domingo, 10 de junho de 2012

Oh, céus!


Monte Olimpo, morada dos deuses 
Pode ter certeza, camarada. A maioria das pessoas prefere o céu. E quer ir pra lá quando partir deste mundo. É, mas ninguém chega ao céu de paraquedas. “O céu é superestimado. Não há nada lá”, diz um personagem do filme “Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas”, do diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul. Exigimos respeito para com o filme, vencedor da Palma de Ouro em Cannes 2010, porém, muita gente há de preferir que haja céu. Pra que? Talvez pra encontrar com papai do céu.

O céu mandou alguém (Os Johns Wayne e Ford)

O céu pode esperar
E depois, costuma-se raciocinar que quem não vai pro céu, vai direto pro inferno. Ou passa antes uma temporada no purgatório, que não é nem lá nem cá.  “Céu pedrento... ou chuva ou vento.” Dizia tio Nuno, ou comandante Martins, que se aposentou como piloto de aviões de carreira e que deve estar lá no céu. Tinha intimidade com os ares e gostava de céu de brigadeiro. O que me desperta atenção para com esse espaço sideral, cor azul infinito, é também um dos seus sinônimos. Palavra linda: firmamento. É tão bela que tenho medo de escrevê-la e parecer pedante. Bobagem!


Nova Olímpia é um pequeno município de Mato Grosso. Nada a ver com o Olimpo, onde estão os deuses. Uma vez alguém disse que antigamente ser religioso era mais cômodo. Havia vários deuses e, em determinadas situações, eles apareciam e interagiam com os simples mortais. Hoje, temos um só deus e ele nunca aparece. Por que será?

“Sapo querendo entrar na festa, viola pesada pra voar”. Verso da música Boto, de Tom Jobim, outro que já está lá em cima, descobrindo trilhas e mais trilhas para musicar o lugar celestial. Essa letra faz menção a uma história antiga sobre uma Festa no Céu, para a qual, só seriam convidadas as criaturas aladas, mas o sapo entrou numas e foi na carona do urubu, escondido, ensapado, dentro da viola da ave de rapina. Que foi, foi, numa boa. Teve problemas na volta, mas aí é outro papo.

O céu de Sueli

O céu que nos protege

Reza a lenda que São Pedro é o porteiro do céu. Manoel Bandeira imaginou Irene preta e boa, sempre de bom humor, pedindo a São Pedro licença pra se adentrar e o santo da portaria diz que ela nem precisa pedir licença. É a poesia em seu estado coloquial superlativo, que nos deixa nas nuvens.
Da remota infância vem o jogo da amarelinha (não o livro do Cortázar). A gente sai pulando às vezes em uma perna só, noutras em duas e vai passando por etapas até chegar ao céu.


Ensinamento paterno que tem serventia e cabe agorinha mesmo, aqui: quer morar mais perto do céu, compre uma escada gigante. Ceu, sem acento, é Casa do Estudante Universitário. Em nossas bocas existem os palatos duro e mole. Sabe onde eles ficam? Ora... no céu da boca. O céu é o pé direito mais alto que existe no universo. Qualquer arranha céu e fichinha perto da dimensão o céu. O céu é o limite. Frase que soa que nem o horizonte vai até aonde a vista alcança. Estrelas cadentes e objetos não identificados se movimentam lá em cima.  Minha paixão há de brilhar na noite, no céu de uma cidade do interior.

Música de Céu

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Destarte

O que é o que é...  Tem a ver com a estética, com a emoção, com o prazer e vai que vai por aí afora. Arte é a imitação da vida. Este é um conceito pra lá de antigo. Quer uma definição mais moderna? Tudo bem: arte é a ciência do belo. E agora vamos dar uma radicalizada: “doravante, tudo que eu disser que é arte, será arte”. Audacioso, Marcel Duchamp soltou essa no início do século XX. Depois dele, muita água passou por debaixo da ponte. Parece que Duchamp deu apenas um pontapé inicial nessa conversação que, cá pra nós, bem que poderia seguir rumo ao infinito.

“Exit through the Gift Shop” (2010) é um documentário bacana que tasca pimenta nesse bate boca, que tem a direção atribuída ao artista de gráfico britânico, Banksy. Dizemos atribuído ao cara porque, segundo consta, ninguém sabe quem é o tal sujeito. Suas intervenções (arte) surgiram em Londres e debandaram para Los Angeles, sempre em espaços urbanos, provocando a ira dos responsáveis pela administração das cidades. Mas, dizer que Banksy é um grafiteiro, sinceramente, é muito reducionista.

É curioso como o tal documentário, mesmo sem uma confirmação absoluta sobre sua autoria, foi indicado ao Oscar de melhor documentário em 2010. O filme foi candidato forte e o circo foi armado, já que a organização do evento proibiu o artista de entrar disfarçado. E Banksy, que nunca mostrou seu rosto em público, não foi. Será? Não ganhou a estatueta. Ninguém garante que não teria ganhado o Oscar, caso se tornasse identificável. Certamente, preferiu não se vender ao glamour, ao dinheiro e a fama, retornos quase garantidos aos “oscarizados”.

Não levou o Oscar e foi parar nos Simpsons 

Anonimato é importante, afinal, para um artista que realiza essas intervenções urbanas que chamam a atenção de todos que andam pelas ruas, independente do nível social ou intelectual. Mistério faz parte desse show. E essas incertezas relativas a respeito da autoria do documentário e da veracidade dos fatos que ele apresenta espicaçam a curiosidade de toda gente.


Intervenção entre Israel da Palestina

Um imigrante francês viciado em captar imagens de artistas de rua, Thierry Guetta, radicado em Los Angeles, é o personagem central do filme. Banksy também aparece em trechos de entrevistas, mas em contraluz, com voz distorcida e vestindo um casaco com capuz. Dizem que não é ele. Vai saber. Mas, Thierry é um sujeito simplório que vai levando, vai levando, e torna-se o principal interlocutor da narrativa. De tanto filmar os artistas de rua, se entrosa com eles e alguns participam do documentário. De um videomaker independente, eis que ascende para a posição de artista notável, realizando uma exposição disputadíssima em Los Angeles.

Guetta, comemorando o prêmio no Spirit Awards
Claro que a essa altura dos acontecimentos, não é mais Thierry... Ele torna-se Mister Brainwash, um artista (ou picareta que virou artista), cuja (re)produção alcança preços exorbitantes. Brainwash, ou Thierry, como queiram, não está nem aí para o fato de que a sua criação não prima pela originalidade. Faz e acontece. À sombra de Banksy, de Wharol, de Basquiat? Meu Deus do céu... será que estamos com inveja do cara?

Isso é Banksy!!!!!!

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Dá um F5!


Um F5 na vida...
“Cadê o enter?”. Pergunta um garoto de nove anos ao se deparar com uma máquina de datilografar pela primeira vez na vida. Explicaram que ele estava diante de um protótipo jurássico de um computador. O garoto, com essa histórica informação sobre o passado da era da pré-digitalização, deu um F5 em sua vida. Sim, porque para atualizar, evocar os tempos pretéritos também faz parte.

Conheço um casal de octogenários que está em plena forma. Trabalham bastante e curtem a vida. Porém, há dois ou três anos, a mulher sentiu que faltava algo em sua vida. Começou a aprender informática e hoje se vira sozinha com as lides internáuticas. Quer dizer, sabe o basicão, mas volta e meia precisa de um suporte técnico. Igualzinho eu mesmo. E não demorou, o marido foi pelo mesmo caminho. Como gosta muito de canto lírico, desconfio que esteja viajando pelos caminhos do youtube. Daqui a pouco poderão vir a ser um casal de hackers da terceira idade.

Essa dupla dinâmica também se autoaplicou com o tal F5. Diferente do garotinho citado lá no primeiro parágrafo, o casal buscou algo em direção ao futuro, e não ao passado, como muitas pessoas idosas costumam fazer.  De uma forma ou de outra, atualizar-se é bom. E às vezes extremamente necessário. Hoje, com a tranqueira digital que nos persegue, fica muito mais fácil. Uma das coisas que me enchia o saco nessa história de passagem de ano era ter que atualizar minha agenda. Isso nos tempos da agenda física, o caderninho. Jornalista precisa de fontes e de círculo grande de amizades. E toda a virada de ano era aquela montoeira de nomes pra passar pra agenda nova.

Companheira de muitas noites adentro

Ainda não consegui abrir mão totalmente da agenda velha, que às vezes levo pra algum lugar, sempre caindo aos pedaços. Seria algum apego sentimental? Seriam os últimos gritos e sussurros de um sujeito ex-analógico?  Não sei, não sei, não sei... Tenho até ímpetos, agorinha mesmo, de largar este texto da hora, pegar a agenda velha brancaleônica e dar-lhe um sumiço. Mas, penso... Pra que toda essa coisa teatral e impetuosa. Não sou assim. Jogar fora a agenda velha, isso sim, é algo que deve encabeçar a lista das coisas que a gente pode deixar pra fazer amanhã.



Taí, vejam vocês como são as coisas aqui no Tyrannus. A intenção inicial era escrever sobre F5, aquela tecla importante do seu teclado, que atualiza as páginas da internet. Aí, quando a conversa já começa se encaminhar para o final, eis que surge um tema que teria sido bem mais de acordo com o inconfundível estilo, um verdadeiro achado, daqueles que é difícil de acontecer quando nos sentamos diante do PC com a divertida função de escrever um post. Tarde demais, perdi um tempão escrevendo estas bobagens sobre esse tal de F5... O que eu queria mesmo era ter desenvolvido algumas palavras sobre uma possível relação de coisas que a gente pode deixar pra fazer no dia seguinte.  

Vai ficar pra amanhã!
  

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Recoisificar


O Coisa
Palavrinhas de grande valia são “coisa e negócio”. Ambas têm origem no latim: causa e negotiu. São substantivos: a primeira é feminina (a coisa) e a segunda, masculina (o negócio). Elas são tão usadas, que vão do substantivo para adjetivo, até a forma verbal, na maior! Quem as usa com propriedade consegue dizer uma frase inteira, basicamente, com uma delas e suas permissivas variantes: “vou coisar uma coisa” ou “vou negociar um negócio”. E a quem é dirigida essa frase, pode crer que entende a mensagem todinha. Que coisa!

-Benzinho, vem cá. Vou mostrar um negócio!
-É mesmo, cadê? Credo, que coisa é essa?
-Ué, vai dizer que nunca viu uma coisa desta?
- Ver, bem que já vi, mas assim... coisada, não!  




A amplidão dos sentidos da palavra coisa é tão grande, que pode-se dizer tranquilamente que é impossível pra qualquer um passar um dia inteiro sem se utilizar da “coisa”. Coisa palavra, pelo menos.  E não é pra menos. Coisa, segundo o Dicionário Michaeles, tem 15 significados: 1) aquilo que existe ou pode existir; 2) aquilo em que se pensa; 3) acontecimento, caso, circunstância, condição, estado, fato, negócio; 4) fato, realidade; 5) conjunto do que existe; 6) assunto, matéria ou objeto de que se trata; 7) essência, substância, fundo; 8) negócios,  relações; 9) ato, empreendimento; 10) negócio; 11) causa, motivo; 12) mistério; 13) ‘gramática’, termo por oposição a pessoa (ah, bom); 14) ‘direito’, tudo aquilo que, com existência corpórea ou concebível pela inteligência, pode ser utilizado pelo homem e constituir objeto de direito; 15) órgãos sexuais.

"Coisa, coisa cristalina, mata meu desejo, mata minha sede"

Já “negócio”, outra palavra que era pra estar com a corda toda aqui hoje. Perdeu de capote pra “coisa”. Olha, “negócio”, não é lá essas coisas. Pra começar, tem menos significados: 1) comércio, tráfico, transação comercial, 2) contrato, ajuste, 3) qualquer casa comercial, 4) empresa, 5) questão pendente, 6) coisa, objeto, 7) qualquer coisa cujo nome não ocorre no momento.

"Não quero mais esse negócio de você longe de mim"
Não sabemos dizer se a coisa e o negócio são palavras homonímicas ou polissêmicas, com exatidão. Aceitamos contribuições nesse negócio de coisa, ou vice versa.

"Mexe qualquer coisa dentro doida"

"Coisas que a gente se esquece de dizer"
Dizemos tantas coisas numa simples conversa que passa a impressão que não sabemos absolutamente nada do que estamos falando. Nem sempre é mentira. Geralmente sabemos a essência e nada dos pormenores e detalhes da informação. E quando é verdade que nada sabemos, dá pra engambelar a torcida fazendo-se de entendido. “É uma coisa”, os dados foram lançados. É nossa opinião incontestável. E quando há controvérsias, equalizamos a contenda, solenemente: “Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”.


Quem escreveu essa coisa, pode me dizer? – Claro, que não! É aí que tá a alma do nosso negócio!

terça-feira, 5 de junho de 2012

Posição irregular

“Coisa que não acaba no mundo é gente besta e pau seco”. Manoel de Barros disse tudo nesta frase. A babaquice da semana, que mal começou, já se define: o vídeo que o Flamengo divulgou  sobre a noitada do Ronaldinho Gaúcho, quando deveria estar concentrado. O fato aconteceu em janeiro, gerou a maior polêmica, ainda tem seus desdobramentos.

Nossa equipe de advogados associados, que nos assessora e presta consultoria para assuntos jurídicos, deu garantias para comentar o fato livremente. Corremos atrás e conseguimos imagens de Ronaldinho, antes de penetrar no quarto da misteriosa mulher. E utilizando de estratégias combinadas que são comuns no jornalismo investigativo de alto nível, conseguimos o contato da mulher em questão, assim como do homem, que estava como porteiro do hotel em Londrina, na noite que o Flamengo ali concentrou-se.

Ronaldinho: toc,toc

O ex-porteiro, atualmente é frentista num posto de gasolina em Pato Branco (PR), não quis falar sobre o assunto. Insistimos muito e ao ver o bererê que oferecemos, concordou em fazer um único comentário que, sinceramente, em nada colaborou com a reportagem. “Uma das maiores baixarias que já presenciei na minha vida”, disse, referindo-se à discussão entre Luxemburgo e Ronaldinho, quando o jogador foi pego em flagrante pelo técnico num andar suspeito. O paranaense explicou que só aceitou a grana que oferecemos, porque tinha três piás pra criar.

Como assim???? Não tô entendendo!!!

Já a mulher envolvida, foi reticente..., nada disse. Conseguimos chegar até seu círculo de amizade e soubemos, através de uma de suas amigas, que também fez uma bate bolas com o R10, que a outra reclamou muito do jogador, dizendo que ele passou a noite escutando e dançando pagode e funk, quando muito, axé. E que ela até tentou, mas, quando olhava o jogador nos olhos, cobrando uma postura mais agressiva na marcação, ele olhava para um lado e tocava para o outro.


A amiga da amiga da amiga, que já recebeu uma entrada por trás desleal de R 10, também reclamou do comportamento do atleta. Disse que Ronaldinho é mesmo insistente nessa trilha sonora de gosto duvidoso, e que ele a incomodou muito ao ser flagrado sucessivas vezes em posição irregular, na banheira.

Aí eu falei pra manicure: Olha bem, esse aqui tem unha!!!!

Resumindo, achamos que o Flamengo vai ficar devendo o jogador ad infinitum. E que o craque vai ficar devendo à torcida do Flamengo na mesma proporção. Agora, se ele agora vai ou não cantar de galo, só o tempo dirá. O assunto, temos certeza, ainda vai dar o que falar. E quando o papo mistura futebol com sexo, as canalhices acabam vindo à tona. Daí, que a pessoa mais categorizada para destrinchar a complexa trama, só pode ser o João Canalha, apresentador do programa Bate Bola da ESPN.   

João Canalha, comandando o esporte na ESPN

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Não brinque com comida

Só Suri... 
Um prato de comida é sagrado, neste mundo onde a fome ainda mata e, muito. “Estou morrendo de fome”... frase que todo mundo acaba usando. É o exagero que nos acompanha. E exagero não faz bem na hora do rango. Do ponto de vista religioso, porque a gula é pecado. E também sob na ótica da saúde, porque comida demais é problema. Pense bem: você acha que quem está realmente morrendo de fome, seria capaz de dizer em alto e bom tom – to morrendo de fome!

“A fome boceja, a fartura arrota”, ditado árabe. Mas, arrotar de tanta fartura, “fartô” educação, aqui pra nós. Comer é questão de sobrevivência e é cultural. Sentado no chão, na cadeira, acocorado, em pé... coisa que o bicho homem faz pelo mundão é comer de tudo quanto é forma. Comer deitado, só no hospital. Convalescendo. Porque estamos falando de comida. Diversão e arte são outros quinhentos. Mas, é interessante e têm vezes engraçado reparar no jeito como as pessoas comem e no que elas comem. E observar os bichos se alimentando, idem.

A fome é o melhor tempero (Em busca do ouro)

Charles Chaplin perseguindo uma ervilha num prato é hipnotizante. Cada um tem o seu jeito de comer, fazemos barulhos e silêncios diferentes na hora de tomar uma deliciosa sopa. Sei de um sujeito que dispensava a faca pra encarar um boião e era muito ágil. Estrategicamente ele mantinha a parte lateral do dedão da mão na beirada do prato, como que segurando-o, e, meio disfarçadamente, usava o dedão pra escorar a comida e garantir uma garfada sortida. No quesito higiene, diríamos que fica a desejar, porém, a artimanha resultava numa eficiência impressionante.

Quando a comida tá muito quente, o jeito é ir comendo pelas beiradas. Comer pela beirada é expressão metaforizada. Comer na ambiência rural é outra história. Dois peões famélicos se deleitavam numa mesa farta. Um deles, que aloitava com um osso, a certa altura, julgou que estava perdendo tempo com o osso já bem descarnado. Desistiu do osso e deixou-o na mesa, dizendo: “sai pra lá empaia tempo”. Imediatamente o outro peão se apoderou do osso abandonado: “vem pra cá, divertimento”.

Os velhos tomando sopa (Goya)

Comer com pausinhos – os hashis, requer uma habilidade que combina as artes do origami e do samurai. Comer com colherzinha de plástico daquelas molinha é perigoso. Cada colherada pode ser comida catapultada. “Olha o aviãozinho...” e a colher imita um voo de avião pra atrair a atenção da criança. E o bebê enjoado enrola e enrola e enrola e enrola... Sua mesinha acoplada na cadeirinha, o guardanapo de pano, sua roupa e sua boca estão sujos de papinha. Êta criança enjoada pra comer... Olha o aviãozinho...




Pra essas ocasiões, lembro-me de uma poesia antiga: “Menino luxento você quer empada? – Não, mamãezinha, está muito salgada. Menino luxento você assado? – Não, mamãezinha, está muito tostado. Menino luxento você quer salada? Não, mamãezinha, está muito aguada. Menino luxento você quer pudim? Não, mamãezinha, está muito ruim. Menino luxento você não quer nada? Menino luxento, pois tome palmada.”



Filhotes, humanos ou não, precisam aprender que comida é coisa séria. Mesmo levando bronca dos pais (racionais ou não), demoram pra entender que precisam comer seguindo as regras dos indivíduos da sua espécie. Nós, humanos, inventamos horas supostamente certas pra comer. Estamos presos a cafés da manhã, almoços e jantas. Pras crianças, comer fora de hora pode ser motivo de repreensão. Até parece que os adultos nunca comem fora de hora.

Crianças e bichos, segundo Dalcio Machado




domingo, 3 de junho de 2012

Empilhados

Pilhagem de pulhas
É terrível quando falta pilha... Foram muitas as ocasiões onde de repente faltou pilha e por isso alguns fatos deixaram de ser registrados, deixaram de ser vistos e, pior, deixaram de ser feitos, porque faltou pilha. A dependência da sociedade por algo que armazene energia é imensurável. Ouvi dias desses que existem estudos avançados para a utilização de energia elétrica sem fio. Aí sim, ficaremos livres dessa dependência. Mas quando falta a energia no ser humano. Dançou! Não há nada que reponha a vitalidade, o entusiasmo, a gana e não existe a possibilidade de ir ali no mercado e comprar, substituir, recarregar. É só dentro da gente mesmo que é possível encontrar o desejo, a força vital, a ânima...

Faltou pilha para o esporte brasileiro no domingo. O futebol e o vôlei. Dois esportes em que o Brasil costuma se dar bem, não deu. Perdemos, porque estávamos apáticos, desanimados, desatentos, respectivamente, para o México e para a Polônia.



E presta atenção, porque assim como o criminoso costumava ser o mordomo nos filmes de suspense; nos esportes, em caso de derrota, o culpado geralmente é o técnico. Assim sendo, Mano Menezes, técnico de futebol, parece que tá com a pilha nas últimas e sem graça. Já o Bernardinho, é pilhado e até demais. Tudo em excesso não é bom, nem de mais, nem de menos. Culpados! 



Enquanto isso rola um faroeste dos bons, nem tão antigo na telinha. Filme do velho Clint, o Eastwood. O nome do filme remete aos técnicos: “Os imperdoáveis”. Não, não há controvérsias. Há apenas exageros. É que o desabafo de quem torce (e perde), precisa de um culpado. De um bode expiatório.

Perdeu, perdeu, e a gente tem que aceitar aquela mentira (verdade para uns): o importante é competir, não vencer! Pode ser assim? O importante é competir, não perder. Ou pelo menos empatar. Preparem o espírito de competitividade, estamos na véspera da Olimpíada. E vão querer me engambelar com um papo desses? Francamente... Agora ficamos pilhados.

Estamos cansados de ser pilhados. A história do mundo é calcada na pilhagem. Saques, roubos, destruição. O colonizador pilhando o colonizado sucessivamente. No Brasil não foi diferente. Pilharam tanto que extinguiram a árvore que deu nome ao país. Os pulhas nos pilham desde que essa terra foi descoberta. E continuam.

Mapa de ocorrência do pau brasil

Eu pilho, tu pilhas, ele pilha. As pilhas são nocivas ao meio ambiente. Se você ainda as usa, e vive com o ouvido grudado no radinho de pilha, quando elas envelhecerem e se descarregarem; livre-se delas com cuidado. Vá empilhar suas pilhas em local adequado. Bom, pilhas não têm vida longa. Faz horas que as pilhas recarregáveis estão na onda.



Nos tempos analógicos as pilhas eram imprescindíveis. E muita propaganda. Quem não ouviu falar nas amarelinhas? E em “Troca a pilha, minha filha”. Hoje em dia, até pilhéria parece ter mais utilidade. E tudo indica que a pilha do Ronaldinho Gaúcho tá acabando. Ele vai ter que optar por uma bateria mais potente... pode ser a da Mangueira, da Beija Flor...


sábado, 2 de junho de 2012

Tô co soooooono....

Guaranazinho ralado, demais de bom!
Quanto foi perdido em nome dos novos tempos? Não dá nem pra contar. Mas dá uma sensação boa quando o que foi rechaçado, motivo de chacotas e risadas, é reconhecido como sabedoria e conhecimento. Um dos hábitos que quase foi abandonado, eis que volta com a corda toda: a gostosa e benéfica sesta.

Em Cuiabá, antes, bem antes... era comum o comércio fechar suas lojas a partir do meio dia e retornar lá pelas duas horas da tarde. Os viajantes e o povo que veio pra cá trataram de levar e espalhar no “sul maravilhava” não só o costume cuiabano. Acrescentaram ao fato, a fama de que o povo daqui era preguiçoso.

Registre-se, entretanto, que em alguns bairros de Cuiabá, pequenos comércios ainda fecham pouco depois do meio dia e só reabrem após as duas. “Nesse horário não vem quase ninguém, só ladrão”, disse um  comerciante.  

Imaginem um lugar onde não se precisava morrer de preocupação e de trabalhar para conseguir o alimento de todo dia pra família? Peixe em abundância e de várias espécies; água e terra a perder de vista. Mandioca, abóbora, banana, feijão, arroz; era só plantar e colher. E que tal essa: sair depois da chuvarada pra catar pepitas de ouro nas ruas, lavadas pela água celestial. Já viu um negocio desse?



Roça de mandioca (Foto: Laércio Miranda)

Nos idos tempos, tudo tão distante, tudo tão longe... Ganância... sempre tem quem quer mais: é do ser humano. Mas, aqui era sem ostentação. Até porque, dinheiro mesmo, necas! Só terra, água, gado, casa, família... E todos tinham isso por aqui. Uns mais outros menos!


Mas a sesta não passa só por aí. Pela tranquilidade e abundância. Tem  a ver com o entendimento da natureza. Num lugar quente, onde o almoço é a principal refeição que vem munida de sustância e mais sustância, o corpo há de pedir uns minutos do precioso tempo pra digerir essas delícias. O processo de digestão é complicadíssimo. O cérebro comanda uma atenção especial para desempenho da função. O sangue concentra na regiçao mais solicitada e por isso ocorre um pequeno déficit em outras, por momentos. Daí a gostosa sonolência...  

A rede (G. Courbet)

A vontade que dá mesmo é de dar uma deitadinha, de “puxar a palha”, “queimar a pestana”, “fazer o quilo” e por que não aproveitar se der e fazer “aquilo”. E ainda morgar, conforme se dizia num passado ainda recente. Mas, quem falou que essa correria nefasta desta era ultra-pós-moderna permite esse refresco pro corpo? Assim sendo, o negócio é aproveitar os finais de semana pra fazer – e fazer bem feito, a tal da sesta.

Diz que tá posando...

Para algumas pessoas meia horinha ou até quinze minutos bastam. Outros prolongam por duas horas ou mais. Os primeiros acordam refeitos, com pilha nova, para o restante do dia. Os outros costumam acordar de mau humor e com o tal gosto de guarda chuva na boca. Em ambos os casos, um guaranazinho ralado cai bem.

A medicina constatou que dormir depois do almoço, hábito adquirido com os espanhóis, é salutar. Hoje muita gente e empresas modernosas, que primam pela qualidade de vida de seus funcionários, vem adotando essa prática. O mito da preguiça caiu. E outros vêm na rabeira, como o da lauta refeição matinal, por estas bandas denominado de quebratorto. É do bem! O estilo das antigas. Não somente restabelece práticas e hábitos, de forma folclórica e saudosista. Essa retomada vem chancelada por pesquisas e estudos que confirmam sabedoria e garantia de saúde. Chupa essa, manga!