Em seu lugar, espírito de porco. E a comilança... Cuidado com ela também, “seu” pança de mamute. Mas como não se empanturrar ou deixar de cometer, pelo menos, pequenos exageros? Ora, além do Natal e do Ano Novo, nesta época pipocam festas de confraternização pra tudo quanto é lado. É amigo oculto que não acaba mais.


Instituições públicas e privadas providenciam escalas entre seus funcionários, já que nada vai funcionar direito mesmo. Nem sempre dão certo os tais dos rodízios. Rodízio mesmo que é bom, nesta época, é aquele de churrascaria, de pizza, sorvete etc. E a comilança vai que vai. E vem que vem a azia. Sonrizal, alka seltzer, chá de boldo, água tônica, estomazil... Tenho um amigo que diz tomar estomazil desde bem pequeno, mas larga quando quiser. Sei não...

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Polêmicas à (p)arte

“Polêmico é coisa de jornalista preguiçoso”. Pode ser. Polemizar vende. A mídia curte e o leitor também. Nas artes, impactar através de uma obra pode ser o bicho. Bicho de sete cabeças, bicho doido, bicho papão, bicho grilo... Pô bicho!!! A frase que abre este texto é do Gerald Thomas. Artista polêmico. E chega dessa expressão. Prometemos não polemizar e estamos proibidos de assim proceder daqui pra frente. Não mais repetiremos essa palavra e suas derivações neste texto.
Falaremos de alguns artistas que chamam (ou clamam) por atenção: o inglês Banksy e o chinês Ai Weiwei. Frequentadores assíduos da mídia universal. Mas, que fique bem claro: Deus nos livre de ter que opinar com conhecimento de causa aprofundado em torno dessa tal de arte contemporânea. Se escrevermos algo que possa ser entendido como uma opinião expressa a respeito do trabalho de qualquer um desses dois, foi apenas uma escorregadela. Uma casca de banana, ou uma pedra no meio do caminho desta conversa escrita.



A coisa com Banksy começa com o mistério em torno de sua identidade. Há pistas e desconfianças sobre quem ele seja verdadeiramente, mas sem confirmações. É curioso como ele consegue manter seu anonimato, ainda mais morando na Inglaterra, onde os semanários sensacionalistas e os paparazzi dão em cacho. Há poucos dias lançou mais uma de suas artes provocadoras, “Pecado Cardeal”, que está dando o que falar. A criação leva a crer que é um protesto contra a pedofilia camuflada e encoberta na e pela Igreja Católica.




O rififi em torno do seu anonimato atingiu picos estratosféricos quando seu filme “Exit Through the Gift Shop” foi indicado ao Oscar de melhor documentário e, no início deste ano, sua provável presença na cerimônia de premiação foi especulada de todas as formas possíveis. Mas, como seu filme não ganhou o Oscar, as questões identitárias que envolvem Banksy não degringolaram.



Com Ai Weiwei é outra história. Seu talento foi catapultado quando a China sediou as Olimpíadas em 2008 e o mundo babou diante do majestoso templo esportivo, Ninho do Pássaro, cuja concepção teve participação efetiva de Ai. O estilo de sua arte que é moderna e impetuosa demais, assim como sua atuação como ativista social, andam incomodando o regime político carrancudo da China. O artista já foi parar no xilindró várias vezes, o que provocou protestos no mundo inteiro contra a privação da liberdade do artista.


Arte combina com mistério e também com aquela palavra que prometemos não mais mencionar hoje. Mas, claro que a qualidade da criação tem muito mais a ver com o a estética, as sensações e os significados que a arte propõe. Como os artistas, muitas vezes, querem dizer o indizível, quando existem as pessoas incumbidas de censurar, dá pra imaginar o tamanho da encrenca que é avaliar uma obra de arte.  



 

domingo, 18 de dezembro de 2011

Paella 4 X 0 Feijoada


(Foto: Globooesporte)
Manchete de jornal: Deuses 4 x O Santos. Domingo de perdas para o futebol brasileiro.  O “Santos” Futebol Clube, depois de ficar seis meses ou mais do que isso se guardando para o Mundial de Clubes, dançou. E dançou bonito. O Futbol Club “Barcelona” colocou o Peixe na roda e ficaram mudos todos aqueles que apostaram no talento individual de Neymar, Ganso, Borges e companhia limitada. A gente sempre ouviu dizer que futebol se resolve dentro de campo, e ao longo dos 90 minutos, mas essa explicação simplista dá pinta de que não serve mais. O Barcelona, digamos, foi passear no Japão. E a vítima foi o time brasileiro. Levou um passeio.
Bonito o jogo. Sei que doloroso para os santistas, mas, para os que apreciam o bom futebol, ficou clara a supremacia da equipe catalã. Não tem como negar, nem argumentar. Feliz o comentário do Neymar após a partida: “Viemos aqui para aprender a jogar futebol”. Infeliz a argumentação do Murici: “Esta é a terceira final que jogamos neste ano e ganhamos as outras duas”. O técnico tentou minimizar a goleada, mas...



 
Hiiiiiiihhhhh! Que desagradável! (Milton Leite)

Valeu a pena acordar cedo. Não deu pra ficar indignado, com dó ou sentir raiva pelo resultado. Foi pura constatação. O que aliviava nosso nervosismo era o fino humor de Milton Leite, que narrou a contenda: “Olha o Neymar e o Puyol, cada um com o cabelo de estilo diferente, os dois horrorosos”. O “speak” dá os seus pitacos e coloca seus bordões que o deixaram famoso. Essa de ficar apenas reportando o jogo, que a gente está vendo, é como chover no molhado.


O Barcelona teve cerca de 75% da posse de bola ao longo do jogo. É muito tempo a mais do que o adversário. O pior é que os caras sabiam o que fazer com a bola nos pés (pés com astúcias de mãos, como escreveu João Cabral). Trocavam passes priorizando o toque de primeira, com movimentação incrível quando atacavam. E a defesa do Santos, que gosta de falhar, ficou que nem barata tonta. As oportunidades foram surgindo e, naturalmente, foram aproveitadas. Pra falar a verdade, o resultado até que ficou de bom tamanho, porque o time brasileiro poderia ter levado mais gols. Se não me falha a memória, mais duas bolas carimbaram a trave do Santos.

Voltemos ao Murici. É um bom técnico. Está entre os melhores do futebol brasileiro. Mas, no país onde nascem os melhores atacantes do mundo, os técnicos costumam ser retranqueiros. Gostam de jogar na defesa e, como futebol não tem lógica (?), todo mundo aceita isso. Aqui no Brasil é assim: qualquer time que faz um a zero, geralmente, torna-se defensivo para segurar o resultado e explorar os contra ataques. Francamente...

Murici: Não entendo nada de composições cubistas

Dizem que Deus é brasileiro e Murici ainda tentou uma estratégia espírita. No segundo tempo, chamou Alan Kardec que estava no banco e o colocou em campo. Em vão. Deus não é mais brasileiro e, além disso, Messi estava endiabrado.
E o Barça, com seu futebol “egoísta” – só eles é que querem e podem ficar com a bola, foi provando que o melhor futebol do mundo não é mais o brasileiro mesmo. Dá pra admitir que o Brasil seja o país que mais gera e tem gerado talentos individuais nesse esporte, mas não há como negar que falamos de um jogo coletivo. A Espanha foi a campeã da última Copa e a base da atual seleção é o time do Barcelona.  Um time que, apesar de seus valores individuais brilhantes, pratica um futebol de conjunto, com uma invejável disciplina tática.

A fúria espanhola
Analisando a situação vivenciada hoje no futebol, constatamos que o esporte bretão precisa dar uma arejada aqui nas terras tupiniquins. Que futuro almejamos? Precisamos planejar, trabalhar com prazos maiores, creditar nossas apostas em equipes qualificadas e capacitadas, investir na base e difundir conceitos.
Confesso que tinha esperanças que o Santos vencesse. Boleiro que sou, assisto futebol em demasia, mas sempre os campeonatos que rolam no Brasil. Não tenho o hábito de acompanhar os campeonatos europeus. O Barcelona ganhou fácil, com uma bola envolvente, altaneira e intransponível para a pequenez que tem sido o futebol brasileiro nos últimos anos. Do jeito que está não tem como escalar essa torre traçada por Gaudí.

O idealizador e executor do esquema tático


sábado, 17 de dezembro de 2011

Eles se foram...

Sábado de perdas para as artes brasileiras. Ou melhor, para as artes lusófonas. Um trio de artistas, dois brasileiros e uma cabo-verdiana, subiu para o telhado: Sérgio Britto (88), Joãosinho Trinta (78) e Cesária Évora (70). O consolo é que artistas, quando saem de cena, o legado cultural permanece.
Nos tempos em que eu assistia novelas, curti pelo menos duas, que tiveram a participação do carioca Sergio Britto. “Sangue do meu Sangue” (1969), onde ele foi ator, e “A Muralha” (1968), baseada em obra de Dinah Silveira de Queiroz, com direção de Britto. Ele atuou e esteve envolvido em muitas outras novelas e produções para as TVs, mas o currículo do cara é “demais” de grande pra reproduzir aqui. Ator, roteirista, dramaturgo, diretor, apresentador... TV, teatro, cinema... Ganhou prêmios importantes, merecido reconhecimento, trabalhou com grandes artistas, seja interpretando seus textos, dirigindo ou atuando em cena. Nessa relação enciclopédica tem gente do quilate de Nelson Rodrigues, Gerald Thomas, Fernanda Montenegro, Anton Tchekhov, Leila Diniz e Amir Haddad, entre muitos outros.


Nos últimos anos, a imagem de Britto é no programa da TV Brasil, “Arte com Sérgio Britto”. Não sei por que, eu achava-o meio chato. Talvez um pouco de inveja de minha parte. Mas sempre me impressionaram sua desenvoltura, sua erudição e segurança ao se expor. Grande artista.


Cesária Évora, cantora de voz célebre, nascida nas ilhas de Cabo Verde. Cantou, cantou, cantou e cantou tanto que, finalmente, aos 50 anos, projetou-se internacionalmente. Era uma mulher de “pés no chão”, cantava descalça, como que homenageando os mais pobres. Deixou 14 discos e multidões de fãs pelo mundo afora. A saúde estava debilitada desde 2010 e, em entrevista ao jornal francês (ela era queridíssima na França) Le Mond, declarou, ao ver-se forçada a abandonar a carreira: “Sinto muito, mas agora preciso descansar. Lamento infinitamente ter que me ausentar devido à doença, gostaria de dar ainda mais prazer aos que me seguiram durante tanto tempo.”


Bom, Joãosinho Trinta, não seria exagero dizer, foi um dos maiores artistas populares que o Brasil já teve. Desbundou com suas peripécias carnavalescas, apresentando enredos originais, ousados e super criativos. Joãosinho amplificou o carnaval carioca, com carros alegóricos imensos, mulheres maravilhosas semi-nuas e luxo, luxo e mais luxo, traduzido em muito dinheiro.





Joãosinho nasceu no Maranhã, mas rodou por esse Brasil, sempre dinâmico e expansivo. Esteve mais de uma vez em Mato Grosso, onde curtiu e aprovou o carnaval ‘besteirento’ de Santo Antonio do Leverger.
Joãosinho abalou a intelectualidade brasileira, em 1976, quando proferiu: “Pobre gosta de luxo, quem gosta de pobreza é intelectual.” O planeta Terra deve ter sido o seu grupo de acesso para um carnaval celestial. E, agora, lá no firmamento, é possível que também esteja aprontando. Porque os enredos que inventava não eram coisa deste mundo.






quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A boa má companhia

Hall Chase, Kerouac, Ginsberg e Buroughs... muita má companhia 
O lápis é amigo do Oscar Niemayer, que hoje completou 104 anos; a tinta é amiga de Pollock, Alex Atala é amigo das caçarolas; Yves Saint Laurent foi amigo das tesouras e agulhas, Federico Fellini e Giulietta Masina eram amantes do cinema e parceiros na vida; assim como a bola é amiga do Neymar e de Messi, sempre buscando seus pés.
Assim parece ser e existir uma atração entre pessoas, pessoas e objetos que se completam. Dessa cumplicidade afloram sentimentos; compactuam ideias e ideais; estímulos para criação, coisas que na maioria das vezes são para o bem. Quando deixam de ser..., aí é um terreno complicado, destrutivo, nefasto, perigoso. 
A vida é que é amiga de Niemayer

YSL e o primeiro smoking feminino

Ontem, uma amiga contou um fato recente. A história de sempre: férias escolares e amigos adolescentes que não querem se separar.  Aí toca o troca-troca e o leva-e-traz: pernoite na casa de um, tardes na casa de outro, final de semana na Chapada, na chácara, shopping e são essas as férias de pais de adolescentes. Trabalheira e gastos dobrados. A comilança é braba. Leva um pra lá e trás três ou mais pra cá... E piora quando iniciam as saídas noturnas.  Encurtando a história: combinado para passar a noite em sua casa, dois amigos do filho. Ponto. A certa altura, sem seu conhecimento, apareceram mais dois (que segundo seus pais, foram para estudar. Nas férias, à noite???!!).  A tchurma reunida ficou de conversa na área social. E, sortudos que são (ou não), acharam uma garrafa de vodka que mandaram ver.  Resultado: embriaguês. Só que um dos garotos desmaiou (justamente um dos agregados). E aí pintou bate-boca de pai, de mãe, de ex-marido, de padrasto, da minha amiga, dos adolescentes, dos PMs. E todos para delegacia.
 
Pollock, sua marca é tinta

Os pais (do desmaiado), claro, botaram a culpa nas más companhias (os outros adolescentes). O filho sempre é bom... são as más companhias que o estragam com suas influências negativas.
Então, cá me pus a pensar depois dessa história e de um “caco” de conversa que pesquei de um casal: Ele: “Nós, não somos boa companhia um para o outro”. Ela (respondendo na bucha): “Pior. Pra mim você não cheira e nem fede!” 

Fellini e Giullieta: 50 anos de magia

O que é má companhia? É aquela que tem poder de influência? Geralmente os pais, com o intuito de proteção, não toleram e nem aceitam com facilidade as diferenças, o novo, algo que tem certo poder sobre aqueles que, no seu julgamento, ainda são ingênuos... sem experiência de vida. E terminam por restringir a aproximação. Não raro a relação termina por aí, mas em outros casos, acontece o contrário: o proibido aguça a curiosidade e o desejo de contestar. Daí os conflitos de geração.
Meus melhores amigos eram tidos como péssimas companhias. Por quê?  Ah! Porque eles não eram normais, porque liam, porque não davam a mínima pra a sociedade da época, porque adotaram um estilo de vida perigoso, porque usavam roupas diferentes, porque gostavam de beber e conversar. E eu, uma antena receptiva para esses novos valores e conceitos, curtia muito e adotava seus padrões e comportamentos. Confesso que alguns morreram antes do tempo, porque não cuidaram da saúde. Mas tanto os que se foram como os que estão vivos são pessoas boas, justas, inteligentes, não fizeram parte de nenhuma associação criminosa, não fizeram politicazinha, não mataram. Aproveitaram a vida, para aprender, conhecer, na paz.

Masters & Johnson: a fisiologia do coito
Pensei e investiguei outras parcerias (amigos ou relações amorosas). Algumas não foram legais, outras melhoraram individualmente, ou não,  mas resultaram em coisas boas.  Rodin e a Camille Claudel. Camille era paranoiada, não tinha segurança em relação ao seu talento, achava que Rodin queria se apropriar de suas obras. Foi internada num sanatório. Ambos produziram belas obras. Alguns artistas precisam de neurose pra criar.
Angelina Jolie e Bradd Pitt, os dois melhoraram como pessoas quando ajojaram. Estão envolvidos com causas humanitárias e melhoraram como atores (mais ele, que ela). Frida Khalo e Diego Rivera, vida tumultuada, muita dor da parte dela. Ela reconhecida tardiamente. Produziram muito e se estimulavam também. Picasso fez sofrer as mulheres que amou; mas acho que todas ganharam um retrato dele. Valeu! Lennon e Yoko Ono, Elton John e David Furnish, Lampião e Maria Bonita e outros...

Casal "Sir"
Pra encerrar, com chave de ouro: Pierre e Madame Curie, notável parceria com grandes descobertas. O casal foi laureado em 1903 com o Nobel de Física e, em 1911, quando Marie Curie ganhou seu segundo Nobel: o de Química. Sem dúvida, a química e energia os unia.

Casal Curie, pintou uma química na relação física

Sartre e Simone de Beauvoir, casal referência dos ideais libertários, unidos pela inteligência e engajamento político, viveram 50 anos juntos em casas separadas. Quando Sartre morreu, ela disse: “sua morte nos separa. Minha morte não nos reunirá. Assim é: já é belo que nossas vidas tenham podido harmonizar-se por tanto tempo.” E um dia antes do aniversário de um ano da morte de Sartre, ela se foi.
Simone e Paul relações modernosas

Inseparáveis/separados