segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Sala de espera

Êta lugarzinho chato! Acho que na nossa lista de lugares desagradáveis a sala de espera está lá nas grimpas. Sala de espera de médico, dentista, laboratório, advogado, políticos, emprego... ou outra qualquer que seja , é um saco. Elas têm o mesmo clima dos elevadores. Não é engraçado como mudamos nosso comportamento e até a personalidade nessas ocasiões?


 
A sala de espera é pior, porque nossa permanência costuma ser mais longa. Pra amenizar esse tempo perdido em que ficamos enclausurados algumas sofisticações são disponibilizadas: revistas velhas e surradas (Quem, Caras, Veja e revistas técnicas chatas). Água gelada, cafezinho ruim, TV’s de plasma, led... sei lá mais o quê. Detalhe: em algumas TVs a programação repete de cinco em cinco minutos, o dia todo, em outras, quando tem uma programação legal, a maioria não tem som e nem legenda! Pra que?
Essa dupla na sala de espera... Deus me livre 
A decoração, merece um parágrafo a parte, quadros meramente decorativos, sem o menor critério artístico; ou reproduções baratas. É comum a cena com cavalos correndo, paisagens com casas à beira de lago, naturezas mortas etc..., em veludo negro, aí á é demais.
 
Paciência... Esperar é a sina do homem moderno. Esperaramos por tudo e por todos: fila de banco, a internet que é lenta, o telefone ocupado, a comida que não fica pronta, o pagamento do mês, o décimo no final do ano, uma grana pra viajar, pra comprar algo... Não tem jeito.
 
Sala de espera é pior. É chato. Em sala de espera de médico, tá todo mundo com aquela cara que tá maus (se você não tiver, faça-a. Pois alguém pode aproveitar e passar na sua frente). No dentista é aquele barulhinho do motor que incomoda. No urologista, já sabe, nada de sair de cara feliz, abaixe a cabeça e passe reto. E lembre-se de que você foi lá para o médico pegar no seu pau, mas ele te convence e enfia o dedo no seu rabo. Bom, quem tem próstata, deve saber dos cuidados que se deve ter com ela.



 
Iniciar uma conversa é a outra coisa chata e costuma ser muito sem graaaaça. Basta um intervalo um pouco maior pra responder ou perguntar e todo seu esforço não serviu de nada. A conversa acaba, sem o fio da meada. Não há como recomeçar. Agora quando engata uma conversa boa, pode saber que vai ser interrompida pelo aviso chato da recepcionista, que sempre quer mais um documento ou pra informar que a sua vez de ser atendido chegou. O pior de tudo é quando você espera a sua vez e aí chega aquele sujeito, representante de laboratório, normalmente com uma pasta e entra na sua frente. Esse sujeito geralmente é um chato.
 
Putz, esperar para ser atendido/recebido por um deputado, secretário estado ou qualquer outra autoridade é de matar. Aí, a sala de espera passa a ser sinônimo de chá de cadeira. Sem contar que, quando você está numa situação dessa, as chances de ser enrolado e de nada ser resolvido, são grandes. Seu assunto ou problema acaba ficando para mais tarde ou para o depois do depois.


 
Outra coisa chata é criança em sala de espera. Aquelas que estão dodói partem o coração de qualquer cristão. Impossível não se sensibilizar com os olhinhos derrubadinhos, o corpo molinho e com o sorrisinho de quando em vez. Mas, aqueles pirralhos que só vão para acompanhar, porque muito provavelmente ninguém em sã consciência quis ficar com o pestinha, esses merecem ajoelhar no milho ou ficar de cara para a parede pelo menos uma duas horas. Essas criaturinhas costumam chegar quietinhos, tímidos e vão pegando corda e corda. De um momento para outro estão gritando, correndo, rasgando revista, brigando com a mãe, acabando com a água do filtro. Pais de filhos assim e filhos assim, também são chatos.

Uma sala de espera é um verdadeiro teste para a paciência, resignação, boa vontade e outras qualidades que desenvolvemos para aguentar a chatice, inclusive a nossa própria. Enquando esperamos a sensação é de tempo perdido, sentimos cada grão de areia da ampulheta cair sobre nossas cabeças. O remédio é um bom livro, um celular com internet, um ipad ou ipod que podem atenuar a espera em uma sala de espera. Se não tiver nada aproveita pra queimar uma pestana. Só toma cuidado pra não perder a vez!


domingo, 7 de agosto de 2011

Falando de cinema

Três filmes dignos chamaram a atenção em nosso pacato final de semana. No aconchego do lar curtimos duas histórias centradas na força de personagens e uma outra que explora um contexto histórico. Uma produção americana, uma francesa e outra romena. Curiosamente (ou não), o filme produzido pela Romênia foi o que mais agradou. Sabe como é: o cinema americano e o francês são velhos conhecidos, mas, se você pedir pra citar pelo menos um filme romeno... xiiii. Vou ter que consultar o google.
 
"O Desinformante" (2009), de Steve Soderbergh - ainda tenho esperanças de que ele faça algo melhor do que "Sexo, Mentiras & Videotape" (1989), filme que o projetou. Não que considere ruins seus filmes, mas é que esse citado me parece muito melhor. Oriundo do cinema independente americano, Soderbergh parece que perdeu um pouco a mão quando aceitou Hollywood em nome de Je$u$. Suas produções costumam ser esmeradíssimas, mas a impressão é de faltar algo.
 
Neste Desinformante ele tem um aliado ferrenho pra vender seu bom peixe. O ator Matt Damon está impecável como sempre, na pele de um pacato pai de família que consegue engambelar a tudo e a todos, fazendo-se de vítima e, ao mesmo tempo, aplicando desfalques consideráveis. O FBI e o poderoso mundo corporativo (que já foi mais poderoso) americano são achincalhados nesta comédia de riso difícil.



Seria injusto não mencionar, também como aliada importante, a ótima trilha sonora, de Marvim Hamlisch, que dá o tom da comédia e acrescenta muito ao clima do filme. Essas histórias de investigações do FBI, de espíonagem indústria, de batalhas judiciais etc são cheias de detalhes e é complicado entender tudinho. Aí entra a música salvadora de Hamlisch e o impressionante trabalho de Matt Damon. Baseado em fatos reais, O Desinformante é um filme inteligente e engraçado, na medida do possível. Nos divertimos.

 
Claude Chabrol, ao lado de cineastas como Godard e Truffaut, é um dos fundadores da Nouvelle Vague, movimento surgido no cinema francês no final dos anos 50. "A Dama de Honra" (2004) é um dos seus últimos filmes. Ele se mandou em setembro do ano passado, mas deixou pelo menos uns 50 filmes. O conjunto de sua obra é muito consistente e merece ser apreciado por quem gosta do cinema um pouco além do jardim (da infância).



Na história, uma família francesa classe média baixa está às voltas com o casamento de uma das filhas. É aí que entra a dama de honra, aquela mesma que vai despirocar o primogênito dessa família protagonista, que luta para se manter dentro da normalidade. A tal dama é excêntrica demais e acredita, por exemplo, que pra se realizar na vida, todos nós temos que escrever um poema, plantar uma árvore (até aí tudo bem), transar com alguém do mesmo sexo e matar alguém. E essa sujeita vai amarrar o coração do primogênito da família. Se eu disser algo mais do que isso, não conseguirei me conter e conto o filme inteiro. Tem gente que não gosta de saber o final. Eu vou dizer, apenas: Gostamos. Passemos agora à grande surpresa do final de semana aqui pro Tyrannus. 




Nicolae Ceausescu foi o grande manda chuva da Romênia durante 25 anos. Com apoio do regime soviético, o ditador botava pra quebrar. Um belo dia, caiu, após várias manifestações contrárias ao seu regime espalhadas por cidades romenas. Uma cidade bem discreta, situada "A Leste de Bucareste" (2006), chamada Timisoara, teria ocupado um papel de destaque nesse grande acontecimento político romeno.




E é justamente em torno da participação de um episódio ocorrido nessa cidade que um programa de televisão, de terceira categoria, vai desenvolver um debate, com a presença de pessoas que teriam estado na 'linha de frente' dessa revolução. Um coroa, que trabalhava como Papai Noel, e um professor beberrão, são arguídos ao vivo pelo vaidoso apresentador que não consegue manter o controle. Os telespectadores telefonam e fazem colocações, às vezes, estapafúrdias, noutras até procedentes. E o programa vai se arrastando.



 

E o filme, sem a gente perceber, nos envolvendo mais e mais, com sua simplicidade e inteligência, explorando um humor peculiar, que parece advir do Leste Europeu. Senti alguma coisa do hábil Kusturica neste filme. Não há nenhum nome espetacular integrando o elenco, em nível de cinema mundial, e o diretor é estreante. Fico imaginando quanto teria sido o orçamento deste belo trabalho que bate de dez a zero em tanta babaquice que a gente vê por aí. Este primeiro filme do roteirista e diretor romeno, Corneliu Porumboiu, lhe valeu o prêmio de Melhor Diretor Estreante em Cannes. Filme imperdível! 


Morfeu e Iris (Pierre-Narcisse Guérin)

Ainda tem um restinho de noite e temos chance de sermos surpreendidos pela magia de uma história, apoiada em imagens, luz, música e atuação de atores, antes que "Morfeu" nos abduza para seu mundo.


 

sábado, 6 de agosto de 2011

Um copo d’água eu não lhe dou..."

"Um copo d’água eu não lhe dou..."

O versinho acima é de uma cantiga de roda, que conta a história de Valdomira, a mais linda de três princesas irmãs. O pai trancou-a num quarto e proibiu de dar lhe água. Ela sobe numa torre alta, vê uma das irmãs e lhe pede um copo d’água. A irmã lhe nega, pois seus braços poderão ser cortados pelo pai; Valdomira sai chorando, chorando lágrimas de sangue. Ela sobe numa torre alta, vê a outra irmã e lhe pede um copo d’água. A irmã lhe nega, pois suas pernas poderão ser cortadas pelo pai; Valdomira sai chorando, chorando lágrimas de sangue. Ela sobe numa torre alta, vê a mãe e lhe pede um copo d’água. A mãe lhe nega, pois seu pescoço poderá ser cortado pelo marido; Valdomira sai chorando, chorando lágrimas de sangue. Ela sobe numa torre alta, vê o pai e lhe pede um copo d’água. O pai diz que lhe dará antes, porém chamará três cavalheiros, o primeiro que chegar ganhará a namorada. Os três cavalheiros chegam juntos. Encontram Valdomira morta, foi jurado por três anjinhos e Jesus lhe abre a porta. Triste sina de Valdomira...

Minha mãe dizia que um dos maiores pecado, quase que igual ao pecado original, é ridicar água. Ridicar... pensei até que não existia essa palavra. Existe, é um verbo, antigo pra dedeú, significa egoísmo, mesquinharia.



Uma metáfora, que gosto de imaginar é a de uma "tempestade em copo d’água". A imagem de ondas gigantes, arrebentando nas bordas do copo me faz feliz. Não concordo com as preconizações e interpretações usuais que classificam uma atitude, um pouco mais impetuosa, e segundo experts geralmente por uma "coisa" sem importância, pequena, insignificativa de tempestade em copo d’água. Sem controle? Imagina... controle total de seu frágil barquinho que quase sucumbe no maremoto do mar Vermelho, como as lágrimas de sangue de Valdomira.



Bom de copo. É isso mesmo que pretendemos demonstrar que somos, hoje. Calma, não se trata de uma elegia ao alcoolismo. O copo é só o tema. Dito e bendito isso, explicadíssimo, a memória me transporta logo para uma amiga, comadre, que em noitadas passadas, nos tempos em que a gente entornava mesmo pra valer, chegava a uma altura da noite em que, invariavelmente, lá vinha a indagação dela: "Cadê o meu copo". E o coitado do utensílio ancestral que faz parte das nossas vidas estava bem ali, ao lado dela, comportadinho. Quieto, não importa se vazio ou cheio. Um copo, afinal, é uma coisa tímida. Mas, esbarra nele inadvertida ou bruscamente. Ele reage e faz barulho.


Um corpo que cai... Não, um copo que cai, para um músico contemporâneo, pode até funcionar como inspiração. O vidro que se espatifa tem cheiro, sabor e som de participação especial. É a trilha que trinca. A nota musical indefinível. É solfejo alucinado, louco pra aparecer. Uma espécie de brinde ao acaso.

Copos de plástico ou de alumínio não servem pro nosso post. Não tilintam, não brindam com o rigor da onomatopeia e são imprestáveis para o significado... ‘tin tin’. Enche meu copo que eu tô de saco cheio e preciso do copo também assim. Soca cerveja nele aí, mano. Tô com a boca seca e preciso molhar a palavra.


Enche meu copo, ou o seu e depois faz favor. Vai logo lembrando da música do Gilberto Gil, Copo Vazio. "É sempre bom lembrar / que um copo vazio / está cheio de ar". Letra estranha, com rima esquisita. Eu num tô legal, não aguento mais birita. Mas a poesia do cancioneiro popular combina com licenciosidade poética, com guardanapo e com um copo d’água bem gelado.


Copo é copo. Coisa que cabe no armário da cozinha, na cristaleira e que gosta de descansar no aparador. "Os cacos colados da vida formam um estranho copo / sem uso, ele nos espia do aparador". Fui eu mesmo quem escreveu isso, viu gente. A poesia do Drummond é diferente desses meus versos que acabo de inventar. Em vez de copo, ele usou xícara. Ora, xícara tem asa e copo não tem. Então, é diferente.


Enquanto o tempo passa a gente usa cada vez mais a palavra antigamente era comum nas mesinhas de cabeceira que ficavam ao lado da cama dos mais velhos visualizar um copo d’água com uma dentadura dentro.

 Uma imagem que me persegue faz tempo e que já fiz um poema remetendo a ela e até já a protagonizei aqui no Tyrannus é a de um copo no bolso. Coisa de anatomizar esse objeto que faz parte do meu desejo. Pronto. Por causa desse tema simples e cotidiano, aceitamos a acusação de termos cometido esse crime doloso. Provocar uma tempestade num copo d’água.

Jobim deixa a defesa e Celso Amorim assume a pasta. O "copo encheu" diz lider do governo, (Manchete JB)


sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Meu irmão quer se Matar


Ontem iniciamos assistir e, por estarmos completamente inebriados com a delicadeza das cenas, a interpretação dos atores, morrendo de sono... então...  stop. Amanhã continuamos. Sábia decisão. O filme “Meu Irmão quer se Matar” (2002) é lindo, doce... uma fábula.

Assim assistimos ao filme: enquanto um se debulhava em lágrimas escarrapachada no sofá, outro aqui, nesse mesmo computador, adiantando a vida para amanhã (sexta-feira). Um de olhos inchados e fixos na telinha, o outro pescando um ou outro trecho. Curioso é que Educação também foi assim. A cineasta consegue imprimir uma linguagem tão própria em suas histórias, tão envolvente, que não atrapalha esse negócio de assistir por partes.



Lone Scherfig é dinamarquesa, que tem duas obras em destaque: “Italiano para Principiante” (2000) que lhe valeu um Urso de Ouro no Festival de Berlim, e “Educação” (2009), que recebeu três indicações ao Oscar: Melhor Filme, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Adaptado.


Educação (com Carey Mulligan e Peter Sarsgaard) vimos há alguns meses e agora, graças ao Festival Internacional de Cinema que rola na TV Cultura (a gente grava todos), rolou Meu Irmão quer se Matar. Em ambos a mesma impressão: elegância, delicadeza, simplicidade.

Atuam no filme: Shirlei Henderson (Alice) mais conhecida pelo seu personagem “Murta que Geme”, um fantasma que vive no banheiro choramingando, resmungando e, claro, gemendo, nos filmes de Harry Porter; Jamie Sivens (Wilbur), o suicida; e Adrian Rawlins (Harbour) que também fez umas pontas em Harry Porter, além da atriz garota Lisa Mckinlay, que tem uma interpretação de gente grande.






A história, apesar do título, não tem nada de bizarro. Dois irmãos órfãos cuidam de uma livraria, falida, herdada do pai. O irmão mais novo é um suicida crônico e ácido. O outro é terno e cuidadoso com o irmão, com as pessoas e com os livros que tenta despertar no irmão a vontade de viver, relembrando a infância e o quanto os pais o amavam. Do outro lado, uma mulher triste, solitária, com uma filha, que trabalha desesperadamente para mantê-las. O encontro inevitável, na livraria, desperta o amor simultaneamente correspondido nos quatro personagens, aliás cinco, porque os livros são protagonistas também. E o filme desenvolve nesse ambiente de carinho, afeição, esperança, com seus personagens nos conquistando. Mais que recomendamos.



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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Tudo tem um nome


Tropo
Gente, cidade, bairro, rua, bar, carro, livro, canção, bicho de estimação e mais um mundaréu de coisas vivas e outras inanimadas. Tudo, tudinho da silva, precisa ter um nome. Alguém tem que dar esse nome. Se a nominação for procedente, for algo elaborado e pensado, muito melhor. Se não for, paciência... Acostuma-se com esse nome duvidoso, ou troca-se.  E além do nome, a palavra oficial que remete a aquilo, ainda tem o apelido.


Hoje foi dia de dedetização aqui em casa. Tascou-se o veneno e saímos de casa à tarde, para voltarmos noturnos. No caminho de volta, de carona com amigas vizinhas, viemos conversando sobre a dedetização e nos indagaram sobre o nome da dedetizadora. Cadê que a gente se lembrava. E enquanto conversávamos sobre esse tipo de serviço, sua eficiência e o preço, também imaginávamos a quantidade e as espécies de insetos que encontraríamos envenenados, me veio a cabeça que Dedetizadora Apocalipse seria uma nominação potente para um estabelecimento comercial dessa natureza.


Formigas, baratas, aranhas e talvez até um rato, talvez seriam as vítimas. Tivemos o cuidado de deixar os gatos Nikita e Tropo pra fora da casa. Só pra constar: Tropo é o mais recente habitante deste lar tiranídeo. Escolhemos seu nome ontem, por causa do livro Trapo, que lemos e curtimos demais. O gatinho é agitadíssimo e de Trapo pra Tropo foi um pulo (do gato). Mas vacilamos. Guimba morreu. Era o peixinho que ficava no aquário em nosso banheiro. E vamos a outros nomes.

Gosto de morar num bairro chamado Recanto dos Pássaros. Ora, meu sobrenome é Falcão e a Fátima estudou ecologia de aves. Já fui editor do jornal que tinha aqui no bairro e se chamava Passaredo. Também gosto de morar numa cidade chamada Cuiabá, nome de origem indígena. Se o nome tem um viés histórico ou, pelo menos pitoresco, e remete a algo significativo, é bacana.

Não gostaríamos de morar num lugar chamado Sociedade Imobiliária Noroeste do Paraná, vulgo Sinop.  Muito menos lugares chamados Nova Mutum, Nova Brasilândia, Nova Maringá, Colíder e Colniza. Bairros com nomes importados como Jardim Leblon, Alphaville, Jardim Vitória, Jardim Fortaleza etc, não servem pra gente. Deus me livre, também, de residir num município nominado como Campos de Júlio, ou num bairro intitulado Pedra Noventa. “Sartei de banda” com a politicagem. Não são nada criativos os nomes citados aqui neste parágrafo. Mas que fique bem claro que nada temos contra essas cidades e bairros, muito menos contra as pessoas que ali residem. Vamos em frente.

Outras cidades de MT têm nomes com significados mais apropriados. Há algumas décadas, próximo ao Rio Verde, no médio Norte do estado, tinha um sujeito chamado Lucas, pioneiro da região. Daí surgiu Lucas do Rio Verde. Faz sentido. Apiacás, no Nortão, homenageia os índios, habitantes originais da região. Há um certo reconhecimento nessas nominações. Bairros cuiabanos como Lixeira, Baú e Goiabeira carregam um pouco da história desta cidade. Achamos que vale a pena.

Flores de lixeira
Flores de goiaba

Meu convívio com a ambiência rural cravou coisas curiosas em minha memória. Conheci um cara que não tinha um pedaço de um dedo do pé, que foi mordido por um jacaré. Seu apelido era “Resto de Jacaré”. Lembro-me de um menino que perdeu a mão num acidente e ficou cotó de um dos braços.  O chamávamos de “Braço e meio”. Apelidos, eu diria, politicamente incorretos, mas espontâneos.  Ainda dos meus tempos de guri que vivia por este cerrado de MT, ficou o nome de um espinho de uma gramínea, que era chamado de ”brigabachá”. Naquela vegetação rasteira, quem pisava descalço, era mesmo obrigado a se abaixar para retirar os espinhos. Conheci esse espinho quase que simultaneamente com o besouro “rola bosta”, que eu gostava de apreciar enquanto desenvolvia suas tarefas vitais com a bosta do gado.


Certa vez, viajando para Barra do Garças, ao passar pelo minúsculo município General Carneiro, fiquei reparando nos detalhes do lugarejo. Eis que me deparo com um bar bastante chinfrim, desses de beira de estrada, que tinha em sua fachada com letras sofríveis: Bar Nostravamus.  Aquilo me caiu como uma profecia.
   
Achamos bonito o nome Brasil. Quando os portugueses descobriram isso aqui havia em grande quantidade, na Mata Atlântica, uma árvore chamada pau-brasil. Sua resina era utilizada para tingir tecidos de vermelho e a exploração dessa espécie foi a primeira atividade econômica desenvolvida em nossa terra. Passado todo esse tempo, o pau-brasil está em vias de extinção e a Mata Atlântica... Ah, coitada da Mata Atlântica. Ela está quase acabando. E a nossa conversa, hoje, acaba aqui.





terça-feira, 2 de agosto de 2011

Crise... nuvens brancas passam

Sonho americano (E. Hopper)
Intensificou-se desde a semana passada a queda de braços entre os republicanos e o presidente Obama para contornar a crise no cenário econômico americano. Quem imaginaria um dia ver os poderosos USA, depois da crise de 29, passar por esse perrengue.

Nosso conhecimento sobre economia é pífio, mas nos lembramos que quando o ex-presidente Bush ia ao Congresso e ao Senado pedir aumento no orçamento para combater o terrorismo ou para aumentar o contingente de soldados na sua guerra particular/fictícia, não tinha muito lerolero não. Saía com as burras cheias da verdinha.

Ficamos cá imaginando o legado que esse p... deixou! Algumas situações que são colocadas nos deixam com a pulga atrás da orelha... aumento de impostos para os mais ricos, saúde pública... isso é motivo para embates. Quando o presidente Obama foi pedir bereré para socorrer os bancos e as empresas automobilísticas, o Congresso e o Senado resolveram a questão sem muitas delongas. Disseram que o Obama deveria ter aproveitado a oportunidade para acordar com as empresas automobilísticas o desenvolvimento de protótipos e combustíveis menos poluidores. Deveria, mas comeu mosca!

Ai, a solidão vai acabar comigo
  
We can... but

Tudo isso, pra dizer que as crises são boas, não na hora, e que devemos aprender com elas. Afinal crise, para os gregos, é separar, decidir, julgar, gerando assim possibilidades de escolhas. Em “Tango, um giro estraño”, um tangueiro menciona a crise na Argentina e diz que procurou a definição no dicionário dessa palavra, crise. “Oportunidade de mudança”, encontrou.


 
O planeta se desenvolve através e pela crise. Uma situação clímax mudou o ambiente propiciando a ocupação e desenvolvimento de seres adaptados a esse lugar. Esses novos inquilinos promoveram alterações extremas, em todos os níveis, que levaram a novas mudanças, inclusive, com extinções em massa. Um novo ambiente é formado com novas espécies e também é modificado, exaurido. Um novo clímax se instala, uma nova onda de extinção avança, para uma nova ordem ser instalada.

 Tyranossauro Recse (extinto)

O ser humano também se desenvolve através e por crises. A existencial nos acompanha desde o nascimento até a morte. Pense bem em “penso, logo existo”. Engraçado que entre um extremo e outro, na crise da meia idade, é onde avaliamos o que se sonhou ou planejou como projeto de vida, e o que foi realizado ou que provavelmente nunca será. A sensação é que o melhor aconteceu no passado, e que é “agora ou nada”. É a hora do “Lobo(a) da Estepe”.

Sem crise de identidade: Lobo Guará

O lobo pensador Herman Hesse
O teatrólogo Aderbal Freire Filho comentou que teve muitas crises, principalmente em relação a idade. Disse que quando chegou aos 30 anos teve uma crise e quando chegou aos 40 anos ele viu que com 30 ele era tão jovem, que não precisava ter passado por esse tormento. Aí ele entrou na crise dos 40 e viu, aos 50... assim foi, de crise em crise. Hoje, com 70, não quer mais saber. Ele crê que ao chegar nos 80, vai reconhecer que aos 70, era jovem...

O lobo feliz
Como todo ser humano, passamos e atravessamos diversas e diferentes crises. Na hora H parecia ser o fim do mundo, mas não sabemos dizer como saímos. De algumas saímos ilesos e de outras com cicatrizes, que hoje acalentamos, alheios. Como disse Leminski, “Distraídos venceremos”.

"Nuvens brancas passam em brancas nuvens"
Eu

Eu
Quando olho nos olhos
Sei quando uma pessoa
Está por dentro
Ou por fora

Quem está por fora
Não segura
Um olhar que demora
De dentro de meu centro
Este poema me olha.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Criador da criatura

O criador da criatura
Você tem só 140 caracteres pra se expressar, gente boa. Aproveite e pense bem no que é que vai escrever. Evite encrencas, ou arme o circo... Se o Tyrannus tuitasse e fosse aconselhar alguém sobre como utilizar essa ferramenta reducionista da comunicação, tuitaríamos algo malemazinho assim. Há exatos 140 caracteres na frase inicial deste post, desde o “Você”, até os três pontinhos da reticência.

Nada temos contra escrever com poucas palavras. Sabemos ser curtos e grossos. É até mais fácil do que ser extenso e simpático. Ser muito extenso, por exemplo, não tem muito a ver com simpatia. Não tuitamos. Não usamos dessa brevidade deste mundão moderno digital. E não temos vergonha, por não usar, tampouco, vontade louca de usar. Mas parece divertido.

Eu, como jornalista e editor, vivo às voltas com as orientações do diagramador do caderno que edito. Acostumei-me com essa de “esta legenda precisa de tantos toques, precisamos de um título de outros tantos toques, encomprida isso aqui, reduz aquilo ali”. Jornalismo também é poder de síntese.

As pendengas, broncas, desentendimentos e bate bocas que já tiveram sua origem no tuiter (sim, aportuguesamos a expressão) são uma coisa espetacular. Não sabemos se o tal do Jack Dorsey, americano que criou o tuiter em 2006 imaginava no que é que ia dar isso. Pesquisando na web, achamos que são quatro as perguntas/respostas que devem nortear o conteúdo de uma tuitada: “o que você está fazendo?”, “O que você está vendo?”, “O que você quer fazer” e “O que quer que os outros vejam?”.  Vai um punhado de exibicionismo nessa conversa.  Mas nada impede de se extrapolar esse modelo de conteúdo. O rigor, pra valer, é mesmo apenas no número de toques.
Conselho do "Dead Man" (J. Jarmusch)
Assim disse José Saramago sobre a proposta do tuiter: “Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido”.
  
Bate boca no tuiter:
Luan Santana X Bruno Mazzeo
“Essa fúria toda é só porque eu disse que o Luan Santana era vesgo. Imagina se eu tivesse dito que ele era... enfim, deixa para lá".  

Ver e conferir

Lily Allen X Katie Nicholl
“Katie Nicholl, acho que você é uma p…! Me deixe fora da sua coluna de m...., você não sabe nada sobre os detalhes íntimos de minha vida”.

Verbo rasgado
 Luciano Hulk X Homero Salles
“Agora o Gugu quer se inspirar também no Lata Velha!!! Hahahaha...Ô falta de imaginação!!!! Tem gente que acho que o povo é burro, né não?”
 “Deixa de ser babaca... você dirige um TAXI que o Gugu dirigia e pensa que pode falar dos outros?”

Vou de taxi... copiando até a mulher
Bruna Surfistinha X Evangélicos
“Acabei de chegar da sessão tortura. Acho que vou virar crente para nunca mais precisar sofrer com depilação”.
“Não sabia que tinha tantos seguidores evangélicos e tal. Me desculpe se os ofendi. Eu estava apenas brincando! Simples assim. Fim”

Na onda errada
Marcelo Tas X Diogo Mainardi
“Sobre comentário daquele colunista da Veja, só tenho a dizer uma coisa: inveja de homem é pior que de ex-mulher”.
“Quem paga meu salário é a Veja, homem-sanduíche, e não o anunciante”.

Antatuitada

Sasha, Xuxa X fãs
“Sou eu Sasha. Estou aqui filmando e vai ser um ótimo filme. Tenho que ir... Vou fazer uma sena com a cobra”.
“Pra quem não sabe minha filha foi alfabetizada em inglês, vou pensar muito em colocar ela pra falar com vcs. Ela não merece ouvir certas mer***”.

Ilariariê...ôôô
Rita Lee X Cuiabanos
“Ok seus putos, eu errei no Matogrosso do Sul. Mas o erro maior foi o d vcs por terem nascido. Meu cordial vão sifudê”.

Resposta dos cuiabanos: "Ah! Vá tomá pacu"


Diante de tanta besteira, fico com Clarice Lispector: “Olhe, tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras”.