terça-feira, 23 de agosto de 2011

Dordóio

“Esse minino tá co dordóio. Lá em casa tem um colírio bão... lavoio”. Agora, remédio bom pra vista, é vista bonita. Um pulo lá pelas bandas do pantanal é coisa tão bela, que o olho da gente chega até a marejar, que nem o olho do tamanduá mirim. Tem mosquito, tem calor, poeira e estrada ruim com solavanco aúfa. Mas é bonito de lascar.

Às vezes dá uma preguiça de encarar essa jornada bucólica. Aí a gente vai mesmo assim. Aqui neste lar de tiranídeos nunca foi registrado um arrependimento após uma volta pelo pantanal. Voltamos sempre renovados e cheios de assuntos que as aves, a passarinhada, os bichos e aqueles répteis gigantes nos contam; tendo como testemunha uma flora peculiar que, nesta época do ano, explode em cores.






Um de nós passou o dia correndo trecho pela imensa planície inundável. Voltou baqueada, de tanto “chacoalhar” na estrada (assim de costela de vaca) e da poeira sem fim. Trouxe estas fotos que compartilhamos com nossos visitantes. Eu, que gosto das letras, e de combiná-las com as emoções mais cotidianas, coitado de mim. Dizem que a inveja é falta de competência. Não sei se ainda vou crescer, mas se isso acontecer, quando estiver mais crescido, queria ser que nem Manoel de Barros. Porque aí minhas palavras estariam mais apropriadas para definir o que significa o pantanal.

  

Estamos na melhor época do ano para a visualização da fauna e conhecer um pouco mais sobre seus hábitos. Os jacarés que se amontoam numa languidez explícita. Os cervos assustados e esbanjando ligeirezas. Os animais dóceis como o quati e a capivara nem se avexam com os olhares humanos.





As poses semióticas do tuiuiú altaneiro em seu ninho com a cria. O pequeno martim-pescador de beira na fiação, entre um mergulho e outro. O mundaréu de aguapés nos rios e corixos e a floração generosa. Essa plástica do visual pantaneiro parece coisa de outro mundo. Quanta lindeza e perfeição é este show de imagens.




E quando você já se achegou nesse ambiente sublime, quando já está embevecido pela riqueza à qual suas retinas foram expostas e parece que já experimentou a plenitude mágica do lugar... é porque só estava faltando um dedo de prosa, uma conversinha simples com quem conhece e vive no e do lugar, num exercício raro de harmonia e de respeito com as coisas deste mundo.      
Gláucia Seixas, D. Zelia (pantaneira) e Gabriela Priante


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Vereda Tropical


Adir Sodré é vidrado em melancia
Melancia é coisa do demo. Ô fruta danada pra se envolver numas histórias escabrosas. Qual gordinho(a) nunca foi melancia. Agora é sinônimo de mulher gostosa (ou melhor, bunduda).

Uiuiui... aiaiai... Melancia é o mel. Quer aparecer? Pendura uma no pescoço e sai por aí. Fruta grande. Generosa e farta. Existe uma conversa ridícula, meio machista, que compara a melancia com mulher bonita: não é coisa que se come sozinho. Na novela Roque Santeiro, Sinhozinho Malta referia-se ao vigário como padre melancia: verde por fora e vermelho por dentro.
 

Melancia (Citrullus lanatus) é o nome da planta da família das Curcubitáceas e do seu fruto. Sua origem é africana. Veio para o Brasil com os negros escravizados.

Na medicina popular tem vários usos para diversas aplicações .Em 2008, ficou famosa, a Universidade do Texas desenvolveu estudos comprovando que a melancia tem componentes similares aos do Viagra, e que seu consumo pode dar aquele plus que estiver faltando. Olha, só que a substância que faz a tal da "endurecencia" tá na parte branca, que quase ninguém come. A universidade passou a estudar agora um jeito dessa substância migrar para parte vermelha, mais apreciada.


Olhar melan...cia
E vamos de melancia. Porque? Outra metade aqui do Tyrannus já reivindicou escrever sobre o pepino, banana, cenoura etc... Pera uva maçã. Isso aqui vai virar uma freira... Feira, gente. Foi mal. Então, mas o problema da melancia aqui é ressurgente. Sempre quis escrever sobre essa frutona voluptuosa e cadeiruda.

 
Data de minha remota infância um primeiro registro significativo na minha memória em torno dessa baita fruta. Eu e minhas experiências rurais num sítio na região de Livramento. Já molecote, com uns seis anos, costumava acompanhar meu avô, Bento Pires de Miranda, quando ele ia na roça. Para chegar na plantação atravessávamos um pequeno córrego e antes de percorrer a roça, a primeira providência era escolher uma bela melancia e colocá-la num poço do corguinho. Na volta, a gente abria a fruta que já estava fresquinha e se deliciava. Lambaris e piquiras também se deleitavam.
 
Mas o problema da melancia aqui vai além de lembranças da infância. E agrega coisas como a Mulher Melancia. A boazuda mais boazuda destes tempos. Lembrando a loira do tchan, que costumava dizer que seu "talento estava crescendo", é de se esperar que o "talento" da Mulher Melancia não cresça mais. Dizem que quando abunda, não falta, mas abundância também deve ter limites. 


O filme brasileiro, "Contos Eróticos" (1977), dividido em 4 episódios, adaptou uma coletânea de quatro histórias vencedoras do Concurso de Contos Eróticos da extinta Revista Status. O melhor de todos, "Vereda Tropical", dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, colocou o cineasta nas melhores e piores antologias do cinema brasileiro. A história é a de um professor universitário que mantem relações sexuais só com frutas. A sua preferida, claro, é a rechonchuda melancia. Claudio Cavalcânti interpretava o sujeito e estava ótimo. Descolava a sua melancia, alojava-a na garupa de sua bicicleta e tocava pra casa numa euforia daquelas.




 
"Já tentei com melão e abóbora, mas não dá ponto. Tem que ser melancia". Disse ele numa certa altura do filme. Bom, melancia tem cor de carne e é bastante úmida. Liquefaz-se de forma impressionante. Vai dizer que a fruta não tem lá a sua sensualidade.

Invenção de japonês

Mas foi no último final de semana que a melancia nos pegou de jeito, ou melhor sem jeito. O filme chinês (ou taiuanes) de Tsai Ming Liang, "O Sabor da Melancia", foi algo inesperado. Curioso demais pra não mexer conosco. Ainda não o assistimos inteiro, mas já é possível confessar que nunca vimos nada parecido e nunca tínhamos ouvido falar desse diretor. Coisas rápidas que lemos sugerem sua fixação pelo exotismo sexual. Bom, somando o título do filme com a preferência temática do cineasta, já dá pra se ter uma ideia do que rola.

Qué isso?

domingo, 21 de agosto de 2011

Medos Privados em Lugares Públicos



Resnais, em plena forma 
Nada de ir conferir o último Woody Allen, "Meia Noite em Paris" no final de semana. Tentamos ir, principalmente, porque o cineasta judeu não é um artista esgotado. O último, "Vick, Cristina e Barcelona", curtimos bastante. Enquanto não vamos de telão, dá-lhe telinha. "Medos Privados em Lugares Públicos" (2006), do francês Alain Resnais e "Como Festejei o Fim do Mundo" (2006), do romeno Catalin Mitulesco, são as nossas sinceras dicas.



Filmes que têm títulos longos enchem o saco de quem escreve sobre eles. "Medos...", originalmente "Coeurs", no Brasil, bem que poderia ter tido a mesma tradução que em Portugal: "Corações". Mas é show de filme. A impressão que nos passou é a de que ia rolar um filme mais calcado na estética visual impressionante e singular, costurada por seis personagens, cujas estórias se cruzam. O que tem de filme que segue essa trama (ou falta de trama) não está em nenhum gibi. Mas poucos são tão belos como este que Resnais, com quase 90 anos nas costas, realizou. Seu filme posterior, "Ervas Daninhas" (2009), já indicado aqui no blog, também é incrível.





Bom, Resnais parece ter a fórmula da juventude, já que seus filmes recentes retratam com maestria este mundo contemporâneo. Um crítico escreveu que só um cara com cinquenta anos de cinema poderia ter feito algo tão espetacular. É verdade. Às vezes, os críticos, que nem nós aqui do Tyrannus, acertam. O interessante deste "Coeurs" é que a medida que a história avança, os personagens, inicialmente vazios, ganham corpo e se tornam gente como a gente. Resnais é um artista desses que não só entra pra história, como sabe fazer um registro verdadeiro e único, lançando mão da complexa e detalhista arte do cinema.



O trabalho do diretor de fotografia Eric Gautier precisa ser creditado, já que a completude do filme vem muito de sua estética. Gautier já dirigiu a fotografia em outros filmes como "Diários de Motocicleta" e "Na Natureza Selvagem", entre outros. Esse filme foi programado para gravar mas houve um furo e ficamos sem ver e saber o finaldo filme. Uma pena, porque em alguns poucos minutos, o cinema de Resnais pode gerar emoções e surpresas que deixariam qualquer um embasbacado. Mesmo assim, valeu a pena assisti-lo, ainda que incompleto. Ô, se valeu!!!

"Como Festejei o Fim do Mundo" é mais um filme onde a atuação de um garoto rouba a cena, ele interpreta o adorável Lalalilou um dos protagonistas desta obra que explora visões infantis e adolescentes em torno do governo tirano da Romênia. Ele e sua irmã, Eva, contracenam com toda uma comunidade de um bairro simples, enquanto o enredo se desenvolve de forma crítica e cômica. Na filmografia romênia moderna há mais de cinquenta filmes que potencializam olhares jovens, normalmente ingênuos, sobre o nepotismo.




A terna relação entre o garoto e sua irmã permeia o filme inteiro, são aliados nos problemas familiares, coletivos e políticos. Ambos demonstram estar cientes do momento histórico que o país vive e, de uma forma ou de outra, manifestam-se politicamente.


Lali, faz jogo duplo fingi-se admirador Ceaucescu para aproximar-se. A cidade vai receber o tirano, Lali compõe um poema para ele ao mesmo tempo que prepara com seus dois amigos, um plano para eliminar o ditador.






E no dia, ele aparece na TV armado com um estilingue em riste apontado para o seu alvo. Lali está para Ceaucescu, assim como Davi para Golias. Mas o filme de Catalim Mitulescu é muito mais do que essa referência bíblica. Sua riqueza está nos detalhes, na câmera sóbria e retilínea, no desempenho de cada personagem e nas metáfora inteligentes que se sucedem. A cena em que a irmã lê a carta do maninho num transatlântico, em mar aberto é cheia de significados e arrebatadora. Fica fácil chorar. A conquista da liberdade é emocionante.




 

sábado, 20 de agosto de 2011

O corpo é cagueta


O corpo é cagueta, dedo duro, x-9 e por aí vai . É ele quem primeiro nos denuncia quando somos surpreendidos com a boca na botija ou em qualquer outro lugar. O reflexo do corpo, diante do flagrante, pode virar um sestro, aquele cacoete entregador. Os jogadores de futebol quando cometem uma falta, descaradamente, levantam os braços ou apontam para a pelota, sugerindo que foram na bola e não no corpo do adversário que ali jaz, estendido no chão. O futebol, aliás, tem sido um teatro. Jogadores simulam isso e aquilo (o estilo cai cai do Neymar, por exemplo) na tentativa de enganar o árbitro. Um prato cheio para a neurolinguística.

Esses gestos e trejeitos que produzimos quase que mecanicamente diante de situações adversas fazem parte do cotidiano. Conheci um sujeito muito engraçado, o Daniel, excelente profissional que diariamente, ao ver qualquer um dos superiores hierárquicos entrar no recinto de trabalho, defendia-se dizendo: "Não fui eu, não fui eu". O meu sobrinho Luiz Arthur compreende bem um olhar de repreensão, e sai na defesa: "Fiz coisa errada, né"?


O cérebro, com a intenção de proteger seu "senhorio", num milésimo de segundo, dispara composições químicas (endomorfinas, adrenalinas e outras inas) que aceleram o coração, arregalam os olhos, secam a boca, gelam e/ou suam as mãos, as axilas sovaqueiras, os pés, esquentam o rosto, sobe ou some o sangue... tontura... gagueira... e mais uma coleção de sintomas que Deus sabe. E no instante seguinte vêm as frases insólitas...soltas, sem nexo, risinho amarelo. Tá fudido, meu amigo. Tá perdido. Entregue-se de bandeija porque, na verdade, suas reações já te entregaram. Haja performance cênica pra reverter o quadro.

Levante a mão o mentiroso que nunca foi pego em flagrante, saqueando uma lata de biscoito, com as calças na mão (ops), colando numa prova ou praticando qualquer tipo de deslize, seja ele profissional ou não. A expressão milenar "mea culpa" mexe com a gente. É uma grande provação. As ocasiões em que ela cabe são muitas e quando acontecem são desagradáveis, mas, depois, tudo vira piada. Claro que pode resultar numa demissão também, e aí é mais grave.

 


Não querer se acusar, não assumir a culpa, é algo intuitivo. Animalesco, pra deixar mais claro. A Nikita, nossa gatinha supra doméstica, é educadíssima. Mas, vez em quando a flagramos em cima da pia espreitando algum ranguinho, pra dar um sumiço. Ligeiríssima, salta pro chão num triz, com graça e agilidade felinas, e disfarça lambendo as patinhas.



Sabe aquele pecadinho que a gente nunca assume e que vive escamoteando em torno dele? Não tem erro, nem tampouco fica "gelo", uma hora dessas você vai ser pego. E aí, não adianta dizer ao interlocutor descobridor do seu vacilo: "Me erra cara".

Preparar-se é quase que impossivel, mas não custa nada ter algo em mente: uma desculpa deslavada, uma testemunha, um alíbi podem ajudar, mesmo sabendo que a verdade é igual a cortiça e que mentira tem pernas curtas.

Os músicos brasileiros, maioria boas vidas e curtidores das noitadas, sabem tratar o tema. 


"Eu errei, mas sou dono do que faço".
 
"Conheço os seus passos, eu vejo os seus erros"

"Eu não peço desculpa, e nem peço perdão, não, não é minha culpa,
 essa é minha obsessão".

 

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Minha pátria é minha língua


Cena de Língua - Vidas em português
Uma viagem deu num blog. Viagem não dura pra sempre, é preciso voltar e retomar as atividades profissionais. Blog é outra viagem. Entonces, a gente continuou viajandões. Esse mundão desporteirado, cada dia mais virtual, tem nos tragado e nos absorvido. Claro que também nos divertido. E continuamos.

Blog é exercício diário de comunicação. Nele cabem todos os tipos de conversas: tem daquelas pra boi dormir, conversa mole, fiada, conversa de pé de orelha (?), conversa tipo papo cabeça e por aí vai que vai. Blog é língua. Nossa língua traduz vidas em português. "Língua - Vidas em Português" é o filme em cartaz no próximo sábado (20/08) no Cineclube Coxiponés. Às 18h, sessão gratuita e pipoca também. Fica na UFMT, próximo ao Museu de Arte e Cultura Popular.


Por muitos anos o Coxiponés foi o único cinema de Cuiabá. Ele ofereceu os mais finos biscoitos da época, formou uma geração e cremos que continua a missão. Naqueles tempos, cineastas como Ingmar Bergman, Fellini e Werner Herzog eram ícones do cinema. E o cineclube disponibilizava obras desses caras. O Coxiponés, justiça seja feita, foi um point cultural descolado e frequentado pela elite intelectual de outras eras. É o mais antigo cineclube de Mato Grosso. Ainda resiste e continua sendo o point do cinema não comercial. Falar sobre o Coxiponés é pauta cabível aqui.

O sétimo selo, de Bergman 
  
Noites de Cabíria, de Fellini
 Sugerir essa co-produção Brasil/Portugal de 2004, de Victor Lopes, vale a pena. O filme foi produzido em países como Moçambique, Índia, França e Japão, sempre explorando a lusofonia. Estima-se que 200 milhões de pessoas falam português no planeta.

Saramago, línguas em português


João Ubaldo e Cia.
Traz depoimentos de artistas como Mia Couto, Saramago, João Ubaldo Ribeiro e até Martinho da Vila, entre outros famosos e não famosos. Às vezes engraçado, às vezes documental, emocional; "Línguas..." é um filme, no mínimo curioso. Algumas de suas passagens estão cravadas em minha memória, como o Saramago grunhindo, para explicar algo como a decadência da língua portuguesa, ou um grupo de alunos em processo de alfabetização, em algum país da África, repetindo em coro as lições.
 
Já que o assunto é cinema, entra em cartaz nesta sexta nos shoppings da cidade "Meia Noite em Paris". Woody Allen na cabeça. Não custa recomendar. E é isso. 

New Woody
No mais, é lembrar que emplacamos nosso post 200. Ainda não temos pleno domínio em torno do que nos faz escrever, escrever e escrever quase todos os dias. Um dia a gente descobre, se é que isso é tão importante assim. Parece que não. Blog tem mais a ver com espontaneidade e com improviso à flor da pele. Saudações blogueiras.