segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Irigaray


Ver e rever Clovito. O programa é inusitado, afinal foram 10 anos sem nenhuma mostra de seus trabalhos. A vernissage da exposição "Irigaray" revela Clovis Irigaray, matogrossense de Alto Araguaia, no seu momento. Clovito, como é conhecido, por aqui exilou-se de seus pincéis, tinta e telas por dois ou mais anos. Deu um tempo, agora resolveu voltar. E juntou um monte de gente, uns pra conhecer essa figura que usou o próprio corpo de suporte de sua arte contestadora, outros pra ver/conhecer sua obra, outros pelos dois ou mais motivos.

"Esse tempo em que você esteve afastado, você se comportou direitinho?". Clovito balança a cabeça positivamente com um ar tão irônico, quanto lânguido. Parece não entender direito o significado da pergunta. E o autor da pergunta, réu confesso, também não sabe direito porque perguntou isso. 



Há muitos anos Clovito circula por Cuiabá. Nos anos 70 era um símbolo vivo do movimento hippie. Imagina naqueles tempos em que as famílias cuiabanas colocavam as cadeiras nas calçadas à noitinha e mandava ver uma conversa fiada. Imagina o que falavam quando viam um cara esquálido, moreno, cabelos negros, lisos e longos andando de sandálias despretensiosamente pela Cruz Preta... Foi nesta época que ele criou a série de desenhos mais famosa e cobiçada: "Xinguana". O hiperrealismo de seus trabalhos em pastel mostrava, como uma ficção científica o que iria acontecer num futuro próximo: a tecnologia chegando nas aldeias indígenas, os indígenas estudando, fazendo faculdade. Não, não era ficção. Era premonição. 



Tempos depois Clovito começou a interferir na sua aparência. Tatuou o rosto todo, pintou os dentes com violeta genciana, andava e perambulava pelas ruas de Cuiabá em sol maior, vestido de negro, com um manto sobre a cabeça. Figurino sempre inusitado e esvoaçante. Quem mesmo ele se parece? Um arúspice do apocalipse!



Parecia um louco. E claro que sofria discriminações, embora os apreciadores das artes - falamos daqueles que têm um pouquinho a mais de senso estético, nunca negaram a qualidade de sua plástica. Explorando e misturando temas como a o indigenismo, a sexualidade e a religiosidade, às vezes abusando de tons escuros, mas sempre chocando, provocando... parece que testando as pessoas. Assim é sua arte. "O dia que um artista não puder ser extravagante é porque tem algo muito errado", disse-lhe, e obtive sua concordância de imediato.

Na verdade... aparências, nada mais. Clovito é do bem, nunca fez mal a ninguém.



A nova tela apresentada por Clovito não deixa nada a dever. Mas os outros trabalhos de diferentes fases que estão na mostra, certamente de coleções particulares, mostram a força do conjunto de sua obra. Um artista maduro que já está (en)cravado na história das nossas artes. Revejo num canto da sala onde sua arte tomou conta uma tela pequena, antiga. Onde a feição do artista, envolta em motivos indígenas, chama a atenção pela beleza e serenidade da expressão. Sem dúvida, um autorretrato daqueles desentranhados do túnel do tempo. "Aquele é você, né Clovito?!"... e ele capricha no sotaque cuiabano: "dishque!".    



sábado, 4 de agosto de 2012

Hey Jude

Até a lua cheia quer participar dos ideais olímpicos

Estamos atentos. Ligadaços nas Olimpíadas. Torcer é sofrer. Lógico que torcendo também pra que o STF aplique um cartão vermelho na turma do "mensalão". Não é nada fácil acompanhar o desenrolar dessa batalha, no campo jurídico, que o final de semana garantiu uma trégua. Continuamos focados nas performances dos atletas de alto nível (e neste caso não se tem pátria: o melhor é o melhor). É claro que torcemos pelo esporte e pelos atletas brasileiros. O basquete, o futebol e o vôlei, masculinos; garantiram vitórias neste sabadão. Vitórias assim apertadinhas (menos no basquete), em disputas que não são recomendáveis àqueles que têm problemas cardíacos.


O filho de Poseidon: Michael Phelps

O jogo de futebol contra Honduras foi estranhíssimo. Mesmo contra um país sem nenhuma expressão no futebol, o Brasil ganhou apertado, de 3 a 2, apesar de jogar parte do primeiro tempo e o segundo tempo inteiro, com um jogador a mais. O que ficou de positivo foi que o Brasil ficou duas vezes atrás no placar, mas soube virar o jogo retranqueiro. Já no vôlei, contra a Sérvia, a performance dos jogadores brasileiros foi o melhor exemplo de altos e baixos. E o técnico, o Bernardinho... bem tem horas que precisam segurar o homem  porque parece que ele vai dar (ou ter) um troço.


Até o fechamento deste post o Brasil estava em 25º lugar no quadro das medalhas. Sãos mais de duzentas delegações disputando bom desempenho e medalhas e o nosso País, a sexta ou quinta economia mundial, vai muito mal. Como quase sempre. Pesquisamos pra saber quando foi que o Brasil teve a sua melhor colocação no quadro das medalhas em Jogos Olímpicos. Foi na Antuérpia, em 1920, quando ficamos em 15º lugar.


Na Olimpíada de Atenas (2004), o Brasil ficou em 16º. O Tutty Vasques, também tá atento às competições em Londres. Ele registrou o retorno da equipe de tiro ao alvo do Brasil, classificada em 17º lugar. "Bala perdida é uma vocação brasileira", escreveu bem humorado. Já o José Simão, outro midiático, sugeriu que o Brasil passasse a se chamar Bronzil, por conta das medalhas de bronze.


Atleta sem pátria: Guor Marial do Sudão do Sul


E o vento levou o sonho brasileiro no salto com vara feminino. Parte da mídia bateu duro na Fabiana Mürer, atleta que já fez bonito. Quem não se lembra do “piti” na Olimpíada de Pequim quando ela viu que uma de suas varas tinha sumido. Desta vez foi o vento, e ela desistiu. Não vamos cair matando, mas... Melhor elogiar o Mauro Vinícius, o Duda, que ficou em sétimo lugar no salto em distância, depois de tentar até o fim. A brasileira Pâmella Oliveira, do triatlo, vinha muito bem na natação (em 4º lugar), mas, quando migrou para o ciclismo, logo no início, levou um tombaço e se machucou toda. Perdeu minutos precisos e posições. Mesmo assim prosseguiu na disputa e pegou a 30º colocação.


O choro e a dor da triatleta Pâmella


Mas nem só de competições vive a Olimpíada. A participação de um atleta com dupla amputação (sem as duas pernas) no atletismo, a expulsão de uma atleta ligada ao neonazismo, e a presença de um atleta do Sudão do Sul, perseguido em seu país por questões políticas (atleta sem pátria), que disputará a maratona sob a bandeira olímpica, são exemplos da nobreza dos ideais esportivos. A Olimpíada, onde quer que aconteça, é um evento muito superior aos problemas internos ou externos dos países. Quem sabe se até os jogos do Rio de Janeiro, o nosso ministro dos Esportes esteja mais atento tenha aprendido a lição. 


Oscar Pistorius, da África do Sul, quebrando tabus


E fechamos o papo de hoje com uma homenagem a duas artistas que conquistaram o mundo e se mandaram exatamente no dia 5 de agosto:  


A pequena notável, Carmen Miranda

e a bombshell: Marilyn Monroe

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Cinema com pedigree


De repente, uma música bacana. E vem da telinha, de um comercial superproduzido e transado, um roteiro fechadinho. Praticamente um videoclipe, daqueles premiados. Foi assim que nos chamou a atenção uma propaganda da cerveja Heineken. E tudo começou com uma música interessante, dançante, embalante.


Tempo vai. Alguns meses e flagramos um filme "Mundo Cão" (2001). Meio assim e um pouco assados, eis que toca aquela música do comercial da cerveja. Coincidências pesam positivamente em determinadas situações. No elenco estão Thora Birch, Scarlett Johansson e Steve Buscemi. Acho um pouco difícil quem curte cinema razoavelmente não conhecer Scarlett. Thora e Buscemi, pode ser que você acha que não conhece, mas, quando ver a cara deles, vai se lembrar.



Essas menininhas sem graça...


Gostoso de assistir. Com muita sinceridade é contada a história de duas amigas que se encontram naquela fase ou entrefase: nem jovem, nem adulto. No limbo, mesmo. Em plena crise, que quase nos abate, nessa complicada passagem da vida de todos nós. O que querem, o que desejam e o que pensam que querem e imaginam que desejam. "Eu quero dar para aquele ali", diz Rebbeca (Scarlett) para Enid várias vezes ao longo da trama. Enid é interpretada por Thora, jovem atriz que se projetou interpretando a filha do “casal problema”, em Beleza Americana.


transformaram-se nessas...

...atrizes talentosas 


Fotografia belíssima, trilha musical muito interessante e variada, elenco encaixadíssimo, roteiro inteligente... Ora, estamos diante de um filme que merece rasgação de seda. Tem um estilão alternativo e sua narrativa leva nuances do mundo das histórias em quadrinhos. A direção é de Terry Zwigoff, um multi artista que acumula experiências na música e nas artes plásticas, além da atuação destacada no audiovisual, onde, geralmente, nada de braçadas na linguagem dos quadrinhos. 




Terry Zwigoff é um cineasta raro. Tem poucos filmes, uma meia dúzia no máximo, mas a qualidade de seu trabalho é inquestionável. Foi sondado e convidado por Hollywood, mas recusou, por negar-se a aderir a pegada mercantilista da indústria cinematográfica. Reza em seu currículo que teria dispensado um cachê de dez mil dólares para participar de um spot publicitário. Coisa pra quem pode.


"Mundo Cão", Ghost World, originalmente, é baseado em gibi homônimo de Daniel Clowes. Não foi bem recebido pelo público e sua bilheteria inicial nos cinemas, sequer cobriu seus custos que não foram muitos. Mas a crítica aplaudiu o filme e ele recebeu vários prêmios e indicações, inclusive, disputou o Oscar de melhor roteiro adaptado. Diante disso, acabou tornando-se cult e sua procura pelas locadoras americanas nos anos seguintes virou uma febre.


Esses caras esquisitos não viraram nada...


John Malkovich é um dos cabeças desta produção estimada em sete milhões de dólares.  Incrível como Hollywood consegue realizar filmes que não chegam nem no chinelo deste, com orçamento onde os milhões chegam aos dois ou até três digitos. Mundo cão esse mundo do cinema, onde falta muito pedigree.


... pois nasceram pra ícones!

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Sangria desatada


Sangue de barata, sangue de Jesus tem poder, sanguessuga, sangue bão... São vários os tipos de sangue e é bom saber qual é o seu. Vai que precisa. O assunto hoje tem cor, é vermelho. Há uma certa incapacidade da nossa parte em abordar muito seriamente um tema. Mas essa conversa de privatizar o Hemocentro de Mato Grosso tá meio atravessada em nossas cabeças. Aí, né, a gente optou por esta conversação que tende para o encarnado. 


Doar sangue é um gesto de intenso humanitarismo.


Quem procura um hemocentro e oferece seu sangue demonstra uma das qualidades mais nobres do ser humano: a solidariedade. Quem doa não sabe quem será o receptor, mas tem a certeza de que irá ajudar alguém a restabelecer a saúde. E doa, simplesmente. O ato de doar (gratuitamente) algo tão íntimo e vital, numa situação onde não interessam a identificação do doador, informações sobre sua origem, status social, descendência; e que pode ser feito por parte significativa da população, é algo individual, único. E quem doa estabelece com quem o coleta uma relação de respeito e confiança mútua. 




Seguindo o raciocínio desse conceito humanitário, aflora um questionamento em torno da proposta do Executivo deste Estado, que quer transferir a administração do Hemocentro para outra instituição. Por quê? Se existe uma tradição na realização desse serviço pelo Estado, se há profissionais altamente qualificados e capacitados, se a qualidade do atendimento e da relação doador/receptor tem se mantido. 


Um gosto de sangue: 1º filme dos Coen

Há toda a sorte de argumentações nessa de privatização de serviços. Há concordância que alguns podem ser terceirizados, ou coisa parecida. Não aqueles que asseguram a dignidade da vida humana, como saúde, educação e segurança. O cidadão, na melhor das intenções, doa seu sangue, isso é o que chamamos de dar sangue - de graça, e aí uma instituição, entidade, organização, passa a explorar esse serviço, apesar de a administração pública ter condições de fazê-lo de forma satisfatória. 


Tônia Carrero e Francisco Cuoco em Sangue do meu sangue


Sei lá... mas tem uma pulga atrás da orelha que leva a alguma desconfiança... A de que alguém, que não a população, vai sair ganhando nessa história. Muito estranho. O povo desta terra não tem mais como ser sugado e até o sangue, pode virar objeto do desejo de sei lá quem. Sanguessuga, saúde pública em MT... Minha memória não tá lá grande coisa.




Talvez estejamos sendo simplistas, ignorantes, precipitados etc. Não somos grandes conhecedores em matéria de gestão pública de saúde. E o pior de tudo é ser ignorante, e querer partir pras vias de fato. O sangue nos sobe à cabeça e ficamos rubros de raiva. Descer a porrada é comportamento de quem está a um passo de se tornar um sanguinário, sanguinolento. E ainda corre o risco de ficar todo ensanguentado.






O primeiro hemocentro do qual se tem notícia no mundo surgiu na Espanha, por conta da terrível Guerra Civil. Espanhóis têm fama de sangue quente. Às vezes é preciso ter sangue quente. Noutras, o sangue frio cai melhor.  Se não entendes, se não sabe em que hora ter sangue quente ou frio, calma. Senta-te num bar e pede algo pra clarear sua ideia. Não, não vá pedindo campary logo de cara, só porque é uma bebida vermelha. Vá de bloody mary. Agora, se quiser beber com mais volume, tipo encharcar-se, vai de sangria. Hummm... tá duro, a situação financeira não está nada fácil. Pede um sangue de boi e aguenta o tranco depois. Se for dirigir, nada disso. Vá de refresco de groselha, bem vermelhinho. E mostre que você é mesmo sangue bão!





quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Arte vitoriosa


Nuvem super Mário (João Magalhães)
O prédio da Bhering abriga reduto de artistas no RJ.
A arte aqui venceu!
"Não vamos conseguir fazer arte ali daquele jeito". A frase me foi dita e referia-se a um projeto coletivo que foi sonhado, conquistado e colocado em prática por pouco mais de um ano, quando a partir de então a coisa passou a esmorecer. Acho que nunca vamos nos esquecer dessa frase... Desse registro cruel e verdadeiro, que costuma diagnosticar o fim (da picada) em muitas iniciativas culturais.


Lógico que a conversa não se resumiu apenas nisso. Teve choração de pitangas, pequenos desabafos, palavrões (porque não?), trocadilhos, piadas e tudo mais que é de direito pra quem busca aquele algo mais na vida. Mas foi a constatação de que não rolaria a arte, a tal da arte, a frase mais emblemática e mais doída. Ou doida mesmo!


Comentamos aqui outras vezes sobre esse papo de ser (ou não ser) artista. Não nos interessa muito, sinceramente. Vamos por um outro aspecto:o importante é estar envolvido e, como dizia o verso de antiga canção de Paulo César Pinheiro, "o importante é que a nossa emoção sobreviva". 


Paulo César Pinheiro... sobrevivente


O que motivou este post de hoje surgiu após lermos texto do jornalista Raoni Ricci, assessor de um político em franca campanha. Uma crônica confessional e quase apaixonada, relatando experiências recentes que teve em andanças com o seu candidato, nas quais, se deparou com a arte em carne e osso, e também em carne e osso encarnada performaticamente.


Não é tão difícil entender o final do parágrafo acima. Bom, primeiro, uma peixada na casa de Aline Figueiredo, matriarca da nossa cultura. E depois esbarrou em Adir Sodré, aprontando seus happenings quando sua tinta parece sangue e sua postura e movimentos coreografam uma dança primordial. Adir, o demiurgo das cores e das formas. E Aline, o conhecimento represado num dique monstruoso, sempre prestes a ceder ou explodir.


Bomba A(dir)


Raoni teve sorte. Veio ao mundo fruto de uma relação entre um apreciador das artes (Eduardo Ricci) e uma artista visceral (Meire Pedroso). O que quer dizer que nunca lhe foi subtraído o acesso às artes e à cultura. Mas, o impacto da arte não escolhe vítimas por classe social, credo religioso ou etnia. Há muitos anos, passou pelo lar Tyrannus um pedreiro que, ao deparar-se com um quadro de João Sebastião exposto na sala, ficou  embasbacado. Lembro-me da sua expressão a fotocopiar verso de Chico Buarque... "seus olhos embotados de cimento e lágrima".




A acessibilidade ao terreno das artes e da cultura deveria ser mais considerada e usada como estratégia de gestão. Todo mundo deveria experimentar esses acometimentos mencionados acima. Nossas rotinas e retinas precisam dessas sensações que a arte provoca.  Estamos vivenciando um período em que os políticos têm todos os motivos (escusos?) para flertar com a população. Olho vivo e faro fino para todos nós. “Nós precisamos da arte para não morrer de verdade”. Obrigado Nietzsche... 


Faro Fino e Olho Vivo! 



terça-feira, 31 de julho de 2012

Conversa de pescador...


Tá nervoso? Vai pescar, camarada! Essa é velha, mas tem novidade no contexto da coisa. É o seguinte, gente boa: se você é pescador amador, vai ter que comer o peixe lá na beira do rio mesmo, tá sabendo? E não pode acender fogueira, porque há risco de incêndio nesta época de seca. De duas uma, ou as duas e tudo ao mesmo tempo agora: a venda de fogareiros vai ser aquecida, ou o sashimi vai virar mania nessa beiradona de rio, seja abaixo, ou acima.


A outra opção é tentar burlar a lei. Qual lei? Ora, a lei que proíbe que pescadores amadores transportem o pescado. Ainda não tivemos acesso ao que diz a nova legislação que a gente pescou por aí... Mas, já tem gente maldosa dizendo que a lei não vai valer pra pescador amador que for "peixe grande". É que "peixe grande e suas histórias maravilhosas" está no campo da ficção, do cinema. Ah, tá bom... Conversa de pescador. Só pode ser, porque se não for, não é.




E se você está duvidando, pesque e pague. Pague pra ver. Agora o isopor e o freezer não serão mais seus companheiros quando você torar pra beira do rio. Quer dizer, esses recipientes podem ir cheios, mas têm que voltar vazios. A não ser que você leve a cerveja apenas pra passear na beira do rio, o que seria ideal, mas está longe de funcionar por aqui. Nestas paragens cuiabanas temos estação das águas e da seca. Lei seca, necas de pitibiriba. Bafômetro deve ser demais de caro... Ah, e se tivesse e fosse usado o tal do bafômetro, quanto bafão não ia rolar.


“Piquira morde?”. Pergunta feita no século e milênio passados por uma amiga que passou um final de semana no Rio de Janeiro, entre cariocas e cocorocas, e por lá deixou sua memória recente. "Duvidá" que ela também não sabe o quê que é lambari de esgoto, que nunca ouviu falar de rapa canoa e nem nunca foi ferrada por tchum tchum... aquele bagrinho piquititinho que machuca pra danado. 




Então é isso, pescadores e pescadoras, que amam matar mosquito e dar banho em minhoca nesse mundão sem porteira, mas com canoa e sarã, nas curvas de rio de existem por aqui. Essa lei vai ser um enrosco só pros que gostam de aliviar o stress segurando uma vara. Tá estranhando por quê? Quem pesca segura mesmo na vara... vai dizer que você vai de tarrafa? Pescou, tem que comer por ali mesmo, no barranco. Se for lá pras bandas de Leverger, num lugar chamado Barranco Alto, leva um banquinho que pode ajudar.  
   
Barranco Alto

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Ouro, prata ou bronze?


Marina Silva levou a bandeira dos Jogos Olímpicos e
Aldo Rebelo deu bandeira: inveja pura!

De olhos bem abertos e grudados na TV, nem sempre nesta ordem e às vezes dormindo e grudados na TV. Controle remoto na mão, pula pra lá, pula pra cá. Desde a semana passada, mesmo antes da abertura, porque as competições de futebol já tinham começado. Parece até que estamos em Londres... ao som de “London calling”, quem dera! 


E a história desse certame mundial para nós, brasileiros, é a de sempre. Algumas alegrias, outras decepções. Em matéria de medalhas, a Olimpíada é mais um negócio da China e dos USA, do que do Brasil, só pra citar dois países que nos colocam no bolso. Medalhas... bolso... já falamos sobre isso por aqui.





Que Paul McCartney, que Arctic Monkeys que nada. Mister Bean é que mandou bem na abertura, tocando piano ao estilo samba de uma nota só. Medalha, medalha, medalha... o que que é isso? É a delegação brasileira? A chinesa? A americana? Ou seria o cachorro Muttley, do desenho animado Corrida Maluca? Não... é o dirigente da CBF José Maria Marin, que lá está, com seu visual de madeixas acaju e uma interminável lista de convidados. É a cartolagem livre que se costuma praticar em eventos como esse.


No desfile de abertura, minúsculas delegações de pequenos países, com meia dúzia de atletas, mas lá estavam desfilando vinte ou mais componentes. Não é só no Brasil que essas coisas acontecem. Quanta ingenuidade... Na verdade, o que acontece é que em algumas modalidades, rola muita grana, e onde tem din-din, tem cartolagem e politicagem no meio.  E claro que também tem atleta mercenário, mau elemento, mau caráter etc e tal.


Dias atrás, antes dos jogos de Londres começarem, vimos uma entrevista com aquele que talvez seja o mais atuante jornalista investigativo dos esportes, o escocês Andrew Jennings. O sujeito, nos últimos anos, é o principal inimigo da cartolagem em nível universal. Ou planetário, se preferirem. Planetário, nós dissemos... e não panfletário.


Andrew Jennings 




Jennings, pra quem não sabe, já noticiou - ou bradou mesmo, contra roubalheiras que acontecem em instituições esportivas pelo mundo. Seu alvo principal tem sido a Fifa, mas ele não poupa seu machado em relação ao que os dirigentes esportivos brasileiros vem fazendo. João Havelange e Ricardo Teixeira tiveram suas maracutaias desmascaradas e alardeadas por ele. "O problema da CBF não acabou com Marin. Todos são da mesma família de bandidos", disse ele em entrevista à ESPN.






Quem quiser conferir ... http://espn.estadao.com.br/video/270463_para-andrew-jennings-o-problema-da-cbf-nao-acabou-com-marin-todos-sao-da-mesma-familia-de-bandidos


Pela Fifa ele está banido das coletivas da instituição. Em 2010 teve um arranca rabo com Jack Warner, vice-presidente da Federação na época. Ele abordou o cartola quando este se dirigia ao seu carrão e o dirigente foi logo falando: "Se eu pudesse, cuspiria em você, porque você é um lixo". Jennings não esmoreceu e indagou sobre propinas e veio a resposta na lata: "Pergunte à sua mãe". "Não posso, ela está morta", respondeu o jornalista. Warner, segundo explicações, demitiu-se voluntariamente depois desse rififi. Agora, quem está na mira de Jennings é Sepp Blater, o todo poderoso, ou cafifento, como diria Bento Carneiro, o vampiro brasileiro.   


Blater

Na entrevista do link acima, Jennings elogia Romário, ex-jogador que agora é deputado federal. O escocês demonstrou muita vontade de encontrar o craque para trocarem ideias a respeito desses esquemas futebolísticos extra-campo que envolvem a Copa de 2014. Tudo leva a crer que são defensores da lisura no mundo esportivo. É o que se espera de um político e de um jornalista decentes.


Romário, segundo um site, apesar de ter língua solta, anda esquivo em relação a críticas a José Maria Marin. Talvez o "Peixe" não queira morrer pela boca sei lá em qual sentido. Bom, além de torcer pelo Brasil, estaremos torcendo para que Jennings e o Baixinho se encontrem e rasguem o verbo. E fechamos o post de hoje com a máxima de Lorde Northclif: "Notícia é tudo aquilo que alguém não quer que seja publicado. O resto é publicidade". Millôr Fernandes, célebre pensador tupiniquim, tem uma frase similar que a gente manda aqui: "Jornalismo é oposição. O resto é armazém de secos e molhados".


Sarah Menezes: Ouro no judô

Thiago Pereira: Prata na natação
Ana Sátila, é bem Mato Grosso

domingo, 29 de julho de 2012

Quase pastel

Para o aeroporto. Rápido. Não é nada delicado deixar uma pessoa querida esperando após algumas horas de voo, com direito àquelas indesejáveis escalas. Várzea Grande é o destino obrigatório de qualquer um que chega de asa dura em Cuiabá. Pode ser que o trânsito não esteja não fluindo, então, é preciso planejar, o que significa sair de casa num horário que dê margem a possíveis problemas no tráfego.Várzea Grande, ou Vajú, como diziam noutros tempos, fica logo ali. É só atravessar o rio Cuiabá e tá lá, a cidade vizinha. Saio de casa demais de cedo e em menos de quinze minutinhos tô lá. E agora...? Mofar no aeroporto é o que não quero. Meu estômago emite sinais de que aceita algo e preciso de uma estratégia passatempo. E bate aquela larica avassaladora. Vem que vem. Não sei bem se é fome ou vontade de comer. Pode ser que os dois juntos.




Aquele atentado contra a saúde na hora matinal está a um passo de ser consumado. Comer um pastel de botequim, acompanhado por uma coca-cola. Não é possível que não encontre um muquifo, que seja, em alguma quebrada aqui da VG, para saciar meu desejo. Um dia desses tomo vergonha na cara e acabo com essa mania descabida, de comer porcariada na rua. Já sou bem grandinho pra saber o que devo e posso fazer pela minha saúde. Mas não hoje. Não agora.


Em vez de seguir a avenida que dá acesso ao aeroporto, tóro para o centro de Várzea Grande. Rodo por ali devagarzinho e nada de encontrar algo que me sirva. E minha boca tá aguando pelo pastelzinho, fritura maligna que vai acabando com a minha raça. Vislumbro numa avenida espremida uns trailers. Daqueles onde sempre as condições de higiene mandam lembranças. A música sertaneja me vem à cabeça: "é pra lá que eu vou!". 






Encosto o carro e desço. No primeiro trailer, além de não ter pastel, ainda está um bêbado daqueles bem pegajosos. Ele se dirige à minha pessoa, mas não dou ouvidos. Sigo andando para  outro muquifo pé sujo ali ao lado. De novo, nada de pastel. Só aqueles salgados imprestáveis que, sabe Deus desde quando, estão naquela vitrine desalentadora. Acho que vou de coxinha, na falta do pastel. A coxinha, sabe, quando ela é feita com massa de mandioca, se você der sorte e se ela for jovem, até que é gostosa. O problema é que pode ficar pingando gordura enquanto a gente manda pra dentro. Pela vitrine até que ela tá bonita. Tenho esperanças que ela seja de massa de mandioca, e não de trigo. "Do que é a coxinha?". Vem a resposta desentendida da humilde moça: "De carne".






Requentada na praga do microondas, o alimento me é servido com aqueles sachezinhos de catchup e maionese. O crime contra a saúde será completo. Sirvo a coca no copo e percebo que o bêbado, que nem eu, está migrando de local. Nem olho, mas sinto seu olhar em minha direção. Está vindo se juntar a mim. Dou a primeira dentada na coxinha, já incomodado com o companheiro que chega. Tenho mais um motivo pra me incomodar, porque dou mais uma dentada na coxinha, pra me certificar... Está uma bela de uma porcaria. Tomo um gole da coca. Faltava que ela estivesse choca. Mas não está. Vou me levantando. Talvez a aeronave já esteja no pátio.






“Compre um desse aqui pra mim...”. Diz o bebum retorcendo a boca, já íntimo e ao meu lado. Ele mostra um desses salgados recheados de presunto e queijo. Percebo as beiradas da mussarela e do presunto ressecados. Sem pestanejar, entrego a coxinha ao bêbado e ele me olha com uma cara de espanto ou de sei lá o que. “E ieu vo comê isso????”. “Ah, num qué?”, respondo. Ele dá um sorriso e arremata me tomando a coxinha: “Quero sim”. E o pastel vai ficar pra outra ocasião.