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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Focou?


Até outro dia “com foco e sem foco” eram expressões relacionadas às imagens. Não mais, hoje. É uma paranoia só. Cursos, seminários, exercícios, tratamentos, técnicas tradicionais e “alternativas” para tornarem as pessoas e/ou empresas e suas administrações mais focadas, centradas, motivadas com objetivo de... produtividade.
A patrulha comportamental e ideológica anda solta... E focar é verbo/palavra que virou moda. Tem sempre alguém de esguelha, vigiando e analisando. Focado em você. Fulano tem foco, sicrano não! Por vezes essas qualidades podem ser boas ou ruins. Muito foco pode virar obsessão. Foco exagerado combina com atavismo. Pra que tanto foco? Pessoas focadas costumam alcançar mais facilmente seus objetivos (se tiverem). As desfocadas, por outro lado, dizem... não, não há certeza de nada.
Gostamos de pensar em meandros. De imaginar os pensamentos se esparramando, espalhando-se lentamente, feito as águas do Pantanal. Deus nos livre de ficarmos presos à rigidez das margens. Queremos mais é desbarrancá-las. E somos lá gente de ficar matutando num troço só?
Mas nunca falta alguém pra defender que a superficialidade é um efeito da falta de foco. E a entrega de corpo e alma traz profundidade, densidade. E não faltará outro alguém para dizer que a inflexibilidade é um efeito da focagem. O que predomina nas performances profissionais modernas é a lei do esforço máximo, o foco centradíssimo. Para se dar bem profissionalmente.
Eu e nós aqui em casa, muito menos pra essa focação superlativa, e muito mais pelo ócio criativo que Domenico de Masi lançava há 15 ou 20 anos. Que gostoso... que maneiro o dolce far niente... que sonoridade, que bela expressão.  
de Masi... demais 
 Está na cara que o melhor é dosar. Meio a meio. Há uma certa tendência para o equilíbrio na natureza. E há remédio pra tudo. Não deve ser bom ser o tempo todo centrado e nem voado. Bons os tempos gregos, onde primeiro se observava o mundo, imaginava-se situações e depois focava-se para dar cientificidade, racionalidade à hipótese ou teoria. Focou? 
Foucault era focado

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Papo de ocioso


Bordadeiras da Chapada
 Lá se vão uns 12 anos que o italiano Domenico de Masi lançou seu livro “Ócio Criativo”. A obra do sociólogo tasca uma nova ordem, uma forma diferente de encarar o tempo em que a gente fica “à toa”. Não ter nada pra fazer é o sonho de muita gente. Num antigo filme brasileiro, “Chuvas de verão”, um dos personagens, interpretado pelo magnífico Jofre Soares, anuncia a um amigo com expressão de felicidade a sua aposentadoria: “Eu nunca mais vou tirar o pijama”. Mas, qualquer um que parar pra pensar em torno desse “não fazer nada” chegará a genérica conclusão de que não é bem assim. Que dó!

Mirian Pires e Jofre em "Chuvas de Verão"

De Masi, antes de organizar seu pensamento futurista e colocá-lo num livro, era um workaholic. Uma daquelas pessoas que não tinha tempo para a família, os amigos e outras paradas sociais (seu nome era trabalho!). Desconfiamos que ele pensou, num instante de puro ócio, e descobriu o óbvio: o ócio, necessariamente, não é uma coisa do mal, como muita gente pensa. E tem mais uma, ele não teve esse momento de ócio, porque pensar, escrever... produzir é trabalho. E depois saiu peregrinando pelo mundo vendendo seus livros e a ideia que o ócio é necessário.



Nossa sociedade escravagista prega que só o trabalho leva ao céu, que o trabalho enobrece. E o ócio é preguiça, quem não trabalha é do mau. O ócio perigoso, pois “cabeça vazia, oficina do gramunhão”. Ficar a toa, de bobeira não é ficar sem fazer absolutamente nada. De repente lê um livro, faz um sanduichizinho, molha as plantas, dá uma olhada naquela roupa sem botão, faz um brigadeiro, passa um creme nos cabelos, come uma cenourinha, pinta o 7, vai pintar e bordar, tomar um banho de rio, dá uma zapeada na TV (procura algo diferenciado), uns telefonemas ou MSNs espertos , um cineminha, toma uma cervejinha com papo pra cima, deita numa rede e fica olhando pro céu: será que chove? Pensa na vida. Filosofa, ô meu!!! Torne seu ócio gostoso, porque ele faz bem pra alma e pro coração!





Mocidade ociosa, velhice vergonhosa. Diz um antigo provérbio português que está saindo da moda. Se analisarmos o mundo moderno com toda a sua tecnologia que se expande vertiginosamente e compararmos isso com o trabalho humano, dá automatização na cabeça. É um raciocínio lógico. Uma imensa gama de ações mecânicas que nós, seres humanos, fazíamos diariamente, pra ganhar o pão nosso de cada dia, é executada hoje por máquinas e esse processo é irreversível.





Tudo indica que o ser humano, nas funções mais básicas e corriqueiras, será substituído pela tecnologia. Preparar-se para o futuro que está batendo na porta do século XXI (quase arrombando-a) tem a ver com guinadas na forma de encarar e de se comportar diante da vida. Os saberes e fazeres que se relacionam com tempo ocioso ao qual todos temos direito precisam estar associados à criatividade. Ou pegamos carona nessa onda, ou perderemos essa espaçonave.   
     

Preparada para a invasão marciana