quarta-feira, 16 de maio de 2012

O Equilibrista


Petit no WTC (1974)
É de se estranhar que alguém fique tenso assistindo a um documentário. Normalmente sabemos o que vai acontecer e sem o fator surpresa, pareceria impossível que um filme com essa natureza nos causasse muitas surpresas. Se emocionar ao ponto do choro, se revoltar com o registro de injustiças e da violência, ou rir das situações reportadas costumam ser reações mais comuns. Mas, “O Equilibrista” (2008) é pauleira. Leva mais jeito de thriller, de filme de suspense.

Em “O equilibrista”, o francês especialista em corda bamba, Philippe Petit, mostra-se um personagem genial, daqueles que não conhece limites. Para concretizar suas façanhas – ou seriam sonhos loucos, literalmente, apronta.

Cathedral St. of John the Divine (1982)

Greats Falls in Paterson

E a gente pasmou com a travessura desse sujeito que, em 1974, planejou e executou com uma perícia inacreditável a travessia numa corda bamba ligando as duas torres gêmeas de Nova Iorque, aquelas mesmas que ruíram a mais de dez anos após um atentado terrorista. Numa altura de quase 500 metros ele fez o que fez, com direito a gracinhas, durante 45 minutos, chegando a se deitar e ajoelhar sobre o cabo de aço. Ao término do espetáculo, a polícia estava de prontidão, pronto pra leva-lo ao xilindró.



O filme resgata a audácia com minúcias, amparado em imagens reais e depoimentos sinceros, empolgantes, do autor e de seus cúmplices. A bela trilha musical acompanha a narrativa que valoriza a aventura desse pequeno bando de loucos. Ardiloso e detalhista ao extremo, o passo a passo do plano, que eles chamavam de o “dia do golpe”, foi milimetricamente calculado. Claro que aconteceram alguns imprevistos, que foram contornados com maestria.

Para chegar ao dia do golpe, foram necessárias duas viagens à Nova Iorque. Na primeira, sentiram que ainda não era a hora. O planejamento começava pelo ingresso da equipe, desdobrada em duas, uma para cada torre. A estratégia contou com a colaboração de dois americanos, também lunáticos. O documentário é baseado em livro do próprio equilibrista.




Petit, que foi engaiolado logo após a façanha, foi solto em seguida e teve como penalidade exibições de malabarismo para crianças. A direção coube ao inglês James Marsh e o documentário faturou inúmeros prêmios pelo mundo, entre os mais importantes, o Oscar de melhor documentário e o Bafta de melhor filme britânico. Entrou para a história. Imperdível!!!



segunda-feira, 14 de maio de 2012

Quanta bobagem

“Patrícia Poeta sonha em ser mãe de novo”. Uma abertura diferente para o Tyrannus neste dia seguinte ao das mães. O assunto da manchete que abre este post até que cabe, devia estar relacionado com o Dia das Mães. Mas a manchete é muito apelativa. Leva a crer que a famosa jornalista é que é o assunto, e não a comemoração em si. Bom, jornalismo é assim mesmo. Tem que atrair leitores. Então vamos a outra chamada que circulou: “Fãs de Xuxa presenteiam dona Alda Meneghel com vídeo no Dia das Mães”. Que coisa!!!

Quanta bobagem, que show de frivolidades... Estas notícias ou notas são pequenas, muito pequenas mesmo, porque o título geralmente é o fato e também porque não há mais nada a ser dito. Manchetes que você não precisava ter lido, mas leu. Este filão é um mercado que tem grande público e que viceja em inúmeros veículos de comunicação. Não adiante se rebelar. Resta aceitar. Particularmente, tenho a mania de dizer quando alguém tripudia algo: “Você está é com inveja”. Pode até ser verdade, por desmerecer esse estilo. Haja saco pra aguentar tanta asneira, tanta inutilidade.



Essas são internacionais: “Anne Hathaway exibe boa forma em praia de Miami”,  “Jennifer Lopez não para de agarrar Rodrigo Santoro em filmagem”. Tudo que sai na mídia é notícia. E alguém lê. Multidões leem, na verdade. Quem não se interessa por esse tipo de manchete, acreditamos, acaba sendo a exceção. Mas o fascínio, ou mesmo a predileção por esse tipo de informação, será que não tem a ver com um comportamento social duvidoso, que mereceria ser questionado, ou estudado (sei lá)?

Saber sobre a vida de seus ídolos, segui-los na mídia, tietar, chorar, gritar etc... Posturas que, a princípio, combinariam mais com adolescentes. Mas, quando reparamos que esse território da mídia que sobrevive graças à exploração de detalhes e particularidades mínimas que envolvem os famosos, já se consolidou como uma verdadeira indústria na Europa, França e Bahia; aqui e na Cochinchina... pô, que diabo é isso?



“Programa de Fátima Bernardes já tem data para gravar o primeiro piloto”. Isso é que é prestígio. Putz, é só um piloto... Mulher poderosa! Dá notícia a data da gravação do primeiro piloto, imagina só quando for pro ar! “Eliane Giardini: já namorei um homem com metade da minha idade”. Minha nossa senhora, essa é de matar. E se faz tempo, pode ser que o affair seja classificado como assédio a menor?

Esta caiu sob medida: “Datena ficou incomodado com Pânico na Band”. Mas  foi uma grande perseguição ao Datena, jornalista que nada teme e que não era pra ter se sentido incomodado. “Mulher Maçã visita cobras no Instituto Vital Brasil”... Maçã + cobra= coisa bíblica. “Dentinho assiste ultrassonografia do primeiro filho e se emociona” (sem comentários).


“Amanda Françoso termina namoro de seis anos com Cleber Faria”. Boiamos total nessa. Nada sabemos sobre os protagonistas. E chega. Pra quem acha que o Febeapá (Festival de Besteiras que Assola o País) morreu... morreu nada. Ele continua vivíssimo. É que a televisão me deixou burro demais. E a internet também vai por aí. Se cuida, gente boa!


domingo, 13 de maio de 2012

As cerimônias de Dicke

                                                          (Foto: M. Vergueiro) 
Mais uma batalha literária vencida neste final de semana. Outro “tijolo” da lavra de Ricardo Dicke ao qual consigo dar cabo. Estava envolvido com “Cerimônias do Sertão” (Carlini e Caniato Editorial-2011) desde setembro do ano passado. Antes de vencer suas 445 páginas, sabe Deus porque, precisei interromper o fluxo da leitura algumas vezes e, inclusive, cheguei a ler livros bem menos volumosos, embora interessantes, de Kasuo Ishiguro e Marcelo Mirisola. Mas, neste final de semana terminei este Cerimônias...




É curioso como esta obra do escritor chapadense muito se assemelha a “Cerimônias do Esquecimento” (Editora da UFMT-1995), outro livro de Dicke. Há personagens e situações idênticas e acho que até alguns trechos são uma coisa só. Um deriva do outro, ou vice-versa, e não tem mais como saber, já que Dicke se mandou deste mundo há quase quatro anos. Minha impressão é que Cerimônias do Esquecimento vem depois de Cerimônias do Sertão que, apesar de ter sido editado ano passado, foi escrito nos anos 70.

Em todo caso, os dois livros expõem a saga de personagens conectados que se encontram em alguma passagem da narrativa, nem que seja na memória do narrador. Numa ambiência rural, o que caracteriza quase toda obra de Dicke, histórias paralelas se desenvolvem e se entrecruzam, através desses personagens aparentemente improváveis para este mundo urbano e moderno, porém, quem conhece essas corrutelas da Baixada Cuiabana, sabe muito bem que nesses locais cabe gente desse tipo. Só cabe.



São lugares onde o tempo parou e que têm a maior parte de sua população entranhada na zona rural. Neste Cerimônias, um professor de filosofia passa pela experiência de um exílio forçado no município da Guia, já que as pontes que ligam a pequena cidade a Cuiabá caíram por conta de uma chuvarada infernal. É lá que a história vai florescendo na cabeça de Frutuoso Celidônio, personagem central que, claro, tem uma pegada autobiográfica.

Dicke era formado em Filosofia e chegou a dar aulas na UFMT, se não me falha a memória.  Cipriano do Pau dos Machados, Rosaura do Espírito Santo, Catrumano, João Ferragem, Leonora (a de beleza suprema), João Quatruz, João Valadar e muitos outros seguem compondo um enredo que flerta com algo próximo a um realismo mágico, mas que se caracteriza muito mais pelos questionamentos filosóficos. Questionamentos, aliás, presentes em toda a obra de Ricardo. Filosóficos e/ou metafísicos.

Capela Nossa Senhora da Guia

Rio Coxipó-açu (W. Malheiros)

Ricardo Dicke é um dos autores que tem marcado minha formação. Sou conhecedor da sua obra, quase toda, e acuso minha preferência pelos seus “tijolos”. Adoro seus longos escritos de 400 ou 500 páginas que nos gastam as retinas e provocam nossas memórias. É porque sua ficção mais longa permite um envolvimento maior e mais verdadeiro com a densidade literária do autor e seu estilo torrencial de escrever.

                                                           (Foto: M. Vergueiro)

Sei bem da dificuldade para ler este autor, um grande erudito, que não faz concessões em sua literatura. Quanto mais conhecimento tivermos, especialmente no terreno das artes, mais saborosa, agradável e enriquecedora será a leitura de um livro de Dicke.

 João Sebastião da Costa

sábado, 12 de maio de 2012

Intimus et privatus

Janelas à noite (E.Hopper)
Andy Warhol preconizou que no futuro todo mundo seria famoso por 15 minutos. Então, o futuro é agora! Ser famoso é dar adeus à privacidade. Ter fama é ser público? O entendimento dessa questão é complicado. Coitada da pessoa que foi privada da sua vida privada... privada, privada, privada.

Warhol acertou na mosca quando vaticinou o direito à fama para "todo mundo". Todo novo dia é um novo peixe que cai na rede. Tão instantânea é a ascensão à categoria de celebridade, quanto o seu tempo de vida útil. Nos dias de hoje é muito difícil ter sua privacidade resguardada. A exposição é quase uma obrigatoriedade para ser e estar. Mas, ela não é assim tão desejada...

Privada não é apenas uma palavra. É um objeto, um utensílio, um lugar/local onde nossa privacidade está garantida. Até porque não inventaram ainda privadas para serem usadas simultaneamente por mais de uma pessoa. Ali você é o único, é seu trono, é seu reino, sob seu domínio.  

Fonte (M. Duchamp)

Chega uma hora que queremos privacidade. É aquele momento de se livrar dos olhares alheios e de estar imune à maldita plaquinha: “sorria, você está sendo filmado”.  A criançada e os adolescentes exigem da família o direito a privacidade aos berros. Correm aos prantos ou p da vida pro quarto, quase implodindo a casa com a violenta batida da porta.

Na sua privacidade você pode soltar (ou dar) um pum, pode cavoucar o nariz, cheirar a meia e a sovaqueira pra dar uma conferida, dar uma coçadinha na genitália... essas coisas que ninguém gosta de dizer que faz, mas que faz, faz!!! São procedimentos íntimos e totalmente privados, que combinam com a solidão. Se as paredes tiverem mesmo ouvidos, procure optar por um pum silencioso.  



No tempo das cartas violava-se a privacidade usando o vapor dos bicos das chaleiras para abrir as correspondências. As conversas entre quatro paredes eram acessadas com um copo para amplificar o som, e os buracos de fechadura serviam para bisbilhotar. Binóculos também eram úteis para ‘apreciar’ a vida dos outros. Mas tudo com certa discrição. Fofoqueiros e abelhudos, interessados na vida alheia, nunca ponderam sobre as consequências que quase sempre causam. Coisas ruins, que incomodam e prejudicam. São difusores de acontecimentos que não lhes pertencem e que, na maior parte das vezes, sequer têm méritos para a publicação.



Há anos se estabeleceu uma grande confusão em torno das palavras privacidade e intimidade. Não são sinônimas, mas o limiar entre seus sentidos é tênue. A raiz dessas palavras joga um pouco de luz nesse rocambole semântico. Privado vem do Latim, “privatus”. É aquilo que pertence a uma pessoa e que sobre ela tem poder.  Íntimo também deriva do Latim, “intimus”. Tem a ver com as coisas relativas ao interior da pessoa, aquilo que não quer ser repartido com outras.



Muitas histórias de invasão de privacidade e de direito à privacidade, são colocadas equivocadamente; já que o que está em questão, na real, é a intimidade. Para evitar mais e maiores confusões, vamos parando por aqui. Hora de nos recolhermos na privacidade e na intimidade do nosso lar. Essas coisas que quase todos os dias compartilhamos com os leitores. Tudo é uma questão de ponto de vista. Ponto final!    

Janela Indiscreta (Hitchcock)

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Alterosas

“É como se eu estivesse jogando a minha rede em águas profundas”, explana Arthur Omar, a respeito de sua exposição de fotografias “As Portas da Percepção”, no Oi Futuro de BH. “Este é meu trabalho mais experimental”.  Numa conversa tão informal quanto possível, falou mais um punhado de coisas. O bate papo começou num almoço “mineirin”, e se prolongou até três da tarde mais ou menos.

Omar é natural de Poços de Caldas, mas como bom mineiro, está radicado no Rio há um tempão. Bom de conversa, esforça-se para explicar os conceitos e razões de sua arte, que ele classifica como pós-contemporânea.  A frase aspada que abre o parágrafo acima demonstra sua forma de captar as imagens. Ele deixa a câmera em automático e manda ver, sem saber no que vai dar. Conta que enquanto empunhava a máquina para produzir o material desta mostra, alguém achou estranho e indagou: “Mas afinal, o que você está fotografando?”. Aí Omar saiu com a conversa das tais águas profundas.



Seja inspirando, seja complementando o raciocínio do artista, escritores como Aldous Huxley (autor de livro homônimo à mostra) e William Blake, que era poeta e artista plástico, estão inseridos no contexto. “Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito”. Entender esta frase de Blake que, convenhamos, não é tão difícil assim, é o espírito ideal para penetrar nas imagens inventadas por Omar. O resto fica, ou pode ficar, por conta de cada um.


Transitar pelo terreno da arte e falar livremente e com segurança sobre que diabo de troço é isso, eu não diria que estou habilitado a fazer. Imagina, então, sobre a arte pós-contemporânea. Deus que me livre, ou me ajude. Sabemos que tudo que é incomum e que não estamos acostumados a ver causa estranheza.  Se essa sensação do estranho vier misturada com beleza, aí rola estranheleza. Gosto dessa palavra que não sei se vi da parte do Lewis Carrol, do Joyce... ou teria sido do Arrigo Barnabé?


A Oi tem um braço cultural forte e com uma pegada que chuta o tempo pra frente, não por acaso, denominada Oi Futuro. Através de um convite dessa empresa conheci a foto/arte de Omar. Eu e um grupo de jornalistas que vieram do Maranhão, do Piauí e de Mato Grosso do Sul. Tivemos acesso a outras armações sob o patrocínio da empresa. Uma exposição do chargista mineiro Duke que, além de bem jovem, tem um trabalho muito interessante. Seu traço é fino é bem humorado e às vezes mais dramático. E o Museu das Telecomunicações, com aparelhos e geringonças - dos tempos do onça e outras modernosas, foi parada obrigatória.




Toda essa maratona rolou num dia só e na noite anterior presenciamos a premiada peça “R & J de Shakespeare – Juventude Interrompida”. Comentei no post anterior que tenho receios e medos de teatro. Não vou dizer que não gostei desse Shakespeare by século XXI. Confesso que em alguns momentos perdi o interesse. Mas, quem sou eu pra dizer alguma coisa, se até a Bárbara Heliodora elogiou a encenação? Ah, já sei... posso dizer que o teatro, talvez, seja a arte que menos me atrai. Por enquanto só isso, digo. E sei que as artes alimentam o espírito. Acredito. Voltei de BH nutridaço. Mas pronto pra outra overdose.


A Oi tem interesse em apoiar projetos procedentes e/ou que contemplem positivamente o marketing da empresa. Foi por aí a fala de Maria Arlete Gonçalves, a poderosa que comanda a área cultural, que saiu do Rio para acompanhar o grupo em Belô. E assim foi. Fica aqui registrado o relato do discreto charme do Tyrannus lá pelas bandas das Gerais. 



As fotos decentes são dela, Bárbara Dutra

Márcia Mineira, da Casa da Índia: o reencontro

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Ói, ói o trem


Ok, um queijo...
Não, não e não. É assim que a gente começa um texto bem positivo. O não é uma das primeiras palavras que as crianças aprendem. E entendem. Talvez essa negativa introduzida na primeiríssima infância acarrete psicologias questionáveis, porém, Karl Marx já dizia que a história da humanidade é a história da repressão. Mas, os "nãos"’ palavreados na abertura do post são só pra dizer que o Tyrannus, parte dele, não tá nem aí... em Cuiabá.
Em missão especial, à convite da Oi, escreve aqui das alterosas, em Belzonte. E a missão é experimentar um roteiro cultural diferenciado. Nesta quinta (10) é dia de conferir exposições do artista Arthur Omar e do chargista Duke, mas, antes, tem coisa.  Tudo na Oi Futuro aqui de BH. Me pediram pra levar um queijo daqui, mas parece que é proibido transportar gêneros alimentícios nas viagens aéreas. Em todo caso, tentarei burlar a vigilância e conto com o apoio dos leitores queridos:  não me dedurem, por favor.
Se o queijo for flagrado, quem encomendou vai ter que se contentar com uma narrativa caprichada em torno de um almoço da Dona Lucinha, um point especialista em rango das Gerais. Trouxe uma overdose de remédios para os efeitos colaterais caso aconteça uma  comilança infernal.


Uma viagem rápida, apenas dois dias, já dá uma força pra revigorar as letras, essas coisas que ficam perseguindo a cabeça de um pobre coitado. Viagens aéreas, que permitem que troquemos de ambiências com uma velocidade estonteante, são bem vindas. E, literalmente, tem aquela história de que nos deixam nas nuvens.   E não dói tanto assim deixar Cuiabá. É até bonito observar a cidade e ver o rio Cuiabá lá de cima, parecendo limpinho, e a gente mais perto de Deus. Ou do firmamento, como queiram.


E o que acontece é mais ou menos assim. Acabei de chegar e não há o que  escrever ... nada de precipitação. Ainda, não sei de nada. Tá escurecendo... Já escureceu. O  programa da noite é no Teatro Oi Futuro Klauss Vianna onde tá levando a peça noite R & J de Shakespeare - Juventude Interrompida. Tomara que dê tudo certo.  Morro de medo de ir ao teatro, de não gostar da peça e de querer (mas não poder) sair antes de terminar o espetáculo. Situação constrangedora.
Hora de sair de fininho. Deixo a chave debaixo do tapete pra que uma parte do Tyrannus (a que ficou em Cuiabá), feche a porta. E um bilhete malemazinho assim: “Não sei se vai dar pra levar o queijo. Então, vai já um beijo”. 
PS: Prestatenção, o queijim que pedi, esqueci dizer, não é qualquer queijim de esquina, não! É aquele tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2008, por causa do “modo de preparo”. Coisa fina, cultural até no “s”. Sô!

terça-feira, 8 de maio de 2012

Histórias de peso


Houve um tempo em que tínhamos horror aos filmes produzidos para a televisão, os chamados teleplays. Tem dó, porque a programação das TVs abertas era especializada em enlatados americanos. Daí a ojeriza. Mas, os tempos mudaram. Hoje a TV é parceira da sétima arte, ainda mais com essa tecnologia digital, em níveis de produção e de exibição. Claro que o telão do cinema é imbatível, mas o cineminha em casa também vale e apresenta algumas vantagens.

Ontem assistimos um teleplay desses modernos. Na busca de referências vimos que o filme foi premiado em festivais importantes, como o Sundance-USA (2009), consagrando a direção e o roteiro. Arrasou aqui em casa, deixando nossas emoções à flor da pele. E o post de hoje se transforma num pacote cinematográfico, porque um instigante filme brasileiro também pinta na conversa de hoje.



“Rastros de Justiça” (2009), produção britânica/irlandesa, dirigida por Oliver Hirschbiegel, narra um assassinato histórico motivado por conflitos religiosos em 1975, e seu desdobramento trinta anos depois. Na primeira parte o filme é baseado na realidade, enquanto na segunda, mostra um suposto reencontro do assassino com o irmão da vítima, situação explorada por uma emissora de televisão bem naquele estilo “queremos audiência e o resto não interessa”.




No elenco o versátil Liam Neeson, bastante conhecido por inúmeras performances nos mais variados filmes, alguns, inclusive, de qualidade duvidosa. Não é este o caso. Mas quem rouba a cena é outro ator, James Nesbitt. Um profundo drama existencial que tende a envolver qualquer telespectador. O filme joga uma batata quente em nossas cacholas, esbarrando em questões como idealismo, vingança, justiça, superação e perdão, temas que são autênticos tabus para o ser humano. Aqui no ninho do Tyrannus temos a mania de tentar adivinhar como os filmes vão terminar. Este, apesar de não ter um final imprevisível, apanhou-nos de surpresa.

Nesbitt, Hirschbiegel e Neeson

O outro filme, um brasileiro, “O Céu Sobre os Ombros” (2010) é show, também explora dramas existenciais. Três personagens totalmente díspares, cujas histórias não se entrelaçam, são expostos numa narrativa que mistura drama com ficção. Parecido com o filme anterior. Mas o que é ficção e o que é realidade nesta obra de Sergio Borges, não fica claro. E nem precisa.

Edjucu Moio

Murari Krishna


Everlyn Barbin
Produzido pela Teia, um coletivo audiovisual, sistema que costuma baratear custos, o filme vai mostrando com rigor os aspectos mais humanos e recônditos de seus personagens: um escritor que nunca terminou nenhum texto e não trabalha; um religioso hare khrisna, líder de torcida de futebol e que trabalha de  atendente de telemarketing; e um(a) transexual que faz mestrado,  dá aulas sobre sexualidade e se prostitui. Respectivamente Edjucu Moio, Murari Krishna e Everlyn Barbin. A narrativa, um pouco arrastada a princípio, vai se intensificando, graças ao desempenho dos atores e da própria montagem, assim como o nosso interesse.       



segunda-feira, 7 de maio de 2012

Sei lá Mangueira

A casa verde e rosa de Cartola e D. Zica
Cuiabá, terra de luz e de sol forte. De cores várias que estão em frutas como o caju, a banana e a manga. Ah... a  manga que remete às sombras indevassáveis e necessárias neste lugar tão quente. Uma cidade com tantas mangueiras e uma tradição secular, bem que merecia ser lembrada e projetada mundialmente. Mas... não sei se toda a beleza de que lhes falo, sai tão somente do meu coração.

De repente, um boato vira notícia. A Estação Primeira, a Mangueira, escola de samba arrebatadora, acerta com a prefeitura de Cuiabá. A capital de Mato Grosso será o enredo da escola no carnaval carioca de 2013. Visto assim do alto, mais parece um céu no chão. Parece perfeito. No ano que antecede a Copa de 2014, quando Cuiabá será uma das sedes do mega evento, a cidade é homenageada num dos maiores espetáculos do mundo, transmitido pra 170 países.

Ivo Meirellies, presidente da Mangueira

O portelense autor de Sei lá, Mangueira

Um marketing planejado, estratégia ideal para catapultar Cuiabá. Quem sabe a população cuiabana até esquece que a cidade é uma das mais violentas do Brasil e que também figura entre as que mais apresentam problemas administrativos e estruturais. Esses problemas, têm vezes, os olhos não conseguem perceber, as mãos não ousam tocar e os pés recusam pisar.


Onze e quinze da manhã na segundona braba. Estou na Avenida das Torres, artéria crucial cuiabana e reparo que a beleza do lugar, pra se entender, tem que se achar que a vida não é só isso que se vê. É um pouco mais. O sol tá de rachar e pego carona na sombra do puxadinho de uma quitanda bem simples.  “Eu fiz esse telhadinho mesmo é pra isso. Bem aqui do lado tem um ponto de ônibus sem cobertura e tinha gente que ficava esperando duas horas no sol, até chegar o ônibus”. E começa a descer a lenha na má administração da cidade, coisa que não é de hoje. Com razão. Claro que minha língua começa a coçar.


Os pés recusam pisar?

“Aqueles ônibus com ar condicionado que tinha, tiraram tudo”, prossegue ele. E diz que essa história de transporte coletivo em Cuiabá é tudo esquema de políticos e poderosos. Ele abandona a conversa e vai atender a freguesia. Ainda não sabia eu naquela hora do dia da confirmação de que Cuiabá enredaria a  Mangueira. Se soubesse, lógico que teria pedido a opinião do quitandeiro. E teríamos conversa pra mais de metro.

Esgoto Rio Cuiabá

E o papo seria quilométrico se entrássemos nas alas da saúde pública, da segurança, da educação, do saneamento, do meio ambiente etc. Mas, pois é. São 3,6 milhões de reais que os poderes públicos (1,6 mi) e a iniciativa privada (2 mi) terão que desembolsar pra bancar o desfile da verde e rosa. O resto do orçamento, que não sabemos de quanto se trata, a Escola providencia. E o que nos toca é tentar adivinhar como Cuiabá, cantada na Sapucaí, vai repercutir junto ao povo mais sofrido cuiabano... num jeito novo da gente viver, de pensar, de sonhar, de sofrer.


Jejé, destaque absoluto
Sei lá, não sei. Sei lá, não sei não. A Mangueira é tão grande, que nem cabe explicação.