domingo, 22 de julho de 2012

A última diligência



Dizem, e com razão, que em boca fechada não entra mosca. Que não se deve falar/comentar quando não se conhece do assunto. Somos atrevidos. Não estamos aguentando manter a boca fechada e vamos correr o risco de falar besteira.


A Estação Rodoviária de Cuiabá de antigamente, ali na Rua Miranda Reis, era muito ruim e com o tempo foi tornando-se um horror. Feia, suja, fedida e pequena para atender a demanda de passageiros que descobria o centro-oeste brasileiro. 


Rodoviária velha (Dalva de Barros)




Quando começou a ser planejada e construída a nova Estação Rodoviária, não nos lembramos se houve polêmica. Mas lembramos de um político (que por esse e outros motivos obviamente, não deixou nenhuma marca em nossas memórias) que esbravejou que o governo, na época, Garcia Neto, deveria estar louco de construir uma obra tão grande. Qual nada... nossa memória de queijo suíço nada mais registrou em termos de sua localização, eficiência e eficácia. Sabemos que eficiência consiste em fazer certo as coisas, e eficácia, em fazer as coisas certas. Está claro que a nova (e já velha) rodoviária ainda atende as necessidades atuais e futuras.


Constatamos hoje que, passadas algumas décadas, ela continua a prestar seus serviços de forma razoável. É ampla, bem situada e, diferentemente de muitos prédios públicos, tem comodidade e condições climáticas, apesar de alguns "puxadinhos" já realizados no local. Claro que a cidade cresceu e mudou. Foi estrangulada pela caótica mobilidade urbana generalizada da cidade que, registramos, já era uma porcaria muito antes das obras da Copa.    
Amigos e moradores campograndenses costumavam dizer que a rodoviária cuiabana foi, por muito tempo, um show, perto da deles. Agora, não sabemos mais. Campo Grande ganhou sua nova Estação Rodoviária.






O assunto de hoje não caiu do céu. Surgiu por conta da notícia que o Ministério Público Estadual vai pedir o bloqueio do VLT, que deve ser construído em Cuiabá devido ao certame futebolístico mundial. Engraçado, ou triste, é que já sabemos todos que o tal VLT (Veículo Longo sobre Trilhos) só chegará depois da Copa. O promotor público que pretende o bloqueio entende que o empréstimo de 1,2 bilhão de reais para a realização de uma obra de 7 km em Cuiabá está fora do orçamento do Estado. 


O Executivo de MT, tudo leva a crer, não dispõe de recursos para investir em educação, saúde e segurança pública, setores que persistem numa situação calamitosa há anos. E vem a pergunta: como é que o poder público, então, se predispõe a assumir uma dívida fenomenal para a realização dessa obra que, com seus sete quilômetros, é uma merreca para a mobilidade urbana de Cuiabá? E que merreca cara essa... 







Agorinha, na Rio+20, vimos que estão implantando o BRT (Bus Rapid Transit ou Trânsito Rápido de Ônibus), para os cariocas. Agradável surpresa e fácil constatação que é uma obra relativamente simples e que funciona. Curitiba implantou o sistema em 1979. Foi a primeira cidade do mundo a ter o seu BRT e depois vendeu a tecnologia para países como USA, Chile, China, Colômbia, Canadá e muitos outros.






No Brasil, além do Rio de Janeiro, Belém (PA), BH e São Paulo, entre outras cidades, já possuem o BRT, ou o implantarão. Brasília, cidade projetada e pós-moderna, terá o seu para a Copa 2014, atendendo uma média de 600 mil passageiros, com 35 km, uma obra estimada em 530 milhões de reais.


O que parece isso? Adivinha... Que tem algo de podre no reino da Dinamarca. Será que esse transporte caríssimo que passará só pelo centro da cidade vai se prestar para a população, especialmente as classes sociais menos afortunadas, a se locomover em direção às instituições públicas de ensino e de saúde? Fica um pressentimento, ou uma desconfiança, de que quem precisa e é usuário do péssimo transporte público cuiabano, vai perder o bonde. Será mesmo?





sábado, 21 de julho de 2012

Domingos passados


Frederico de Morais. Um domingo com o crítico de arte e artista, nascido em 1936, em BH. Em 1966 se mandou para o Rio de Janeiro quando floresciam os anos de chumbo. Em seu primeiro texto em 1956, ainda estudante secundarista, mostrou a que veio: "Em defesa da arte moderna".




Na década de 70 agitou o Museu de Arte Moderna do Rio, o MAM, com seus domingos de criação. E esse babado é que toca o documentário de Guilherme Coelho, "Um domingo com Frederico Morais", de 2011. São 61 minutos de conversa com o crítico, que vê essa função mais como uma forma de criação do que qualquer outra coisa. Morais defende o papel do crítico como o de absorver a experiência proposta pela obra de arte, acrescentando a ela a sua própria experiência.  Nada daquela imagem carrancuda e sisuda que normalmente é atribuída ao crítico.




Mário Pedrosa, crítico elogiado por Frederico




Já houve um tempo em que Frederico era demasiado engajado com a arte conceitual e contemporânea, desprezando relativamente, outras vertentes artísticas. Essa colocação foi registrada após uma rápida pesquisa na internet. Mas, pelo que vemos no documentário, se é que ele foi mesmo tão engajado assim, esse tempo já passou. Nosso conhecimento em torno dos escritos e posturas de Frederico de Morais datam de algumas décadas, e partiu conversas com amigos mais entendedores das artes visuais.


Regina Casé curtindo o domingo do MAM




Bons tempos aqueles, quando o conhecimento nos chegava através de pessoas que eram nossas referências. Hoje em dia tá aí o Google, com todo seu catatau de informações, mas nem sempre confiáveis. Olha, mas não convém desprezar o Google. O ideal é juntar carne e osso com aquela coisa toda da alta tecnologia. Aí sim, ninguém me segura e eu não vou dar um troço.

Frederico contesta a teoria do afastamento, aquela que rege a distância obrigatória que o crítico deve manter do artista. Para ele, o crítico é um observador privilegiado da arte e isso, necessariamente, não o impede de se aproximar do criador. Assume que suas críticas têm tons confessionais, e que procura fugir do hermetismo, algo muito comum nas críticas. É acender a fogueira, jogar lenha nela e saber atuar com lucidez e paixão.






O documentário traz depoimentos de muitos artistas, além dos anônimos que também participavam dos domingos de criação que pipocavam no MAM nos anos 70. Gente como Carlos Vergara, Regina Casé, Cildo Meireles e Amir Haddad, entre outros, resgatam a emoção e a efervescência que foram aqueles dias. Domingos temáticos onde as pessoas, de todas as idades e classes sociais, brincavam de criar e criavam com grandes quantidades de papel, de tecido, de linhas, material de construção e por aí vai que vai, emplacando a cultura de massa no melhor estilo happening.




Arte conceitual de André Komatsu
Só mais um recadinho. Nesta semana Cuiabá recebe exposição dos vencedores da última edição do Prêmio Marco Antônio Villaça, que incentiva as artes contemporâneas. A mostra abre na quarta, mas na terça (24) tem bate papo no Pavilhão das Artes com um dos artistas premiados, André Komatsu. Arte contemporânea é algo diferente, mas não morde. Vai lá!!!

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Uivando na estrada


Daqui a pouco sai de cartaz o filme "Na Estrada" e a turma deste blog não foi assistir. História que vem se repetindo e que por causa disso já nos chamaram a atenção publicamente. Aqui mesmo, pelo Cid Nader, expertise em cinema, figurinha marcada em todos os festivais de cinema do Brasil, crítico do site Cinequanon. Puxão de orelha do Cid? Dele aceitamos. E tem razão o cara. Mas nós também temos. Todo mundo está cheio de razões, oras bolas.




Li um pouco sobre "Na Estrada" e não me pareceu nada de tão especial assim. Em 27 sites diferentes, onde os filmes são avaliados com estrelinhas (0 a 5 estrelinhas), o filme de Walter Salles ficou com 2,9 de pontuação. Razoável. Quando li "On the road", de Jack Kerouac, livro emblemático do qual o filme é adaptado, já estava beirando os quarenta e poucos, portanto, um tanto quanto vencido. Eu é que estava vencido pra ler o livro, e não a obra propriamente dita. Achei divertido, mas nada tão monstruoso e sagrado.








Dos escritos que andei lendo a respeito de "Na Estrada", o que me chamou a atenção e que gostei foi algo mais ou menos assim. O crítico, claro que me esqueci qual, associa a cabeça dos jovens americanos que ficavam naquela putaria de atravessar o país de costa a costa, leste a oeste e vice-versa, em busca de não se sabe o que; com a direção de Salles, que também parece não saber o que quer.


Achei interessante essa associação, embora precise comentá-la. Não acredito e nem valorizo esse papo de mensagem que dizem por aí já faz teeemmmmpo, que filmes devem ter. Na verdade, ao ler essa colocação, até me senti tentado a assistir ao filme. E se o diretor foi fiel ao livro, imagino que os personagens são interessantes, apesar de lunáticos, drogados, imaturos etc. Jovem metido a escritor é assim mesmo. Talento e minhocas e ideias e aspirações perseguem essas cabecitas. Olha, eu mesmo já fui um pouco assim, mas, por favor, não espalhem.






Agora, tem um agravante nessa história de irmos ou não irmos assistir "Na Estrada". Um agravante mais para o sentido de não irmos. É que, por coincidência, acabei de assistir "Uivo", pela televisão, filme que é baseado no célebre poema homônimo de Allen Ginsberg. Gostei, gostei mesmo. Mas me resumo a apenas esse "gostei mesmo", em termos de comentário sobre a obra.

Digo só mais um pouquinho. O poema de Ginsberg me soa muito mais forte e interessante do que “On the road”. Mas, poesia é poesia, prosa é prosa, cinema é cinema e literatura... Bem, literatura é arte mãe.








Ginsberg era da turma de Kerouac... Expoentes da chamada Geração Beatnik, que estourou nos EUA a partir de meados dos anos 50. Então, tudo isso quer dizer que, pelo menos por estes dias, já tomei a minha dose de geração beat. É muito provável que, aqui em casa, aguardemos "Na Estrada" chegar até nos.






Pra terminar, é impossível que nenhum leitor nosso não tenha assistido o filme de Walter Salles. Entonces... Aceita-se pitacos. Inté mais!!!

quinta-feira, 19 de julho de 2012

*Liforme branco


Uniforme:  que dá uma só forma. Vestimenta usada por um grupo para se identificar. Nos dias atuais é meio arriscado falar em uniformes. São tantos os direitos, na ponta da língua, que corre-se o risco de fomentar discussões calorosas em torno de direito à  individualidualidade até sei lá onde....  


Mas alguns uniformes já foram motivo de status, de elegância... Quem não se lembra das charmosas aeromoças da década de 60? Imagine você com um casaco de uma famosa universidade americana, no estilo  "college". Mocinhas e moçoilas de saia azul plissada e blusa branca foram motivos de muitas noites mal dormidas aqui no Brasil varonil. "Vestida de azul e branco, trazendo um sorriso franco... minha linda normalista rapidamente conquista..." Do outro lado do mundo, no Japão, o uniforme escolar é fetiche dos fortes. Os coroões japoneses não resitem a uma japinha num autêntico seifuku. E você resistiria? Ah! seifuku é uniforme escolar  inspirado nas fardas dos marinheiros.  








Daqui a alguns dias, mais precisamente dia 27, inicia a Olimpíada, em Londres. Aí sim, vamos assistir a um desfile de uniformes. E os modelitos estão dando o que falar. 






Os Estados Unidos, pra variar, tá em guerra. O uniforme fabricado pela famosa Ralph Laurents causou uma explosão de ira no Senado americano. Um senador propos que os mesmos sejam queimados, em praça pública, porque eles foram confeccionados na China, portanto devem ter uma etiqueta  "made in China", incomodando cada um dos atletas. O bafafá chegou na China e eles muito polidos, impassíveis e com aquele sorrisinho amarelo mandaram o honorário senador queimar seu Blackbarret, os equipamentos de sua casa, escritório e as roupas de seu guarda roupa.   







Os atletas ingleses vêm vestidos pela famosa estilista Stella MacCartney. A Jamaica, não perdeu tempo, mandou ver. O homem mais veloz do mundo, Usain Bolt, desfilou com o uniforme criado por Cedella Marley, filha de Bob Marley. Os espanhóis não gostaram do uniforme, que tem sido comentado e  criticado entre os atletas, nas redes sociais.


Uniforme da delegação espanhola...

e da delegação russa... hum, hum 




Nesses momentos, de grande emoção, o uniforme adquire status de bandeira do país, de manto sagrado, de segunda pele. Entre milhares e milhares de atletas, identificaremos nossos representantes em meio a combates, acirradas disputas e pelejas pelo verde e amarelo que estarão trajando. 






Mas, na terra dos papagaios nem tudo é calmaria, por causa do uniforme. Os atletas brasileiros estamparão em seus mantos as marcas dos patrocinadores oficiais: Caixa Econômica e Sadia. O primeiro desfalque, por não aceitar a marca dos patrocinadores ou coisa parecida no uniforme, foi a ginasta Jade Barbosa. Esquisito isso.  Seus patrocinadores não podem aparecer no uniforme oficial? Ou ela não quer usar aqueles que talvez não a tenham apoiado? Não entendemos, não ficou claro. 


É isso mesmo, ficamos sem opção diante dos patrocínios? Os atletas que irão representam a elite esportiva do Brasil, atletas de alta performance, os melhores ou só os melhores que aceitam ostentar as marcas financiadoras. Vá lá, a Caixa é uma empresa brasileira, mista sei lá. A Sadia é brasileira? Era pelos menos... mas depois de tantas fusões... 


Deve ter em nossa delegação atletas vegetarianos. Será que eles estão gostando de ostentar a marca de um frigorífico? Além disso, a pecuária brasileira é conhecida mundialmente como a maior responsável pelo desmatamento da Amazônia. Olha a imagem!!!!! 


Uma imagem que diz tudo:
fim da guerra (2ª)


* "eu vou pra Maracangalha, eu vou. Eu vou de chapéu de palha, eu vou. Eu vou de liforme branco, eu vou..." 

quarta-feira, 18 de julho de 2012

São Gonçalo Beira Rio


Benedito e Gonçalo já foram os nomes masculinos mais comuns em Cuiabá. A força da tradição religiosa da cidade, associada e a simpatia que a população local sempre teve para os santos com esses nomes explicam essa proliferação nominal. Nos tempos ginasiais, hoje chamados de ensino fundamental, um colega de classe bateu o recorde: chamava-se Benedito Gonçalo.


Talvez, na falta de um bairro ou local histórico chamado São Benedito (tirante a igreja), um dos locais que nos emocionam e que gostamos de visitar vez em quando é São Gonçalo Beira Rio. Lugarzinho que parou no tempo e parece desentranhado desses romances sulamericanos que flertam com o realismo mágico. Ou realismo fantástico. O conhecimento acadêmico sobre a literatura, tem horas, faz uma falta lascada.



















É cachorro que late pra gente, é montoeira de lixo no barranqueira do rio, é saneamento ruim... e mais uma coisarada tão comum que depõe contra a imagems desses lugarejos e currutelas da região denominada Baixada Cuiabana. Nosso povo mais simples, que tem humildade no coração e recebe com alegria, ainda precisa, e muito, de orientação e educação, pra fazer vicejar o potencial turístico que aflora onde vive. Mesmo com todos esses defeitos e problemas seculares... "I love you, São Gonçalo".








O lugar é periférico, bem afastado da região central da cidade. Mas, falar da história de Cuiabá e não mencionar São Gonçalo Beira Rio só pode ser coisa de gente fraco da memória. Assim que nem eu. Quantas vezes já li e reli sobre os detalhes do surgimento do primeiro povoado nesse local, às margens do rio Cuiabá, em 1719, e ainda não sei de cor as informações históricas mais básicas. E lá se vão 293 anos que surgiu o lugar. A gente volta lá e o que encontra: um povoado. 


Nada de plantação de soja nas redondezas, nenhum conjunto habitacional "minha casa, minha vida",  e imagina se o VLT, que vem sabe deus quando depois da Copa de 2014, vai chegar em São Gonçalo Beira Rio. Se brincar, não tem nem quitinete lá.  Não sei bem por que, só sei que esses troços que faltam lá, me parece, foram substituídos por aúfa de sarã, aquela árvore que adora beira de rio, por peixe que fica batendo na flor da água e também o tal do biguá, aquele pássaro aquático preto, que pesca como ninguém.








São Gonçalo, gente boa, é outro papo. Tem cururu, siriri, artesanato em cerâmica, peixe frito, assado, mugica (ensopado), doces... e mosquito... Êpa... mosquito é ruim. Borrachudo desgranhento que fica assanhado quando o sol despenca e tchupa sangue da dgente.  Sai pra lá coisa ruim! Bem que pudia ter uma farmácia ou bulichinho pra dgente comprá um repelente e se livrar da mosquitaiada. 





terça-feira, 17 de julho de 2012

Micos


O senhor A., quando jovem, tinha mania de surtar. Mas, sempre foi inteligentíssimo. Inteligência demais faz um mal danado. Combina com surtos. O diagnóstico de esquizofrênico já lhe coubera bem, mas acontece que ele sarou. Se é que é possível sarar da esquizofrenia. Sei lá. Só sei que ele sofria de uma sinceridade excessiva e não se incomodava nada com aquelas situações comumentes classificadas como "pagação de mico". Coitado do mico. Aquele macaquinho bonito e esperto, mas que tem o seu nome associado a flagrantes humanos embaraçosos.


Nos idos anos setenta, o senhor A., em pleno frescor da sua juventude e enveredado em suas atividades acadêmicas, andava pelos corredores da universidade falando e gesticulando  enfaticamente. Todo dia, todavia, assim era.Tinha ao lado um amigo, cuja cabeça era alvo de uma alugação sem tamanho. Não era uma amizade de longa data que havia entre eles. Na verdade, eram mais conhecidos do que amigos. E se encontravam casualmente nos espaços universitários. 


Gostavam de frequentar o DCE, o famoso diretório dos estudantes. E por ali, às vezes, se topavam. A., logicamente, era entendido de marxismo e de ideologias similares. Seu amigo, a quem chamaremos de senhor P., doravante, frequentava o diretório por outras razões que não vêm ao caso. Não convém desmerecer o personagem que, dizem, é verdadeiro. Assim como A. E foi assim que se encontraram e saíram andando naquela quarta-feira.


A expressão pagar "o mico", vem de um jogo infantil de baralho




Sentaram-se num banco de cimento, daqueles que ficavam nos saguões dos blocos da universidade. No outro extremo do saguão a cantina fervia de estudantes. Era horário de intervalo. A. cansara-se de falar e falar e falar sobre teorias políticas, anarquismo, filosofia e outras baboseiras ideológicas. P. em nada contribuía com a conversação. Às vezes se comportava de forma estranha, mostrando-se muito ausente. Parece que quando fez o científico o flagraram fumando cigarro com melhoral e dizem que era esse vício que o deixava assim, meio bobó.


A., então, apontou nas proximidades da cantina duas moças ao estilo jabiracas que conversavam animadamente. "Você tá vendo aquela menina que tá ali na fila da cantina conversando com uma amiga?". "Sim... que que tem ela?", disse P.. "Putz, que bagulho... que mulher feia". "É minha irmã..."."Não, não... eu to falando daquela que tá de camiseta cor de rosa". "Ah... ela também é minha irmã". Nessa altura do diálogo, A. que tentara contornar o vexame, mostrou todo seu desprendimento potencial: "Nossa, mas como a sua família é horrorosa, hein?!".  


Mico leão dourado: o mais famoso




Existem vários tipos de mico. Um dos mais famosos é o mico leão dourado que até alguns anos atrás estava em risco de extinção. Mas os micos dos quais falamos aqui, acredito que jamais serão extintos. Só dependem da permanência da raça humana no planeta. L., hoje praticamente um senhor firmemente a caminho das suas sessenta primaveras, socorreu, certa vez, um amigo, o senhor A.P., que estava com uma terrível crise renal. Nem precisaria dizer, mas esta é outra história.


"Eu não estou aguentando de dor... aaaiii... você pode me levar pro hospital". A.P. pediu um help ao amigo, que morava próximo da sua casa. L., segundo consta na memória deste narrador, também é um personagem real. A.P., da mesma forma, mas com o verbo ser no tempo passado, porque já se mandou deste mundo. Não morreu de problemas renais e nem foi assassinado por L. que, em vez de assistir a trasmissão direta do jogo de seu time na televisão, teve que sair de casa pra socorrer o amigo.


A dor do cálculo renal, que Deus me livre dela, é uma das pirores que existe. Já ouvi gente importante e sábia dizer isso. L. chegou ao hospital indicado pelo amigo que mal conseguia falar de tanta dor, com a crise renal. Ajudou o enfermo a descer do carro e foram entrando direto para a emergência. Esperaram pouco mais do que um minuto e L. ficou apurado, porque o amigo não parava de gemer e parecia que ia desmaiar. Viu se aproximando da cama metálica onde o amigo doente estava um negro com um desses jalecos bastante surrado.






L. queria resolver logo a parada. Talvez um buscopan, voltaren... ou morfina mesmo, fariam passar não a pedra pelo canal, mas a dor do amigo. L., pensando bem, ainda tinha esperança de assistir pelo menos o segundo tempo do jogo do seu time pela televisão. Olhou seriamente para o negro de jaleco que já estava ao lado deles e indagou furioso. "Porra, aqui neste hospital não tem médico não?". Seu amigo, apesar da dor, fez um esforço hercúleo e, semi-levantado da cama, disse: "O médico é ele,L.".  Um mico que, nos dias atuais, poderia até resultar num crime de racismo. 







segunda-feira, 16 de julho de 2012

Ensaio


Granta: versão brasileira de Michael Salu
Enquanto oscilava entre o laptop na sala e a geladeira na cozinha, dava uma esgueirada com paradinhas em frente a TV. Passava um filme argentino, "As acácias", sobre o qual tinha lido uma crítica. Não queria ou não dava para assistir naquela hora. Talvez coisas mais importantes para fazer... ou não fazer. Mas não me saía da cabeça o texto sobre o maldito filme. Numa espécie de revolta/desabafo, o autor das palavras  criticava o estilo arrastado e moroso, onde nada acontecia. Antes de fechar o artigo um escancarado elogio (?).

Filme de arte é meio assim mesmo. Às vezes é um saco de assistir, mas você fica preso ali e quando chega no final se dá conta de que alguma coisa foi acrescentada. O fato de ser uma produção argentina mexe. Como são bons esses filmes que vêm lá da terra dos nossos eternos rivais. E que brilhante também tem sido a literatura dos hermanos. Sigo pensando e ando pela casa de tempo em tempo. Sala, cozinha... geladeira, splat, laptop.

offgranta.wordpress.com
"um espaço para os 227 rejeitados na antologia Granta"


Pensava em escrever algo sobre a seleção de novos escritores brasileiros (com menos de 40 anos), que a revista britânica “Granta” acabou de divulgar. A revista, de projeção internacional, vai publicar contos e trechos de romances de vinte autores nossos. Claro que a seleção dos nomes deu o maior falatório. Sinto que "As acácias" está em seus minutos derradeiros e planto-me em frente a TV. O final é emocionante e meus olhos umedecem. "Una furtiva lacrima". Estou me achando o máximo por ter me emocionado com uns poquitos minutos de filme. Ego inflado. Úmido.

Una furtiva lacrima (Gaetano Donizetti)


Sou chamado a atenção. Uma repreensão bem humorada que caberia no estilo cuiabano de falar: "Agora o que que é esse... assiste só o finalzinho e se acha no direito de chorar?"  O choro, por mais econômico e malhado que seja, sempre é teatral. Resulta de reações internas em quem o pratica, mas pode exercer influências comportamentais em quem está próximo. "Chora neném... chora neném, que mamãe compra". Era o que dizia o pipoqueiro pra minha mãe, quando ela saía pra passear comigo ainda criança pequeno lá de Livramento. Não me lembro, mas sei que é verdade.



Voltemos aos jovens autores brasileiros. Eles estão numa edição brasileira da revista Granta, mas também serão traduzidos e publicados em inglês, espanhol e até em chinês. Em meio a chiadeira geral, há aspectos similares nas letras desses autores novos. A narrativa na primeira pessoa é uma delas. Outro ponto em comum é que dos 20 selecionados, 14 já participaram de oficinas literárias ou estudam literatura na universidade. A era dos autodidatas, dos tempos em que funcionários públicos e profissionais liberais que se tornavam os principais escritores brasileiros parece estar enfrentando o seu declínio.

Pablo Giorgelli levou a "Câmera de Ouro" em Cannes

E volto à literatura argentina, que sempre gosto de elogiar. A renovação literária no país vizinho tem uma característica básica e muito comum em praticamente todos os escritores das novas gerações: o alto nível de erudição dos autores. Bom, estudar e sistematizar os conhecimentos sobre literatura, parecem ser um bom caminho para destinos literários. Mas é preciso mais do que isso. Falta todo o resto. O resto que a gente vai criar e inventar com muito carinho, ralação, imaginação e, quiçá, o auxílio dos deuses. Não adianta ficar só na frente da televisão em pé e chorar nos três minutos finais do filme.

domingo, 15 de julho de 2012

O fofo Kim Dotcom


Aquela nuvem que passa lá em cima sou eu...

Reviravoltas. Cuidado com elas. Estão por toda a parte, seja na realidade e ou na ficção. Na ficção, por exemplo, são muito bem vindas. Em supostas fórmulas para armar uma trama, seja no teatro ou no cinema, funcionam que é uma maravilha. A estrutura aristotélica do drama, aliás, já previa reviravoltagens em plena Grécia Antiga.  Mas, cuidado. Diante de uma reviravolta na vida real, mudar de lado ou de opinião, abruptamente, pode deixar-vos com o rótulo de “maria vai com as outras”.


Em janeiro deste ano a mídia planetária ribombou com a prisão de Kim Dotcom, menos conhecido como Kim Schmitz, alemão de nascimento, mas radicado na Nova Zelândia. De lá da Oceania ele tocava seu império de cyber pirataria, através do site Megaupload. E aí, né, já viu. Recebeu uma visita anunciada. Helicópteros aterrissando no jardim e aquela gritaria... FBI... Parecia até episódio do CSI... aiaiai. Era pra ser o fim da picada pro mister Dotcom e seus comparsas. Quer dizer, do jeito que a coisa vai indo, em vez de comparsas, melhor, sócios.


Nós os infiltrados, nada sabemos





O então poderoso chefão do Megaupload e mais três pessoas foram detidos na mansão domiciliar da empresa, acusados pelo USA de infrações contra a lei dos direitos autorais, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Essas coisinhas que dificilmente resultam em prisão aqui no Brasil. A operação que engaiolou "essas turma", propositalmente, foi amplamente divulgada. Era preciso que o noticiário mundial enlameasse mesmo esse camarada. Notícia publicada, teve aquele ooohhh, de incredulidade, de boa parte da população mundial. Ora, Kim vivia suntuosamente, mas era discreto com os seus 136 quilos, cometendo exageros apenas dentro da sua pacata e palaciana propriedade.




Lar doce lar




Mas, tempo vai, tempo vem, eis que o vilão, o criminoso da internet; ao longo dos últimos meses, teve sua imagem alterada diante da opinião pública. Tão dizendo até que ele virou herói cult. A barra de Kim tá limpando graças ao twitter que ele maneja com maestria contemporizadora. Os EUA querem a sua extradição e alegam que o Megaupload, criado em 2005, faturou 175 milhões de dólares, causando um prejuízo de 500 milhões aos titulares dos direitos. Isso que é, ou seria, usar e abusar da pirataria.


Kim está em liberdade vigiada na Nova Zelândia e aguarda o julgamento de processo de extradição onde pode pegar até uns 20 anos de cana, nos EUA. Há poucos dias o tribunal neozelandês anunciou adiamento da audiência sobre esse pedido que estava previsto para acontecer em agosto, para março do ano que vem. A justiça da Nova Zelândia identificou ilegalidades na operação de busca e apreensão dos bens dos arguidos.




Datacenter Dotcom


Sinceramente, no que vai dar essa pendenga nada sabemos. Todas as vezes que tentamos praticar um jornalismo investigativo, vibrante e perigoso, nossa equipe de advogados que integra nossa assessoria e consultoria para assuntos jurídicos, vergonhosamente, mija pra trás. Têm vezes que chegamos a duvidar se ela realmente existe. Assim não dá... é o fim!


Dotcom dando duro