quinta-feira, 21 de julho de 2011

Falando de cinema

Implacável Isaach De Bankolé
Aprendi com um amigo erudito que o que pega num filme e num livro não é a história em si, mas sim a forma como a coisa se dá. Narrativa é a palavra. E se ela, a tal da narrativa, tiver um ritmo insinuante... show de bola. Assim venho me portando diante de novas experiências fílmicas e literárias.

Mas é claro que uma boa história que nos envolve, tira o fôlego e estatela os olhos pesa pra caralho. Mas, no frigir dos ovos, tem hora pra tudo. Há dias em que a gente tá mais pra entretenimento do que pra arte e vice-versa. Hoje eu sou Schwarzennegger, amanhã sou Jim Jarmusch. Em se falando de cinema. Porque em literatura, segundo uma humilde avaliação, quem está habituado com Dostoievski, dificilmente vai aceitar Paulo Coelho. Putz, que pecado sugerir essas comparações. Pagarei penitências futuramente.

No século XIX surgiu a técnica de projetar imagens de forma rápida e sucessiva criando a ilusão de movimento, assim é o cinema.  O fascínio sobre homem é tão grande que a técnica galgou o status de “sétima arte”. No Brasil o cinema existe desde 1896.

O cinema atrai algumas pessoas de forma impactante. Já  vimos histórias de cidadãos, de uma simplicidade inimaginável, produzindo películas nesse brasilzão sem fronteira; assim como existem pessoas que investem o pouco que tem para proporcionar a outros menos favorecidos, o encanto de se deleitar no escurinho, com uma história ao sabor de pipocas. Esse cinema ingênuo é para ingênuos. O cinema é uma indústria forte, que gasta milhões para arrecadar, se possível, zilhões.  É business.

Elenco global do assalto

Um filme brasileiro que entra em cartaz nesta sexta causa uma certa curiosidade. “Assalto ao Banco Central”, direção do global Marcos Paulo (sua estreia na direção em cinema), foi inspirado naquele sofisticado assalto que lesou o BC em Fortaleza, em 2005. A quadrilha escavou em três meses um túnel de 80 metros e transportou 3,5 toneladas de dinheiro ou a bagatela de 167 milhões de reais.  Não estou recomendando o filme a ninguém, que fique bem claro isso. Só que o planejamento do golpe milionário é algo que fustiga nossa imaginação. Imaginação... ahhh.

Não sei não, mas me parece muito parecido (parece muito parecido porque há uma semelhança que é idêntica) com o clássico brasileiro “O Assalto ao Trem Pagador” (1962,) dirigido por Roberto Farias, baseado no assalto do trem pagador da Central do Brasil, no Rio de Janeiro. O crime foi tão bem planejado que a polícia pensou haver envolvimento de estrangeiros mas, tudo partiu da cabeça de brasileiros.   



O implacabilissimo Grande Otelo

Falamos do cineasta americano Jarmusch (Daunbailó, Flores Partidas e Dead Man) agorinha, porque um filme dele tá fresquinho em nossas cabeças: “Os Limites do Controle”. O diretor se destaca por imprimir uma estética visual diferenciada, criando um cinema singular, único, inconfundível e arrastado.  No roteiro um assassino profissional está prestes a executar mais um trabalho. Ele é negro e viaja por cidades espanholas seguindo as pistas que lhe são dadas. Quem será que ele vai assassinar? O espectador não consegue esquecer a pergunta.




Two express in separate cups


Quando o assassino, finalmente, vislumbra seu alvo e se depara com a estrutura que o protege, é inevitável que nos ponhamos a imaginar como ele vai se adentrar na fortaleza no meio de uma área desértica, com muros altos, aparatos tecnológicos e seguranças primeiromundistas de butuca.  Corta para outra cena: o assassino praticante de tai chi chuan está no escritório de sua vítima como que inexplicavelmente. O sujeito que vai morrer indaga: “Como você entrou aqui?”. A resposta é taxativa, tanto para o personagem que se ausentará, quanto para o espectador: “Usei a imaginação”.

Imaginação... ahhh. Quando o que a gente vê, lê, ouve etc alguma manifestação supostamente artística e ela nos exige utilizar a imaginação, tá valendo gente boa. Mas isso não quer dizer que o resto é resto. O resto, ora ora, o resto é apenas entretenimento. Se eu fosse o Caetano Veloso, diria ainda: “Ou não!”

Agora tá na hora de assistir “Fora do Jogo”, do iraniano Jafar Panahi. A TV Cultura oferece na sua programação semanal filmes do Festival Internacional de Cinema de São Paulo na Mostra Internacional de Cinema na Cultura .  

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Plano... minhocas na cabeça


Tripulantes de Argos 
“Navegar é preciso, viver não é preciso”. Caetano Veloso se apropriou dessa máxima que foi imortalizada por Fernando Pessoa, na canção “Os Argonautas”. Mas a origem dessa frase, que faz a gente pensar (e nos confunde), data do ano 70 a.C., segundo o célebre historiador Plutarco. A frase é atribuída a um general romano, Pompeu, que tinha a missão de transportar o trigo das províncias para Roma, garantindo a alimentação da população local, que estava ameaçada pela fome por conta de uma rebelião de escravos.   

Se você é uma pessoa cuidadosa e planejadora, daquelas que aprecia as coisas em seus mínimos detalhes, corre o risco de se tornar um velho(a)  rabugento(a). Mas, se é gente que não planeja e não tá nem aí pra isso, cuidado, porque pode terminar seus dias num abrigo para velhos. Então, planejar é que nem navegar: preciso. Preciso ao quadrado: porque tem a ver com as ciências exatas e também por que é necessário.
A vida planejada é melhor?  Planos fazem parte da vida? É possível planejar tudo?  Somos produtos de planos?  Numa cabeça cartesiana, sim.  É difícil viver com gente assim, que pensa em tudo, nos prós e nos contras, e vive esmiuçando entre pontos de interrogação... o que? por que? como? onde? quem? quando? quanto poupar? quanto gastar? quanto Investir? quando comprar? quando e quantos filhos? Mas, por outro lado, é barra viver com gente que não pensa um minuto, no minuto seguinte. Êita vida lascada!

Viagem com família... haja planejamento!

Outro dia, assistindo um documentário sobre o tango, um músico moderno que retornava a Buenos Aires em plena crise disse que procurou no dicionário uma luz maior sobre a palavra crise. E ele encontrou: oportunidade de mudança. Planejamento já foi “planeamento”, seu sentido é pragmático, chegou pra valer no século XX após a primeira e a segunda guerras mundiais. Um pós guerra, requer a reconstrução e aí entrou o planejamento. Estranho isso, né?! O planejamento chegou por motivos bélicos. Quando é que o ser humano vai se debruçar para planejar de verdade a paz?  
Nós, brasileiros não temos o DNA do planejamento na nossa cultura. Pra muita gente planejar ainda é perder tempo porque quando o fazemos não cumprimos. Isso é fato, principalmente, quanto se trata de serviços públicos. Nesta hora um pensamento atravessa minha cachola e sugere que nós, brasileiros, precisamos planejar/pensar ao votar. Há décadas sofremos de uma revolta contumaz contra os crimes de colarinho... Sabe esse pessoal lá de Brasília, dos executivos, legislativos e judiciários espalhados pelo Brasil? Então, nós, temos um plano para eles...


Outra personalidade que deve ser citada aqui nesta conversa sobre planejamento é o mestre do suspense, Stephen King. Antes de se tornar um dos maiores autores de best-sellers do universo, o cara era publicitário e trabalhou numa grande agência publicitária americana, a JWT. Ele foi... (suspense!!!!!) um dos precursores das teorias modernas sobre planejamento.
O planejador de suspense

Mas nós, mortais, fazemos planos sim. Só que usamos outra terminologia: sonhar. O que para os céticos não tem nada a ver com planejamento, mas tem. Quando estamos sonhando, significa que estamos planejando. O brasileiro só não planejava até outro dia, os filhos, mas o resto sim. Planos de curto, médio e longo prazo fazem parte da vida do ser humano, seja ele rico ou pobre, instruído ou não, homem ou mulher... Ou você acha que pra construir um puxadinho não precisa de uma organização relacionada com custos e tempo pelo menos que, se não são cumpridos, botam tudo a perder?
Arquitetura de pobre, é barraco na beira do barranco. Até quando?

A imaginação é fundamental para compor um sonho, uma meta. Sem ela fica muito sem graça. É a melhor parte, diríamos. Quando se planeja junto, aí fica porreta mesmo. Até um blog, aparentemente descompromissado e casual como o Tyrannus, foi planejado. Surgiu de uma viagem (planejada) à Europa que fizemos em setembro de 2010. Daqui a pouquinho a gente emplaca um ano de blog.  E ninguém garante que não vamos planejar algo pra comemorar.
Gustave Flaubert, em “Bouvard e Pécuchet” (1881), conta a história de dois homens que se encontraram num banco da praça e tornam-se grandes amigos. O sonho dos dois era largar o trabalho de copistas para se dedicarem aos estudos, aos altos conhecimentos, científicos ou não, do mundo. Um deles recebe uma herança suficiente para implementarem o sonho, largam o emprego, saem de Paris e vão para o campo para colocar em prática, no laboratório da natureza, tudo que aprenderiam nas grandes obras de referência.  O resultado é uma serie de trapalhadas, narrado com humor refinado e carregado de crítica. Nem todo mundo, claro, precisa ser igual a essa dupla, Bouvard e Pécuchet.
Bouvard e Pécuchet: Entre planos e trapalhadas
É engraçado quando os planos não dão certo no terreno da ficção. Mas quando eles são frustrados na realidade, aí não é tão engraçado assim. Um dos planos que estamos por concretizar, ainda para este ano, é adquirir um minhocário. Não é brincadeira gente, é verdade. Lugar de minhocas não é só na cabeça.



terça-feira, 19 de julho de 2011

Esperando...


Cacilda Becker (no seu último ato) e Walmor Chagas
Samuel Becket escreveu Esperando Godot e nós estamos esperando Pagot. As férias dele um dia acabam. Cacilda Becker, diva do teatro brasileiro, morreu em 1969, num entre ato de Esperando Godot, não esperou a peça terminar.

Pedro Pedreiro está esperando, esperando, esperando. A gente vive esperando e dizem que quem espera sempre alcança. Não sei bem o que nossos leitores e leitoras esperam deste novo texto, esperamos que gostem e também estamos esperando uma lentilha cozinhar porque vai ter sopa, aqui em casa. Mas antes de tomar a sopa, é melhor esperar esfriar, pra não queimar o beiço e a língua. Quer dizer, queimar os lábios, é mais bonito pra se dizer.

Em frente ao coqueiro verde, esperei uma eternidade


A espera é difícil, mas eu espero sambando

Esperança. Palavra belíssima e que tem no significado uma amplitude impressionante. Ter esperança é digno de quem espera. De quem espera e não desespera. Drummond, que foi citado ontem, volta hoje, porque em um verso disse que tinha certeza/esperança. Creio que quis dizer que quando a gente tem esperança pra valer, é quase como uma certeza. Então, vou escrevendo aqui e de vez em quando dou uma paradinha que é pra esperar que o raciocínio volte e se transforme em palavras que caibam aqui. Não esperneio enquanto espero, não adianta. Experimento esperar com a sabedoria que combina com a paciência. Esperarei como um rei que tem cara de quem gosta de coroa.


Esperar é uma condição feminina, faz parte de sua natureza. Esperamos dezoito meses, divididos em dois blocos de nove, para que Beatriz e Vítor chegassem. Duas produções que fizemos em parceria, mas quem esperou mesmo pra valer, foi ela.  


Por falar em homem e mulher, ou homem e homem e mulher e mulher, coisa chata é quando a gente espera, espera, espera e espera e o outro que esperávamos ansiosos e esperançosos  de envolver e desenvolver uma “coisa” amorosa, sexual os dois, não necessariamente nessa ordem, não vem. Outro dia li uma frase que achei bacana: Uma relação precisa de beleza e paciência. Se rolar beleza, se não paciência!

Espero o jogo da Copa América que vai passar daqui a pouquinho. Não esperava que o Brasil perdesse para o Paraguai. Nem que a Argentina perdesse para o Uruguai. Não esperava que as japonesas ganhassem das americanas, não esperava mesmo!!!! Vibro e torço com o Brasil e com o Fluminense, tricolor de coração que sou. Espero que meu time não me faça sofrer tanto neste ano. Espero que o coringão compre o Tevez.

O símbolo da espera é Penélope que ficou vinte anos esperando o marido voltar, tecendo durante o dia uma manta, e de noite desfazendo-a, enquanto os pretendentes se acumulavam no palácio de Ulisses, em Ítaca. Eis que ele retorna, velho, cansado, esfarrapado. Penélope não o reconhece e exige uma prova. Diferentemente, sem nada exigir, seu velho cão e, também velha, a escrava Euricléia , o recebem e o acolhem com alegria. Dá-lhe Homero. Uma boa odisséia (tirar o acento aqui, não convém) também é feita de muita espera.
Penso também nas mulheres portuguesas que perderam seus homens, para o mar, mas não a esperança de esperá-los. Ouço suas lamúrias, quando cantam o seu destino: fado.

Fado de Amália Rodrigues  
E penso na doçura do pastel de belém!


Então, a sopa está quase ficando pronta. Hora de queimar o beiço. Os lábios. Fica a lição de que a espera precisa de dignidade para se fazer nobre. Esperamos que o mundo melhore e que, enquanto esperamos, façamos a nossa parte para que isso realmente aconteça.  Esperar é ser proativo. Saber esperar é uma questão de estilo. Esperamos que amanhã o Tyrannus, um passarinho do cerrado (os passarinhos são novidadeiros e serelepes, em sua maioria), traga novas e boas palavras.  
   

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Aloitando com palavras

“Uma coisa que é bacana”... Não, começar um texto dessa forma, usar logo de cara essas duas palavras “coisa” e “bacana”... Francamente. Ou fracamente, que cabe melhor aqui. “Por favor, comece, só comece a redação para mim que depois eu continuo”. Minha geração passou por isso, em algum momento num banco ou carteira escolar.
O que é mais intrigante e que faz parte da graça de escrever é o retorno. Escrever é um terreno escorregadio. A gente nunca sabe direito se vai ficar bom ou ruim o resultado final dessa palavraiada toda e, curiosamente, isso também funciona como incentivo para escrever. Essa imprevisibilidade é fundamental, até porque, nada mais chato do que algo previsível.

“Escreve com teu sangue e verás que sangue é espírito” (Nietzsche). Radicalzão esse cara de bigodes fenomenais que balançou as estruturas conceituais do universo com sua palavra. Drummond poetizou que quem escreve, dissipa... Dissipar é importante. Escrever é algo associado com o gesto de se libertar das inquietações.
Filosofando à base de marteladas

Faço legendas, títulos, gravatas, indicativos, mudo parágrafos, escrevo outros, escolho fotografias, faço e refaço todos os dias essas tarefas. E leio bastante. É meu papel de editor. Faço releases e refaço-os, telefono para jornalistas, fontes, assessorados, procuro e acho a possibilidade da notícia. E leio sobre os assuntos afins. É o meu papel de assessor. E depois de um dia completo, envolvido com esses afazeres profissionais, o prazer que a escrita me dá não será pleno se não surgir um novo texto aqui no Tyrannus.
  
"Lutar com palavras, é a luta mais vã" (Drummond)

Quem escreve o faz por algum motivo, nem sempre muito claro. E se mantém o hábito, fazendo um blog, por exemplo, poderá encontrar (um dia) a resposta que diz respeito aquilo que o faz escrever. Hoje entramos numas de buscar essa tal de resposta para saber o porquê de se escrever. Algo que sirva para nós mesmos. Escrevemos para compartilhar nossas experiências e porque sentimos necessidade disso. E um texto pronto dá prazer.  

Desinventando a roda (Marcel Duchamp)
Quando provocamos reações, comentários, reflexões, e-mails, boas risadas e outros estados alterados, fomos bem. Nada é pior para quem inventa moda do que ver a sua palavra ser recebida com indiferença. Na cabeça do cineasta, do artista plástico, do músico, do escritor, escultor e mais uma renca de gente que podemos classificar como artistas profissionais, essa indagação deve azucrinar: Porque estou fazendo isso? A eles, parece que não há outra opção a não ser assumir que são mesmos artistas e terão que carregar essa sina para o resto da vida.
Informações ao cubo

Toda profissão desenvolve uma espécie de escrita, um código que serve para anotar, registrar. Só que esses escritos só registram ou anotam o que foi visto e comprovado e têm uma finalidade muito específica. Os que escrevem por prazer, esses têm mais liberdade e usam o espaço branco para engendrar tramas e dramas que lhes vem à cabeça e passam muito tempo construindo cenários imaginários. E têm uma necessidade inexplicável de mostrar, expor o que se inventou e o que deu noção de algo, por mais incompreensível ou inexplicável que seja, segundo a linguagem formal. Isso faz uma diferença enorme.

"Toda arte é completamente inútil" (Oscar Wilde)

Mas ainda está confuso. O conteúdo deste blog, no meu entender, não se encaixa em nenhum rótulo e isso incomoda um pouco o meu lado jornalista (jornalistas costumam ter uma queda feroz pelos rótulos).  Não sei bem como terminar essa conversa que parece não progrediu muito. Melhor ficar por aqui...




domingo, 17 de julho de 2011

Fica assim...

A história que se segue foi ou deveria ter sido inventada, nada tendo a ver com situações e personagens reais. Algo que se assemelhe à realidade terá sido a mais pura coincidência. Ela diz respeito a um casal que será apresentado sem mais delongas já no próximo parágrafo. O relato dá pistas de algo adaptado para uma linguagem mais burlesca, a partir de um romance de costumes do século XIX. Os originais que nos chegaram às mãos, uma única folha amarelada pelo tempo e rasgada, provavelmente de um velho livro, é o que nos faz pensar dessa maneira.

Virou as costas e saiu... A sra. Faca & Queijo ficou estupefata com a atitude do sr. Assim Assado. Não era a primeira vez que discussões desse tipo aconteciam. O relacionamento conturbado, no início, dava resultados explosivos na cama, assim como pólvora e fogo. Bons tempos. Agora, depois de todos esses anos, as brigas e discussões acabavam com um “deixa pra lá” e cada um a seu modo ia pra um lado ruminar até esquecer.

O sr. Assim Assado parecia que ter saído direto do túnel do tempo. Vestia, costumeiramente, um terno escuro, sapatos de couro e um chapéu amassado. Achava-se parecido com o poeta Fernando Pessoa. Mas, atrás dessa aparência calma e plácida, como um lago, existia dentro dele um mar revolto. Estava sempre a pensar em camas de folhas e flores e sobre elas corpos voluptuosos, ardentes, suados, macios... sentido pelo leve e delicado toque da boca e língua.



A sra. Faca & Queijo descendia de família de estirpe. De um lado, tinha o sangue europeu, que lhe forjara o caráter franco, aberto e desbocado. Do outro, não se sabe de onde provinha a origem que ela gostava de esconder. Mas o estilo e a tradição desse lado apontavam para o “tar do remoer”, olhar desconfiado, do jeito de pescar coisas e palavras ao léu e de encompridar aquela conversinha fiada que a nada leva.



Meio que perdido, o sr. Assim Assado pegou a rua e foi andar. Pensou em botar lenha na fogueira. Voltar e dizer a sra. Faca & Queijo que estava farto, que não aguentava mais sua língua afiada e seu coração frio. Deu de ombros. “Deixa pra lá”, essa não muda mais. Do outro lado, a sra. Faca & Queijo pôs-se, irracionalmente, a trabalhar. Pensou em cortar-lhe primeiro os culhões, depois o pênis morto de medo, e pendurá-los em cima do fogão a lenha, para defumar. “Mas, quá! agora quando que iria fazê isso...” Pensou, repicando com destreza os dois grandes bulbos brancos, que a faziam derramar uma imensidão de lágrimas.




E foi assim com a visão turva pelas lágrimas que sentiu o calor do corpo do sr. Assim Assado, abraçando o seu, quase “carcando-a” por trás. Ao pé de seu ouvido lhe disse: “Querida, esqueça ou não esquenta... tudo vale a pena, se a marmita não é pequena”.



sábado, 16 de julho de 2011

2046 – Segredos do Amor

Muita coisa fica rodeando a cabeça destes tiranídeos, como que pedindo pra se concretizar como pauta. Sacou?! Aqui não há um poder absoluto que parte de mim ou da Fátima. Pensamentos e lances de dados têm algo em comum. Ou incomum. Isso é que é bom, porque quando o assunto se intromete e bate duro, adeus sinuca de bico. É só abrir espaço para a bola da vez.

O cinema do chinês Wong Kar-wai, o grande esteta do cinema mundial moderno, na opinião deste humilde escrevinhador, que pensa e sabe que não conhece tudo sobre cinema (graças a Deus); cai como uma luva. “2046 – Segredos do Amor” (2004) nos hipnotizou nesta noite 15/16. Acompanho o trabalho desse cineasta há vários anos e conheço um punhado de seus filmes. Adoro-os. Acho que sua produção fílmica beira a perfeição neste mundo fragmentado, que necessita de requisitos potentes para conquistar o público. À primeira vista, não é o que este filme oferece.


Paciência. É a palavra chave pra se deleitar com a magia de Wong Kar-wai. A narrativa é arrastada, lenta. Os filmes de arte gozam dessa prerrogativa. Não são películas que entram por uma retina e saem pela outra. Estabelecem-se em algum lugar da nossa memória e se enraízam. Acostumei-me com isso. Arte que é arte pra valer, pensando bem, mais incomoda do que diverte. Diversão tem mais a ver com entretenimento e não é este o caso.




Uma história de amor centrada num personagem canastrão (com  bigode a la Clark Gable [chinês com cinismo de canto de boca e ainda com bigodinho!] deve ter sido o vento que levou esse mustache ralo lá pros lados orientais). Ele é um escritor fanfarrão, conquistador e discreto, se é que é possível combinar essas características. Está às voltas com uma obra que lhe vai surgindo, ambientada no ano de 2046, que também é o número do quarto de um hotel barato, objeto do seu desejo, onde mora. Envolve-se com diferentes mulheres, achando que estará sempre imune ao amor. Sujeito ingênuo.  




O filme tem uma narrativa literária. Salta pra lá e pra cá, oscilando entre a vida do escritor e a sua ficção. Claro que tudo vai se misturando... Onde já se viu uma obra contemporânea não se equilibrar na tênue linha que separa a realidade da ficção? As músicas belíssimas (latinas e americanas em ambiente tipicamente oriental dos anos 60), fotografia e cenário impecáveis, luz inebriante e personagens consistentes já bastariam. Mas ainda há a soberba direção do diretor chinês.




Esse filme é uma ode a vida de um homem. Um presente para comemorar o dia do homem. (todo dia é dia do homem e da mulher).  Um segredo só existe se for contado para um buraco, no tronco de árvore, e depois cerrá-lo com barro. Uma andróide que só consegue chorar horas depois de experimentar a emoção e sua lágrima é o vestígio da dor. Ensinamentos e reflexões que emanam da cinematografia deste mestre da sétima arte.


  



quinta-feira, 14 de julho de 2011

A maré baixa de Murdoch

Quando parece que tudo de ruim tinha acontecido, não é que sempre tem mais... Pois é, resolvemos aproveitar a maré “baixa” do poderoso empresário da comunicação mundial, nada mais nada menos que Keith Rupert Murdoch, presidente da “News Corporation”, pra descer o nosso pau too.

Murdoch está no centro de um escândalo de escutas ilegais praticadas por jornalistas do seu “News of the World”, tablóide sensacionalista inglês de 168 anos, com uma tiragem de 2,8 milhões de exemplares a cada domingo e que botou em cheque a ética jornalística praticada.  

O escândalo detonou depois que se tornou público que um detetive, que trabalhava para o jornal, teria grampeado o telefone de uma garota que tinha sido sequestrada, em 2002. A manipulação das mensagens, obtidas através do grampo ilegal, fez com que a polícia e a família acreditassem que ela ainda estaria viva, já que sua caixa postal continuava ativa. Essa foi a ponta do iceberg. Depois foi revelado, que na busca de exclusividades, o “News of the World” colocou escuta em celulares dos familiares de soldados britânicos mortos no Afeganistão; de vítimas de casos policiais; de parentes de vítimas dos atentados terroristas, em Londres; do príncipe Willian; de celebridades como o ator Hugh Grant, Sienna Miller e Gwyneth Paltrow; e de esportistas e políticos. Um tipo de jornalismo bastante questionável, pra não dizer inadmissível.

A News Corporation é uma empresa que controla estúdios de cinema e canais da TV paga (FOX), o My Space, o Jornal New York Post (atualmente está de portas fechadas) e: tchan... tchan... tchan... as operadoras de TV por assinatura Sky e DiretcTV.  E o Murdoch tá envolvido até na tampa nessa comunicação às avessas. Não que a gente estivesse acompanhando o passo a passo dessa história toda. Quem nos alertou sobre os tentáculos do Murdoch, na verdade, foi a mãe dos burros, a “Wikipédia” que, calculamos, seja a muié moderninha do “pai dos burros”, o dicionário.  

E a pisada na bola do jornalismo praticado pelos servidores do Murdoch torna-se cada vez mais notória. Poderoso do jeito que o cara é, a mídia mundial, tá repercutindo isso bastante e vamos ver no que vai dar. Será que vai dar?


Mas a nossa bronca particular com o Murdoch é por causa da Sky, a única TV paga via satélite no Brasil. O problema dele em relação ao jornalismo “sensacional” e de caráter duvidoso que seu tablóide vinha fazendo, esperamos, receberá a devida punição. E voltemos à Sky, uma assinatura que temos a mais de 15 anos, bem antes da Sky açambarcar a DirecTV. 

Não, não estamos contradizendo o que já citamos várias vezes aqui no Tyrannus. Perto das TVs abertas, ela (a Sky) é o paraíso. Êta paraíso caro! Pelo preço que pagamos (uns 300 pilas mensais), deveríamos ter algo melhor, mais opções, mais qualidade. Mas... vivemos no paraíso dos monopólios. Então é a Sky ou algo mais em conta, mas com qualidade menor!
Não deu pra entender quando apresentaram alterações no formato e não no conteúdo, dizendo que a inovação veio pra facilitar. Quem idealizou essas mudanças, parece que não assiste e não entende bulhufas em relação a oferta de um serviço diferenciado ao usuário.

As fichas técnicas dos filmes são vergonhosas, deixando muito a desejar. Quiseram melhorar, mas não deu em nada... a gente navega pela TV, fica clicando aqui e ali pra chegar a nada. Conforme se diz, trocaram seis por meia dúzia. Os resumos dos filmes são fraquíssimos. Às vezes sem o ano de produção, a nacionalidade do filme é coisa que o telespectador tem que adivinhar. O nome do diretor vem depois de uma sequência de nomes de atores/atrizes.  E acima desse quadro, vem um número indicando quantos nomes têm no quadro... Pra que isso?!

Há um monte de filmes que são dublados, e sem opção de se usar a legenda. Tudo bem os filmes dublados, porque tem gente que prefere assim... Pô, mas a maior parte desses filmes também deve ter uma versão legendada que poderia ser oferecida ao contratante. Grandes concertos de orquestras são raros, poucos. Ah, e as óperas, essas praticamente inexistem. Os amantes do canto lírico, segundo a Sky, parece que tem mais é que se f...

Pô Murdoch, vê se resolve logo esse seu problema de jornalismo invasivo, anti-ético e inadequado, que em nada colabora para mudar o mundo. Resolve essa pendenga e, por favor, apresente-nos também uma proposta de TV por satélite mais decente. A Sky bem que podia ser uma opção mais sensacional. Ops... sensacional num outro sentido, claro. 
 

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Fiz coisa feia

É difícil, mas vou assumir que fiz uma coisa feia na última segunda-feira. Muito feia e que expõe um certo despreparo de minha parte. Sabe esses rompantes que a gente tem, que fica enraivecido e são seguidos de atitudes impensadas?
Acordei na segundona braba, cabeça pesada, uma sinusite daquelas se instalou nos seios de minha face (até que é bonito: seios de minha face!). Fui para o computador pra começar a labuta. Celular toca, atendo, converso, preciso fazer outra ligação em seguida. Meu celular, que tem uns dois anos de uso, andava surrado, suado, melado, estropiado... Estava querendo morrer ou ir pra uma fazenda linda, calma...

Acontecia de ao teclar, algumas teclas pareciam querer se afundar e se afundavam mesmo, resultado: necas. Isso vinha se sucedendo a um tempo. Controlei-me. A dorzinha chata na face, por conta da sinusite persistia. E aí o bicho pegou... Uma sequência de problemas com o computador. Simplesmente, sumiu o desktop, vulgo área de trabalho, onde gravo arquivos voláteis que uso em seguida. O sangue esquentou, a pressão subiu, a raiva súbita, o gesto magnânimo seguido do inalienável palavrão exasperado.

Arremesso o celular violentamente contra a parede, como se fosse um troglodita estapafúrdio. Não sei até que ponto, consciente ou inconscientemente, atirei-o, mas de uma forma onde aquela história dos mortos e feridos seria minimizada. Não suportaria a alugação da Fátima quando visse o estrago. Melhor me poupar dessa, porque não aguento arremessar nada que pese mais que dois quilos.

Passado o dia da raiva, a sinusite controlada e o computador ajeitado, acho engraçado e vejo que tive um mínimo de lucidez e também a coragem de praticar tal ato de violência. Há muitos anos, antes da virada do século e/ou milênio, pratiquei esse mesmo ritual impensado com uma coitada de uma impressora matricial. Não tenho muita habilidade com equipamentos elétricos/eletrônicos. Uma vez, fui fazer um sanduíche. Tínhamos em casa uma sanduicheira elétrica, mas não tinha pão do dia. Chateado, peguei um pão duro. Cortei-o, lasquei uma overdose de manteiga (na esperança de amolecê-lo), fatias de queijo, presunto, tomate, cebola e o que mais tinha. O pessoal de casa só de butuca (e eu cá com meus pensamentos movidos à gula e usura: não vou dar nenhum pedaço pra ninguém!). Coloco o sanduba na sanduicheira, mas não consigo fechá-la, pois o bicho tá robusto. Quem sabe um pouco mais de força (igual aquela pra fechar mala, boa ideia!!!!). E vai que vai... Uns estalos e a coitada da bicha, a sanduicheira, se parte em duas. Os espectadores rolam no chão de tanto rir e eu, putíssimo, vou deitar pra esquecer, de barriga vazia.  

Essa raiva toda, que opera reações inesperadas no humor da gente, me faz lembrar o Denis Boy, conhecido que já se mandou e, certa vez, doidão, brigou com a esposa e pôs-se a promover um quebra-quebra gabiroba na sala da própria casa. Não vivia numa casa de luxo, nem era rico e quebrou o que pode, até ficar frente a frente com um aparelho de televisão que era novo e bom. Chegou a carregá-lo e quase o jogou pela janela, mas, acho que pensou bem e voltou atrás. Teve um lampejo de lucidez. O próprio Denis me contou essa “aventura doméstica”. 
Essas situações me fazem lembrar também uma tirada célebre do Millôr Fernandes, mas que refere-se mais às relações interpessoais. Serve como um conselho, para quando você vai se encontrar com alguém que merece toda a sua ira: “Na hora da raiva, retarde o encontro”.
Pois é. Conforme descrevi aqui, também sou uma pessoa de humor variável e acho que todo mundo é um pouco assim. Será que preciso de tratamento, será que sou bipolar? Procurar um psicólogo ou mesmo um psicanalista? Será que tem cura? Será que quebrarei o meu celular novo, que acabei de comprar também?



Comprei um celular novo e a Fátima também. As maravilhas do crediário nos permitem tais extravagâncias. Agora é aprender a usar o novo aparelho e ler o maldito manual de instruções... argh!!! O da Fátima, que é mais modernoso do que o meu, já disseram pra ela que não aguenta um tombo. Já o meu... Bem, meu novo celular é uma gracinha... Espero que ele aprenda a desenvolver um excelente relacionamento com as paredes aqui de casa.