sexta-feira, 11 de março de 2011

Feiura

A feiúra das duas complementava-se.  A mãe, sexagenária, mas muito mal tratada aparentava uns oitenta, naquela época em que aparentar oitenta, era oitenta mesmo! Magra, ossuda e incrivelmente descabelada.  Por mais que prendesse os cabelos brancos, encardidos e ondulados, a maioria teimava em ficar em riste como antenas. Era chamada na rua de petequinha véia: magra, pequena e perdendo as penas! No mais, tivera sorte na vida, casou-se bem com alta patente do exército, mas quis o destino que enviuvasse cedo. Apesar da boa pensão nunca mais arranjou alguém. Da união nasceu uma única filha, tão feia e desgrenhada como a mãe. Herdara não sei de quem a burrice, por isso não progrediu na vida, mal conseguiu sair do ginásio. A mãe zelosa da cria preocupava-se com seu futuro. Casar a moça ia ser difícil, nem a generosa pensão do falecido pai iria ajudar. Mas um dia, não é que apareceu um?   Jovem, funcionário público, nem feio nem bonito. Pior, sem graça.  Casaram-se como de praxe com festa, comilança “alavonté”:  arroz com galinha, feijão empamonado, maionese, guaraná e cerveja; sob as velhas mangueiras do feio quintal da casa da mãe.
Tiveram dois filhos, que nessa época não dava pra preconizar se seriam feios como seus parentes, eram crianças. Com os passar dos anos a feiura pregou em todos: mãe e filha com cabelos desgrenhados, vestidos gastos, peitos caídos, gordura dobrando sobre a barriga, bunda caída, canelas marcadas e pezão esburrachado. O antes jovem marido, agora aposentado, envelheceu a olhos vistos, engordou e acomodou-se  num canto escuro da varanda da casa da mãe, numa poltrona velha, pra  ler durante o dia inteiro um único jornal. Os tempos eram outros, a gorda pensão e a aposentadoria do marido já não davam pra todos os gastos da família, precisavam de uma complementação urgente, uns trocados bastavam. Para resolver esse problema a única disponível era a filha, pois a mãe e marido já contribuíam com sua parte. O que fazer? A rua, apesar de fofoqueira, precisava de uma manicure, coisa rara na Cuiabá daqueles tempos. Num dia uma placa aparece pendurada no velho e sujo portão da casa: “Faiz-se pé e mão”.
Pra dizer a verdade, verdadeira, relutei, mas precisei, e fui. O local da manicure e pedicure era no quintal, debaixo das mangueiras, por sinal bem fresquinho. Às vezes, quando esquentava ou ameaçava chover mudavam para a porta da varanda, porque lá dentro era muito escuro. Aí, entre um tapa no mosquito e outro, um copinho de água fresca e um cafezinho requentado, oferecidos pela mãe, a gente esperava a vez com os pés numa bacia de alumínio feia, opaca e amassada, com água morna e sabão em pó.
Mas... não é que a filha da véia tinha até jeito para a coisa? Corta aqui, cutuca ali, mexe numa unha encravada, lixa os pés, corta cutícula, pinta as unhas. Saí satisfeita. Reparei que enquanto ela lixava os pés, caía como de um ralador de queijo, a pele morta dos calcanhares caludos que as galinhas afoitas corriam e se aloitavam pra comer aqueles restos brancos sobre o terrero feio.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Professor Ferraz me ligou dia desses. Está montando um novo coral e me convidou para participar. Sabe que não sou nenhuma especiaria em matéria de soltar a voz, e que apenas pareço fingir que entendo ou não entendo de música erudita, conforme a ocasião. Mesmo assim, me convidou. Professor Ferraz é um sujeito valoroso para as artes e a cultura desta terra, sempre fico pensando. Conheci-o mais de perto quando trabalhamos juntos no departamento musical da Secretaria de Estado de Obras Públicas, coisa de seis, sete anos passados.
Mas já acompanhava seu trabalho com corais de há muito. Sempre atuando garbosamente, muito dedicado e profissional. Uma pessoa distinta, por assim dizer.
Fico pensando no cavanhaque e no bigode do professor Ferraz. Coisas que faziam parte do seu visual, mas que, a gente percebia que ele não investia tanto assim nesses pelos. Pra que...? Já ouvi dizer que cultivar com muito ardor essa história de cavanhaque compondo com bigode é coisa de viado.  
Também me recordo da barriga protuberante de quarentão dele, típica de quem não demonstra grandes amores pelas atividades físicas e ao mesmo tempo toma lá as suas cervejas e exagera no prato. Como estaria, atualmente, a aparência física do professor Ferraz? Mais barrigudo, menos... Com ou sem bigode ou cavanhaque? Não assinalei nenhuma alternativa e apenas me lembrei daquelas questões antigas dos meus tenebrosos tempos de cursinho, quando fui iniciado nos calmantes de pequeno porte, pela minha mãe, por causa de um certo nervosismo que me abateu com a chegada do dia do vestibular. Coisa do passado, definitivamente.  
Ultimamente não fico mais nervoso, a não ser, às vezes, em partidas de futebol. Mas aí me acalmo com as cervejas. Outra história. Nesta hora, o que habita minha cabeça é o convite do professor Ferraz. Eu com essa minha voz que nãos e encaixa direito em tenor ou barítono e que, para piorar, ainda costumava inventar de descambar para o baixo, naipe vocal que sempre almejei. Mas, vamos falar a verdade. O melhor regente que tive em toda minha precária experiência de coralista, foi o professor Ferraz.
Acho que vou encarar essa parada de cantar novamente. Nem que seja só pra conviver com o professor Ferraz e arrebatar mais um pouco do seu conhecimento musical. E me divertir também com seu humor variante.
Em frente a sala do professor Ferraz, naqueles tempos, do outro lado da rua, havia uma loja de roupas femininas... Confecções Benedita. ‘O charme que você precisa’, era o slogan da loja. Calcinhas, sutiãs, corpetes, vestidos, colantes o escambau, tudo a preço de bananinha. E na loja, um aparelho de som furreca urrava praticamente o dia inteiro coisas da Banda Calipso e similares. Enquanto isso, o coitado do professor Ferraz era obrigado a mexer com seus arranjos, suas partituras e pesquisas musicais... Coitado do professor, eu pensava, enquanto ele caminhava pra lá e pra cá, ás vezes, aparentando um personagem acaciano.
E coitado mais ainda dele. É que nestes tempos de suspiros literários, reza a lenda que textos, como o deste pressuposto conto, jamais devem se estender. Leitores se espantam. Fogem. E eu mal tive tempo de caracterizar como desejaria o  personagem destes poucos parágrafos, um sujeito assim meio real, meio de mentirinha. Desculpe, professor Ferraz... As palavras podem parecer poucas, mas vossa senhoria já faz parte do meu imaginário.


quarta-feira, 9 de março de 2011

Um vazio...
“Andar com fé eu vou...” Se locomover em Cuiabá é ouvir muitos “Ai, meu Deus ...”, muitas pragas e palavrões. Está quase que impraticável, seja ônibus, carro, moto, bicicleta e até a pé não tá mole, não. Mobilidade urbana não é uma característica desta cidade. Trafegar de transporte coletivo pela cidade fora dos horários de pico, ainda é razoável. Frise-se: fora dos horários de pico. Lógico que digo isso baseado em minha própria experiência, como morador do Recanto dos Pássaros. Tenho sorte, quatro ou cinco linhas passam pelo meu bairro, que é suburbano. E gosto de morar afastado do centro.  



Da janela lateral

Nos dias de semana nunca fico mais do que dez ou quinze minutos aguardando o buzu, que nunca pego em horários críticos. Já nos finais de semana e feriados... É outra história.

Nesta quarta-feira cinzenta, por exemplo, para chegar até o serviço, na Avenida Beira Rio, computei mais de meia hora no ponto. Já estava passando do ponto de querer matar, morrer de ódio, quebrar qualquer coisa. É assim, né, a Unic não tem aula, corta-se radicalmente uma das linhas, não interessa se outras pessoas dependem e utilizam essa linha. Nesse quesito, a nota para as empresas do setor e prefeitura...: zero.

Até a proxima parada
Assim, quem não tem carro perde vertiginosamente sua capacidade de ir e vir. O bem estar da população não interessa mesmo aos empresários do setor, tampouco à prefeitura. Empresário, dizem, costuma gostar mesmo é de dinheiro, não de gente. E a prefeitura, bem, a prefeitura, sabe... é que ela, bem a prefeitura...  Bom, deixa pra lá, apesar dessa situação ser de lascar.

Pela estrada a fora...
Lá se vão uns cinco anos que optamos aqui em casa por não ter carro. A princípio, achei que ia sofrer muito. Qual nada, me adaptei rapidinho e os investimentos que um veículo demanda podem ser direcionados para muitas outras coisas que, às vezes, a gente nem repara, mas têm muito mais a ver com a nossa qualidade de vida. Viagens a passeio, investir na casa, numa alimentação mais sofisticada e outras cositas brindam-nos com prazeres e alegrias incalculáveis, que a gente vai desfrutando cotidianamente. Um carro, quer saber, me faz falta em algumas ocasiões, como por exemplo, nos finais de semana quando dá vontade de ir pra Chapada ou mesmo pegar um cineminha, o que significa depender do transporte público. Nem tudo é perfeito, meeesssmmooo.

Mas costumo dizer com orgulho: não temos carro, por opção. Neste ano até pensamos em comprar um e deixá-lo com nosso filho, que conseguiu entrar na UFMT. Mas o Vítor, que até estava querendo o carro, optou por uma viagem de seis meses pra Austrália, onde vai estudar inglês e experimentar outras experiências culturais. Acho que ele acertou na mosca. E sei que num futuro próximo vai entender que fez a escolha certa.

Quem nunca andou de ônibus, não sabe o que tá perdendo. Em primeiro lugar, não perde tempo e conforto, mas gasta muito mais com seu transporte individual... Quem anda de buzu presencia inúmeros os fatos que acontecem dentro de um coletivo. São oportunidades de curtir algumas paisagens urbanas e conviver rapidamente com pessoas incríveis, que opinam, brigam, se colocam, dormem, namoram. Pelo menos nesse espaço mínimo elas podem se manifestar e são ouvidas, às vezes aplaudidas, às vezes vaiadas. O coletivo é coletivo quase sempre nas atitudes. Tenho a paciência necessária para usar esse transporte. E mesmo as situações mais estapafúrdias, costumo encarar com um pouco de tolerância, e fica engraçado . Outro dia ouvi de uma menininha que indagava: “mãe como é que o ônibus sabe pra onde a gente vai?” O Reinaldo, nosso pedreiro, diz que no ônibus das cinco da matina é barra pesada, pudera diz ele, imagina empregada doméstica e pedreiro juntos...

Figurinha carimbada da paisagem urbana
Nada a ver...
 Eu, só tenho um cartão, o Cartão de Transporte. Todas as vezes que ouço dizer cartão de transporte, um companheiro inseparável de meus documentos, me lembro do Émerson, colega e amigo, que trabalhou como motorista lá no Diário de Cuiabá. Um sujeito muito bem humorado. Humor, diga-se de passagem, não falta na redação daquele jornal. Vivemos duros, quebrados, devendo... e felizes.

Pois é, mas o Salada (o Émerson), certa vez foi levar um jornalista para uma pauta no aeroporto. Andando por lá, enquanto aguardava, Salada foi abordado por uma mocinha que vendia assinatura de revistas.  Ele se sentiu importante e se achegou na “mina”, quando esta lhe pergunta: “O senhor quer fazer assinatura de alguma revista... Com qual cartão o senhor trabalha?” Salada nem pestanejou: “Com o CT”. A moça se espantou um pouco e quis saber. “Que cartão é esse?”. E ele sacou do bolso o cartão de transporte, CT, aquele mesmo que nos leva pra tudo quanto é lugar, mas que às vezes demora um pouco, porque o buzu atrasa, ou de vez em quando quebra. Então é isso, gente boa. Chegamos a mais um ponto final aqui no Tyrannus.

CT e eu




sábado, 5 de março de 2011


De bobeira
Um blog acaba criando sua própria personalidade. Independente de quem escreve nele. As postagens vão se sucedendo e a coisa vai crescendo. Mas aqui há uma certa dupla personalidade, já que  cada novo texto, parte sempre desta dupla: Lorenzo e/ou Fátima. E, sabe, nem tudo é perfeito. Tem dias que um tá assim e o outro assado. E tem noites que um vai pra Marte e outro pra Vênus. Daí entra em ação um personagem, o Tyrannus Melancholicus, para botar ordem na casa. Você não acredita? Olha, estamos em pleno carnaval, e chip chip, nhec nhec por que isso aqui é também uma espécie de samba do crioulo doido. E tinha que cair justamente neste sábado de carnaval a postagem deste texto, que é especial aqui pra este Tyrannus, que é o de número 100!!!!!! “Olha o Tyrannus na avenida aí geeennteeee....



Carnaval dos idos 1974, no clube Dom Bosco. Ache a dupla
 A viagem do casal à Europa em setembro de 2010, foi o mote para gerar o Tyrannus, um espaço pra informar e compartilhar com a velocidade tecnológica destes tempos, aos parentes e amigos, o que vivenciavam lá no Velho Mundo.  Antes da saída de Cuiabá me apresentei publicamente.


Deu trabalho lá nas Europas, a internet nem sempre é uma maravilha e pra complicar de repente, num percalço inexplicável, fui “retirado do ar”, por 15 dias. Ficamos os três, frustrados. Depois, sem mais nem menos, voltei. Mais trabalho... informar que voltamos. 


Aqui e Dali
No retorno da viagem poupou-nos e aos amigos e parentes as longas apresentações chatas de fotos de viagem. Situação muito cobrada, mas que não é bem a cara do casal, fazer reuniões pra mostrar fotos, com olhinhos brilhando e cúmplices. A quem fez o pedido foi avisado: é só entrar no Tyrannus lá estão registrados as fotos e textos escolhidos e, às vezes encenadas, especialmente.

Isso aqui é um reality show para os dois, que se expõem, porque querem. Opiniões, angústias, alegrias... estão aqui. Eles dizem que não ter receio de pedras no telhado de vidro. Seguidores, amigos, leitores têm se mostrado extremamente gentis, carinhosos, interessados e incentivam.

Neuras com a internet no véio mundo

Agora, acho que eles precisam melhorar o trato da informação. Por exemplo: Lorenzo é factual, apesar de não gostar muito do rótulo. Mas é um vício a ser abandonado. E aqui sente-se liberto das amarras do jornalismo formal e convencional. Já a Fátima, sem experiência nessa de comunicação rotineira, deslancha num romantismo melado, que também deve ser contido. Mas aqui chuta o balde das neuras técnicas, pela liberdade de produzir sua própria história. E eu, Tyrannus, tenho que agüentar esses dois. 

Sempre grilado


Manhas e artimanhas
O blog tem sido autoral, sem essa de control V, control C. Nas ilustrações eles também fazem o possível para não piratear. Produção caseira é regra.  São fotos da TV, fotos de fotos (dizem que vão comprar um scanner) e fotos montadas. As imagens nem sempre são espetaculares em termos de técnicas, mas aí eles vêm com aquela história de foto artística. Têm certa coisas que é difícil pra eu agüentar, mesmo sendo o alterego deles.

Às vezes perguntam o porquê de um nome tão difícil: Tyrannus Melancholicus, nome científico do Siriri, um passarinho comum. O nome se enquadra perfeitamente na personalidade dos blogueiros. Percebi que às vezes assumem atitudes e comportamento ora de tyrannus ora de melancholicus. Ainda não pintou um momento onde ambos estão sintonizados no mesmo canal. A preocupação é se um dia, simultaneamente, baixar o espírito tyrannus. Aí é guerra, guerra fria na certa.

Apesar de complicados, são simples. Tão simples que são complicados.


Oba!!!! Post # 100!!!!


quarta-feira, 2 de março de 2011


Lugar preferido

Uma notícia atípica correu o mundo, na terça-feira (01/03), durante o jogo de futebol entre o Junior de Barranquila e Desportivo Pereira, em Barranquila, na Colômbia quando o fato aconteceu. Um afoito jogador de futebol chutou (e matou) uma coruja que já estava agonizando, por causa de uma bolada. A violência, coisa comum no futebol desde priscas eras, primeiro sensibilizou a torcida que num uníssono mandou uma tremenda vaia, depois com a repercução internacional e depois desabou na cabeça do Luiz Moreno, atleta do Deportivo Pereira, que levou suspensão, multa e muitas ameaças de morte. Coincidentemente, a ave era mascote do time adversário e nada coincidentemente o time do Luiz Moreno perdia o jogo.

Faltou sabedoria ao atleta


A Colômbia representa 0,1% do território mundial, mas detém 20% da diversidade de aves do planeta. A proteção desse grupo da fauna representa importante fonte de renda para o país, uma vez que os observadores de aves (birdwatching) não medem esforços para conhecer esse paraíso.


Mas futebol e aves andam tem muito a haver. Não é raro vermos ataques de “Quero queros” em jogadores avisados e desavisados. Imagine um jogador chutando um urubu no Rio de Janeiro, ou um gavião e/ou um periquito em São Paulo, o galo em Minas Gerais e por aí vai... No caso da coruja, sua presença alada está associada tradicionalmente com o futebol, pelo menos no Brasil. Um chute certeiro, no lugar onde a coruja dorme, ou faz seu ninho, é um jargão futebolístico.

Ataque ao atacante


Garrincha era um passarinho 
Nomes de pássaros e aves também caem bem como apelidos para jogadores. Neto Coruja e o santificado Garrincha (Troglodytes musculus) são exemplos. E cá pra nós, francamente, dá pra esquecer a seleção canarinho?    

Olha, a triste notícia comoveu a equipe do blog. É que os bípedes emplumados são um tema quase diário aqui em casa.  Começa pelo bairro onde moramos, Recanto dos Pássaros; passa pelo meu sobrenome (Falcão); por um dos objetos de estudo da Fátima, a ornitologia; e deságua no Tyrannus Melancholicus, título que a gente escolheu, no estalo, para este cyber espaço.


Odiado pelos goleiros

E chega, tá na hora de fechar a conversa. Porque o tempo urge. E vai passando, passando, passando e daqui a pouco, os passarinhos, que não devem nada a ninguém, começam a sua cantoria cotidiana anunciando um novo dia. Você bem sabe, né:

Bateu asas e voou
“Todos
estes
que aí
estão
atravancando
meu
caminho,
eles passarão...
eu passarinho!”  
(Mário Quintana)

terça-feira, 1 de março de 2011


Madona e Sting
O ato tornou-se hábito; o hábito tornou-se rotina que durou muitos e muitos anos: era só ele chegar, postar os dois pés sobre o tapete da porta de entrada e lá vinha ela. Bem de mansinho enroscava-se e esfregava-se em suas pernas. Após essa lânguida declaração de amor... botava suas garras de fora e num movimento sincronizado arranhava seus sapatos num rec, rec, rec, rec... Isso durava alguns  segundos, tempo suficiente para ele abrir a porta, entrar, e ela junto.

Tyrannus e Madona
 Madona era uma gata especial. A primeira vez que nossos olhares se cruzaram soubemos que era um caso de amor. E assim ela entrou em nossas vidas e em nossa casa onde desfilava com elegância, delicadeza e silenciosamente, como uma lady. Não sabíamos, porém o que o futuro nos aguardava.  No primeiro cio, a lady virou uma louca, completamente desvairada. No meio da noite, miava andando pela casa que estava trancada, pulava na grade da janela gritando e clamando por sexo. Não agüentamos tamanho sofrimento: nós e ela. Saímos em busca de um macho para aplacar seu fogo. Assim o Sting entrou em cena e foi seu companheiro de muitos anos. Éramos cinco: um casal humano, um casal felino e um cachorro sem raça definida, o Shulin, sobre o qual falaremos mais abaixo.  
Sting, apesar de jovem deu conta do recado. Foram inúmeras crias. Sting estava sempre pronto para Madona, que era uma parideira nata e para um bando de gatas vagabundas, de nossa vizinhança. Dos filhos do casal, conviveu conosco Neguinha, a magrelinha, e seu filho Fígaro, o belo.

Neguinha, magrelinha

Vítor e Fígaro
 Vimos Madona envelhecer e esmaecer... Perder os longos pelos prateados e silenciosamente morrer. Assim se foi, como uma dama que nunca deixou de ser. Sting desapareceu, nunca mais deu notícias.
Neguinha era de arrepiar. Magra, quase seca, não ligava pra ninguém. Nunca gostou, nem deu ou deixou receber carinhos. Quando teve sua primeira cria saiu arrastando o rebento, preso pelo cordão umbilical. Madona, claro foi ao seu socorro e criou como seu, o filho de Neguinha. No final da vida, deu-se uma reviravolta, Neguinha se aproximou, tornou-se amiga e gentil, mas o destino lhe reservava uma morte trágica! Um cão traidor a pegou pelas costas e quebrou sua coluna. Como sofreu a nossa querida. Lorenzo aos prantos levou-a até o veterinário e lá foi submetida à eutanásia. Fígaro, filho de Neguinha, passou sua vida nas nuvens, rejeitado pela mãe ao nascer, tornou-se, graças a sua extrema beleza, um exacerbado narcisista, onde só existia seu Eu. Talvez pela rejeição da primeira fêmea que conheceu não foi muito dado ao jogo do sexo.
Depois, numa viagem ao Pantanal, na comunidade de Pirizal, trouxemos conosco o Flic, talvez o maior amigo do Lorenzo. Dessa amizade rolou uma simbiose das mais complexas que já vi. Trocaram jeitos e trejeitos, mutação mútua, foram ficando cada vez mais parecidos, viraram gêmeos, idênticos, univitelinos, quase siameses. Um dia, Lorenzo mudou sua rotina, Flic não aceitou e foi embora. Acho que voltou para o Pantanal, alongou. Deve ter virado um gato mundéu. De Campo Grande veio Yuri, de ônibus, e seu nome foi homenagem a Yuri Gagarin. Amigão do Vítor. Ah! Beladona! Ah! Hanny Baby. Gatas, muito gatas mesmos, de abalar quarteirões.
O minha Hanny Baby

Hanny e Mila, Flic e Bibi

Hoje, dividimos o mesmo teto, a mesma cadeira, o mesmo sofá, às vezes a mesma cama com Nikita, minha melhor amiga, companheira fiel de todas as horas, e Zé Preto, homenagem ao Chico Amorim, nosso compadre. Gato mandão, só aparece para cobrar e pedir comida. Pensa que somos um fast food, para gatos. Ah, teve o Coquinho, mas é uma outra história. Mereceu até uma crônica do Lorenzo (http://agoraquando.blogspot.com/2007/12/morte-de-coquinho_15.html).

Nikita, companheira  

Zé Preto, gato pidonço
Aqui jaz Coquinho
Entremeados aos felinos, os canídeos. Shulin, o nosso primogênito. Era um filhotinho de rua que apareceu assustado e todo estropiado.  Shulin teve um futuro brilhante, tornando-se famoso ator de teatro. Trabalhou conosco na peça “O Capote”, foi aplaudido em cena aberta no Teatro Universitário da UFMT. Impressionante seu talento e profissionalismo. Ficava amarradinho nas coxias esperando sua hora de entrar em cena. Fazia o papel do lobo Capeto, companheiro do Fantasma da HQ. Um dia desvencilhou-se das amarras e entrou em cena antes da hora. Num improviso, Fátima que estava em cena, o retirou. A platéia não gostou.
Melancholicus e Shulin
Shulin teve um conflito sério com o Lorenzo e saiu de casa. Com o tempo, as mágoas foram esquecidas e Shulin voltou. Não me esqueço do dia de sua partida. Estava numa fila de banco e recebi a notícia pelo celular. Incontrolável, chorei sem vergonha de demonstrar meu sofrimento.
Muito tempo depois veio o Rex, um doberman marron escuro, que com os atributos que lhe foram geneticamente repassados tornar-se-ia um top model fácil, fácil: alto, magérrimo e olhos esverdeados, um verdadeiro Apolo. Jogava futebol com a criançada na rua. Mas preferiu a vida no campo. Foi morar numa chácara, com rio e espaço para correr. Morreu atropelado na rodovia Cuiabá-Chapada dos Guimarães. Depois veio um anjo negro, Scot, um salsicha, doce como mel. Obediente, nos acompanhava a todos os lugares do nosso bairro, por causa de sua esmerada educação nunca foi proibido de entrar em nenhum lugar. Pobre Scot, veio a falecer por problemas cardíacos. E, finalmente Totó, um cão no sentido irrestrito da palavra. Foi a primeira vez que desfizemos de um companheiro, ele era terrível. Foi morar com a família do nosso pedreiro que logo recebeu ultimato de sua esposa: ou eu ou ele! Não deu outra, Totó foi para a casa de um vizinho. Dizem, que numa noite matou todas suas galinhas. Às vezes pergunto pro Reinaldo, pra saber notícias de Totó. Ele diz que ele deve estar perto de Rondonópolis, destruindo lares e passando de casa em casa.

Rex, o belo

Scot, o bom

Totó, o mau
Conviveu conosco, mas em sua própria casa, um jabuti (minha casa, minha vida), chamado Velô, homenagem a Caetano Veloso. Um ser na dele. Sumia por meses no nosso quintal, nunca vi nada igual. Numa das vezes que resolvemos fazer um “puxadinho” em casa, uns pedreiros sem coração passaram verniz no casco de Velô. Eu achei que até ficou bonito, mas o Lorenzo ficou indignado com os putos dos pedreiros.
Tivemos ainda um aquário com diversas espécies de peixes ornamentais. Engraçado... Nesse aquário, nossos gatos saciavam a sede. Nunca soubemos de nenhum caso de assassinato ou homicídio, mas não duvido das reais intenções desses que nunca, apesar da aparência e comportamento, perderam o instinto selvagem.
Quando nossos rebentos chegaram (Bibi e Vítor, hoje com 22 e 19 anos, respectivamente) iniciou-se uma segunda etapa de relações mal e bem resolvidas. Sting, por exemplo, quase morreu de ciúmes de Beatriz, perdeu peso e pelos. Ele foi proibido de ficar dentro de casa. De tão fraco, o veterinário recomendou o uso de anabolizantes, para salvar sua vida em perigo. Já o Vitor despertou paixão paternal/maternal dos gatos e cães. O Yuri fazia concentrado, a higiene no Vitor como se fora seu filhote. 

Entre gatos
Nesse texto estou sempre dizendo que tivemos, morou conosco, escolhemos... Mas, na verdade acreditamos que fomos escolhidos por estes seres maravilhosos, não o contrário. Temos certeza que nos foi dada a oportunidade de compartilhar momentos maravilhosos. Um amor plenamente correspondido.
Nossos bichos queridos que morreram em casa estão enterrados no nosso quintal ou nosso pretenso jardim, os outros estão em nossas mais doces e ternas recordações. Tenho a impressão de que suas almazinhas estão, cada uma, no seu cantinho preferido, nos olhando, ronronando, esfregando, abanando o rabo e enrolando-se em nossas pernas, esperando chegar o momento de abrir a porta da sala, para arranhar nossos sapatos, mais uma vez. Deixaram muitas saudades e várias fotos. No Tyrannus, que também é um bicho, cabe a demonstração do nosso carinho por todos eles. 





segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011


Dior bancando o Oscar
“Hollywood hollywood, comigo ninguém pude”, dizia Chico Amorim quando entrenós. E cá estamos para falar sobre as estatuetas mais cobiçadas. Depois de assistir “Bravura Indômita” no início da noite, corremos pra casa pra acompanhar a famosa cerimônia. Particularmente, prefiro outros festivais, onde o cinema parece prezar mais a questão da arte, como Cannes, Veneza e Berlim. Mas cinema também é business, e aí, meu caro, não tem como não dar o braço a torcer. Dá-lhe Oscar!

O velho e quebrado Kirk



E o vento não levou...

A gente ficou grudado na TNT e flagrando o que foi possível. Rindo, quando dava, daquelas piadinhas americanas que às vezes são de doer.  A entrega do Oscar em sua 83ª edição foi mais enxuta. Astros e estrelas que dão sopa na platéia de notáveis, não foram tão televisionados e muito “papagaio de pirata”. Os “the Best” deram o ar da graça anunciando os vencedores e/ou participando da cerimônia de alguma forma e/ou em comerciais.


Na medida em que as estatuetas iam sendo entregues, fui me decepcionando, já que alguns dos filmes que assisti e curti, como “Bravura Indômita”, “A Rede Social”, “127 Horas” (que baixamos pela internet e vimos na telinha)  e o maravilhoso “Cisne Negro”;  foram ficando pra trás, até a divulgação dos últimos quatro prêmios (melhor filme, diretor, ator e atriz), perdendo para “A Origem”, filme que eu nem quis assistir quando passou por aqui. Eu prefiro o cinema mais centrado na carne e no osso, no drama, na força do personagem e no talento da direção; do que nas engenhocas e parafernálias tecnológicas. Tudo bem que luz, câmera e ação definem a sétima arte, mas, sem querer trocadilhar e já o fazendo, a origem da coisa é a inventividade humana em cena (dirigindo ou atuando), e não botões, bits, chips e toda essa vastidão virtual.

Bom, antes da entrega do quarteto de estatuetas fundamentais (filme, direção, ator e atriz), dos filmes para os quais eu torcia, apenas “A Rede Social”, que achei o mais fraquinho dos que assisti, se destacava em relação ao número de prêmios. Tinha três Oscar (roteiro adaptado, trilha e montagem), contra quatro de “A Origem” (efeitos visuais, fotografia, edição de som e mixagem de som).

Outra decepção e vamos assumir,  “Lixo Extraordinário”, documentário do inspirado Vik Muniz, não ter faturado aquela que seria a primeira premiação brasileira nessa história de Oscar.   


Vik do Brasil


O Oscar tem tipo algumas cartas marcadas. Na entrega do prêmio de melhor ator, por exemplo, ficava difícil imaginar que James Franco, indicado por “127 horas”, e apresentador do Oscar, teria alguma chance. Sabe, ele já estava por ali, nos bastidores.  E Jeff Bridges, que ganhou ano passado como melhor ator, dificilmente venceria novamente, apesar de estar estupendo em “Bravura Indômita”.  E olha que ele interpretou um personagem onde John Wayne venceu o seu único Oscar, em 1969.

Melhor Direção = O Discurso do Rei
Melhor Atriz = Natalie
Melhor Ator = Colin 

  No frigir dos ovos, recuperando-se na reta final e conquistando prêmios importantes, “O Discurso do Rei” faturou quatro Oscar (filme, diretor,ator,roteiro original), empatando com “A Origem”.  Mas pesam mais as estatuetas do Discurso. E na minha avaliação, o Oscar continua cumprindo tabela como baluarte da indústria do cinema. Um único prêmio para “Cisne Negro”, sinceramente, é algo injusto.





quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

São Paulo. Formigueiro humano e mobilidade urbana quase insustentável. Nem por isso deixa de ser uma cidade deliciosa. Pelo menos pra passar uns dias... Quando me pergunto se gostaria de morar lá, viver e trabalhar numa das cidades mais cosmopolitas do mundo, a resposta que me vem à cabeça é um grande ponto de interrogação. É o que eu sinto. Mas se puxar pelo meu lado mais racional, não há como negar que essa mudança seria, talvez, nesta altura dos acontecimentos, a reviravolta mais espetacular de minha vida. Antes que minha falta de coragem pra jogar-me no mundo fique por demais aparente, passemos ao parágrafo seguinte.


Impressão de Haroldo de Campos
Minhas impressões digitais em torno desse lugar são concretas. E impessoais. Caminho pelas ruas, avenidas, praças, viadutos, points culturais e sou absolutamente um anônimo a mais. As surpresas e novidades estão por todas as partes por onde passo e/ou chego. Indecisões em torno de qual o programa cultural farei espreitam meu poder seletivo que se anula diante de tantíssimas opções. Fico com medo de não otimizar o suficiente os poucos dias que passo na cidade.


Pela segunda vez acompanho o lançamento de novos editais do “Rumos”, programa de apoio e incentivo à cultura brasileira, do Itaú, que já completa 14 anos. A convite da instituição financeira. Jornalistas de ponta a ponta do Brasil são recebidos carinhosamente. Entre eles, este sujeito aqui do Tyrannus.  


Mr. Corporation



Agnaldo Farias e sua careca iluminada
 Papo cabeça


Só a programação que o Itaú Cultural oferece já me serviria. Um pocket show com a banda maranhense Criolina, tendo participação de atores clowns da Confraria do Absurdo, na cerimônia de lançamento dos editais, já estaria de bom tamanho. A exposição modernosa da torno da obra do concretista Haroldo de Campos são, digamos, prata da casa. Presencio como convidado especial essas duas opções.


Nada de concreto

Converso bastante com colegas, jornalistas culturais, que vieram de todas as regiões do Brasil. Muita informação em tempo exíguo. O “Rumos” proporciona troca de experiências entre nós comunicadores, mas, muito mais do que isso, uma visibilidade incrível da diversidade cultural deste país.  Os editais lançados privilegiam áreas como Artes Visuais; Educação, Cultura e Arte e Jornalismo Cultural. Para pleitear a participação o passo inicial é conferir a íntegra dos editais, disponíveis no site www.itaucultural.org.br/rumos. Na dura vida dos profissionais que militam na cultura, quem se dá bem nesta iniciativa torna-se um “artista com rumo”.
Pocket show


Além dessa overdose programada, arrisco uma matinê para assistir um filme que talvez nem venha pra Cuiabá, “Tetro”, o último de um grande ídolo meu. Filmado em Buenos Aires; com as sutilezas do tango; fotografia estonteante, oscilando entre cores e preto e branco; apelo dramático de arrepiar e da atriz Carmen Maura, até parece coisa de Almodóvar. Mas não é mesmo!!! É o talento exuberante de Francis Ford Coppola que se renova.


E acabou-se o que era doce. São Paulo, como sempre, me deixou saudades. Sabe... Eu gosto muito de Cuiabá. Mas é impossível ignorar a grandiosidade da completa tradução que é a (ex) terra da garoa.


Pensão macsud


Anônimo, que nem eu