sábado, 11 de fevereiro de 2012

Vai entender...

A palavra do Rosa
Pegar um poema e esmiuçá-lo sob a luz científica dos conhecimentos em torno da literatura. Longe de atrever nos a fazer algo assim. Não faz parte de nossas lides. Mas quando há oportunidade de assistir uma exposição desse tipo, topamos. Um leitor voraz precisa dessas vivências. Na pior das hipóteses, isso vai incrementar seu poder seletivo e desenvolver a capacidade interpretativa.

O ensaio do coral SesCanta hoje não foi para cantar... foi para debulhar uma poesia do Caetano musicada por Milton, inspirada em conto de Guimarães Rosa: A Terceira Margem do Rio. Nosso companheiro de coro, Robertinho Boaventura, tenor dedicado e cantor do Chorinho, além de doutor professor da UFMT, foi o responsável pela façanha. A música está em nosso novo repertório e tá dando trabalho pras quase quarenta vozes que somos se encaixarem. Letra porreta, uma dessas boas viagens do Caetano. Disse uma das boas, porque respeito quem não gosta desse baiano, meu ídolo de várias décadas.

Bem aventurados os eleitos
 Não seria muito delicado reportar a fala do Robertinho ipsis literis. Nada a ver com o espírito da coisa que é este blog. Estender a conversa sobre literatura mais um pouco e de vez em quando esquecer que a proposta era essa e retornar a algumas informações que o tenor doutor levantou. Porque aqui é assim. A gente esquece. Há dúvidas e teorias a respeito de porque um poeta, romancista, escritor, ou sei lá o que; escreve. O hábito de escrever, até poucos anos, era associado às inquietações que os artífices das letras sofrem. Mas faz tempo que não ouço ninguém mais dizer isso. Parece que é démodé.

Cena de "A terceira margem" (Nelson P. dos Santos)

Talvez não interesse mais a motivação que leva o escritor a escrever. Ou os jornalistas se tocaram e não fazem mais aquela perguntinha cretina: Como é o seu processo criativo? Essa resposta que muitos leitores querem saber nunca deve ser feita assim, na lata. É preciso ir cercando o artista com outras perguntas e depois sapecar essa. Se não o cara vai mesmo torcer o nariz.


Bituca e Cae

Escrever nestes tempos em que o audiovisual predomina cheira a problema. Meio na contramão. Mas que tem muita gente escrevendo, isso tem. E se tem gente que escreve, tem gente que lê. Como a literatura entra pela cabeça nas pessoas e os efeitos que ela causa são outros quinhentos. Outros mistérios. Às vezes fico sabendo que interpretações engraçadas e absurdas para passagens de livros e filmes. Que nó as artes dão nas cabeças dos outros.


"A arte é a ciência do belo" (Paul Valéry)
 Entender tudo, saber as razões disso e daquilo que alguém escreveu, o que o artista quis dizer etc... Não me amarro muito nisso. Essa questão é secundária na minha cachola. Gosto mesmo é da estética que o criador imprime em suas palavras, suas imagens, pinceladas, notas musicais, movimentos o escambau. Não se trata do tal do diletantismo, porque esse subterfúgio não é tão difícil de se perceber numa obra de arte. Como diria o grande João Sebastião da Costa: “Porque existem os artistas, mas têm também os mandioqueiros”... Vai saber o que ele quis dizer com mandioqueiros.

Então é isso. Aqui em casa sofremos desse consumismo atroz em relação às artes. Essas coisas humanas que são inventadas para mexer conosco, emocionar. Para nos fazer balançar diante das vicissitudes, porque se assim não fosse, a vida seria demais de sem graça.



Stop
A vida parou
Ou foi o automóvel?

(Drummond)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Sossega leão

Penso em até escolher uma fantasia e botar meu bloco na rua, porque o carnaval está batucando na porta. Curtir, primeiro, como feriado, depois, lá na hora H, quando o "tchacaracatchá, para-cu-pa, pa-pá, pá-pa, papapa" começar pra valer, é só escolher um programa.

A fantasia não é problema, duvido muito que ela não me chegue. Viver é uma grande fantasia. Nascemos nus e logo vamos nos enrolando em panos, amarrando retalhos a trapos,  emendando  tiras e alinhavamos tudo que termina em nós, no avesso, claro! Como se não bastasse, dependuramos penduricalhos, badulaques e salamaleques, colorimos o rosto, acrescentamos “pintas” e simulamos uma lágrima a rolar, por causa de uma Colombina.




Ah...!!! Aquela animação toda por conta do Rei Momo virou este amontoado de palavras confessionais dissimuladamente saudosistas. Mas, por falar em Momo, ao contrário do que se pensa, Momo remete ao feminino. Era uma deusa, a deusa dos escritores e poetas, filha da noite, segundo a mitologia grega. O significado de Momo está relacionado com zombaria, sarcasmo, burla. Para aqueles mais libertinos e ousados, talvez putaria também caia bem. Com todo o respeito.

Respeito é pouco para a "velha guarda da Portela"

E que saudades dos tempos em que samba era samba, não tinha essa de pagode. E que frevo era frevo, sem essa de axé. Momo é quem manda e seu significado também tem a ver com crítica. Assim sendo, vai aqui minha dose de criticidade: o axé desencantou o carnaval do nordeste. Empobreceu o carnaval de Dodo e Osmar que, num calhambeque, botavam pra quebrar e faziam multidões correr “atrás do trio elétrico”. E o pagode tem se mostrado um estorvo para o samba genuíno. O carnaval do Rio de Janeiro já não é mais aquela graaaannnde festa popular. Detém ainda o título de a maior e mais linda festa do mundo, só que agora ela é um espetáculo. Por isso tudo vejo meu crescente desinteresse pela folia espontânea e autêntica que já foi o carnaval.


Dodo e Osmar e o seu trio elétrico efervescente

Sabe aquela coisa que a gente via e ouvia, e subia uma energia dava vontade de sair pulando?  Não sei se toda a beleza de que lhes falo, sai tão somente do meu coração. Bumbum paticumbum prugurundum, onomatopeia distante e volátil... batidas de bumbos não são mais maracatus retardados. Todo carnaval tem seu fim. E o meu se foi com a ida de Jamelão. Como ser carnaval sem ouvir a voz desse trovão nos chamando pra folia?

Tá faltando samba no pé


O que sei mesmo é que não vai dar bode no meu carnaval. Nem garanhão, Leverger, Livramento, baile da cidade, passarela do samba etc. Não, não vou sair por aí cambaleando num cordão. E se alguém por aí disser que sou doente do pé, ou ruim da cabeça... posso procurar a terceira margem de um rio que passou em minha vida: o carnaval. Nem me lembro mais quando foi que desaprendi a magia da quarta-feira de cinzas. Que coisa mais poética essa data: quarta-feira de cinzas. Acabou o nosso carnaval... Saudades e cinzas foi o que restou.


"Acabou nosso carnaval..."

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Sorria meu bem, sorria



"A sorrir eu pretendo levar a vida", assim cantou Cartola
Muito riso é sinal de pouco siso. Um ditado das antigas que não merece muito crédito. Uma professora na faculdade, certa ocasião, me disse: "Não ria muito, as pessoas que riem não são levadas a sério." Esquisito isso e óbvio, né? Gente que ri não é levada a sério. Mesmo achando sem sentido tentei ser menos "rizóbora", como diziam meus amigos, porém tal intento durava pouco tempo. Caso típico de riso frouxo! É só ver o cartaz "sorria você está sendo filmado", que lasco, no ato, um grande sorriso, antes de procurar a localização da câmera!


Claro que há ocasiões sem riso e sem sorrisos, momentos em que estamos interessados e concentrados em algo. Mas basta um encontro de olhares, de pessoa conhecida ou desconhecida, sentiu uma energia boa? Toma lá um sorriso (às vezes nem correspondido, não importa já foi mesmo).

É lindo ver o sorriso brotar no rosto de uma pessoa que está lendo um livro, assistindo um filme, navegando na internet (sei lá se no facebook, lendo um email), ou viajando em seus pensamentos... distante... Dá uma vontade de perguntar por que(?). E sorriso de nenê dormindo, já viu coisa mais linda? Diz uma amiga que bebê não sorri, é apenas uma contração muscular. Minha mãe, quando ficava zangada, dizia que ria de nervoso e já ouvi gente dizer que tava rindo de raiva.





O riso é um comportamento emocional e sua função é comunicar. Fisiologicamente faz bem para a saúde, pois ajuda a relaxar os músculos, reduz a pressão arterial e emagrece. Rir é igual fazer sexo, para o cérebro! E pode ser usado para subjugar. Exemplo? Quando o chefe ri, todos riem, mesmo que a piada seja horrível. Ele tem poder.




Pesquisas sobre o riso atestam que os homens riem e são mais engraçados que as mulheres. Segundo Hitch (Christopher Hitchens, jornalista já citado aqui no blog), os homens desenvolveram essa capacidade para, estrategicamente, garantir a reprodução ou perpetuidade da espécie. Fazer uma mulher rir é garantia promissora de sexo à vista!!!! Outros estudos dizem que os homens são mais engraçados e riem mais porque são mais seguros em relação ao seu papel na sociedade e, também, por serem menos vaidosos.



Pois é... existe certa tendência das pessoas se tornarem carrancudas e de sorrir menos, principalmente, quando ocupam cargos e posições importantes. A desculpa para o semblante carregado, fechado, emburrado, enfezado; é o trabalho. A responsabilidade e a pressão. Engraçado... engraçado que nada. Porque quem age assim nem percebe que perde um canal bacana de comunicação.


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Osso duro

Há pessoas que incomodam. Gente que é problema e que arrebenta a boca do balão quando solicitado ou não... Nas suas relações é muito provável que você tenha alguém que assim possa ser rotulado. Não é fácil de lidar com isso. Agora, quando esse cidadão ou cidadã “impossível” é um artista, aí sim... danou-se.

Marcelo Mirisola é o cara. Escritor paulista contemporâneo. Tava precisando ser lido aqui em casa. E foi. No meio literário é inapropriado confessar nunca ter ouvido falar desse sujeito. Faz horas, anos..., que ouvimos falar dele. No final do ano passado, um texto no site “Congresso em Foco”, sobre os males da boa literatura; e depois a descoberta de que um de seus primeiros livros se chama “Fátima fez os pés para mostrar na choperia” (talvez lá na choperia do Sesc Arsenal). Argumentos infalíveis pra conhecer mais de perto suas letras.



O único título que encontramos nas livrarias que percorremos foi “Memórias da sauna finlandesa” (Editora 34 - 2009). Devorei o livro facilmente. É bem fininho e o tipo de texto pode ser comparado com um ditado/provérbio das antigas: escorrega lá vai mais. Foi que foi. E já estamos à cata de outras obras.

Mirisola, percebe-se, tem uma notável formação literária. Mas nunca se rende aos próprios conhecimentos. Sua língua/letra é afiada. Não pede licenças e nem faz concessões no exercício de sua liberdade textual. Talvez seja mais ou menos por aí o tal do “desencaralhamento” atribuído ao autor por Reinaldo de Moraes, escritor moderno que goza de grande fã clube, em texto que apresenta “Memórias da sauna finlandesa”.


Não sei muito e nem quero ficar pensando sobre que escrever em torno da obra de Mirisola. Talvez seja melhor tentar imitar falsamente o estilo do cara e rezar pra que ele jamais se descubra aqui. Sua literatura dizem que é influenciada pelos prêmios e o dinheiro que nunca ganhou sendo escritor. Mas sei que seu texto é muito mais que isso.



A realidade do século XXI é narrada de forma ácida e sincera nos escritos de Mirisola. Torço para que a Mariana Ximenes não leia pelo menos um dos contos de “Memórias da sauna...”. Melhor assim. “Quero que o meu leitor se foda e o crítico também”, disse ele. Não deu certo comigo. Seus contos me divertiram bastante.



domingo, 5 de fevereiro de 2012

Esse filme... já vi!

Final de semana e decidimos pela reclusão absoluta em casa. Tanta coisa a fazer... e, acaba por não fazer. Ah! isso sim é que é final de semana. Flutuando nas águas do descompromisso, literalmente a mercê da preguiça e deixando se levar pelas circunstâncias que sucederem. Livros pra ler, buscar músicas e cifras na internet pra arranhar o violão... Aí, numa certa hora dá uma vontade de ver um filminho e bate a loucurada à procura de algo que nos interesse. Mas não foi fácil assim.

Creio que os deuses tramavam a nosso favor e o impensado nos foi ofertado. Surgiram dois filmes, do nada. “Amarcord” (1973), obra prima de Federico Fellini, e “Tiros na Broadway” (1994) de Woody Allen.

Amarcord


Don't speak, don't speak


John Cusack e Chazz Palminteri em "Tiros..." 

Dias atrás vimos um filme que na época gostamos muito e comentávamos a história, os personagens engraçados... Acontece que ele envelheceu. Sei lá, as coisas mudam, as pessoas mudam e alguns filmes perdem o viço, a graça. Mesmo filmes de grandes diretores incorrem nessa possibilidade. Alguns filmes do Allen, por exemplo. Por instante passou um temor pelas nossas cabeças: “Meu Deus do céu, será que pode acontecer com Amarcord?”. Bobagem, ledo engano.





Amarcord, filme autobiográfico desse gênio, continua mais lindo do que nunca. Amarcord remete a “eu me lembro”, lá na região da Itália, onde Federico nasceu e passou parte da sua vida, antes de começar a encantar o mundo com a magia de seu cinema. E que cinema. A boniteza que um final de semana precisa ter e que alimenta nossas almas, graças a Fellini, continua intacta.





O adolescente sufocado pela mulher gorda de seios colossais, o velhinho músico e cego que pede para que lhe expliquem como é o magistral transatlântico, o tio biruta que sobe numa árvore e não quer descer. Essas e outras cenas estão entre os encantamentos guardados na memória. Já valeriam a pena, caso o filme, como um todo, não nos balançasse tanto.  Mas ainda tem a maravilhosa música de Nino Rota, autor da maior parte das trilhas de Fellini.

Já quase por encerrar o domingão, eis que se apresenta a curiosa possibilidade de rever “Ed Wood” (1994), de Tim Burton, com Johnny Depp, que conta a história do pior cineasta de todos os tempos. Ôpa, Tim Burton... Que azar, filme dublado!!! É, os deuses já se deram por satisfeitos e... foram descansar.



sábado, 4 de fevereiro de 2012

Reis da cocada

Quem manda aqui sou eu e não tem pra ninguém. Volta e meia, nas mais diferentes situações sociais, alguém assume essa posição de chefia e a partir dai tudo passa por essa pessoa. A forma de escolha geralmente parte de dois princípios básicos: 1) Ele(a) tem algo que nos interessa; 2) Auto indicação, o que implica em preguiça ou por não querer bate-boca da parte dos demais. Nas duas formas há consequências, o que na maioria das vezes é um caos, um saco... aguentar esses chatos é dose.

Na verdade, não é uma liderança, porque um líder é alguém que conquista essa posição. E tem seguidores espontâneos. Já um "dono da bola ou dono do pedaço", aquele que se acha, não tem seguidores. Tem uma cambada de puxa sacos, gente que simplesmente tá por ali pra usufruir das benesses e quando necessário vai procurar outro falso líder pra continuar na maciota. 

Na sala de casa, em frente a televisão, quem tá com tudo, tá com o controle remoto na mão. É esse quem define o canal, o programa. O rei do zapping. Quando você está começando a gostar de algo, o outro(a) muda de canal abruptamente. O remédio é ir pra outra TV, que provavelmente é mais vagabunda do que a da sala. Ou ficar de butuca, torcendo pra que o dono do controle saia momentaneamente e aí você se apodera do controle, nos dois sentidos, rapidamente. Aí você assume o comando e foda-se a vontade dos outros.



Nos tempos das peladas nos campinhos de futebol, pelo menos um cara era fundamental pra que rolasse o jogo. Quem? O dono da bola. E o dono da bola, quase sempre, era um cabeça de bagre. Ruim de bola, embora fosse o dono dela. Era um sujeito que poderia jogar, no máximo, como goleiro. Mas era preciso aceitar ele como jogador na linha e até fingir que ele não era tão ruim assim. Vai que ele se chateasse ou perdesse a paciência e fosse embora, levando consigo a pelota? Final do jogo.

Depois de uma boa pelada dessas de final de semana, nada como um churrasco. Uma reunião social com um grupo familiar ou de amigos, onde se vai assar uma carne. Não é sempre, mas, muitas vezes, aparece aquela pessoa, normalmente um homem, que assume a função de churrasqueiro. É quem acende o fogo, prepara a carne e depois a serve. Fica do lado da churrasqueira comandando a coisa na base da cervejota que pede pra lhe servir a toda hora. Costuma usar um pano de prato, que é jogado nas costas peludas e suadas, pra limpar o suor, a boca ensebada, a faca... Eca!!!! Coisa mais nojenta. E ainda gosta de esnobar seus conhecimentos, sobre fraudinha, picanha, alcatra etc, mesmo que, na verdade, nada saiba sobre isso. É tudo fruto da mardita, da cerveja, da manguaça que já lhe subiu à cabeça.  



Na hora de servir o churrasco, é uma moagem lascada. Quer fazer gracinhas, quer que ouçam suas piadas e comentários ridículos. E a carne esfriando... claro, que aproveita pra privilegiar as mulheres bonitas. Churrasqueiro desse tipo, pra falar diretamente, é o verdadeiro filho da puta. E nem vou mais escrever sobre isso, porque já tô até ficando com raiva.


Agora, preste atenção. Se você está numa festa ou reunião onde tem um povo... digamos assim, barra pesada, repare se tem alguma pessoa muito solicitada ou alvo de inúmeras gentilezas. E essa pessoa anda pra lá e pra cá toda metida, sempre com alguns a segui-la, desmanchando-se em favores. Pode crer que aí tem, mano. Essa pessoa, podes crer, é quem tá no comando, é o rei ou rainha da cocada preta ou branca, e tá fazendo a cabeça da galera. Se você for doidão, chegue junto e mostre a sua cordialidade para com ela, seja criativo e generoso nas gracinhas, porque quem sabe você cairá nas graças e pode se dar bem. Agora, se você for careta, talvez nem perceba a muvuca. Mas, se ver que tem algo estranho e esquisito, fique na sua, porque não tem serventia puxar o saco de alguém gratuitamente.

"Festa estranha, com gente esquista"

Essas situações revelam alguns casos de "donos do pedaço". É tudo circunstancial, como já foi dito. Pensando bem, como essas ocasiões são passageiras, até que dá pra aguentar. Vai passar. E vamos combinar o seguinte. Entre todos esses "donos" aqui citados e não citados como o irmão da gostosa, o chefe, o político de carteirinha e muitos outros, não existe ninguém ou nenhuma pessoa mais chata do que a que pensa que é e que quer ser a qualquer custo, sem o menor simancol, a "dona da verdade". Aquela pessoa que sabe tudo, ou quase tudo, mas não é capaz de perceber a dimensão da sua chatice.
É triste, mas é verdade. Em qualquer uma das situações, como diria Nelson Rodrigues: quando não se é canalha na véspera, é canalha no dia seguinte.    




sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Coisa bonita, coisa gostosa

A mulher, segundo Botero
À medida que o tempo passa, as medidas aumentam. O corpo vai ganhando “carnes” que se contornam em curvas voluptuosas entre saliências, fendas e reentrâncias. Até parece com coisa de geologia e geomorfologia, com escala temporal e espacial bem diferenciada. A causa dessa nova paisagem corporal é a gordura, que vai se depositando, preenchendo, formando protuberâncias e profundezas entre as dobras. Um novo shape que se molda.

O terror feminino com a forma é praticamente diário, depois da ditadura imposta pela estética Twigg, dos anos 60. Com a maioria dos homens parece ser diferente, definitivamente não se importam e, para piorar, usam e abusam de justificativas machistas para vangloriar dos seus volumes incorporados e mal distribuídos. Caem em si quando recomendado, claro, após intervenção médica.






A gordura é formada por três moléculas de ácidos graxos e uma de glicerol, dando origem ao famoso e assombroso “triglicerídeo”. Ela não é de toda má e tem lá sua importância no contexto da vida e da saúde humanas: é fonte de energia, isolante térmico (não há muita necessidade aqui em Cuiabá) e auxilia na síntese e funcionamento de algumas substâncias, entre elas, hormônios sexuais, dentro dos padrões.

A mulher, segundo Rubens
 A nova, talvez nem tão nova, epidemia mundial é a obesidade. A causa? Adoção de hábitos modernos. Cada vez menos andamos, trabalhamos e movimentamos fisicamente. A "vida moderna" facilita nossa locomoção (em termos!) e o acesso a alimentos. Tornou desnecessária belicosidade humana de lutar para conseguir a comida, formar e manter a família e o grupo social e assim por diante. A maior e incessante luta diária que enfrentamos é pela posse do controle remoto; quem o tem, detém o poder. O pior de tudo é que essa epidemia não tem fronteiras e se alastra nos núcleos mais pobres. Convenhamos, parece ser um paradoxo, não? Mas não é excesso de alimentação, é exagero e ingresso a produtos alimentares da pior qualidade.  Caso de saúde pública e de polícia!!!!!!
Twigg, ontem (Sec. XX)

Adele, hoje (Sec. XXI)
 Voltemos às volúpias. Tá na cara a felicidade nas pessoas mais fofinhas. Não é por possuir mais que há menos sensualidade. Olhem os homens e mulheres de Botero. Elas exalam erotismo. Compare com a secura das musas de Modigliani. Por falar em comparar... rolou nas redes um face a face entre duas ícones da saúde e/ou do bem viver? Nigella e Gillian MacKeith, ambas inglesas, 5.5. A morena é uma gourmet meio que descontrolada. A loira, lida com reeducação e impõe uma vida disciplinada, nos moldes em que viviam os cidadãos/soldados espartanos.

A mulher, segundo Modigliani

O pastelão (pastelão... hummm!!!) da dupla conhecida por todos nós é a síntese da conversa de hoje. A grande obra de Cervantes também nos remete a esses biotipos opostos. Mas tudo indica que vai faltar gente magra, pra tantas pessoas fofinhas que existem no mundo. Enquanto isso, o mundo também engorda em termos de população. É hora de parar... Parar... parar do que? Parar de escrever, claro. Tá na hora de fazer um lanchinho.   

Gillian McKeith X Nigella Lawson


Shiiii, só uma boquinha

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Pra não guardar segredo

Segredo provém do latim: "secretu", uma forma verbal que significa separado, afastado, retirado, isolado, solitário, oculto, invisível e também um substantivo que significa lugar retirado. Palavra forte. Quando pronunciada quase sempre vem como um sussurro.

Uma história sobre segredo lembra um amigo. Quando chegava pra ele e dizia que ia contar um segredo e que contava com sua discrição, ele, muito zangado, dizia: "se você que é dono do segredo não consegue guardá-lo, por que eu então deveria?". No mundo da ficção, cada vez mais embaralhado com o mundão real, segredo é expressão fetiche. Cabe muito bem em qualquer trama.

Dois filmes que nos conquistaram, têm segredos em seus títulos e roteiros: "Em Segredo" e "Segredos do Coração". Discorrem sobre as complexidades das relações familiares, que podem advir tanto de fatores internos (da própria família), quanto de questões externas. Bonitos, ternos e humanitários. Verdadeiros e grandiosos mostram a coragem de seus autores ao tratar de forma natural temas ultradelicados como o estupro e a pedofilia, sempre mantidos em segredo.


Luna Mijovic e Mirjana Karanovic "Em segredo"

"Segredos do coração" tem a bela Giovanna Mezzogiorno

Têm vezes em que se lê a sinopse de um filme e apenas pelo conhecimento de um tema pesado, ao qual o filme irá explorar, já torcemos o nariz e pensamos: "Hummm... este filme... não quero assistir". Aí perdemos a chance de aprender e apreender algo mais sobre a vida, vida que está sempre se refletindo no cinema. Não passar impunemente por nenhum filme é um projeto de existência interessante para quem deseja educar e depurar seus sentimentos. A arte serve pra isso, além dos encantamentos que nos provoca.


"Em Segredo" (Áustria/Bósnia/Alemanha/Croácia - 2006), direção de Jasmila Zbanic, apresenta uma Saravejo pósguerra com todos os problemas inerentes. Multidões de mulheres que perderam seus homens na estupidez bélica, sendo que muitas delas foram estupradas pelos soldados inimigos. Entre essas mulheres está Esma, que vive solitária com sua filha adolescente, fazendo o possível e o impossível para oferecer vida decente e futuro melhor à filha.



Relação com filhos adolescentes não é mole não. Sobram brigas e/ou faltam entendimentos. A filha de Esma, rebelde, é encrenca e acredita que seu pai foi um herói de guerra, porque sua mãe assim lhe disse. A fotografia do filme, trabalho super elaborado e cheio de significados, é show.

Antes do filme, que rolou na Mostra Internacional de São Paulo, o cineasta brasileiro, Beto Brant, um dos melhores das novas gerações de diretores, fez breve comentário. Ele assistiu ao filme num festival na Europa, sem legendas e mesmo sem entender o idioma, compreendeu a delicadeza da história que poderia ser contada apenas com o trabalho da fotografia, da edição e montagem que são primorosos. A cena final é redentora. Só não contamos o que acontece porque... porque... bem... é segredo.


"Segredos do Coração" (Itália/Inglaterra/França/Espanha - 2005), de Cristina Comencini, mostra a que vem nas cenas iniciais (nos caracteres). Numa casa vazia a câmera passeia pelos cômodos e mobiliário desnudando uma fotografia escura, sombria e bela. Os personagens vão surgindo e as cenas nos transportam para um clima que mais parece comédia. Mas, percebe-se que vem coisa por aí.

Sabina, figura central da história, tem um terrível pesadelo e desperta com a imagem de um homem que se aproxima dela. Os flashbacks que remetem a infância da moça crescem no filme e o enredo vai se desvendando. Uma frase solta aqui e outra ali, ao longo dos diálogos cada vez mais dramáticos, são encaixes de um terrível quebra cabeças que vai se formando.

Um pouco alheios à extensão do drama de Sabina, que parte de um segredo inenarrável, mas sempre solidários; os demais personagens amenizam a vida moça e também a dos espectadores.




Se seu coração tem segredos nos quais nem gosta de pensar, lembre-se que alguns devem ficar cerrados entre quatro paredes, já outros devem ser desvelados. E a vida segue.