quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Leituras femininas

A Cidade

Curto curta. E curti muito "A Cidade" (15'/RS), de Liliana Sulzbach, documentário, o primeiro curta a ser exibido entre os filmes que competem no FestBrasília, na noite de quarta. E depois continuei curtindo: só que o documentário longa-metragem "Kátia" (74'/PI), de Karla Holanda.

Foi o que deu pois fui acometido por uma tradicional cefaleia e retirei-me  do Teatro Nacional, onde acontecem as exibições. O que quer dizer que fico devendo textos sobre os curtas "Mais valia" (4'22''/MG), "Vereda" (20'/PR), e o longa "A memória que me contam" (95'/RJ), respectivamente, de Marco Túlio Ramos Vieira, Diego Florentino e Lucia Murat. Anota aí e põe na minha dívida. Afinal dívida é dúvida!

Liliana Sulzbach
A qualidade dos filmes vai se confirmando. Abordagens espontâneas, fotografias com um algo mais. O ponto negativo tem sido o som. Todo mundo reclama da acústica da sala e nos valemos de um dispositivo que apresenta legendas - a salvação, que é usado pelos deficientes auditivos. Esse lance, aliás, é muito bacana. Têm, ainda, uns pontos de áudio-descrição que socorre os deficientes visuais. Deveria servir de exemplo para todos os festivais e isso já acontece há uns seis anos aqui em DF, o que significa que já existe um público cativo de deficientes habituê no FestBrasília.

Deficiência lembra discriminação, algo que faz parte do contexto dos dois filmes que assisti. "A cidade", da jornalista e mestre em ciência política Liliana Sulzbach, enfoca a pequena cidade gaúcha Itapuã que já teve 1454 habitantes ao longo de seus 70 anos, contando hoje com apenas 35. O local abriga portadores do mal de hansen, doença que pelo caráter bíblico discriminou seus portadores por séculos e séculos, mas isso já é coisa do passado. Será?

A constatação desse passado sofrido/resolvido o a caminho disso está na espontaneidade e no desprendimento que se verifica na maioria dos depoimentos, fornecidos pelos atuais moradores de Itapuã. E Liliana aproveita com maestria os famosos 15 minutos de fama (a duração de seu filme), nos mostrando um material que incorre em narrativa simples, valorizando as bonitas imagens, os diálogos e até mesmo os cacos do áudio que captou. Um tema, supostamente pesado, que resulta num filme pra cima e emotivo. Daqueles que têm mil e uma utilidades e servem para espectadores de todas as idades, credos, etnias etc. Para rir e chorar. Filmaço!

Kátia e Karla
E dá-lhe discriminação. A temática mostra-se escancarada em "Kátia", de Karla Holanda, que expõe a travesti Kátia, a primeira a ser eleita para um cargo político no Brasil. Kátia, antigamente Zezão, acumula três mandatos de vereadora e um de vice prefeita. Tive a honra de ir do hotel para a sala de exibição na mesma van que Kátia, quando pude especular um pouco sobre sua vida e suas expectativas.
"Vi só uma parte do filme... mas não estou nervosa", contou-me. Reparei que a Kátia, em cena, no telão, é exatamente a mesma com quem conversei. Isso é muito importante para que se confira a autenticidade que uma personagem desta natureza requer. A cineasta Karla Holanda conseguiu montar um documentário banhado de simplicidade, sem linguagens sofisticadas ou narrativa diferenciada. E como haveria de fazê-lo, se Kátia, o objeto de seu filme, é uma notável criatura lá do sertão do Piauí e vive numa pequena cidade de pouco mais de oito mil habitantes?

Kátia

Equipe
A relação de Kátia com os moradores da cidade, com seus familiares, com  cabras e bodes, vacas e bois, galinhas, porcos e cachorros é o que rola ao longo do filme, sempre divertido e carregado de cores fortes. Numa hora, Kátia está andando de carona numa motocicleta segurando uma toalha ao vento para, talvez, não pegar sol. Noutra hora, Kátia está no Rio de Janeiro, onde participa de um evento anti-homofobia e pechincha com um lojista para comprar um biquíni, embora o que ela queria mesmo fosse uma meia/calça arrastão daquelas que arrasa.     


quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Filmes em competição

Marcelo Pedroso em seu  curta documental "Câmara escura"
Finalmente a abertura pra valer do festival, porque o que interessa mesmo, segundo minha humilde opinião, é assistir aos filmes selecionados. Festival de Cinema é mais ou menos por aí. Acredito que um evento como este, mais do que qualquer outro lance que esteja rolando, gira mesmo é em torno dos filmes que vão competir. De minha parte havia grande expectativa, já que amigos e conhecidos estavam apostando na safra de realizadores que aqui estão em busca de prêmios.

Passada a noite de terça aqui no FestBrasília, onde três curtas e dois longas que competem foram exibidos, minha expectativa, devo dizer, foi correspondida. Parcialmente. Sim, porque apreciei os título mostrados, mas ainda não fiquei babando, estupefato, sintoma característico que me bate quando curto bastante um filme. Curtas-metragens são melhores do que longas, pelo menos porque se forem chatos, terminam mais rápido. Vamos a eles...

Incluindo os cinco títulos exibidos na terça à noite, o que mais me chamou a atenção foi o curta, da categoria documentário, "Câmara escura" (PE), de Marcelo Pedroso. O cineasta explora ideia bastante original e esbarra na ficção. Bate, ele mesmo, em algumas portas da cidade, dizendo que há uma encomenda. Avisa pelo interfone e sai fora rapidinho, deixando uma pequena caixa fechada no portão da casa assediada. Dentro da caixa, uma pequena câmera que irá registrar sons e imagens de quem abri-la. Até certo ponto, parece uma ideia simples, mas, quando se imagina a reação das pessoas, neste mundo paranoico e violento, e no que o desenvolvimento desse roteiro pode dar, é de se esperar que o filme cria seu próprio rumo e vai que vai. Um curta bacana, instigante e divertido...

Dirceu Cieslinski, personagem real, e a cineasta Ana Johann
Pedro Severien (à dir.) e equipe de "Canção para minha irmã"
Os outros curtas, "Linear" (SP), animação, de Amir Admoni; e "Canção para minha irmã" (PE), ficção, de Pedro Severien; confirmam a velha história da criatividade dos curtas-metragistas no Brasil. Em qualquer festival que você vá, ali estão eles desenvolvendo boas ideias com narrativas e técnicas diferenciadas, provocando e/ou brincando com a imaginação do espectador, usando sempre uma relativa dose de criatividade.  Uns mais, outros menos. Em "Linear" um pequeno ser animado segue por uma movimentada via paulistana pintando a faixa central da rua. Dá pra antever os problemas nos quais irá se meter. "Canção para minha irmã" desenvolve um texto que eu jurava ser literário (e o é, se meus olhos conseguiram reparar direitinho nos caracteres finais), apresentando uma estória aparentemente sem pé nem cabeça. Cinema autoral é assim mesmo, e azar daquele que reclamar.

Talvez o melhor da noite, "Um filme para Dirceu" (PR), de Ana Johann. Concorre na categoria documentário, mas há um interessante tratamento ficcional no filme, que narra a história de um gaitero, ou acordeonista, um jovem simples sul-brasileiro, que queria porque queria merecer um filme e consegue isso, graças, principalmente, à realizadora Ana Johann. O resenhista, antes mesmo de começar o texto, já deveria ter registrado o seu desgosto para com o tipo de música praticado pelo personagem central.

Momento terno de "Um filme para Dirceu"
Bom, de qualquer maneira, estou sendo sincero e em tempo. Não obstante eu viver de saco cheio com esse estilo musical, que flerta com o sertanejo e é demasiado imperativo na região norte de Mato Grosso, estado que habito, me diverti bastante com o filme.É muito curioso o personagem "espevitado" de Dirceu, assim como as reviravoltas da sua vida e do próprio filme. Imagino a trabalheira que deve ter sido a montagem do doc, considerando que foram praticamente dois anos e meio de captação... putz.

E impressiona como a diretora conseguiu trabalhar e montar todo esse material de forma bastante razoável. Notável o seu trabalho e o destaque maior, segundo meu entendimento, vai pra ela, por conta dessa labuta. A peruca estilo "pigmalião desestruturado" do cantor sertanejo Teodoro, da dupla Teodoro & Sampaio, claro, também merece menção.

O filme que mais me agradou: "Eles voltam" (PE), ficção dirigida por Marcelo Lordello. Dois irmãos  adolescentes pentelhos estão enchendo o saco de seus pais dentro de um carro, numa provável viagem. O pai estaciona o veículo e ordena a retirada da dupla e 'foge' com seu veículo. Uma situação pouco provável na vida real... O que? Tem certeza? Se você tem filhos, deve saber o quanto isso seria inadmissível, mas também o quanto dá vontade de fazê-lo em determinadas situações. Esse é o ponto de partida do longa de Lordello.

Marcelo Lordello fala sobre "Eles voltam" antes da exibição
O filme se desenvolve de forma arrastada, lentamente, e, inclusive, após a exibição ouvi queixas nesse sentido. No meu caso particular, isso não incomoda e tampouco o vazio e a inverossimilhança que, certamente, 'vazaram' em determinadas passagens. A narrativa meio ao estilo filme de arte, não comprometeu, para este Tyrannus. Sendo um filme onde sobra o ponto de vista da personagem central, uma adolescente, num auge de sua experiência existencial a conviver com questões práticas muito incomodas, afinal, o que esperar de um adolescente.

Olha, texto longo demais já à esta altura. Não vou dizer que esta primeira noite de mostras competitivas já me bastaram, mas arrisco que a coisa começou bem. E tá bom por hoje. É o momento exato de buscar o ponto final. Mas... mais, é o que eu quero. A vida não é feita de festivais, mas quando eles acontecem, procurar é um filme perfeito é uma boa missão. Inté!
 
O curta de animação "Linear", de Amir Admoni

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Não convenceu


Elisa Lucinda e Mounir Maasri
As poltronas desconfortáveis da sala Villa-Lobos do Teatro Nacional, onde aconteceu a abertura do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, funcionam como um termômetro para avaliação do que está sendo exibido. Para não ficar se mexendo em busca de uma posição menos ruim, o filme tem que “mexer” com a cabeça do espectador. 

E não foi o que aconteceu com "A Última Estação", de Mário Curi, título brasiliense exibido fora de competição. O público parece que “tava com bicho carpinteiro”. O filme não decola e arrasta-se por 113 minutos, embora no seu decorrer fica a esperança de que ele vai ganhar um ritmo ideal e convencer pelo menos a maior parte da plateia. Apesar dos trechos onde o humor é bem explorado, da fotografia insinuante, a trilha sonora bem encaixada, além de alguns atores convincentes; o filme oscila bastante e, no frigir dos ovos, fica devendo. 

Curi é um experiente produtor, segundo informações aqui obtidas. Sua performance como diretor, entretanto, precisa ser mais intencional e concisa para dar conta do recado. O resultado é que a narrativa escorrega um bocado ao contar uma história que resgata a saga de dois libaneses que chegam ainda adolescentes ao Brasil. 

Maasri, emocionado, falou antes da exibição 

"A Última Estação" ameaça, em alguns momentos, prender a atenção do espectador mais exigente, usando de um estilo novelesco onde sobra previsibilidade. Um pouco de poesia bem aplicada, aspectos curiosos desses povos que são excelentes comerciantes e a comicidade ingênua praticada com garbo pelo ator principal, Mounir Maasri, são pontos positivos do filme. Mas, não bastaram, inclusive, para conquistar aplausos mais calorosos ao final da exibição.


Em cena, a equipe da "A última Estação" 
Nesta terça prossegue o evento, com a mostra competitiva e, entre os convidados, há uma expectativa positiva em relação aos curtas e longas que serão exibidos nos próximos dias em caráter competitivo, pois são assinados por realizadores  que têm méritos. Nossa torcida é para que isso realmente aconteça.
Assim seja!

A abertura do Festbrasilia com o performático Murilo Grossi 

domingo, 16 de setembro de 2012

Festbrasilia


Qual é a cara do cinema brasileiro? A pergunta foi disparada aos realizadores que estão com filmes nesta 45ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, via e-mail. E não é que alguns responderam? 

O Tyrannus é um apreciador “pitaqueiro” dessa arte e nossas opiniões sobre este ou aquele filme volta e meia são emplacadas aqui. A emoção que cada título nos provoca e os aspectos técnicos – à base do empirismo, fundamentam nossos comentários. 

A partir desta segundona (17), aterrissamos em Brasília a convite da organização do festival. Prometemos marcação cerrada em torno de filmes pré-selecionados e representativos da produção nacional.



São doze títulos de longa metragem, entre documentários e ficção; e mais dezoito (curtas) divididos nos gêneros animação, ficção e documentário. Trinta novos filmes que passarão pelo crivo dos jurados, e que foram produzidos em onze diferentes estados: RJ, PE, SP, PI, MS, MG, PR, GO, SC, DF e RS. Uma boa oportunidade para checar parcela da produção tupiniquim autoral mais recente. Bom, esse negócio de “autoral” é relativo, porém, não há como negar que num festival de cinema, o critério autoral tem mais chances de comparecer do que no circuito comercial, quando o cinema é muito mais indústria e entretenimento do que qualquer outra coisa. 

Resumo da ópera: a cara do cinema brasileiro é:


O nosso cinema tem a cara do Brasil. Simples assim. Quando produzido pela grande distribuidora nacional (que divulga seus filmes na própria emissora de TV), costuma ser de pouca ousadia (quase sempre) estética, e fácil trânsito para públicos que preferem obras sem caroços a serem separados na hora da digestão. Quando produzido em "cooperativas" (os coletivos), rende frutos bem mais interessantes, com sabores e cores bem mais diversos (e muitas vezes representando os locais onde foram produzidos), mas com pouco alcance, já que a distribuição se faz complicada sem ajuda do poder do mercado de distribuição, restando quase sempre os Festivais para que ganhem alguma notoriedade "mercadológica". E existe uma terceira parcela que tenta se virar por conta própria (como se fossem nossos autônomos), que em momentos tenta se unir aos grandes para ter chance de divulgação, e por outras batalhas insanamente e solitária. Nosso cinema é muito nossa cara como nação: nos aspectos positivos e negativos. Cid Nader, crítico de cinema (Cinequanon)


O cinema tem mil caras, que dependem da época e do ângulo visto. Hoje, do meu ponto de vista, o cinema parece uma coisa e é outra, parece que vai num rumo e segue outro. O cinema hoje é totalmente "Kátia". Karla Holanda (Kátia, PI, longa/doc).


Kátia

A cara do cinema brasileiro é do tamanho deste país e por ser tão grande carrega uma diversidade de olhares e visões de mundo muito diferentes, mas contêm em seu centro o que há de mais profundo em seu âmago, fome e cores. Ana Johann (Um filme para Dirceu, PR, longa/doc). 


Um filme para Dirceu

Atualmente, quero acreditar que é a mais plural possível. Marcelo Lordello (Eles voltam, PE, longa/ficção).


Eles voltam

A cara do cinema brasileiro é o seu povo, não poderia ser diferente. É branco, é preto, é amarelo e cor de rosa. É musical, tem muitas facetas, é novo e novíssimo. Salve Paulo Emílio Salles Gomes, que escreveu sobre a verdadeira importância do nosso cinema pra nossa gente! Allan Ribeiro (Esse amor que nos consome, RJ, longa/ficção).


Esse amor que nos consome

Felizmente, o cinema brasileiro tem muitas caras. O cinema autoral cresce com diversidade, pois os novos realizadores têm produzido filmes pessoais, que falam em primeira pessoa, de uma maneira honesta e sincera. Sou contra a ideia de valorizar uma escola estética ou alguma fórmula, cada filme deve buscar sua própria identidade. Pedro Severien (Canção para minha irmã, PE, curta/ficção).


Canção para minha irmã

A cara do cinema brasileiro é desfigurada, ainda bem:). Gabriel Mascaro (Doméstica, PE, longa/doc).

Doméstica

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Tolero lero lero!

Tomates podres aos intolerantes!

Não tolero lero lero! Nem isso. Sou tolerante às vezes a refrigerante, adoçante, xarope expectorante e outras coisas desinteressantes. Desde que eu não tenha um rompante. Nós, cidadãos deste mundo modernoso e tenebrosamente violento estamos nos tornando uma horda estapafúrdia de seres intolerantes. A intolerância é apontada, nos últimos anos, como um dos piores males deste comecinho de século/milênio.

E pensar que já sobrevivemos a prostíbulos, cabarés, puteiros, zonas, lupanares... Antigamente esses locais suspeitos eram também chamados de casa de tolerância. Estaria o mundo precisando rever seu conceito de casa de tolerância? Será que homens e mulheres haveriam de estar necessitados de um local apropriado para exercer de forma saudável a permissividade em seu estado superlativo?


Os amores da casa de tolerância


No Bataclã nunca faltou tolerância
(Sonia Braga e Eloisa Mafalda)
Para aqueles que acreditam que vivemos em função de ciclos, não seria improvável acreditar que estamos retornando a um antigo ciclo, semelhante ao século XVI, quando a intolerância era considerada uma virtude, e a tolerância um vício. Tolerar tinha tudo a ver com sofrer e suportar de forma paciente um mal necessário. Já a intolerância estava associada com integridade moral. Os “tolerantes”, comumente, eram acusados de indiferença religiosa ou subversão. Tempos difíceis aqueles. 


Galileu Galilei
Pulemos essa parte obscura da história e vamos direto para o século XVII, quando o notável pensador, John Locke, deu contribuições importantes para reverter essa barbárie. É atribuído a Locke a autoria do primeiro texto sistemático sobre a tolerância. Ele sentenciou o catolicismo em relação a intolerância: "os católicos não deviam ser objetos de tolerância, por serem intolerantes". 


John era muito locke



Nunca mais Voltaire a falar no assunto

Voltaire, que viveu no século XVIII, discorreu sobre a vilania da intolerância.  Ao defender a tolerância, talvez um dos seus mais expressivos legados, também criticou de forma contundente a religião cristã que, segundo ele, deveria ensinar e propagar o perdão e a tolerância, mas a trajetória dessa (e de outras religiões) é cheia de exemplos negativos nesse sentido. E Voltaire, claro, foi vítima da intolerância.

E vamos ao século XX. Se você for intolerante aos textos cronológicos, por favor, desculpe-nos e deixe passar este. Intolerância. Palavra de significado perigoso. Que nominou um filme americano de 1916, dirigido por D. W. Griffith, e que é apontado ainda hoje como uma das grandes obras da história do cinema. Está entre os cinquenta melhores títulos americanos de todos os tempos, e obteve 96% de aprovação no rígido site Rotten Tomattoes.


Intolerância, o filme


Inocência dos muçulmanos: estopim da intolerância
Olhe pra mim, preste atenção e não minta. Não vale dizer que és a pessoa mais tolerante que existe no mundo. Pra viver em paz consigo mesmo e com o resto do mundo, sabe, esse restinho que está ao seu redor, não precisa cantar Raul, mas vale se lembrar da letra de uma das suas canções. “É melhor ser uma metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Fácil, né?! Fácil, uma ova, e custa sim tentar. Pague pra ver!!!


Teste sua (in)tolerância com eles!



quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Propaganda (a)política


...
Aproveitar o tempo em que as pessoas estão completamente sem nenhuma possibilidade de fuga, absolutamente estagnadas pelos engarrafamentos ou nos semáforos, de bobeira em seus veículos ou nas janelas dos ônibus, para propagandear ou vender algo. Pode surtir algum efeito  e é uma atividade corriqueira nos centros urbanos brasileiros. Seria isso uma indústria, ou um serviço? Se quer saber, se vire, porque estamos empatados contigo nessa: não sabemos. O que sabemos é que a (i) mobilidade urbana brasileira está na moda. E está parada, ou, quando anda, é devagar, quase parando. 


...
"Só acredito no semáforo...", é o verso da canção do Vanguart, a banda cuiabana que se radicou em Sampa faz horas. Semáforo, é música que colocou o grupo nas paradas, é das antigas. Acho que é uma canção/premonição, pois previa que iriam enfrentar o caótico trânsito da pauliceia, um dia. Se fosse hoje, talvez, a música se chamasse "Farol", porque é assim que denominam o sinal de trânsito lá na metrópole brasileira.

Olha, nós também acreditamos no semáforo. Experimente você não acreditar nele pra ver a intensidade da merda que pode surgir. Mas, diante de um semáforo, nesta semana, vimos algo inacreditável. E nós que pensamos que havíamos visto de tudo em campanha eleitoral! O sinal ficou vermelho, paramos antes da faixa de segurança. Estávamos no centro mais centrão de Cuiabá, com o sol a pino urrando. 


Malabaristas, ambulantes, pedintes, panfleteiros, flanelinhas... São alguns tipos que nos abordam quando parados no trânsito. Uma água gelada, ou dar/jogar panfletos promocionais pela janela, filantropias etc e tal. Verde que te quero verde! Mas, nada disso nesse dia. De repente, “meu Deus o quê que é isso?” Quatro mulheres paramentadas estranhamente na esquina invadem rapidinho a faixa de segurança e eis que se ouve um som (acho que aquele funk de péssima qualidade) amplificado. O quarteto feminino se põe a movimentar estranhamente, é uma coreografia? (se é que se pode chamar aquilo de coreografia). 



Cada uma veste uma caixa quadrada (?) transparente, montadas com garrafas pets (a ideia é mostrar que o candidato tem um discurso antenado/afinado com a questão ambiental). A caixa fica na altura do quadril e é presa por suspensórios.  Bob Esponja... Bob Esponja... Esse deve ter sido o personagem inspirador da estranha performance. Quando dão as costas para os incautos pode-se ler o número e o nome do criativo candidato.   


Não consigo ou não ouso emplacar aqui um adjetivo para descrever a cara de espanto da carona, tão pouco a minha. Respeito é bom... elas estão lá ganhando honestamente alguns trocados na barbárie que é a campanha política no Brasil.  Constrangedor, pra falar a verdade. Depois, passado o impacto inicial, nos divertimos com nossos próprios comentários, embora, seja doloroso ver cidadãs protagonizando algo tão... tão... tão deixa pra lá.

Mas, que droga... logo agora que já estávamos acostumados, nós e nossas mentes e olhos, a não dar a mínima para os cavaletes que ficam espalhados pelos espaços públicos da cidade!   

Radar de Ryoju IKeda (Oir) 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Letras e literatura


Ler é um ótimo exercício para a imaginação. E dizem que funciona como musculação para o cérebro. A verdade é que o hábito de ler bate diferente em cada um de nós. Somos curiosos em relação ao que a neurociência diz sobre os efeitos da leitura. 

Porém, vamos combinar que o verbo ler aqui neste post está relacionado exclusivamente com a literatura, embora eu tenha uma amiga que arrasa declamando bulas de remédio. É que quando você lê ficção, por exemplo, acaba interagindo com o escritor. A capacidade imaginativa de quem lê agrega valores ao texto. Enquanto lemos vamos concebendo as imagens codificadas através das palavras. Não sei não, mas isso deve fazer um bem danado pra saúde mental de qualquer pessoa. 

Costumo comparar a leitura de um livro com assistir um filme. Não é desmerecer o cinema, mas nessa arte vem tudo prontinho e encaixadinho. A cena está ali pronta, foi concebida, e basta você ver. Não é raro apreciarmos mais o livro, do que quando ele é adaptado para o cinema. Por quê? Porque quando lemos e montamos mentalmente cenários, personagens e situações, estamos utilizando nossas referências pessoais e culturais. Quando por trás de um filme há um grande diretor, de preferência, em estado de “graça”, provavelmente o impacto da arte ali expressa será uma experiência que assume proporções imensuráveis. 


Houve um período, nos meus vinte e pouquinhos anos, que morei na casa de tios. Tenho o hábito da leitura desde a alfabetização, praticamente. Lembro-me que quando me deitava na cama com meus livros, algumas vezes, meu tio entrava no quarto e perguntava, por acaso, se eu não estava me sentindo bem. A leitura é como um universo paralelo que convive muito bem com minha vida e outros afazeres. Confesso que a somatória do que já li resulta no fato de eu gostar de usar a palavra e gostar de escrever.


Tenho amigos, também leitores, que não conseguem ler com rapidez. Eu consigo. E isso me ajuda bastante encarar livros e mais livros, um atrás do outro. 

Particularmente, minha casa é o melhor lugar pra ler. Leitura requer intimidade e privacidade. Intimidade para consigo mesmo, inclusive. De uns anos pra cá, desenvolvi uma técnica diferenciada de leitura que, acho, rende bem mais. Como tenho o privilégio de trabalhar em casa e moro num bairro calmo, gosto de ler em voz alta. Da mesma forma que meus olhos captam o texto, meus ouvidos também o escutam e, ainda, exercito a  oralidade. 

Renoir

Experimentem fazer isso, mas, por favor, façam-no num local reservado e em solidão (ou avisem quem estiver por perto). Porque quem lê, no Brasil, já está meio fora do normal... E se estiver, ainda, "falando sozinho", o risco de ir parar num manicômio torna-se grande.  Também preciso fazer uma recomendação antes do ponto final, pra todos que pretendem se aventurar mais e mais na literatura.  

Van Gogh

Aprendam a ser seletivos e busquem qualidade na seleção do que vão escolher para a leitura. Mas, cuidado... Muito cuidado! A maior parte dos grandes escritores é feita de pessoas problemáticas e envolvidas em loucuradas.  Isso pode ser contagioso e existe o risco de você sair por aí jogando pedras em vidraças ou nos outros, ou, quem sabe, tornar-se um deles: um escritor. Aí, já viu, né?!  

Salvador Dali


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Carta para Elia

Elia Kazan nasceu em Constantinopla, em 1909

O grande artista é aquele que tem uma postura política e social inequívoca ao longo de sua vida. Ou não. Acreditamos que a arte não precisa ser necessariamente engajada. Em “Carta para Elia", documentário de 2010 e realizado para a televisão,  Martin Scorsese faz um acerto de contas com Elia Kazan, cineasta que não pode ser esquecido jamais quando se trata da ainda curta história da sétima arte.

Scorsese, um dos mais notáveis diretores do cinema contemporâneo, narra seu filme de pouco mais de 60 minutos, como um professor que tenta emplacar em seus alunos o gosto e o potencial estético que surge da arte do cineasta cinebiografado, cujo único pecado, não está em sua obra. Mas, no fato de, durante o Macartismo (entre os anos 40 e 50), nos EUA, ter se posicionado contrariamente ao comunismo e, inclusive, “entregado” colegas artistas, que faziam parte, como ele, do Grupo de Teatro, como comunistas. E pra piorar a situação escreveu um artigo no New York Times, reforçando que não se arrependia de nada. 


James Dean dirigido por Kazan em "Vidas Amargas"

Teve que conviver com as consequências disso pelo resto da vida. E soube, magistralmente, tirar partido da conturbada experiência de vida. No doc., segundo a contextualização de Scorsese, esse drama pessoal que “queimou” o filme de Kazan, também fez com que ele produzisse filmes espetaculares, ressurgindo como um cineasta conhecedor de todos os detalhes que implicam na excelência da qualidade fílmica. Bom, Scorsese sabe muito de cinema e vai confessando apaixonadamente as razões de sua idolatria por Kazan. Isso acontece de forma tão didática e espontânea, que fica difícil contradizer o que ele sentencia.


Jeanne Moreau, De Niro e Kazan, no set de "O último magnata"

Em 1964, o futuro diretor de "Taxi Driver" estudava cinema e já conhecia praticamente toda a obra de Kazan. Eis que numa palestra de seu grande ídolo pensou em cavar um estágio no próximo filme de Kazan. Chegou atrasado e recebeu um “boa sorte” como dispensa.  "Ainda bem... Porque se ele me contratasse eu iria fazer-lhe tantas, mas tantas perguntas das suas produções anteriores que muito provavelmente ia me dispensar", diz Martin.



Marlon Brando, James Dean e Montgomery Clift. Alguns ícones do cinema de todos os tempos, que foram dirigidos por Elia, que ingressou no cinema como ator de teatro, nos anos 30, quando participou do célebre "Grupo de Teatro" de Nova York que, naqueles tempos, praticava a dramaturgia coletiva e fez muito sucesso. Os conhecimentos e as experiências do teatro se cristalizaram na trajetória de Kazan, quando este entrou de cabeça no cinema.


Kazan dirige Marlon Brando em "Sindicato de ladrões"

Filmes como "Vidas amargas", "Sindicato de ladrões", "No clamor do Sexo" e "O último magnata"; para citar apenas alguns, estão entre as obras primas que Elia Kazan nos deixou. Ele saiu de cena em 2003, mas, quatro anos antes, recebeu um Oscar, pelo conjunto de sua obra, metade da plateia vaiou e outra aplaudiu veementemente. Adivinhem quem a Academia incumbiu para entregar o prêmio, enaltecendo a honrosa premiação?