segunda-feira, 9 de abril de 2012

Instante Instagram


Esse não é pro seu bico....
A maior rede social do planeta, o Facebook, comprou por um bilhão de dólares a Instagram e imediatamente passou a figurar entre as principais manchetes mundiais. Imagino que bateram o martelo enquanto riamos da propaganda da Nextel onde aparecem o Milton Nascimento e a Maria Gadú, mas não aparece o Cachoeira, que, ficamos sabendo, fazia as transações com o Demo, do Dem, via rádio, pra fugir das escutas. O Cachoeira sujou. Tá aí e a qualquer momento pode vazar (fugir e/ou deixar rolar informações e entregação).

Não sabemos muita sobre a empresa de telefonia via rádio, além da sua incrível e instantânea conectividade e do seu seleto grupo. Isso quer dizer que Cachoeira deve ter, ou tinha, sei lá, muita conectividade. E o pior é que nem entendemos direito de Cachoeira.

Cachoeira do Abade (GO)


E aí aparece essa conversa do Instagram. E só deu ele. Você não sabe o que é Instagram???? Nem eu, até 15 minutos antes de começar este post. Se me perguntassem antes dessa transação o que era Instagram, juro por Deus, diria que era um remédio. Deve ser porque a farmacopeia tem uns nomes esquisitos e vive lançando novos produtos.




Vamos lá. O Instagram é um aplicativo para celulares que permite melhorar muito, mas muito mesmo, suas fotos, e imediatamente compartilhar nas redes sociais. Ele tem um monte de filtros e efeitos e com um simples toque você faz uma foto envelhecer, ficar em preto&branco, focar, desfocar etc. e tal. E mandar ver nas redes sociais. Ele era gratuito, não sabemos se continuará free.

Legal, tem um brasileiro ganhando grana com essa história. É Mike krieger, um dos fundadores desse aplicativo. Lucrou a bagatela de US$ 100 milhões nessa transação de jogo limpo. Mas o Cachoeira, não. Não é jogo limpo, pelo menos é o que a mídia tem propalado. E, pra variar, está rolando aquela velha conversa de CPI. Como dizia Ulisses, o Guimarães, não o de Ítaca, CPI a gente sabe como começa, mas, como termina...

Mike Krieger, tá com tudo...

E nós que não somos da geração Y que, teoricamente, saca bem desses lances da internet, ficamos a ver navios e com poucas possibilidades de atualização em matéria de tecnologia da informação. Aprendemos a digitar numa máquina de datilografar, onde não havia o “enter”. Não corremos contra, nem a favor do tempo. Estamos à deriva, porque esse mundão virtual “foi um rio que passou em minha vida e meu coração se deixou levar”.

O mundo comemorou o 182º aniversário de
Eadweard J. Muybridge...

...inventor do projetor
 (olha só ele aí peladão... preste atenção!)

Rio... pode ter corredeiras e até cachoeiras no seu curso longo. Ah, sim... Cachoeira é um lugar que tem muito a ver com nossas vidas. Assim como o  Instagram tem a ver com fotografias. Fotografias em preto e branco nos remetem ao passado. E nos faz lembrar da música do Tom Jobim... “já conheço os passos dessa estrada/sei que não vai dar em nada”.

As redes sociais agitaram e o nome de Cora Coralina, que amanhã
faz 27 anos que se foi, será cunhado com seu verso
"Eu sou estas casas encostadas cochichando umas com as outras" 
na nova moeda brasiliera, mais que justo, né? 

domingo, 8 de abril de 2012

Sobre pai e mãe

O cineasta Adolfo Aristarain poderia ser pai do...
Sobre relações entre pai, mãe e filho... Dois filmes distintos e uma só origem: Argentina (em coprodução com outros países). Sobre pai e filho é o reencontro que dará os rumos que o destino deve seguir, enquanto que a relação entre mãe e filho é a história de uma vida, regada ao incondicional amor materno, o combustível que alimenta o futuro do filho, custe o que custar. Duas belas películas, dirigidas com maestria. Grande cinema argentino.  

...jovem diretor Daniel Burman
Maldito cinema argentino, do ponto de vista da eterna rivalidade que temos para com los hermanos. Bendito cinema argentino, por sua inegável qualidade. Elaboradíssimo na arte de fazer cinema, mas, principalmente, atado em roteiro muito bem acabado. A impressão que fica é que essa qualidade tem a ver com a boa literatura de nossos vizinhos. “As leis de família” (2006) e “Roma – um nome de mulher” (2006) nos comoveram. Lágrimas vertidas.

Não se trata de desmerecer o cinema brasileiro e nem querer compará-lo com o que a Argentina produz baseado do quesito “conquistar”. No nosso caso, de cada quatro filmes nacionais que tentamos assistir, no máximo, um conseguimos chegar até o final...  Já em relação ao cinema argentino, sinceramente, todos, ultimamente, têm nos envolvido e nos deixados grudados na telinha.

Em “As lei de família” a história gira em torno de pai e filho, ambos advogados, mas somente o pai vive de advogar, o filho é professor e defensor público. O foco da câmara é centrado no filho e na relação familiar que mantém com sua bela esposa e seu filhinho, um garotinho de 3, talvez 4 anos, com um carisma incrível.  O filme é um exercício para quem assiste, em nível daquela máxima que serve tão bem ao cinema, quanto à literatura: “a forma como a história é contada é mais importante do que a própria história”.



Elenco de "As leis..." 

De repente, numa determinada altura do filme, sua esposa viaja e o personagem assume uma relação mais estreita com seu filho, ao mesmo tempo que acontece uma reaproximação com pai. Esse talvez seja o grande clímax, mas estamos diante de um filme onde não há exageros, por que eles não são necessários. Daniel Burman, um grande e reconhecido realizador argentino, dirige “As leis de família”. Uma história comovente e contagiante, onde há muita ternura, como na vida real. Só é preciso saber como e quando essa ternura é oferecida para dela usufruir.

Em “Roma – um nome de mulher”, escritor argentino radicado na Espanha, acerta com sua editora que vai escrever uma autobiografia. Ele é um cara mal humorado e fechado, que aceita um jovem estudante de jornalismo, para ajudá-lo na tarefa. Mesmo sem querer estabelece-se uma relação, quase afetuosa. Mas a relação mais grandiosa que o filme narra não é essa...



Na medida em que a história avança, enquanto a vida do escritor vai sendo passada a limpo, surge a figura de sua mãe, Roma, mulher de afeto e sinceridade generosos que não mede forças para que o filho se realize na vida. Sozinha nessa batalha – perdeu o marido, músico,  quando o filho ainda era um garoto, Roma vai nos mostrar do que é capaz uma mãe, sem estardalhaços e sem encarnar o estilo latino.





O cineasta argentino Adolfo Aristarain se utiliza de uma fotografia muito intencional e com curioso trabalho de cores para contar sua história e brincar com os flashbacks. É incrível como consegue desenvolver as duas narrativas (presente e passado) tão bem contextualizadas e com personagens perfeitamente encaixados. Ao longo do drama, uma passagem ao largo pela história da Argentina, país que também teve seus anos de chumbo, mas nada de panfletarismo. O centro das atenções é mesmo a relação entre mãe e filho. Prato cheio para psicanalistas freudianos. Belíssimo filme!

Hum...humm

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Alface sem molho

                                                                  
Os feriadões, religiosos ou não, têm uma estreita relação com comilança.  Na verdade não só os feriados. Basta um final de semana para planejarmos o que iremos devorar. Isso desde sempre. Quem não se lembra dos almoços domingueiros com macarronada, maionese, frango frito e manjar de coco? Com algumas variações regionais, é claro! Aqui em Cuiabá, por exemplo, aprendemos apreciar macarrão com farofa. Mas, depois da fase das peixadas (que pegam melhor nas sextas feiras), o churrasco, talvez com a chegada dos sulistas, também se popularizou em Cuiabá e região. Já a feijoada, essa não tá com a bola toda, e só costuma ser explorada em ocasiões especiais, como festas de promoters.

Voltando ao assunto os feriadões, sua associação com comidas é usada e abusada na mídia: Natal = peru, frutas vermelhas, chester... Ano novo = porquinho, bacalhau, champanhota... Semana Santa = peixe, bacalhau, ovo de páscoa... 

Cena 1: Filha o que você vai almoçar? Ah! um omelete de jiló? Ouvi bem? – É, eu gosto de jiló. Cena 2: Victoria Beckham (ex-garota apimentada) vai ao mais famoso restaurante italiano de NY e não pede o prato especial da casa, o risoto. “Por favor, alface sem molho!!!!!!” (Ficamos na dúvida, algumas folhas ou o pé inteiro?). Victoria aguçou nossa lembrança e chegamos a “Hannah e suas irmãs”, filme de 1986, de Woddy Allen, que traz Diane Wiest na pele de uma personagem que só pede alface, alface, alface, alface...


É canja, é canja de galinha


Comida sem graça e gente sem graça tem tudo a ver! Conhecemos um político tão sem graça e tão sem atitude que o apelidamos de “comida de hospital”. Sua postura lembrava aquelas canjas de galinhas destemperadas e esbranquiçadas que eram servidas nos hospitais. Bem que hoje em dia a comida de hospital (dependendo do hospital) parece até um restaurante de comida caseira. Porque, verdade seja dita: comida caseira é um santo remédio. Em parte, porque as gostosuras caseiras, associadas aos excessos de gorduras, frituras, sal e açúcar em quantidade; já empacotaram muita gente pro outro mundo.

Peixada

Paçoca de carne seca, com bananinha... desentala

Famosa maria izabel, comida por todos
A culinária cuiabana é sadia, em termos. O tal do arroz sem sal (forte concorrente à comida mais sem graça do mundo), quibebe de mamão verde, maxixe refogado, escaldado, arroz de leite, mingau de banana verde e outras cositas. Agora, veja o outro lado da moeda: paçoca de carne seca gritando de salgada, mas tão salgada que, além do arroz sem sal, ainda pede uma bananinha como acompanhante.

Arroz com pequi, num vai mordê

Escaldado, viagra cuiabano

Cozidão (des)combina com o calorão da terra

Tem mais, muito mais. Feijoada cuiabana (feita de feijão “normal” e pertences de gado como ubre, dobradinha, mocotó, tripa...); revirado, feito de farinha com miúdos de gado; joão sujo, ensopado de suã de porco com banana verde; cozidão, que leva costela de gado, banana, mandioca, cenoura, milho verde, abóbora, batata inglesa e doce, couve, acompanhado pelo pirão, feito com o caldo produzido; peixada, peixe frito, assado, ensopado, escabeche); maria izabel, com tutu de feijão, farofa de banana, arroz com pequi e, pra encerrar, a discreta cabeça de boi assada (sem comentários). A tradição culinária cuiabana não inclui as saladas. Esse negócio de comer verduras é recente. Os antigos diziam: “não sou marandová pra comer folhas”!

Pode me chamar de Victoria Beckham!

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Eu sou o negro gato...


Zé Preto é o cara!!!
É natural que num blog com nome de passarinho seus mantenedores tenham uma queda por bichos. Já convivemos com inúmeros animais de estimação, alguns bem diferenciados: uma rã que vivia no filtro de barro, um cágado chamado Velô, e por alguns dias cuidamos de um louva-deus. Esse sujeito/inseto foi nosso recorde em matéria de estranhezas no lar. O louva-deus, apesar do nome canônico, é um predador voraz e numa noite fagocitou um percevejo que andava querendo botar banca na nossa cozinha. Que fedor lascado!

O louva-deus, deus que me perdoe, não sabemos qual foi seu fim. Saltou fora pra cumprir seu ciclo noutras paradas. Mais recentemente, acolhemos um lagarto tiú. Mas ele andava demais pela rua de casa em casa e acabou por desaparecer. Nosso carinho, desde sempre, são os gatos. Animais que acompanham a história da humanidade e com estreitas relações com as divindades. Já perdemos a conta de quantos tivemos. E já tem um punhado de anos que mora conosco um gato todinho negro, que nasceu da Nikita, uma gata adotada e que é companheiríssima. Às vezes parece até um bicho de pelúcia, tão quietinha que é. Mas o Zé Preto, putz, muito independente,  que pampeiro, que provação, ele nos fez passar nos últimos 50 dias.  

Troppo

Nikita

Como estamos em véspera da “sexta-feira santa”, é possível que São Francisco de Assis tenha nos influenciado não só neste post, mas nas atitudes que assumimos por estes dias, pra não deixar o Zé Preto partir deste mundo. Há alguns anos ele foi ao veterinário para procedimentos de rotina e isso gerou um trauma profundo em sua vida. Desde essa experiência, Zé Preto, como diriam os antigos da população rural, "alongou". Praticamente abandonou nosso lar e tornou-se um gato de rua. Um agravante para essa guinada em seu comportamento, foi o fato de que quando chegou revoltoso do veterinário, pulou para o muro, onde era soberano, e levou um baita choque.  Motivo: tínhamos acabado de instalar uma cerca elétrica.  Coitado...




E aí, com essa intensa vida noturna e brigas por conta da territorialidade e das gatas no cio, ele passou a retornar sempre combalido e ofendido por arranhões e pelas noitadas barra pesada. Chegamos a pensar se ele não estaria usando drogas e andando em más companhias. Ele, definitivamente, assumiu a canalhice felina do “eu só vim pra comer”. “Batia um rango e sartava fora”. Nessa andação, reconhecemos, fez coisas boas. Foi ele quem trouxe Troppo, um gatinho branco e cotó, abandonado na feira que seguiu o Zé Preto e aportou aqui em casa. Nosso xodó.




Mas Joseph Black, quem diria, achou de aparecer dia desses com uma ferida que foi agigantando descomunalmente em uma das bochechas. E quem falou que deixava a gente tomar alguma providência. E a pereba crescendo... virou uma bicheira!!!! Num determinado momento ele reconheceu que precisava de ajuda, deixou ser pego e rolou um tratamento inicial, com a ABRAPA - Associação Brasileira de Proteção aos Animais, uma Ong que deu o maior trato (com um preço acessível). Mas o canalha fugiu. Achamos que o Zé tinha morrido. Bom, eles, os felinos têm sete vidas. Zé Preto reapareceu no estilo capa da gaita, conseguimos levá-lo ao Hospital Veterinário da UFMT, onde passou uma temporada.

Nesta quinta-feira recebeu alta e o trouxemos pra casa, mas tendo que mantê-lo trancado. Na próxima semana terá que passar por um procedimento cirúrgico. Vai retirar pele do seu lombo que será enxertada no pescoço que tá assim em carne viva.  

O retorno
Essa situação mexeu com as nossas vidas.  Sofremos, batemos boca,  brigamos, choramos, ficamos de cara feia/virada. Desespero por vê-lo passar por tal provação. Uma coisa é certa: cada animal tem uma personalidade. Uns são carinhosos, outros são amigos... Há os teimosos, os fujões, os comilões... cada um é único. Zé Preto é rebelde, não se entrega facilmente. Mas, com a ajuda de São Francisco, há de ficar bom.

"Nós, gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora ou senhorio
Felino, não reconhecerás."

terça-feira, 3 de abril de 2012

Deus está nos detalhes

Um detalhe da "lua" da obra de Van Gogh...
Ficamos embasbacados ante a grandiosidade dos feitos humanos como as Pirâmides do Egito, o Taj Mahal, castelo construído em louvor ao amor, ou abobalhados diante do incompreensível sorriso da Mona Lisa, na languidez do corpo de Cristo, que jaz no colo de sua mãe, na Pietà. Mas também ficamos extasiados diante da quase matemática forma que uma pequenina aranha utiliza para tecer sua teia,  nos fractais das nervuras de uma folha que similarmente reproduzem-se nas milhares folhas em uma só árvore.

...Noite estrelada (1889)

Deus está nos detalhes. Os blocos de rochas que se sobrepõe para montar as Pirâmides se encaixam milimetricamente, o homem ainda não conseguiu decifrar a ferramenta utilizada. No Taj Mahal são milhares de flores esculpidas com as minúcias de cada estame em flor; no sorriso de Mona Lisa, há por baixo de sua alva tez, todos os músculos ativados e necessários para formatar seus lábios em riso; na languidez do corpo de Cristo abandonado no colo de Nossa Senhora, na Pietà forjada em mármore, com todas as dobras e pregas das vestes que expressam o sofrimento.

tetetetereteteteteterete... taj mahaaaalllaaalll
  

Quantas vezes já nos deparamos com essa frase, “Deus está nos detalhes”, e a associamos a motivos religiosos. Não é bem assim, neste caso que aqui abordamos. É algo que remete a uma grandeza superior e que se apresenta como perfeito na riqueza e esmero de cada detalhe a compor o todo. Algo que transcende o humano, ou que assim parece ser. Aí, então, pensamos ou invocamos a Deus, quase como acontece na hora de um apuro pelo qual passamos e, espontaneamente, soltamos um meu “Deus do céu”. 
A frase em questão é de Ludwig Mies van der Rohe (1886/1969), arquiteto moderno alemão, que foi professor da Bauhaus. Ao lado de Le Corbusier é apontado como um dos maiores arquitetos do mundo e também se notabilizou pelas frases que criava. Assim como “Deus está nos detalhes”, Mies van der Rohe também cunhou “menos é mais”. Sua arquitetura é centrada no racionalismo e se utiliza de uma geometria clara aliada à sofisticação.  Buscava sempre a profunda depuração da forma, mas atento às necessidades impostas pelo local. Com esse preceito minimalista, entrou para a história.

Ludwig Mies van der Rohe, reticente e ponderado   

Ed. Seagram NY

Coco Chanel "Menos é mais", lhe
coube perfeitamente
 Os detalhes são divinos, as picuinhas são das trevas!

"Detalhes são coisas muito grandes pra esquecer" (RC)

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Só Dez por Cento é Mentira

Tá difícil. Nenhum assunto especial anda passarinhando e querendo fazer ninho em nossas cabeças neste noturno de segunda-feira. Do nada parece correr e percorrer a memória para juntar os cacos, cacarecos e trecos. Aí, aos 45 minutos do segundo tempo, o fichário memorial recente aciona. Há uma gravação guardada desde ontem. É o documentário “Só dez por cento é mentira”, que explora a fragilidade poética de Manoel de Barros. Um simples play embeleza o começo desta semana. O dia está salvo e o novo post está pedindo passagem. Tudo é espontâneo nesta hora.




Nequinho é o apelido do poeta que nasceu em Cuiabá, mas, com menos de um ano mudou-se para Campo Grande. É apontado como um dos maiores nomes da poesia  contemporânea brasileira. Seu verso é único e produz encantamentos raros nos mais diferentes tipos de gentes. O documentário, dirigido, roteirizado e narrado por Pedro Cezar; ganhou prêmios nos festivais de Paulínia e de Goiânia em 2009. Joga luz sobre a poesia e a vida de Barros, mostrando-o como um poeta que demorou, demorou, mas tornou-se um poeta em tempo integral. “Eu comprei o meu ócio”, diz ele ao no filme.



A película tem um esmero especial com as imagens (de cair o queixo), em sua maioria, flagrando as coisas aparentemente inúteis da vida que, segundo o poeta, têm serventia para o poema. Ah, e como serve essa coisarada toda pra derramar poesia em nossa vida fria. Desfilam pelo doc depoimentos de artistas como Fausto Wolf, Adriana Falcão, Joel Pizzini e Elisa Lucinda, entre outros. Parentes e personagens, pessoas importantes que ladearam a vida/obra do poeta, como a esposa Stella Barros, o filho João de Barros, a filha Martha, o irmão Abílio e o incrível Palmiro (consultor de Barros para o idiomês pantaneiro); enriquecem a obra com elementos de foro íntimo e outras cositas curiosas e engraçadas.





Manoel de Barros foi um dos escritores homenageados na Literamérica 2005, ao lado de Ricardo Dicke e Wlademir Dias Pino.  Como assessor do evento, me coube a tarefa de ciceronear os convidados. Quando Nequinho chegou e desceu do ônibus no hotel onde se instalaria, eu conversava com Dias Pino. Pedi licença pra receber Manoel e disse que já o tinha entrevistado duas vezes anteriormente. Ele, indagou em seguida: “Lorenzo, esse outro homenageado, o Wlademir, já morreu?”. Wlademir estava praticamente ao lado e não pestanejei: “Não poeta, olha ele aqui”. Os dois puseram-se a conversar.  

Palmiro, comparsa de Manoel nas travessuras das palavras

Lá se vão sete anos desse episódio e, de lá pra cá, Manoel de Barros, já nonagenário, vem sendo assunto – e dos bons - em tudo quanto é veículo de comunicação. Imaginem se não iríamos tratá-lo com carinho e devoção aqui no Tyrannus.

Numa das nossas conversas ele me falou de um tal de Bernardo, um sujeito “diferente”, que morava em sua fazenda ou coisa assim. Bernardo tinha o dom de se comunicar com seres viventes como as aves que se empoleiravam nele; e com os peixes, que nadavam entre seus dedos quando ele entrava n’água. No “Só dez por cento é mentira” Bernardo é dito como o cara que Manoel de Barros queria ser. É o seu alterego, disse Palmirinho, claro que no iodiomês pantaneiro. Foi de arrepiar.

1923: Manoel segura o olho de vidro de seu avô




Empapado de poesia e de encantamentos com a beleza do filme, fechamos o post com uma resposta de Manoel, à uma das perguntas da minha primeira entrevista com Nequinho, que foi feita por carta: “Acho que ninguém escreve, ou faz qualquer arte, sem esperança de ser apreciado, lido e gostado. Todos, com certeza, gostariam de atingir, com a sua arte, ao menos meia dúzia de amigos e a namorada. Não sou diferente. Gosto de ser lido e de ser amado através de meus versos. Isso é mais do que humano, é humaníssimo. Entretanto, ó entretanto! não desando do meu caminho estético para agradar. Sou um manobreiro de palavras e as manobro para criar imagens poéticas com efeitos estéticos. Às vezes tenho o gosto de desestruturar a linguagem. Faço isso não para ser original, mas para me ser.” Dá-lhe Nequinho!!!

A Manoel de Barros, com amor


... o resto é invenção."