quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Sem prego

O slogan é o melhor...

Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. Já ouviu falar, né?! A câmera na mão é algo massificado nos dias de hoje. Já a tal da ideia na cabeça... bem, isso é outra história. A frase remete ao Cinema Novo e foi Glauber Rocha quem a proferiu num de seus rompantes. Coisas do passado. Então vamos mudar: uma câmera na cabeça e uma ideia na mão. Também já é um lance de tempos que ficaram pra trás. Traz uma ideia aí pra gente escrever hoje... "Não tenho nada na cabeça...". Mais uma vez a velha conversa que antecedeu a valorosa decisão em torno do post de hoje. 

"Você deveria usar melhor seu trabalho, mostrá-lo mais, pelo menos pra quem entra aqui em sua casa". Dissemos a um artista plástico em priscas eras, porque seus trabalhos ficavam como que escondidos em seu ambiente doméstico. "Sabe o que que é... é que eu tô tão sem prego lá em casa". Não foi uma resposta. Foi uma “embromation”, como diria um conhecido que sabe pouco de violão, mas, com esse pouco que sabe e com o instrumento em punho, engana qualquer um, desde que o enganado nada entenda de tocar violão.


Hoje estamos "sem prego" cá em casa. Há quadros que precisam ocupar as paredes, filmes e livros que merecem consumição e uma razoável quantidade de palavras que necessitam se agrupar de forma convincente. Ao ponto de ter alguma dignidade e méritos. Apresentar um texto e peitar... quer dizer, respeitar. Um monte de gente famosa nasceu e/ou morreu em 16 de agosto. A data também registra acontecimentos interessantes. E daí?

Victoria Abril (Kika, Almodóvar) 

Voltemos, pois, para a história da câmera e da ideia. A questão da câmera é que ela está cada vez mais presente em nossas vidas. Pra tudo quanto é lado. O mundo inteiro, potencialmente, pode ser transmitido ao vivo. Já as ideias, desde os tempos do Cinema Novo (anos 60 e 70), também andam surgindo em mais quantidade. Claro que é porque a população mundial aumentou e as ideias habitam as cabeças desses bilhões de terráqueos. O problema é que muita gente acha que ter uma boa ideia já é suficiente pra fazer um filme, escrever um livro etc. Ledo engano. 

Olha, se tem coisa que presta neste mundão modernoso, uma delas é a possibilidade de expormos nossas ideias, tornando-as públicas. Todo mundo pode botar a boca no mundo. Foi-se o tempo de botar a boca apenas no trombone. Crie coragem e faça isso. Blogueie à vontade, por exemplo. E, caso faça muito sucesso, não se esqueça de registrar que sua câmera e ideias entraram em ação, graças ao incentivo aqui do Tyrannus. Temos parte nisso aí. Agora, se as coisas que você compartilhar não forem bem aceitas, não precisa nem mencionar a gente, que não vamos reparar.  
Niver da "rainha do pop" 

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Sessão dupla


Mais de três horas de intensa identificação com cinema. Dois filmes, um logo em seguida do outro, quase sem levantar a bunda do sofá da sala. Tava bom mesmo! Um sábado daqueles, presentes dos céus: "O homem ao lado" e "Almanya- Willkommen in Deutschland". Completamente diferentes em suas concepções, duas comédias dramáticas que nos encantaram. O primeiro incomoda e constrange, te deixa numa sinuca braba. O outro, pra rir e chorar, enquanto te embala pela história emocionante.

O cinema argentino sempre surpreende! E cada vez mais a certeza de que ele descende da boa literatura dos “vecinos”. Fotografia arrojada, diálogos precisos, personagens estruturados e fortes nos envolvem até o clímax do grande final inusitado. Curiosidade e inquietação em quem assiste "O homem ao lado" (2009), filme dirigido por Mariano Cohn e Gastón Duprat.

O cenário do filme é uma obra de arquitetura assinada pelo suíço Le Corbusier, a única que ele concebeu no continente americano, na cidade argentina de La Plata. É lá que mora o esnobe designer Leonardo, com esposa e filha. A vida cult dessa família é alterada bruscamente quando o vizinho do lado resolve abrir uma questionável janela em sua casa, colocando em xeque a privacidade do designer intelectualóide. Imediatamente, arma-se uma guerra psicológica que pode partir para as vias de fato a qualquer momento.




É curioso como quem assiste (pelo menos nós) não consegue tomar partido de nenhum dos lados. Em um dos personagens a hipocrisia aflora de forma abundante, enquanto no outro, as reais intenções e a qualidade do seu caráter, como ser humano, permanecem um mistério praticamente ao longo do filme inteiro. Victor, o “homem do lado", é absolutamente grosseiro, intrometido, indesejável como vizinho. Mas, suas ações e atitudes não o incriminam. Parece um assassino truculento e sanguinário, mas, não há provas. O que se sabe é que é capaz de fazer uma deliciosa conserva de javali.



"Almanya" (2011), filme germânico, dirigido pela cineasta alemã Yasemin Samderel de origem turca, tem um nome secundário que significa "bem vindo a Alemanha". Almanya é a tradução de Alemanha em turco. A história narrada é a de um patriarca turco que, após o final da II Guerra Mundial, resolve atender ao chamamento alemão e ir trabalhar na reconstrução do país. Primeiro sozinho, depois leva a família. 


Com ótimos atores, história envolvente, boa manipulação de truques de fotografia e uma música maravilhosa, "Almanya" é um filme comovente. Impossível conter as lágrimas. E o mesmo vale para as risadas, entre as muitas surpresas que vão se mostrando. O tema emigração já foi explorado intensamente no cinema, e nesta obra volta a ser assunto, embora funcione mais como pano de fundo a ilustrar um autêntico turbilhão de relações familiares.



Os sonhos, os desejos, frustrações e as expectativas de inúmeros personagens de uma mesma família, retratada com eles em diferentes idades; compõem uma rica colcha de retalhos que vai se desdobrando diante de nossos olhos e mexendo com nossas emoções.  Com uma edição primorosa, "Almanya" é algo que a gente absorve pelos olhos e pelos ouvidos. Uma história de delicadas singelezas humanas, mas não é tão cerebral. Bate muito mais forte no coração.  
     

domingo, 12 de agosto de 2012

Sacundim, gundim, gundá!

Olimpíada 2016: Festa verde e amarela

Lá se vão meus anéis. Não seja malicioso... Os olímpicos! Curtimos muito aqui em casa. Acompanhamos o dia a dia, chegando ao absurdo de acordar de madrugada no domingo, só pra ver uma ou outra competição. Claro que valeu a pena. Quem gosta dos esportes sabe do que estamos falando. Mas, e agora José... José para onde, com o final dos Jogos Olímpicos de Londres? Ora, ora... para o Rio de Janeiro, em 2016.

Resultados à parte, coisas boas aconteceram em algumas modalidades. A derrota do Brasil para o México, no futebol masculino, que deu a medalha de ouro aos mexicanos; segundo consta, deve fazer o Mano Menezes dançar conforme a música. Pois que ele caia fora. Uma pena a derrota do vôlei masculino, que perdeu incrivelmente para a Rússia. O líbero Serginho, Escadinha para os íntimos, atleta de origem humilde e gente boa, mostrou pro Ronaldo Nazário como é que se responde a uma pergunta óbvia: "Perder e ganhar faz parte do jogo". Ronaldo Bola respondeu assim: "Não ganhamos porque perdemos".


As argolas de ouro de Zanetti

Outro lance que gostamos de reparar é nos profissionais que fazem a cobertura das competições. Perdoamos e aceitamos aqueles que torcem, mesmo que escancaradamente, pois não tem como não se envolver. Mas fazer isso de forma espirituosa, com muito humor não é pra qualquer um.
O mundo está cada vez mais competitivo. Derrotas e vitórias são exercícios praticamente cotidianos.  Perder é muito sofrido para atletas assim como para qualquer simples mortal. É difícil, custoso de aceitar, mas precisamos aprender, ou melhor, às vezes aceitar. Pra alguém vencer, alguém tem que perder!  Que vença o melhor!

Jaqueline foi "a" protagonista na vitória do volei
Narradores e comentaristas esportivos, entretanto, precisam por na cabeça que não são os donos da verdade e que vivem queimando a língua. Uma das graças e das belezas dos esportes são originárias da imprevisibilidade. Não sei se estamos sendo bem claros e talvez nem todos concordem conosco. Um exemplo que não deve ser seguido está claro na postura do chato do Galvão Bueno que, provocado num programa pelo comentarista Renato Maurício Prado, perdeu totalmente a compostura. Que coisa feia, Galvão... anos e anos aguentamos suas babaquices e você apronta uma dessas???!!! Aposenta de vez! 


Yane Marques: bronze no pentatlo moderno
Além das competições que mexem com a nossa emoção, as cerimônias de abertura e de encerramento são merecedoras de atenção. Neste domingo acompanhamos o show de encerramento onde predominou a boa música inglesa, num grande, suntuoso e tecnológico espetáculo. E pra arrebentar o coração, uma apresentação de artistas brasileiros por pouco menos de 10 minutos, já que os próximos Jogos Olímpicos serão no Brasil. Marisa Monte, B Negão e Seu Jorge, com a simpática participação especial do Renato Sorriso, o gari que dá shows nos desfiles do carnaval carioca, comandaram a performance. A direção foi da Daniela Thomas e Cao Hamburguer.


Esquiva Falcão, família de campeões!
Daniela é uma cenógrafa experiente e Cao, cineasta de respeito. Não haveriam de fazer feio. Não o fizeram. Souberam explorar a diversidade cultural brasileira com a profusão de sons e cores. A trilha musical passeou pelas Bachianas (Villa Lobos), Maracatu Atômico (Jorge Mautner e Nelson Jacobina), Aquele Abraço (Gilberto Gil), Nem vem quem não tem (Carlos Imperial), musica tribal. De nossa parte, havia certo temor de que o velho e desgastado estilo Sargentelli, com mulatas sambando e pouca... pouquíssima roupa... fim da picada. Foi um lindo convite para o mundo vir ao Brasil em 2016. 


Marisa, "Seo" Jorge e BNegão 

Renato Sorriso: é um vencedor

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Rosebud


Rosebud... morreu!
Barulhinho gostoso de ouvir em casa no silêncio quase pleno da tarde. O vento. Essa sopração de Eolos que se intensifica no mês de agosto e forra o chão de folha seca. Algumas caem no cimento do corredor lateral e, à deriva do vento, fazem aquele ruído provocado pelo atrito com o chão rugoso. Vamos chamar o vento, vento que dá na vela, vela que leva o barco, barco que leva a gente... Aí eu caymmi em mim. Ficar observando e ouvindo a relação/ralação da folha com o cimento rasteiro não chega a ser uma atividade producente. 

Ficar em casa e tocar as lides profissionais do próprio ambiente doméstico é algo que requer um pouco mais de disciplina. Quer dizer, disciplina vai bem a toda hora. Principalmente, para aqueles que pertenceram à família verde oliva. Talvez isso tenha me faltado em algum (ou alguns) momento da vida. Não servi o exército e troquei aqueles que seriam meus tempos de caserna, por tempos de baderna. Nem tanto, gente. Brincadeirinha. 


Barulhão indesejável de se ouvir é a roncação da moto do vizinho. Aquela coisa insuportável que incomoda pra valer. Não sei o que passa pela cabeça desses motociclistas que andam pelas ruas com a moto urrando, com alguma gambiarra no escapamento ou sem ele mesmo. Acho que não passa nada na cabecita desse povo. Mas, não é sempre assim. Às vezes, em vez da amaldiçoada motocicleta, vem uma sonzeira no último volume com uma seleção tipo: o pior do pior do funk brasileiro, ou o padrão eletrônico bate estaca com menos de uma nota só. 


E a sexta-feira vai ganhando a noite. Com promissor escurecimento que torna a gataiada toda parda. Estou empapado de crepúsculo, como escreveu Ricardo Dicke. Já é noite. E não há nenhum assunto específico para hoje. Não reparamos, talvez, mas o assunto é estar/ficar em casa. Grande novidade. Olha, não é querer aguçar a curiosidade de ninguém e nem falta de assunto, mas uma novidade novidadeira vai bater por aqui.  

Entardecer em Cuiabá (Marcela em Cuiabeauty)

Enquanto não chega a hora de anunciar, quem bate somos nós... e as asas. Findamos com uma notícia que adoramos e ouvimos nesta semana, sobre o meio cultural. "Um corpo que cai", de Hitchcock, desbancou "Cidadão Kane", como melhor filme de todos os tempos. Que bom...!!! Entendam a nossa satisfação da melhor forma que quiserem.  

Cidadão Kane

Um corpo que cai
Outra interessante partiu de um comentarista esportivo, que formulou um jeito para se vencer a equipe de basquete masculina dos Estados Unidos: algemar os caras. Todos eles, porque quando sai um, geralmente, ele é substituído por outro melhor ainda. 




quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Do outro lado

Gervane de Paula (Foto: José Medeiros)

E as artes plásticas continuam em pauta nesse blog. Uma exposição que reúne quatro dos principais artistas deste Mato Grosso. Dizemos deste Mato Grosso porque vai rolar em Mato Grosso, do Sul! A abertura será na próxima semana, terça-feira, no Marco - Museu de Arte Contemporânea em Campo Grande. 

São cerca de 40 obras que representam a produção mais recente de Gervane de Paula, Jonas Barros, Benedito Nunes e Dalva de Barros. Artistas experientes, premiados e com projeção nacional. "Do outro lado" é o nome da mostra, viabilizada através de um edital. Em matéria de artes plásticas, sempre vale lembrar que a coisa tomou corpo por aqui, graças ao trabalho de Aline Figueiredo e Humberto Espíndola, ambos mato-grossenses nascidos ao Sul, mas naqueles tempos em que era um só estado. 

Curioso é saber que quando assim que engrenou a força pictórica por estas bandas, o governo federal achou por bem dividir o estado. Não está em questão quem ganhou ou quem perdeu, culturalmente falando. Se já houve e/ou ainda há rivalidades entre Cuiabá e Campo Grande, deve de ser num outro setor, que não o das artes. Artistas daqui pra lá e de lá pra cá costumam se mostrar entrosados e parceiros quase sempre. 

    Benedito Nunes (Foto: José Medeiros)
"Do outro lado" é mais um exemplo de que a divisão política, que aconteceu em 1977, não atravancou a gênese geográfica e histórica dos povos pré-cabralinos que aqui viveram e também na contribuição das colonizações portuguesas e espanholas, conforme registra no catálogo da exposição Humberto Espíndola. O impresso que conceitua a exposição também traz textos de Ludmila Brandão e Magna Domingos, agentes atuantes do cenário cultural mato-grossense há vários anos. 

               Jonas Barros   (Foto: José Medeiros)
Bom, resumindo, estamos diante de mais um episódio marcante e representativo para as artes plásticas do Centro Oeste brasileiro, uma região onde a luz e as cores são preciosa matéria prima para nossos artistas. É tudo escancaradamente colorido e iluminado. E esses predicados também costumam brindar a inspiração dos criadores que aqui vivem. Vivem e têm demonstrado que sabem amadurecer, porque a arte é uma reconquista cotidiana. Não interessa se é deste lado, ou do outro lado. 

Dalva de Barros (Foto: José Medeiros)

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

É sem acento?

Jacana jacana = cafezinho

Vamos falar a verdade. Esse negócio de acentuação gráfica é complicado. Dá "pobrema". Já começa com a palavra acento. Vai dizer que nunca viu alguém referir-se ao chapeuzinho, o agudo e a crase como "assento". Se você acha que todo mundo sabe distinguir quando é acento e quando é assento, é melhor esperar sentado. Mas esse papo de acentuação criou clima aqui em casa. Quer dizer, foi só uma elevaçãozinha no tom da voz. E de brincadeira... Francamente, briga doméstica por causa da maneira correta de acentuar ou não uma palavra está fora de questão.

Um não consegue entender como o outro não consegue entender aonde vai o acento de certas palavras. Entre desentendimentos, por causa de acentuar ou não “tratável”, tudo fica para trás. Sou do tempo em que só e café tinham acento agudo, e sòzinho e cafèzinho eram craseados. Cafezinho, hoje sem acento, deve de estar lá no pantanal com aquela vocalização escandalosa. E sozinho perdeu a crase e ficou mais só.

Um tempo depois nova regra: Não existe mais o acento diferencial de timbre. Pelos e pelos escreve-se igual. Mas você sabe quando os pelos precisam ser extirpados. E de cabeluda, como num passe de mágica, eis-me linda e maravilhosamente glabra. Pensando bem, que zoeira danada é essa que de vez em quando inventam de fazer com o vernáculo pátrio. Mais uma reforma ortográfica e não me responsabilizo mais (nunca mais) pelos meus cuidados com a escrita. Bom, por outro lado, o mundo é mutante, como nós mesmos. A mensagem entendida é que os acentos são desnecessários. 



Quem escreve tá sempre mais ligado em palavras. Com a escrita, eu diria. Porque a caligrafia, talvez a parte mais romântica da comunicação, essa já nem me lembro mais da minha direito. Parece que nasci com um teclado grudado nos meus dedos. E coitados dos meus dedos. De tanto usar apenas os indicadores das duas mãos... atrofias, hipertrofias, tendinites e talvez até panarícios, pode ser que estejam a caminho. Mas ainda não chegaram e espero que não sobrem (ou soçobrem) para minhas habilidades manuais. Ops... digitais, melhor dizendo.

Mas depois dessa última reforma, tenho reparado que ela bagunçou mesmo. Embananou a cabeça de muita gente. Com a internet, que chegou pra liberar rigidez de regras e botou muita gente pra escrever, soma-se agora essa tal reforma que, diziam, foi feita pra unificar a língua portuguesa no mundo. Papo meio estranho esse.



Quem não luta tanto com palavras desde quando mal rompe a manhã, quem não está envolvido diretamente com elas, talvez não tenha ideia (e não mais idéia) de como algumas alterações ainda não pegaram pra valer. Desde a estreia da última reforma ortográfica já se passou bom tempo, mas ainda tem gente patinando. Palavras como ideia e estreia, por exemplo, ainda incomodam, sem acento, a muita gente. O que tenho reparado de bons escrevinhadores que parece ainda não terem assimilado a dispensa do acento em palavras assim não é coisa deste mundo. 





O charme do "chapeuzinho", o conhecido acento circunflexo já não é mais o mesmo. O acento agudo, claro que continua torto. Ou enviesado, como queiram. E a crase talvez prossiga por mais alguns séculos como um dos maiores problemas da língua portuguesa. Trema, não mais. E atenção, senhoras oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas: não conheço vossas regras e nem acredito muito nelas, mas isso é tudo por causa das malditas exceções. Essas sim, são piores do que as regras. 


Cafezinho sozinho



terça-feira, 7 de agosto de 2012

Cara... é Caravaggio!


Viver é planejar viagens. Viajar é viver! Seguimos essa orientação astral e determinamos mais uma empreitada na linha “on the road” para São Paulo. É nossa meta - e haveremos de cumpri-la. Claro que a megalópole brasileira oferece uma enormidade de programas culturais. Mas, desde que soubemos que ele estaria a partir de agosto em Sampa, programamos vê-lo. Precisamos ir ao seu encontro... precisamos encontrar o cara... Caravaggio.

Agora é planejar... pesquisar na internet preços de passagens... buscar promoções é o primeiro passo. Enviar email pro nosso amigo/querido/parente Luiz Moreno, cuiabano já branquelo de tanto tempo que mora em Sampa, avisando que há uma séria intenção de abusar de sua hospitalidade. Moreno conhece bem a cidade, desde que esteja com um guia na mão ou GPS (mais provável hoje em dia). Ele também aprecia essas articulações onde nos autoajudamos na carona das artes. Ver ingressos com antecedência e programar, programar cada minuto (que fura sempre). Sem esquecer, é claro, de dar uns toques pra uns amigos que vivem na cidade que não dorme, pois não queremos dormir no ponto. 

San Francesco in meditazione (Caravaggio)

San Girolamo che scrive (Caravaggio)

"Caravaggio e seus seguidores" é a mostra que estava em Belzonte e agora se alojou em São Paulo, no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand - MASP. A sensação de estar frente a frente com a obra de um grande artista, daqueles que definitivamente faz parte da história da pintura universal não dá pra transpor em palavras. Mas que vale a pena experimentar... ôooo, se vale. Caravaggio, que pela primeira vez está no Brasil, permanece na dura poesia concreta das esquinas paulistanas até o mês de outubro, depois parte para Buenos Aires. Nós, não! 

Jeunes filles au piano (Renoir)

E que deliciosa coincidência. Outra exposição, que já está em São Paulo, reúne obras do Museu d'Orsay, de Paris, com obras de Monet, Renoir, Degas, Manet e Van Gogh, entre outros mestres do impressionismo. A exposição "Paris e a Modernidade", que tá rolando no Centro Cultural Banco do Brasil, tem a ambiciosa expectativa de atrair 800 mil pessoas. É o que dizem seus organizadores. Esses números iniciais foram anunciados antes da confirmação da nossa presença e da divulgação aqui no Tyrannus. Porque agora sim, é que vai bombar pra valer.

Madame Monet and her son (Monet)

A intenção é provocar uma epidemia. Uma vontade lascada em todos que nos lerem, de se mandar pra São Paulo pra ver, de uma só tacada, duas grandes exposições. A nossa viagem será ao estilo borboleta. Dois ou três dias, com itinerário pré-definido e imexível. Até certo ponto. Morro de medo de alguém querer visitar as obras do Itaquerão!!!!

Obra premiada: Escravos no Século XXI (Adão Domiciano)
Algo de bom está acontecendo... Ontem, vernissage de Clóvis Irigaray e, quase simultaneamente, recebi material sobre a Bienal Naïf de Piracicaba, para a qual foram selecionados artistas de Mato Grosso... Ah, e isso sem o registro de que estamos nos devendo, ainda, uma visita à exposição de arte contemporânea que está no Pavilhão das Artes, que reúne artistas contemplados com o Prêmio Marcantonio Vilaça. Bons ventos...

A loucura...
...e a luxúria

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Irigaray


Ver e rever Clovito. O programa é inusitado, afinal foram 10 anos sem nenhuma mostra de seus trabalhos. A vernissage da exposição "Irigaray" revela Clovis Irigaray, matogrossense de Alto Araguaia, no seu momento. Clovito, como é conhecido, por aqui exilou-se de seus pincéis, tinta e telas por dois ou mais anos. Deu um tempo, agora resolveu voltar. E juntou um monte de gente, uns pra conhecer essa figura que usou o próprio corpo de suporte de sua arte contestadora, outros pra ver/conhecer sua obra, outros pelos dois ou mais motivos.

"Esse tempo em que você esteve afastado, você se comportou direitinho?". Clovito balança a cabeça positivamente com um ar tão irônico, quanto lânguido. Parece não entender direito o significado da pergunta. E o autor da pergunta, réu confesso, também não sabe direito porque perguntou isso. 



Há muitos anos Clovito circula por Cuiabá. Nos anos 70 era um símbolo vivo do movimento hippie. Imagina naqueles tempos em que as famílias cuiabanas colocavam as cadeiras nas calçadas à noitinha e mandava ver uma conversa fiada. Imagina o que falavam quando viam um cara esquálido, moreno, cabelos negros, lisos e longos andando de sandálias despretensiosamente pela Cruz Preta... Foi nesta época que ele criou a série de desenhos mais famosa e cobiçada: "Xinguana". O hiperrealismo de seus trabalhos em pastel mostrava, como uma ficção científica o que iria acontecer num futuro próximo: a tecnologia chegando nas aldeias indígenas, os indígenas estudando, fazendo faculdade. Não, não era ficção. Era premonição. 



Tempos depois Clovito começou a interferir na sua aparência. Tatuou o rosto todo, pintou os dentes com violeta genciana, andava e perambulava pelas ruas de Cuiabá em sol maior, vestido de negro, com um manto sobre a cabeça. Figurino sempre inusitado e esvoaçante. Quem mesmo ele se parece? Um arúspice do apocalipse!



Parecia um louco. E claro que sofria discriminações, embora os apreciadores das artes - falamos daqueles que têm um pouquinho a mais de senso estético, nunca negaram a qualidade de sua plástica. Explorando e misturando temas como a o indigenismo, a sexualidade e a religiosidade, às vezes abusando de tons escuros, mas sempre chocando, provocando... parece que testando as pessoas. Assim é sua arte. "O dia que um artista não puder ser extravagante é porque tem algo muito errado", disse-lhe, e obtive sua concordância de imediato.

Na verdade... aparências, nada mais. Clovito é do bem, nunca fez mal a ninguém.



A nova tela apresentada por Clovito não deixa nada a dever. Mas os outros trabalhos de diferentes fases que estão na mostra, certamente de coleções particulares, mostram a força do conjunto de sua obra. Um artista maduro que já está (en)cravado na história das nossas artes. Revejo num canto da sala onde sua arte tomou conta uma tela pequena, antiga. Onde a feição do artista, envolta em motivos indígenas, chama a atenção pela beleza e serenidade da expressão. Sem dúvida, um autorretrato daqueles desentranhados do túnel do tempo. "Aquele é você, né Clovito?!"... e ele capricha no sotaque cuiabano: "dishque!".