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| Abapuru: Influências regur(a)gitadas |
O
tempo é relativo. Pra alguns, noventa anos tá no “fim da picada”, “dobrou o
cabo da boa esperança”. Para outros, ainda “dá um caldo”, “quebra um galho”, tá
na “flor da idade”. E o que dizer de um evento que não se esgotou, que é a referência
de modernidade, fonte para vertentes culturais que surgiram e despareceram, e
para as que se mantiveram, apesar de muita água ter passado pela ponte. É a “Semana de 22 ou a Semana de Arte Moderna”,
que no dia 13 de fevereiro marca seus noventa anos.
A
famosa Semana, justiça se faça, é o principal acontecimento para a cultura
brasileira ao longo da nossa história. Em 1922, também se comemorava o
centenário da independência tupiniquim. Nada mais cabível, então, do que os
artistas daqueles tempos oficializarem um novo rumo para as artes da terra,
inaugurando uma produção que fosse mais a cara do Brasil. As influências vieram
de fora e aqui se impregnaram e se alastraram.
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| Catálogo de... Di Cavalcanti |
São
Paulo, cidade que na época tinha a metade da população do Rio de Janeiro, que
era a capital do país, foi a sede dessa manifestação. O Teatro Municipal viveu
três dias (13, 15 e 17 de fevereiro) de muita agitação. É depois disso, a literatura,
a música e as artes plásticas brasileiras experimentaram novos conceitos e
padrões estéticos, cessando tudo que a musa antiga cantava. Mais liberdade para
criar e muita polêmica. Mas, tava na hora.
Di
Cavalcânti, Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Anita Malfati, Villa-Lobos,
Victor Brecheret, Menoti Del Picchia e Guilherme de Almeida, entre outros
artistas, articularam a Semana de Arte Moderna, mas as novidades estéticas já
estavam presentes na produção de artistas como o poeta Manuel Bandeira e a pintora
Tarsila do Amaral, que não estiveram de corpo presente na manifestação. O poema
“Sapo”, de Bandeira, por exemplo, é apontado como um dos marcos de ruptura com
o “velho”, porque o novo sempre vem.
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| Pagu, Elsie, Tarsila, Anita e Eugenia: damas calibre 22 |
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| Tropicalismo, eu vim de lá pequenininho |
É
curioso como essa poesia de Bandeira ganhou esse status, apesar de ele morar no
Rio e ter se recusado a participar. Disse ele que não queria encrenca com
poetas parnasianos, versejadores mais antigos, com os quais tinha amizade. Bom,
de uma forma ou de outra, ele foi fundamental para a modernização das letras
brasileiras.
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| Victor Brecheret |
O escritor Monteiro Lobato, praticamente um ícone da cultural brasilis, perdeu
uma oportunidade de ficar calado. Criticou ferozmente o trabalho de Anita
Malfati, que acabara de chegar da Europa. Lobato, para contestar Anita, deixou
entrever sua incapacidade de compreender o cubismo de Picasso. Meteu seu
narizinho onde não devia.
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| A estudante russa (Tarsila do Amaral) |
À
Semana de Arte Moderna, na verdade, estava mais associada a palavra futurismo
do que modernismo. O moderno preponderou. E a partir daí, deu no que deu. O antropofagismo,
num futuro imediato e o Tropicalismo, que se deu bem mais pra frente, são movimentos
relacionados com aqueles dias novidadeiros, quando a poesia passou a ser declamada,
o academicismo nas artes plásticas bailou, e a vaia bateu duro. Ora, viva!!!
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Eu sou um escritor difícil
Que muita gente
enquiszila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar de uma
vez:
E só tirar a cortina
Que entra luz nesta
escuridez.
(A costela de grão cão)
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| "A poesia ficou nua entre grades, como um meridiano" |
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| Bandeira, sapo cururu |
Os Sapos
Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.
Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
-“Meu pai foi à
guerra!”
-“Não foi!” – “Foi!” –
“Não foi!”.
O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz:-“Meu cancioneiro
É bem martelado”.
Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.
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