segunda-feira, 2 de abril de 2012

Só Dez por Cento é Mentira

Tá difícil. Nenhum assunto especial anda passarinhando e querendo fazer ninho em nossas cabeças neste noturno de segunda-feira. Do nada parece correr e percorrer a memória para juntar os cacos, cacarecos e trecos. Aí, aos 45 minutos do segundo tempo, o fichário memorial recente aciona. Há uma gravação guardada desde ontem. É o documentário “Só dez por cento é mentira”, que explora a fragilidade poética de Manoel de Barros. Um simples play embeleza o começo desta semana. O dia está salvo e o novo post está pedindo passagem. Tudo é espontâneo nesta hora.




Nequinho é o apelido do poeta que nasceu em Cuiabá, mas, com menos de um ano mudou-se para Campo Grande. É apontado como um dos maiores nomes da poesia  contemporânea brasileira. Seu verso é único e produz encantamentos raros nos mais diferentes tipos de gentes. O documentário, dirigido, roteirizado e narrado por Pedro Cezar; ganhou prêmios nos festivais de Paulínia e de Goiânia em 2009. Joga luz sobre a poesia e a vida de Barros, mostrando-o como um poeta que demorou, demorou, mas tornou-se um poeta em tempo integral. “Eu comprei o meu ócio”, diz ele ao no filme.



A película tem um esmero especial com as imagens (de cair o queixo), em sua maioria, flagrando as coisas aparentemente inúteis da vida que, segundo o poeta, têm serventia para o poema. Ah, e como serve essa coisarada toda pra derramar poesia em nossa vida fria. Desfilam pelo doc depoimentos de artistas como Fausto Wolf, Adriana Falcão, Joel Pizzini e Elisa Lucinda, entre outros. Parentes e personagens, pessoas importantes que ladearam a vida/obra do poeta, como a esposa Stella Barros, o filho João de Barros, a filha Martha, o irmão Abílio e o incrível Palmiro (consultor de Barros para o idiomês pantaneiro); enriquecem a obra com elementos de foro íntimo e outras cositas curiosas e engraçadas.





Manoel de Barros foi um dos escritores homenageados na Literamérica 2005, ao lado de Ricardo Dicke e Wlademir Dias Pino.  Como assessor do evento, me coube a tarefa de ciceronear os convidados. Quando Nequinho chegou e desceu do ônibus no hotel onde se instalaria, eu conversava com Dias Pino. Pedi licença pra receber Manoel e disse que já o tinha entrevistado duas vezes anteriormente. Ele, indagou em seguida: “Lorenzo, esse outro homenageado, o Wlademir, já morreu?”. Wlademir estava praticamente ao lado e não pestanejei: “Não poeta, olha ele aqui”. Os dois puseram-se a conversar.  

Palmiro, comparsa de Manoel nas travessuras das palavras

Lá se vão sete anos desse episódio e, de lá pra cá, Manoel de Barros, já nonagenário, vem sendo assunto – e dos bons - em tudo quanto é veículo de comunicação. Imaginem se não iríamos tratá-lo com carinho e devoção aqui no Tyrannus.

Numa das nossas conversas ele me falou de um tal de Bernardo, um sujeito “diferente”, que morava em sua fazenda ou coisa assim. Bernardo tinha o dom de se comunicar com seres viventes como as aves que se empoleiravam nele; e com os peixes, que nadavam entre seus dedos quando ele entrava n’água. No “Só dez por cento é mentira” Bernardo é dito como o cara que Manoel de Barros queria ser. É o seu alterego, disse Palmirinho, claro que no iodiomês pantaneiro. Foi de arrepiar.

1923: Manoel segura o olho de vidro de seu avô




Empapado de poesia e de encantamentos com a beleza do filme, fechamos o post com uma resposta de Manoel, à uma das perguntas da minha primeira entrevista com Nequinho, que foi feita por carta: “Acho que ninguém escreve, ou faz qualquer arte, sem esperança de ser apreciado, lido e gostado. Todos, com certeza, gostariam de atingir, com a sua arte, ao menos meia dúzia de amigos e a namorada. Não sou diferente. Gosto de ser lido e de ser amado através de meus versos. Isso é mais do que humano, é humaníssimo. Entretanto, ó entretanto! não desando do meu caminho estético para agradar. Sou um manobreiro de palavras e as manobro para criar imagens poéticas com efeitos estéticos. Às vezes tenho o gosto de desestruturar a linguagem. Faço isso não para ser original, mas para me ser.” Dá-lhe Nequinho!!!

A Manoel de Barros, com amor


... o resto é invenção."

domingo, 1 de abril de 2012

O canal é o Brasil

Vez e sempre uma surpresa agradável e não é por menos.. De bobeira, captamos o “Sem Frescura”, programa conduzido pelo irreverente Paulo César Peréio, que entre um gole e outro (de um bom uísque ou qualquer coisa do gênero) leva um papo descontraído e permissivo. Acompanhamos ele papeando com Paulo Tiefenthaler. Não foi bem uma entrevista, porque a conversa poucas vezes convergia. Era um pra lá e outro pra cá, às vezes simultaneamente. “É sem frescura, porra”, diz Peréio na chamada de abertura do programa que resiste diante da mediocridade da televisão brasileira.

Peréio tem uma das vozes mais bonitas do Brasil, e também das mais requisitadas para locução, mas quando está no seu programa não é fácil entende-lo. E Tiefenthaler não fica nadica pra trás. Eles pareciam dois trogloditas vociferando grunhidos guturais, ininteligíveis. Um intelectual diria que foi um diálogo visceral, primevo. Quando entendíamos as opiniões e pontos de vista eram agressivas, mas verdadeiras. Tocavam fundo na ferida e na baboseira a que somos expostos, em todos os sentidos, se não tivermos chance ou paciência pra garimpar produções artísticas interessantes e autênticas.





 
O jeitão do Peréio é conhecido: grosso, sem educação, prepotente, irônico e outros mil adjetivos. Pra comemorar seus 70 anos de idade e 50 anos de carreira ganhou até um anti-documentário (a pedido): “Peréio eu te odeio”, dirigido por Allan Sieber, cartunista. Pra falar mal de Peréio não houve problemas, ele fez uma lista com familiares, amigos e inimigos e cedeu para orientar o diretor. Os familiares e amigos adoraram depor seu desprazer em conhecer ou ter convivido com ele. Alguns inimigos recusaram, seria o “gozo” para o ego do artista.  


Já escrevemos aqui no Tyrannus sobre o Paulo Tiefenthaler, discorrendo sobre seu jeitão despojado e o curioso programa de “culinária de guerrilha”, o Larica Total. Conversei com o André Sadi, quando ele aqui esteve no Festival de Cinema de Cuiabá, cobrando-lhe o retorno do Larica. “Ele vai voltar...”, garantiu. E já na próxima terça, rola no Canal Brasil, o making off da reestreia do Larica.

Aí, acabou o Sem Frescura e, ainda de bobeira, no mesmo Canal Brasil mais um documentário: “Canções do Exílio, a labareda que lambeu tudo”. Nome estranho e esperamos pra ver qual era. O doc, dirigido pelo jornalista Geneton de Morais, com Caetano, Gil, Mautner e Macalé. Presente também o Glauber, com seu vozeirão. E quem faz a narração? Quem...? Quem...? Ele, o odiado Peréio. Foi muito Peréio para uma tarde domingueira, mas valeu. Há quem prefira Faustão, Gugu, Eliana etc... Cada um com as suas preferências. Acreditamos que a força do hábito congelou as mãos ou cérebro  ou sei lá mais o que das pessoas que não con$eguem buscar outras opções.  

Caetano e Geneton
 


Bueno, o bacana na produção do Geneton é a ligação de antigos depoimentos, basicamente de Gil e Caetano, nos tempos em que eles foram presos e depois convidados ao exílio, com entrevistas atuais. Lá pelo final dos anos 60, começo dos 70.



 



“Ouvi eles dizendo várias vezes que queriam matar o Vandré”, diz Caetano, referindo-se aos contatos imediatos que travou com a polícia do exército, durante os anos de chumbo. E Gil, enquanto preso, não negou uma “canja” aos soldados e oficiais e numa noite rolou um showzinho bacana.


"Eu fui muito feliz, completamente triste" (Macalé)

É sempre legal recordar episódios da história (neste caso, não oficial) brasileira. Uma sacada interessante do Geneton é que em parte do texto ele, que foi e ainda é jornalista, desce a lenha nessa profissão, nas suas regras, suas restrições e pusilanimidades. Mas, salvaguarda o ofício, valorizando pelo menos um lado bom: o de produzir a memória.






Coincidentemente a data do “golpe” foi sábado, 31 de março. Tá rolando uma discussão braba, sobre o “direito do esquecimento”. Muito antes o General João Batista de Figueiredo ao deixar a presidência, pediu: “Esqueçam de mim”. Têm fatos e coisas que um povo não pode nem deve esquecer!



sábado, 31 de março de 2012

Aos costumes

Os belos Jessica e Ben Barnes
Com a mão coçando pra escrever sobre mentiras, ou mesmo mentir. Mentira. Não estamos nem aí pro primeiro de abril. Ele vai passar e de nossa parte só aquelas mentirinhas simples e cotidianas, que nem precisam abastecer o texto de hoje. O cinema e seu eterno retorno no Tyrannus é quando rola um filme interessante, segundo o nosso ponto de vista, ele vem parar aqui. E o mesmo vale pra outros produtos culturais.

Procedimento típico do blog, que se assume como consumidor das artes e, assim sendo, o cinema faz parte dos nossos bons costumes. Ops... olha o nome do filme de hoje aí gente: “Bons Costumes” (2008). O velho e bom humor inglês predomina nesta produção originária do Reino Unido/Canadá, com bons atores, sob a direção do australiano Stephen Elliott (“Priscila, a Rainha do Deserto” e “Um Tira da Pesada”). Adaptado a partir de um texto literário, esta comédia romântica não tem nada a ver com aqueles filmes pasteurizados americanos que chegam semanalmente ao Brasil. Não, Julia Roberts não está no elenco. Nem Sandra Bullock.



O título do filme é irônico. Vamos combinar que basta que um padrão moral de determinada época seja catalogado de acordo com os códigos sociais, para que ele comece seu processo de decadência. A história de Bons Costumes se passa entre os anos 20 e 30 em algum lugar do Reino Unido, e tem seu início a partir do momento em que o filho de uma aristocrática família (falida) lá daquela região do Velho Mundo, retorna dos Estados Unidos para seu seio familiar. E casado com uma modernosa – e assim, um pouco audaciosa – americana.


Pose é o que não falta


Uma sogra hipocritamente polida


Claro que sua mãe e irmãs não morrerão de amores pela nova agregada, embora o pai se mostre mais compreensivo. A figura paterna é um personagem ao melhor estilo “carta fora do baralho”. E aí a história vai se desenrolando numa perfeita reconstituição de época, acompanhada por fotografia impecável e ótima trilha sonora. Cole Porter é sempre exuberante. Colin Firth, Kristin Scott Thomas e Jessica Biel dão um show de interpretação, mas praticamente todo o elenco se sai muito bem.


Aviso as navegantes: ele morre!
Confesso que meu olhar sobre o filme foi meio enviesado do princípio ao fim. Estava querendo não gostar e procurava de tudo quanto é jeito achar defeitos. Defeitos, segundo a nossa opinião, que fique claro. E o filme foi passando, passando... e de repente acabou. E fiquei a ver navios em termos de mencionar com exatidão qual foi o problema, se é que houve. Sobrou a possibilidade de que em Bons Costumes está tudo certinho demais e, não sei por que, esse certinho tem algo de suspeito.      

Fim

sexta-feira, 30 de março de 2012

Expansões abdominais

"Seo" Barriga
Você ainda vai ter a sua. Ou melhor, já tem. Pode ser que se orgulhe ou se envergonhe. Depende da sua vaidade e também do que faz para mantê-la nos padrões estéticos (que mudam e “são” aceitáveis à medida que a idade avança). Estamos falando de barriga! Vamos deixar de fora aqui a barriga  relacionada com a procriação. Porque neste planeta interno aquoso, habitado por apenas um cidadão (às vezes mais), onde fomos soberanos, é outra história. Esse curto período onde vivemos submersos infere ou define muito do que viremos a ser. Deixa pra depois um post sobre isso, que vai requerer viagens pra compreendermos melhor a nossa Atlântida particular. Vamos dar uma barrigada nesse papo.

São vários tipos de barrigas que deparamos em nossas vidas, mas, pra simplificar, vamos com dois deles. O mais cobiçado é o “tanquinho”. Quem tem barriga assim não se avexa nada na hora de tirar a camisa e adora usar trajes de banho. E a barriga mais desprezada é aquela que se avoluma, rompe botões das camisas, estica as camisetas, impede a calça de ser abotoada e se impõe de frente, de perfil, deitado, sentado...



O modelo “tanquinho” está intrinsicamente associado ao ano de produção. Mantê-lo é pauleira. Academia e dedicação, e mais os malditos abdominais. Esses exercícios que em outros tempos eram dolorosos e ainda havia o risco de, se mal feitos, e eram; adquirir uma lesão na coluna. Hoje, são muito mais simples e eficazes. Já o estilo barrigão, tem até serventia. Ajuda a identificar proprietário: “é aquele barrigudo ali, ó!”. Para se chegar nele, o desleixo é o melhor caminho. Muito fácil e simples de conseguir e garantimos, com excelentes resultados! Combina com comilanças e cervejas. E se o protagonista levar uma vida sedentária, aí tudo está perfeito para essa expansão abdominal.

"Barriguda"
Barriga é também uma expressão usada no jornalismo. Para cometer uma “barriga” no jornalismo, serve apenas o desleixo. A preguiça de checar uma informação. Sintetizando, é uma notícia ou informação falsa. Se rolar por desleixo, o pecado é menor. Mas o problema é que existem barrigas originadas pela má fé ou pela desonestidade. Aí, não tem lipoaspiração que resolva.




Atletas ou profissões que requerem atividade física intensa são os que precisam de mais controle pra evitar a pança. Vide o caso Ronaldo Nazário, antes de pendurar as chuteiras. Por conta das sequências de paradas apresentava uma protuberância que prevista para crescer, e muito! Mas um jogador paraguaio muito bom de bola, o Cabañas, cultuava uma barriga avantajada e nem por isso sua performance em campo era prejudicada. Coisas da vida!    




A medida da circunferência de seu abdome é um indicador da situação de risco ou não de seu coração. E nada de gracinhas, tipo: “se você pensa que isso é uma barriga de cerveja, está enganado. Isso é um tanque de combustível de uma máquina de fazer sexo!” Chequem: homens com mais de 100 cm e mulheres acima de 88 cm de circunferência estão na faixa de risco. Cuidem-se. O bobo agradece.

Se cuida...

quarta-feira, 28 de março de 2012

Peg pag

"Gigante" filme de Adrián Biniez
O supermercado, definitivamente, não é um local que aprecio. Na hora das malditas compras, a vontade que tenho é a de me tornar o The Flash, o super herói de impressionante velocidade que otimiza seu tempo e nunca/jamais vasculha as prateleiras em vão. Sabe tudo que quer e onde tudo está. Consegue descobrir o caixa mais vazio na hora feroz da somatória final, e onde se encontra a moça mais rápida nessa matemática cotidiana.

Basta ser intimado para ir às compras, que o humor vai ladeira abaixo. Dirigir, procurar uma vaga no estacionamento, entrar, guiar o carrinho, pesquisar e comprar. Depois entrar na fila do caixa, pagar e assistir o empacotamento das compras, voltar pro carro e alojar produtos ensacados. E você sabe que não acabou...



Chegar em casa, descer as compras e guardá-las em seus devidos lugares. Todo esse procedimento me enerva. Em qualquer ida ao supermercado, por menor que seja a compra, sei que na próxima hora, se não mais do que isso, estarei envolvido com esse afazer. Um saco.  Invejo as pessoas que têm mais paciência nessa função. O que costuma salvar nessas ocasiões são os encontros inesperados com pessoas amigas, algumas que há tempos não via.  Isso é bom e curioso. Quando vou às compras, imagino com quem encontrarei dessa vez. E esses encontros fortuitos me obrigam a, pelo menos, fingir que não estou mal humorado.

Hoje foi dia de supermercado e um contratempo extra. Com a proximidade da Páscoa, acontece uma revolução na ambiência. Com a nova decoração, bem num local onde é impossível não transitar, instalaram uma espécie de caramanchão com ovos de páscoa pendurados. Por causa da minha estatura acima do normal, tive que andar quase que dobrado. Um detalhe insignificante, mas, para quem padece de “neurose de supermercado”, é uma merda.    

Saco cheio

Na maioria das vezes indagamos um pro outro se tem algo, em mente, pra escrever. É comum a cabeça vazia, oca... cansados, exaustos dos afazeres do dia. Aí vai rolando uma descontração básica. Conversa vai, conversa vem e definimos o assunto, que contumazmente descamba, bacana...

Essa de supermercado pegou maus. Não houve tempo para um preparo psicológico. Não é um tema, que se basta com apenas uma nota. Pois não é ele que todos os meses surrupia meu parco soldo e assalta o cheque especial, quando não, o cartão de crédito?






Adoro o cheiro, as cores e o sabor das frutas; o frescor das hortaliças; a robustez dos tubérculos, o calor dos temperos; o brilho dos óleos e azeites; a bioquímica dinâmica dos queijos; o sono dos grãos; a textura das farinhas e açucares, os segredos das latas e embalagens invioláveis, as inovações tecnológicas dos panos de limpeza, o designer dos rodos e vassouras, a neblina que escapa dos freezers, o silencio dos vinhos, sopesar com os olhos, deslizar as mãos com malemolência nas bananas maduras, beliscar disfarçadamente as uvas, apertar os tomates maduros e desejar a lagosta alheia... E de algumas pessoas. E gosto muito da minha performance pra dirigir o carrinho abarrotado, tirando finas e me esgueirando pelos corredores escorregadios. Quase Ayrton Sena!  

terça-feira, 27 de março de 2012

Ninguém 2012!

Zé Bolo Flor, poeta popular, carregava um santo pra se proteger
 dos prefeitos de Cuiabá!
Nos tempos antigos, Cuiabá era uma mocinha fogosa. Uma moça de “rim quente”, conforme se dizia, principalmente quando era época de eleições... Naqueles tempos as eleições brasileiras eram bipolares. Uma disputa acirrada entre dois partidos políticos: o Partido Social Democrático (PSD) e a União Democrática Nacional (UDN).

Em Cuiabá já foi comum identificar famílias e/ou pessoas como correligionárias desse ou daquele partido. As disputas e embates, nos bastidores, eram brabas. A oratória era uma arma fatal e o carisma favorecia ou não as plêiades. Mas... muito chumbo grosso rolava. Não tinha essa de bala perdida não. Aqui as balas tinham endereço certo. E... olha a faca!!!   

Nas ruas, a baixaria movida a paixão, bebida, pavio curto e muita verborragia fazia o ambiente pegar fogo. Bate boca era comum em bares e lares na época de eleição. Tinha até hora marcada pra começar, nunca pra terminar! As pessoas, independente da classe social, acreditavam nos políticos e defendiam seus candidatos com unhas, dentes e línguas. Línguas ferinas, diga-se de passagem, que eram usadas para colocar o, ou a moral do candidato oponente, abaixo de cu de cachorro.





Nós, que chegamos a Cuiabá no começo dos anos 70, acompanhamos esse tipo de fazer política e ainda tinha o que era bom de se ter na política da época : palanque, preleção, povo, paixão, promessas, putaria... Pouco depois vimos a decadência do processo eleitoral com a chegada dos marqueteiros, dos showmícios, as mídias envolvidas, brindes, compra de votos, gente fazendo campanha por 50 pilas por dia e político endinheirado e sem DNA.  

Os correligionários pagos são engraçados. Na hora do rush balançam as bandeiras de seus candidatos. Quando enfraquece o movimento usam as bandeiras pra se “escorar” e batem longos papos com os correligionários do outro candidato. Na verdade mal sabem o nome do candidato pra quem estão trabalhando. Fazem jus aos candidatos que, muitas vezes, nem sabem o nome por extenso de seu partido.



Aos poucos o povo foi broxando e perdendo a credulidade nos candidatos e depois, nos que votaram, naquele que ganhou e no próprio voto. Esvaziaram-se as urnas, praças, ágoras... E agora?!

“Ideologia”. Assim mesmo, entre aspas. As eleições de antigamente tinham uma pegada “ideológica”, às vezes torta, mas tinha. As aspas são necessárias, porque não é correto afirmar que a população brasileira, em geral, está ou esteve habilitada para discutir ideologia política. Nem nós, claro.


Padre Pombo, claro que à esquerda, era pra ganhar! 
A última campanha que fez o circo pegar fogo, que ousamos registrar aqui em Cuiabá, foi a disputa entre Julio Campos e Padre Pombo para governo do Estado. Foi em 1984. Não podemos negar o nosso envolvimento nesse pleito. O povo vibrava nos comícios do Pe. Pombo! Num deles, o eclesiástico referiu-se ao seu oponente como “o rapazinho saltitante lá da Várzea Grande”. Julio Campos também não deixava pra menos e mandava fogo nos seus comícios. Todo mundo apostava na vitória do Pombo. Pombas! Ganhou porra nenhuma! E até hoje comenta-se a boca de todos os tamanhos, que teve tetra, mas fomos recomendados pela nossa equipe de advogados associados e consultores, a não entrar em detalhes em relação a isso.


"O homem é um animal político" (Aristóteles)

O que nos motivou a fazer este “post” foi essa inércia, pasmaceira, nhaca que virou o processo eleitoral. Que marasmo, “sengraceira”, um enorme vazio. Nunca vimos nada igual (tanto o povo como os candidatos)! Por isso estamos vendo que o candidato que corre o risco de ter o nosso voto e de uma parcela da população é o Ninguém. Sua Campanha está lançada: Em 2012, Vote em Ninguém!

segunda-feira, 26 de março de 2012

A noiva do vento

A noiva do vento (Kokoschka)
O programa “Clássicos”, da TV Cultura, oferece periodicamente o mais fino biscoito da televisão brasileira, em matéria de música. Não temos informações a respeito de sua audiência, mas fica aqui a sugestão: assistam! As obras apresentadas dificilmente você verá em outro veículo.
Mais factível, escutá-las.

Além de apresentações de peças com as mais renomadas orquestras, grupos, solistas, regentes... do mundo, às vezes vem em formato de documentários sobre o processo de composição e aspectos da vida de grandes músicos.  

Assistimos despretensiosamente o documentário “5ª. Sinfonia de Mahler”, abordando o período em que ele compôs essa obra, a romântica trilha musical do filme “Morte em Veneza”, de Luchinno Visconti. A musa inspiradora foi sua esposa Alma Mahler. Recorremos ao no nosso alfarrábio (mister Google), como diria o Achilles Tenuta, para conhecer melhor aquela que provavelmente foi a grande femme fatale do século XX. Alma. Só Alma, porque todos nós a temos, mas esta aqui é diferente.


Nascida Schindler, filha de Emil Schindler, artista plástico vienense, que reunia expoentes das artes e da sociedade em sua casa. E Alma cresceu nesse ambiente de efervescência cultural. Coitada. Não sabemos bem se coitada dela, ou coitados dos homens que viveram com ela. Coitada... coitados? Por quê????


Gropius, fundador da Bauhaus


Alma nasceu em 1879, em Viena, e faleceu em Nova York, em 1964. Dizem que o seu primeiro beijo foi de Gustav Klimt. Ela estraçalhou o coração de outro pintor Oskar Kokoschka, conhecido no início do século XX, como o enfant terrible da arte austríaca. Este, abandonado por Alma, criou uma boneca em tamanho natural (sua nova alma), e andava com ela pra cima e pra baixo. Essa vienense de paixões efêmeras e casos ardentes, segundo registros mais discretos, enamorou-se até de um poderoso eclesiástico daqueles tempos.


Quando se casou com Mahler, que era vinte anos mais velha que ela, abriu mão de seu talento, pois ele exigiu que ela se dedicasse totalmente à genialidade da sua música (a de Mahler). Após a perda de uma das filhas e crises depressivas ela partiu para em busca de novos amores. Foi demais para o coração de Mahler. Ele morreu logo em seguida, apesar de tentar reaver sua grande paixão. Segundo Manuel Bandeira, quando se trata de amor, os corpos se entendem, mas as almas não. Talvez assim fosse a alma...

Alma e Mahler, nos bons tempos...

Nosso relato extrapola a vida e arte de alguns de seus célebres amantes, como Walter Gropius, arquiteto fundador da Bauhaus; e o maravilhoso Gustav Klimt. Mahler, por causa de Alma, que o trocara por Gropius, consultou-se com Sigmund Freud. Freud, segundo o documentário, desfiou o seu rosário psicanalítico atendendo pacientemente Mahler. Mas, pela natureza do caso, a poesia de Menotti del Picchia, Juca Mulato, surge naturalmente em nossas memórias, pois nela está ensinado que para curar o mal do amor, o remédio, que é esquecer, dói mais do que a própria doença.
Quando Mahler compunha o resto era silêncio