domingo, 5 de fevereiro de 2012

Esse filme... já vi!

Final de semana e decidimos pela reclusão absoluta em casa. Tanta coisa a fazer... e, acaba por não fazer. Ah! isso sim é que é final de semana. Flutuando nas águas do descompromisso, literalmente a mercê da preguiça e deixando se levar pelas circunstâncias que sucederem. Livros pra ler, buscar músicas e cifras na internet pra arranhar o violão... Aí, numa certa hora dá uma vontade de ver um filminho e bate a loucurada à procura de algo que nos interesse. Mas não foi fácil assim.

Creio que os deuses tramavam a nosso favor e o impensado nos foi ofertado. Surgiram dois filmes, do nada. “Amarcord” (1973), obra prima de Federico Fellini, e “Tiros na Broadway” (1994) de Woody Allen.

Amarcord


Don't speak, don't speak


John Cusack e Chazz Palminteri em "Tiros..." 

Dias atrás vimos um filme que na época gostamos muito e comentávamos a história, os personagens engraçados... Acontece que ele envelheceu. Sei lá, as coisas mudam, as pessoas mudam e alguns filmes perdem o viço, a graça. Mesmo filmes de grandes diretores incorrem nessa possibilidade. Alguns filmes do Allen, por exemplo. Por instante passou um temor pelas nossas cabeças: “Meu Deus do céu, será que pode acontecer com Amarcord?”. Bobagem, ledo engano.





Amarcord, filme autobiográfico desse gênio, continua mais lindo do que nunca. Amarcord remete a “eu me lembro”, lá na região da Itália, onde Federico nasceu e passou parte da sua vida, antes de começar a encantar o mundo com a magia de seu cinema. E que cinema. A boniteza que um final de semana precisa ter e que alimenta nossas almas, graças a Fellini, continua intacta.





O adolescente sufocado pela mulher gorda de seios colossais, o velhinho músico e cego que pede para que lhe expliquem como é o magistral transatlântico, o tio biruta que sobe numa árvore e não quer descer. Essas e outras cenas estão entre os encantamentos guardados na memória. Já valeriam a pena, caso o filme, como um todo, não nos balançasse tanto.  Mas ainda tem a maravilhosa música de Nino Rota, autor da maior parte das trilhas de Fellini.

Já quase por encerrar o domingão, eis que se apresenta a curiosa possibilidade de rever “Ed Wood” (1994), de Tim Burton, com Johnny Depp, que conta a história do pior cineasta de todos os tempos. Ôpa, Tim Burton... Que azar, filme dublado!!! É, os deuses já se deram por satisfeitos e... foram descansar.



sábado, 4 de fevereiro de 2012

Reis da cocada

Quem manda aqui sou eu e não tem pra ninguém. Volta e meia, nas mais diferentes situações sociais, alguém assume essa posição de chefia e a partir dai tudo passa por essa pessoa. A forma de escolha geralmente parte de dois princípios básicos: 1) Ele(a) tem algo que nos interessa; 2) Auto indicação, o que implica em preguiça ou por não querer bate-boca da parte dos demais. Nas duas formas há consequências, o que na maioria das vezes é um caos, um saco... aguentar esses chatos é dose.

Na verdade, não é uma liderança, porque um líder é alguém que conquista essa posição. E tem seguidores espontâneos. Já um "dono da bola ou dono do pedaço", aquele que se acha, não tem seguidores. Tem uma cambada de puxa sacos, gente que simplesmente tá por ali pra usufruir das benesses e quando necessário vai procurar outro falso líder pra continuar na maciota. 

Na sala de casa, em frente a televisão, quem tá com tudo, tá com o controle remoto na mão. É esse quem define o canal, o programa. O rei do zapping. Quando você está começando a gostar de algo, o outro(a) muda de canal abruptamente. O remédio é ir pra outra TV, que provavelmente é mais vagabunda do que a da sala. Ou ficar de butuca, torcendo pra que o dono do controle saia momentaneamente e aí você se apodera do controle, nos dois sentidos, rapidamente. Aí você assume o comando e foda-se a vontade dos outros.



Nos tempos das peladas nos campinhos de futebol, pelo menos um cara era fundamental pra que rolasse o jogo. Quem? O dono da bola. E o dono da bola, quase sempre, era um cabeça de bagre. Ruim de bola, embora fosse o dono dela. Era um sujeito que poderia jogar, no máximo, como goleiro. Mas era preciso aceitar ele como jogador na linha e até fingir que ele não era tão ruim assim. Vai que ele se chateasse ou perdesse a paciência e fosse embora, levando consigo a pelota? Final do jogo.

Depois de uma boa pelada dessas de final de semana, nada como um churrasco. Uma reunião social com um grupo familiar ou de amigos, onde se vai assar uma carne. Não é sempre, mas, muitas vezes, aparece aquela pessoa, normalmente um homem, que assume a função de churrasqueiro. É quem acende o fogo, prepara a carne e depois a serve. Fica do lado da churrasqueira comandando a coisa na base da cervejota que pede pra lhe servir a toda hora. Costuma usar um pano de prato, que é jogado nas costas peludas e suadas, pra limpar o suor, a boca ensebada, a faca... Eca!!!! Coisa mais nojenta. E ainda gosta de esnobar seus conhecimentos, sobre fraudinha, picanha, alcatra etc, mesmo que, na verdade, nada saiba sobre isso. É tudo fruto da mardita, da cerveja, da manguaça que já lhe subiu à cabeça.  



Na hora de servir o churrasco, é uma moagem lascada. Quer fazer gracinhas, quer que ouçam suas piadas e comentários ridículos. E a carne esfriando... claro, que aproveita pra privilegiar as mulheres bonitas. Churrasqueiro desse tipo, pra falar diretamente, é o verdadeiro filho da puta. E nem vou mais escrever sobre isso, porque já tô até ficando com raiva.


Agora, preste atenção. Se você está numa festa ou reunião onde tem um povo... digamos assim, barra pesada, repare se tem alguma pessoa muito solicitada ou alvo de inúmeras gentilezas. E essa pessoa anda pra lá e pra cá toda metida, sempre com alguns a segui-la, desmanchando-se em favores. Pode crer que aí tem, mano. Essa pessoa, podes crer, é quem tá no comando, é o rei ou rainha da cocada preta ou branca, e tá fazendo a cabeça da galera. Se você for doidão, chegue junto e mostre a sua cordialidade para com ela, seja criativo e generoso nas gracinhas, porque quem sabe você cairá nas graças e pode se dar bem. Agora, se você for careta, talvez nem perceba a muvuca. Mas, se ver que tem algo estranho e esquisito, fique na sua, porque não tem serventia puxar o saco de alguém gratuitamente.

"Festa estranha, com gente esquista"

Essas situações revelam alguns casos de "donos do pedaço". É tudo circunstancial, como já foi dito. Pensando bem, como essas ocasiões são passageiras, até que dá pra aguentar. Vai passar. E vamos combinar o seguinte. Entre todos esses "donos" aqui citados e não citados como o irmão da gostosa, o chefe, o político de carteirinha e muitos outros, não existe ninguém ou nenhuma pessoa mais chata do que a que pensa que é e que quer ser a qualquer custo, sem o menor simancol, a "dona da verdade". Aquela pessoa que sabe tudo, ou quase tudo, mas não é capaz de perceber a dimensão da sua chatice.
É triste, mas é verdade. Em qualquer uma das situações, como diria Nelson Rodrigues: quando não se é canalha na véspera, é canalha no dia seguinte.    




sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Coisa bonita, coisa gostosa

A mulher, segundo Botero
À medida que o tempo passa, as medidas aumentam. O corpo vai ganhando “carnes” que se contornam em curvas voluptuosas entre saliências, fendas e reentrâncias. Até parece com coisa de geologia e geomorfologia, com escala temporal e espacial bem diferenciada. A causa dessa nova paisagem corporal é a gordura, que vai se depositando, preenchendo, formando protuberâncias e profundezas entre as dobras. Um novo shape que se molda.

O terror feminino com a forma é praticamente diário, depois da ditadura imposta pela estética Twigg, dos anos 60. Com a maioria dos homens parece ser diferente, definitivamente não se importam e, para piorar, usam e abusam de justificativas machistas para vangloriar dos seus volumes incorporados e mal distribuídos. Caem em si quando recomendado, claro, após intervenção médica.






A gordura é formada por três moléculas de ácidos graxos e uma de glicerol, dando origem ao famoso e assombroso “triglicerídeo”. Ela não é de toda má e tem lá sua importância no contexto da vida e da saúde humanas: é fonte de energia, isolante térmico (não há muita necessidade aqui em Cuiabá) e auxilia na síntese e funcionamento de algumas substâncias, entre elas, hormônios sexuais, dentro dos padrões.

A mulher, segundo Rubens
 A nova, talvez nem tão nova, epidemia mundial é a obesidade. A causa? Adoção de hábitos modernos. Cada vez menos andamos, trabalhamos e movimentamos fisicamente. A "vida moderna" facilita nossa locomoção (em termos!) e o acesso a alimentos. Tornou desnecessária belicosidade humana de lutar para conseguir a comida, formar e manter a família e o grupo social e assim por diante. A maior e incessante luta diária que enfrentamos é pela posse do controle remoto; quem o tem, detém o poder. O pior de tudo é que essa epidemia não tem fronteiras e se alastra nos núcleos mais pobres. Convenhamos, parece ser um paradoxo, não? Mas não é excesso de alimentação, é exagero e ingresso a produtos alimentares da pior qualidade.  Caso de saúde pública e de polícia!!!!!!
Twigg, ontem (Sec. XX)

Adele, hoje (Sec. XXI)
 Voltemos às volúpias. Tá na cara a felicidade nas pessoas mais fofinhas. Não é por possuir mais que há menos sensualidade. Olhem os homens e mulheres de Botero. Elas exalam erotismo. Compare com a secura das musas de Modigliani. Por falar em comparar... rolou nas redes um face a face entre duas ícones da saúde e/ou do bem viver? Nigella e Gillian MacKeith, ambas inglesas, 5.5. A morena é uma gourmet meio que descontrolada. A loira, lida com reeducação e impõe uma vida disciplinada, nos moldes em que viviam os cidadãos/soldados espartanos.

A mulher, segundo Modigliani

O pastelão (pastelão... hummm!!!) da dupla conhecida por todos nós é a síntese da conversa de hoje. A grande obra de Cervantes também nos remete a esses biotipos opostos. Mas tudo indica que vai faltar gente magra, pra tantas pessoas fofinhas que existem no mundo. Enquanto isso, o mundo também engorda em termos de população. É hora de parar... Parar... parar do que? Parar de escrever, claro. Tá na hora de fazer um lanchinho.   

Gillian McKeith X Nigella Lawson


Shiiii, só uma boquinha

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Pra não guardar segredo

Segredo provém do latim: "secretu", uma forma verbal que significa separado, afastado, retirado, isolado, solitário, oculto, invisível e também um substantivo que significa lugar retirado. Palavra forte. Quando pronunciada quase sempre vem como um sussurro.

Uma história sobre segredo lembra um amigo. Quando chegava pra ele e dizia que ia contar um segredo e que contava com sua discrição, ele, muito zangado, dizia: "se você que é dono do segredo não consegue guardá-lo, por que eu então deveria?". No mundo da ficção, cada vez mais embaralhado com o mundão real, segredo é expressão fetiche. Cabe muito bem em qualquer trama.

Dois filmes que nos conquistaram, têm segredos em seus títulos e roteiros: "Em Segredo" e "Segredos do Coração". Discorrem sobre as complexidades das relações familiares, que podem advir tanto de fatores internos (da própria família), quanto de questões externas. Bonitos, ternos e humanitários. Verdadeiros e grandiosos mostram a coragem de seus autores ao tratar de forma natural temas ultradelicados como o estupro e a pedofilia, sempre mantidos em segredo.


Luna Mijovic e Mirjana Karanovic "Em segredo"

"Segredos do coração" tem a bela Giovanna Mezzogiorno

Têm vezes em que se lê a sinopse de um filme e apenas pelo conhecimento de um tema pesado, ao qual o filme irá explorar, já torcemos o nariz e pensamos: "Hummm... este filme... não quero assistir". Aí perdemos a chance de aprender e apreender algo mais sobre a vida, vida que está sempre se refletindo no cinema. Não passar impunemente por nenhum filme é um projeto de existência interessante para quem deseja educar e depurar seus sentimentos. A arte serve pra isso, além dos encantamentos que nos provoca.


"Em Segredo" (Áustria/Bósnia/Alemanha/Croácia - 2006), direção de Jasmila Zbanic, apresenta uma Saravejo pósguerra com todos os problemas inerentes. Multidões de mulheres que perderam seus homens na estupidez bélica, sendo que muitas delas foram estupradas pelos soldados inimigos. Entre essas mulheres está Esma, que vive solitária com sua filha adolescente, fazendo o possível e o impossível para oferecer vida decente e futuro melhor à filha.



Relação com filhos adolescentes não é mole não. Sobram brigas e/ou faltam entendimentos. A filha de Esma, rebelde, é encrenca e acredita que seu pai foi um herói de guerra, porque sua mãe assim lhe disse. A fotografia do filme, trabalho super elaborado e cheio de significados, é show.

Antes do filme, que rolou na Mostra Internacional de São Paulo, o cineasta brasileiro, Beto Brant, um dos melhores das novas gerações de diretores, fez breve comentário. Ele assistiu ao filme num festival na Europa, sem legendas e mesmo sem entender o idioma, compreendeu a delicadeza da história que poderia ser contada apenas com o trabalho da fotografia, da edição e montagem que são primorosos. A cena final é redentora. Só não contamos o que acontece porque... porque... bem... é segredo.


"Segredos do Coração" (Itália/Inglaterra/França/Espanha - 2005), de Cristina Comencini, mostra a que vem nas cenas iniciais (nos caracteres). Numa casa vazia a câmera passeia pelos cômodos e mobiliário desnudando uma fotografia escura, sombria e bela. Os personagens vão surgindo e as cenas nos transportam para um clima que mais parece comédia. Mas, percebe-se que vem coisa por aí.

Sabina, figura central da história, tem um terrível pesadelo e desperta com a imagem de um homem que se aproxima dela. Os flashbacks que remetem a infância da moça crescem no filme e o enredo vai se desvendando. Uma frase solta aqui e outra ali, ao longo dos diálogos cada vez mais dramáticos, são encaixes de um terrível quebra cabeças que vai se formando.

Um pouco alheios à extensão do drama de Sabina, que parte de um segredo inenarrável, mas sempre solidários; os demais personagens amenizam a vida moça e também a dos espectadores.




Se seu coração tem segredos nos quais nem gosta de pensar, lembre-se que alguns devem ficar cerrados entre quatro paredes, já outros devem ser desvelados. E a vida segue.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Vai para o trono ou não vai ??????


"Los tres amigos" Laerton, Angel Villa, e Glauquito
O humor brasileiro tem, desde a década de 80, nos "Los tres amigos": Angeli, Glauco e Laerte, uma das mais fortes referências no cartum. Angeli é o criador de Rê Bordosa e Wood & Stock; Glauco criou o Geraldão e Geraldinho e Laerte o Overman e Piratas do Tietê. Todas as criaturas têm em comum overdoses de psicoses, paranoias, baratas e baratos afins.

Houve uma época em que o trio dividiu o mesmo teto de um apartamento, que ficou conhecido como "bunker", com Henfil. Foi um período de muita loucura, jazz, noitadas e planos, mas teve seus pesadelos: o mestre Henfil aplicava e supervisionava um severo treinamento aos seus três discípulos.







Após o assassinato de Glauco e de seu filho em 2010, por um membro fanático-religioso "Los dos amigos" restantes se aquietaram. Nem tanto. Laerte, além de desenhar, tem dado o que falar. Há aproximadamente dois anos assumiu-se como crossdresser. Veste-se com roupas femininas e porta-se como mulher. Muita gente não sabe, entretanto, que o fato de alguém (mulheres também podem ser crossdresser) assumir tal atitude, necessariamente, não quer dizer que essa pessoa seja homossexual. Sim. Crossdressers podem ser homos, heteros, bissexuais e transexuais. Outro equívoco: a associação direta entre o crossdessing e o transexualismo.

"In memorian" por Angeli e Laerte

Na última semana o cartunista da "Folha", protagonizou mais uma celeuma. Acionou na Justiça uma pizzaria de São Paulo onde foi "convidado" a não usar o banheiro feminino. O fato de ele se vestir como mulher é algo pelo menos curioso e esse último acontecimento envolvendo a sua pessoa provocou os mais diversos comentários. Com as falações, claro, sempre o risco de se incorrer na temível homofobia, algo politicamente incorreto nos dias de hoje.


"Los dos amigos"
O que não falta neste mundo é piração, quando o assunto vai pras bandas da sexualidade. Certa vez, assistindo ao programa do Chacrinha, mestre da TV brasileira, ele anunciou: "Vamo recebe... vamo recebe... vamo recebe... o cantor trissexual". Aí entrou o Agnaldo Timóteo, com aquele vozeirão de macho e cantou "A Galeria do Amor", música de sua autoria, que faz referência a antiga Galeria Alasca, em Copacabana, local que foi reduto homossexual ao longo de muitos anos em terras cariocas.

Mas, voltemos ao Laerte. Sua guinada para o crossdressing foi algo que deixou muita gente de saia justa. Ou de calça curta, como prefiram. Mas essa história de ele optar pelo wc das mulheres é engraçada, mas, convenhamos, que quando ele envereda a coisa pelo aspecto judicial, o assunto ganha um contorno social interessante e passa a servir como um termômetro para avaliar a Justiça brasileira e a própria sociedade.




Ficamos curiosos em torno de como a coisa vai se desenvolver. Não temos opinião sobre essa questão. Afinal, o Laerte pode, ou não, naqueles trajes que nos fazem lembrar uma tia que qualquer um de nós tem, entrar numa boa no banheiro das mulheres? E como a Justiça vai se portar diante dessa pendenga? Porque as leis sempre são generalistas e não têm como privilegiar as diferenças e especificidades.

É errado coibir e discriminar alguém, por conta da orientação sexual. Mas... até que ponto aderir ao crossdressing tem a ver com a tal da orientação sexual. Por outro lado, é meio estranho alguém que tenha um pinto (ops, foi mal... pênis) compartilhar o mesmo sanitário com meninas, jovens e mulheres. Tem gente falando na necessidade de banheiros alternativos para contemplar todas as diferenças. Os donos de bares, restaurantes e casas noturnas vão amar!


E o Laerte, vai para o trono ou não vai????

domingo, 29 de janeiro de 2012

Veja bem, meu bem...

Depois dos 40 anos o corpo começa a dar respostas aos excessos e estímulos a que foi exposto. Daí pra frente tudo pode acontecer. Mas há outros perrengues que ocorrem naturalmente, pelo simples fato de se envelhecer. Um dos primeiros a nos pegar, ainda meio desprevinidos, é conhecido como "vista cansada".

"Esse minino tá com dordóio. O oio dele tá remelano e aqui em casa tem um colírio bom que chama lavoio e vo pinga na vista dele. Se num miorá amanhã vo no doutor Chiconeli". Provável conversa telefônica entre duas senhoras cuiabanas, nos tempos em que o telefone era aquele aparelho pretão e pesado.

Aqui em casa óculos são nossos companheiros desde a adolescência. Óculos de grau. Nesta altura dos acontecimentos, sem eles, fica difícil, por exemplo, ler um cardápio. Durante as férias fomos ao teatro e em seguida esticamos para um restaurante espanhol. Ambos sem óculos. Na hora de escolher (e ver os preços)dos petiscos e bebida... "Garçom, por favor, nos ajude". Não foi um vexame. Só um pequeno mico.

"Eu não nasci de óculos, eu não era assim"

Passeando pelas ruas de Cuiabá, há muitos anos, com minha irmã e minha prima, ambas míopes, brinquei com elas. Mostrei do outro lado da rua, numa loja, uma manequim devidamente enfatiotada e disse que era uma amiga que nos acenava. As duas ficaram alguns segundos espremendo seus olhos e tentando firmar a vista pra ver se reconheciam de quem se tratava.

Mr. Glauco Mattoso 

Quatro olho, fundo de garrafa, cegueta, Mister Magoo... Alguns apelidos que perseguem aqueles que usam óculos. Pedro José Ferreira da Silva, poeta e escritor brasileiro, entretanto, usou de forma criativa o glaucoma que o perseguiu até perder por completo a visão nos anos 90. Seu nome artístico é Glauco Mattoso. Ganhou um prêmio Jabuti, junto com o professor da Usp, Jorge Schwartz, pela tradução que fizeram de obra de Jorge Luiz Borges, o mais laureado escritor argentino. Detalhe: Borges era cego.

Borges: o escritor dos seres imaginários

Não sei de nenhum artista plástico cego. Na música, a falta da visão não foi problema pra gente como Ray Charles e Stevie Wonder. O americano Dave Brubeck, célebre jazzista, tinha mais de 10 graus de miopia mas sua performance como compositor e intérprete sempre foi incrível. Valia-se da sua notável memória musical. Quando fez faculdade de música, quase foi expulso, ao descobrirem que ele não sabia ler partituras.


Brubeck e seu inseparável fundo de garrafa 

Alicia Alonso: Dançando no escuro

No Brasil existe um grupo de dança exclusivo para bailarinas cegas. É a Associação Fernanda Bianchini. Só que para bailar, sem a visão, é muito complicado, já que os movimentos da dança se baseiam muito na imitação dos movimentos. A cubana Alicia Alonso, bailarina e coreógrafa, perseguida por inúmeros problemas com a visão, mesmo com mais de 80 anos (ela nasceu em 1920), dirige o renomado Balé Nacional de Cuba. Ela é uma das principais artistas do século XX.

Fernando Pessoa não era cego. Tinha mais de dez graus de miopia, mas insistia em usar aqueles pequenos e conhecidos óculos (sua marca registrada) que eram adequados para quem tinha apenas uns três graus. Pura vaidade!! As lentes fundo de garrafa o deixavam com os olhinhos muito pequeninos.


"O homem é do tamanho de seu sonho"

Nós, todos nós, gostamos e precisamos ver com bons olhos. A beleza é um colírio para nossos olhos. Coisas feias, violentas, incomodam. São como cisco a estorvar-nos a visão. Olho no olho. Olho vivo. Veja bem meu bem, olhos nos olhos...

Quando a vista cansa, não dá pra esconder. Pra conseguir enxergar e ler o jeito é ficar como um tocador de trombone de vara: um vai e vem até achar a distância ideal. De repente parece que o "braço encurta"! Não adianta colocar a culpa no tamanho das letras. A terceira ou a melhor idade tá perto!!!!! Procure um oftalmologista. O resultado, certamente, será sua entrada para o grupo dos quatro olhos. Se não for o primeiro par de óculos, será mais um! Ou então junta tudo num multifocal e olhos para frente.




sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Quem há de dizer

Em meados dos anos 80, conhecemos Arrigo Barnabé com seu instigante e intrigante “Clara Crocodilo”, uma ópera moderna que narra a fuga de  um marginal que passa  a afligir a população de uma “cidade oculta”. As noitadas no bar/gueto “Quase 84” ferviam com o cojunto das vozes destoantes de Arrigo, Tetê Espíndola e Vânia Bastos, regado ao “Sabor de Veneno”. Algum tempo depois, circulando por Copacabana, procuramos por um LP de Arrigo Barnabé. Um atendente ao ouvir o que queríamos, lascou: “É por acaso uma dupla caipira?” Arrigo não era muito conhecido naqueles tempos e nem hoje se pode dizer que é um artista popular.

É difícil rotular a obra de Arrigo. Gostar de sua musicalidade é outra coisa. Erudito? Popular? Contemporâneo? Dodecafônico? Sei lá. Arrigo é tudo ao mesmo tempo. Um artista raro e genial que sorve de inúmeras fontes e tem uma produção muito original. Vanguarda. Qualquer um percebe que sua sonoridade é muito diferente e incomum. Clara Crocodilo, Tubarões Voadores, Arrigo & Paulo Braga são os trabalhos que aplaudimos e babamos quando escutamos. Seu piano sofisticado e estranho, sua voz gutural e o modo teatral de cantar e interpretar seus elaborados versos são sempre bem vindos.


Fecham-se as cortinas.

“Você sabe o que é ter um amor, meu senhor?” Pode ser que não se lembre da música inteira, do nome do compositor... mas certamente já ouviu “nervos de aço”. Lupicínio Rodrigues, sujeito de voz mansa pra falar e cantar. Gaúcho, gremista, que saiu uma única vez na vida de Porto Alegre. Lupe, como era conhecido, foi bedel da UFRS, dono de bares, churrascarias. A boemia foi sua inspiração/maldição causadora de suas dores de amor, a base para criar o gênero de música conhecido como “dor de cotovelo”.   
O que há de comum entre Arrigo Barnabé e Lupicínio Rodrigues, além dos nomes esquisitos? Os versos de Lupe falam de traição, desilusão, abandono, resignação, mas são ternos, na sua voz. Na interpretação de Arrigo eles ganham força, rancor, dramaticidade.




No último final de semana, seguro no comando do controle remoto, zapeando de bobeira, surge de repente na telinha a imensa cara de Arrigo (quase uma máscara) e... paramos. É “Arrigo Barnabé em Caixa de Ódio – o Universo de Lupicínio Rodrigues”, acompanhado por Paulo Braga no piano e Sérgio Espíndola no violão e baixolão, uma co-produção do Canal Brasil e do Nagoma Produções (ai tem o dedo do nobre André Sadi). Isso mesmo: Arrigo cantando Lupe, o rei da dor de cotovelo. Imediatamente, acionamos a tecla “rec”, porque Arrigo é coisa pra se ter com carinho em qualquer bolicho cultural-doméstico, gente boa.