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quarta-feira, 2 de maio de 2012

Caipiríssimos

Quando o assunto é caipira, capiau, matuto; tem como não lembrar do Jeca Tatu e do Pedro Malasartes? Ambos têm a sua melhor representação na pessoa de Amacio Mazzaropi. Se, por acaso, discordar, o melhor a fazer é botar sua viola no saco e sair de fininho.  

O Jeca Tatu é um personagem criado por Monteiro Lobato e Pedro Malasartes, dizem de origem portuguesa. Mas por aqui ficou. O nosso Jeca é apresentado como trabalhador da área rural paulista, simplório, doente, preguiçoso, ignorante. O Pedro Malasartes é malandro, astucioso, sem escrúpulos, capaz de enganar o mais esperto dos mocinhos das cidades. Na verdade os dois são bem ardilosos.



O caipira, capiau, matuto no consciente coletivo é aquele que mora na área rural, usa calças de pular “corgo” ou de pegar frango; camisa xadrez, chapéu de palha; pica seu fumo e enrola seu cigarrinho na palha (presta atenção que é outra palha, diferente da palha do chapéu que é de coqueiro; essa é de milho); é empregado de fazenda e/ou tem sua roça. É casado e tem um bando de filhos barrigudos. Essa filharada não deve ser atribuída à falta da televisão, mas sim, ao fato de que eles poderão vira ajudá-lo na labuta quando crescerem.

Caipira picando fumo (Almeida Júnior)

O “r” retroflexivo no pronunciar das palavras é sua mais completa tradução. Quando entoam palavras com “r”, elas ficam gorrdas. O dialeto caipira é uma variação da língua portuguesa influenciada pelo “nheengatu”, que é a língua Tupi, influenciada pelas gramáticas portuguesa e espanhola. Dessas convergências linguísticas (esperamos que nenhum especialista leia isto) originam palavras que saltam da boca pra fora desse povo como paia, muié, cuié, oreia, zóio, falá, pitá, oiá, rezá. Não sabemos o quanto é correto dizer que falar assim é “falar errado”. E o dialeto caipira tem sua mais bela expressão no romance “Grande Sertão, Veredas” de Guimarães Rosa. Ah! e se essas palavras forem ditas com um talo de capim no canto da boca e uma viola que chora...





A viola. A viola caipira... Com suas afinações peculiares e famosas: “Cebolão”, que faz a mulherada chorar e gemer sem sentir dor; e a “Rio Abaixo” usada pelo Diabo para seduzir e levar as moças, ao descer os rios. Qual deve ser o hino dos caipiras, não sabemos. Mas Tristeza do Jeca, Luar do Sertão ou Felicidade são de macerar coração.  

Resumindo: somos uns caipiras, matutos, capiaus..., querendo ou não aceitar. Com pouco mais de 500 anos, o Brasil, era um mato só quando os portugas por aqui chegaram... E que mato. Saímos do mato, mas o mato não saiu de nós. A ambiência rural está impregnada no DNA do brasileiro. E o que dizer de nós que moramos num estado com esse nome: Mato Grosso.

O violeiro (Almeida Júnior)

E, coincidência ou não, neste ano que se comemora o centenário de nascimento de Amacio Mazzaropi, o mais caipira dos caipiras, desta quinta a domingo, acontece uma verdadeira maratona musical onde só vai dar viola.  Pela ordem: hoje no Cine Teatro de Cuiabá tem uma etapa do Festival Nacional Voa Viola. Saindo de lá, vá direto pra Poxoréu, o maior reduto de baianos em MT, onde rola o 10º Encontro de Violeiros de Poxoréu, na sexta e no sábado. Que correria. Mas, ainda não acabou. Volte pra Cuiabá e assista, no Cine Teatro, o concerto da Orquestra de MT (sábado e domingo) que vai explorar o tema “música de fronteira”, aplicando contornos eruditos com arranjos e convidados especiais, num repertório que terá ritmos como o chamamé, o rasqueado e as mazurkas, entre outros.  



E não se esqueça de programar a sua TV por assinatura para gravar o “Viola, minha viola”, com a Inezita Barroso. Viola é coisa enluarada... não deixe a sua ir pro fundo do baú!!!

Alma brasileira


domingo, 18 de março de 2012

A bola da vez!



“Ai tatu... tatuzinho, me abre a garrafa e me dá um pouquinho... nhan nhan nhan”. Assim era o jingle de uma das mais populares caninhas brasileiras, a “Tatuzinho”. Nem sei se ainda existe. Aí, se essa pinga estivesse em falta no estabelecimento, você pedia uma dose de “Três Fazendas”. Porque, convenhamos, se em três fazendas você não encontrar um tatuzinho é porque tem alguma coisa muito errada nessa história.




E deu tatu na cabeça! Nada de arara ou papagaio, que estão manjados demais. O símbolo, o mascote da Copa 2014, que o Brasil escolheu é um animal discreto. É o tatu-bola, animal underground que se mete em buracos quando o incomodam. Tem um porém, o tau-bola, espécime escolhida, não é “buraqueiro”. Seus parentes é que se refugiam em buracos. O tatu-bola é um mamífero, do gênero Tolypeutes que tem duas espécies: o Tolypeutes matacuss, encontrado na Argentina, Bolívia, Paraguai e Brasil, especialmente em Mato Grosso, e o Tolypeutes tricinctos, conhecido como o tatu-bola da caatinga. O vencedor foi o tatu-bola Tolypeutes tricinctos, que é o menor dos tatus e endêmico ao território brasileiro. Isto quer dizer que só ocorre no Brasil. O tatu-bola tem a carapaça mais dura do que as dos demais tatus e para se proteger de um ataque , se enrola, adquirindo a forma de uma bola. 






A piada, sem graça, citada no início desse post, tem um fundo de verdade. O tatu-bola, nosso mascote, está na famosa lista da União Internacional para Conservação da Natureza – IUCN, com o status de “em perigo” de extinção.

O tatu é um dos primeiros bichos apresentados aos brasileiros, na mais tenra idade, na fase da alfabetização. A letra “t” vem representada pela figura de um tatu. A palavra tatu, fácil de pronunciar, vem do Tupi onde ta = duro e tu=espesso, em referência à carapaça óssea protetora. 



A escolha do tatu-bola não foi fácil. Dizem que ele disputou parelhas com dois outros animais, a cutia e a paca. Aí, não sabemos ao certo porque, o Ronaldo Fenômeno tascou: paca tatu, cutia não. E ficou entre o tatu e a paca. “Tatu subiu no pau / é mentira de mecê / lagarto ou lagartixa / isso sim é que pode sê”. Letra da marchinha de carnaval de Eduardo Souto, que fez muito sucesso em 1923.

Será que Ronaldo-bola influenciou na escolha do mascote? 

Ou foi esse (Tatoo da Ilha da Fantasia)?

Mas, coitado do tatu, esse exemplar da fauna tupiniquim não costuma ser lembrado positivamente. Jeca Tatu, personagem criado Monteiro Lobato e encarnado por Mazzaropi, era associado com pobreza e ignorância. Tudo bem que há uma certa inocência, mas não deixa de ser depreciativo. A música do Mamonas dizia “comê tatu é bom, só que dá uma dor nas costas”... ruim pro tatu, hein?! E por causa dessa característica subterrânea do bicho, aqui mesmo em Cuiabá, tinha um serviço de saneamento, que atendia a domicílio, chamado “limpa fossa tatuzão”. Ora ora... coitado do tatu, e que falta de respeito com esse bichinho do chão.

Jeca Tatu é a esperteza do matuto

A sugestão partiu da Associação Caatinga, que viu, ao indicar o tatu-bola como mascote da Copa 2014, uma oportunidade de livrar o carismático animal dos perigos da extinção e cravá-lo no consciente coletivo. A fauna brasileira agradece. O tatu-bola também, enquanto aguarda sua oficialização como mascote da Copa 2014 e que de "em perigo de extinção" passe para a "categoria" de distinção.

Vai que é tua...