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domingo, 13 de maio de 2012

As cerimônias de Dicke

                                                          (Foto: M. Vergueiro) 
Mais uma batalha literária vencida neste final de semana. Outro “tijolo” da lavra de Ricardo Dicke ao qual consigo dar cabo. Estava envolvido com “Cerimônias do Sertão” (Carlini e Caniato Editorial-2011) desde setembro do ano passado. Antes de vencer suas 445 páginas, sabe Deus porque, precisei interromper o fluxo da leitura algumas vezes e, inclusive, cheguei a ler livros bem menos volumosos, embora interessantes, de Kasuo Ishiguro e Marcelo Mirisola. Mas, neste final de semana terminei este Cerimônias...




É curioso como esta obra do escritor chapadense muito se assemelha a “Cerimônias do Esquecimento” (Editora da UFMT-1995), outro livro de Dicke. Há personagens e situações idênticas e acho que até alguns trechos são uma coisa só. Um deriva do outro, ou vice-versa, e não tem mais como saber, já que Dicke se mandou deste mundo há quase quatro anos. Minha impressão é que Cerimônias do Esquecimento vem depois de Cerimônias do Sertão que, apesar de ter sido editado ano passado, foi escrito nos anos 70.

Em todo caso, os dois livros expõem a saga de personagens conectados que se encontram em alguma passagem da narrativa, nem que seja na memória do narrador. Numa ambiência rural, o que caracteriza quase toda obra de Dicke, histórias paralelas se desenvolvem e se entrecruzam, através desses personagens aparentemente improváveis para este mundo urbano e moderno, porém, quem conhece essas corrutelas da Baixada Cuiabana, sabe muito bem que nesses locais cabe gente desse tipo. Só cabe.



São lugares onde o tempo parou e que têm a maior parte de sua população entranhada na zona rural. Neste Cerimônias, um professor de filosofia passa pela experiência de um exílio forçado no município da Guia, já que as pontes que ligam a pequena cidade a Cuiabá caíram por conta de uma chuvarada infernal. É lá que a história vai florescendo na cabeça de Frutuoso Celidônio, personagem central que, claro, tem uma pegada autobiográfica.

Dicke era formado em Filosofia e chegou a dar aulas na UFMT, se não me falha a memória.  Cipriano do Pau dos Machados, Rosaura do Espírito Santo, Catrumano, João Ferragem, Leonora (a de beleza suprema), João Quatruz, João Valadar e muitos outros seguem compondo um enredo que flerta com algo próximo a um realismo mágico, mas que se caracteriza muito mais pelos questionamentos filosóficos. Questionamentos, aliás, presentes em toda a obra de Ricardo. Filosóficos e/ou metafísicos.

Capela Nossa Senhora da Guia

Rio Coxipó-açu (W. Malheiros)

Ricardo Dicke é um dos autores que tem marcado minha formação. Sou conhecedor da sua obra, quase toda, e acuso minha preferência pelos seus “tijolos”. Adoro seus longos escritos de 400 ou 500 páginas que nos gastam as retinas e provocam nossas memórias. É porque sua ficção mais longa permite um envolvimento maior e mais verdadeiro com a densidade literária do autor e seu estilo torrencial de escrever.

                                                           (Foto: M. Vergueiro)

Sei bem da dificuldade para ler este autor, um grande erudito, que não faz concessões em sua literatura. Quanto mais conhecimento tivermos, especialmente no terreno das artes, mais saborosa, agradável e enriquecedora será a leitura de um livro de Dicke.

 João Sebastião da Costa

segunda-feira, 19 de março de 2012

Tirem as crianças da sala

O primeiro pensamento que chegou quando optamos por escrever sobre o palavrão foi: será que neste imenso mundo, de tantas culturas e línguas diferentes, existe uma única pessoa que jamais proferiu uma palavra de baixo calão? Algo muito improvável. Talvez um monge tibetano, um frade franciscano, aiatolá xiita, pajé isolado... não sei. E que mania essa de pensar que os religiosos são contra essas palavras, vez por outra, insubstituíveis diante de determinadas circunstâncias desagradáveis, ou não, que a vida nos apresenta.

Já houve um tempo em que as palavras chulas eram menos aceitas e as sociedades mais moralistas. Tudo bem, falsamente moralistas. Esse tempo passou, embora, no entendimento de muita gente, o palavrão não é coisa pra sair se dizendo a torto e a direita qualquer hora em qualquer lugar. É por que um puta que pariu, por exemplo, precisa surgir da espontaneidade. Um desabafo incontido. Sim. Mesmo os palavrões, jamais podem ser banalizados. É preciso usá-los parcimoniosamente.




Entre os meus pecados da infância está o de ter dito uma palavra nada bonita, dentro da igreja, justamente no dia em que estava fazendo minha primeira comunhão. Ainda bem que o padre mesmo não ouviu. Mas levei, isso sim, um puta esporro de um menino um pouco mais velho que tinha vocação pra coroinha. Tive que engolir a bronca do garoto e logo em seguida a hóstia. E como criança em tenra idade é bicho meio besta mesmo, ainda fiquei uns dias paranoiado achando que a ira celestial cairia sobre minha cabeça.



Alguns locais são propícios para soltar o verbo com esse palavrório impróprio. O trânsito é um deles. Tem sempre um feladaputa vacilando ou te sacaneando quando você está dirigindo. O xingamento brota em seu cérebro e as cordas vocais vibram louquinhas pra sonorizar o vitupério. E nada de barbeiro, idiota, cretino, babaca... Pra ofender mesmo tem que ser um palavrão ou, numa possível hipótese um pouquinho mais branda, um “disgramado, corno ou viado” (vale pra indistintos sexos).


Bukowski, boca suja

Esporte também é ambiente onde rola a chulice. Futebol, nem se fala! De uns anos pra cá, a televisão adotou a leitura labial pra decifrar o que os protagonistas dizem durante os momentos mais acalorados de uma disputa. Especialistas são acionados para decifrar o movimento dos lábios e traduzir para o público. Mas, engraçado é que quando um palavrão é dito, normalmente, o especialista é dispensável. É que essa grande palavra é dita solenemente sílaba por sílaba, bem redondinha, e pra facilitar ainda é acompanhada por expressão e gestos únicos.

“enquanto durar a vida merde merdre qui tout s´ emmerdera etternellement shit forever scheize immarheit mierda merde Merdre colme a affirmé em Clair ET absolu bon ton Monsieur Jarry pois Heráclito de Éfeso não morreu num monte de merda?...”  (Ricardo Dicke em Cerimônias do Sertão)

E vamos falar a verdade: o palavrão já conquistou o seu lugar nas sociedades. Digam o que quiserem, esperneiem, falem mal, esbravejem, saiam pra porrada e o caralho a quatro: mas eles, os palavrões, são culturais!

Hermes e Renato: du caralho... meu!

Queridos leitores deste blog que de tudo fala ou não. Pense bem. Você que é chegado neste espaço de nome alado, emparentado do pica pau, rolinha, cagasebo, joão pinto...; você que nos lê e sempre retorna, que tem se mostrado cordial e tolerante para com as nossas conversas, diga a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade: seria possível, nos dias de hoje, viver sem o palavrão em nosso vocabulário????      


A puta

Quero conhecer a puta.
A puta da cidade. A única.
A fornecedora.
Na Rua de Baixo
onde é proibido passar.

Onde o ar é vidro ardendo
e labaredas torram a língua
de quem disser: Eu quero
a puta
quero a puta quero a puta.

Ela arreganha dentes largos
de longe. Na mata do cabelo
se abre toda, chupante
boca de mina amanteigada
quente. A puta quente.

É preciso crescer
esta noite a noite inteira sem parar
de crescer e querer
a puta que não sabe
o gosto do desejo do menino
o gosto do menino
que nem o menino
sabe, e quer saber, querendo a puta.
(Carlos Drummond de Andrade)

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Adquira: www.tantatinta.com.br/carliniecaniato
  
Um diamante encontrado em algum garimpo na região da Guia é o ponto de partida para esta ficção de Ricardo Guilherme Dicke, “Os Semelhantes”, que acaba de chegar. Escrito nos anos setenta, quando o autor ainda estava em sua fase inicial, esta novela com 180 páginas, editada pela Carlini & Caniato, apresenta o escritor mato-grossense em sua fase inicial, quando seu texto se primava muito mais pela ação vertiginosa e quase sempre ambientado no meio rural, retratando as gentes desta região e a mítica relação entre elas e o meio onde vivem. Entre os leitores de Dicke, a maior parte costuma se sentir mais à vontade com as obras dessa época. De fato são livros como os seus primeiros, e mais premiados, “Deus de Caim”, “Caieira” e “Madona dos Páramos”; providos de uma leitura que flui de maneira mais ágil, embora também já impregnados pela metafísica que, à medida em que os anos passavam, enfronhou-se mais e mais nessa pegada filosófica.

Marçal Aquino, escritor e roteirista de cinema, TV e teatro, por exemplo, em texto que fez para a reedição de “Deus de Caim” (1968) ano passado, desmanchou-se em elogios ao livro, mas nesse mesmo texto sugeriu que “O Salário dos Poetas” seria uma prosa impenetrável.


Em “Os Semelhantes”, quatro personagens centrais se alternam como narradores, ao contar uma história cheia de sofrimentos e resignações, porque é assim que tem sido a história da própria humanidade desde que o mundo é mundo. Abre-se uma porta com tramela mais simplificada para se adentrar nas letras torrenciais do autor. Impossível não se envolver, mas dificílimo tomar partido por este ou aquele personagem, dado o carinho e a isenção com o qual são tratadas pelo autor, as criaturas que criou. O maniqueísmo barato e vulgar estão a milhões de quilômetros do estilo ‘dickiano’. Isso parece cheirar a um certo respeito ou consideração para com o leitor, estranhamente, já que o escritor não costuma fazer concessões a quem o lê. Simplesmente escreve suas histórias do jeito que bem entende.  

Filho de garimpeiro, morou e andou por várias regiões de Mato Grosso, Ricardo se mostra muito a vontade, como em todas as suas obras, para falar da morfologia e da paisagem mato-grossenses. Dotado de um poder de observação espetacular, consegue registrar e superlativar os significados que a natureza (o rio, as serras, os vegetais), seus habitantes (o pássaro e seu canto onomatopaico) e o próprio universo (a lua a fazer caretas e Deus, onipresença em sua obra) imprimem às pessoas mais simples e aparentemente desprovidas de cultura.

Dicke e Adélia
Lembro-me de certa vez, ter indagado sobre como essa gente distante do acesso cultural e das lides doutoras, que costuma identificar a maioria de seus personagens, poderia contracenar com a erudição voraz que sempre aflora em seus livros. Ele esboçou um leve sorriso e respondeu perguntando se eu achava que toda a cultura do mundo emanava apenas dos livros e de ambientes doutos. Arrematou dizendo ter conhecido na sua infância um coveiro portador de uma invejável sabedoria. Um livro como “Os Semelhantes”, pois, desnuda o autor que viveu entre essas pessoas rudes, assuntando-as, e que também mergulhou nessa coisarada toda de Goethe, Cervantes, Baudelaire etc etc...


Pauta apaixonante
Fica uma vontade imensa do resenhista de escrever mais e de provocar a curiosidade do leitor, para que este experimente a obra recém lançada de Ricardo Dicke. Fica a vontade de contar a história toda de “Os Semelhantes”, mas isso não seria de bom tom, porque muita gente não gosta de ouvir de outrem o final da coisa. Prefere saber pelas suas próprias retinas. E eu também não poderia contar o final mais finalzinho da história, porque ainda nem cheguei lá. Me faltam vinte páginas, que estou economizando e lendo bem devagarzinho. Que pena ter que terminar o livro. Então, termino a resenha primeiro.

sábado, 18 de junho de 2011



Foi diferente, ao invés das noites encaloradas, regadas a cerveja, drinks e tira-gostos, muito burburinho, da música esquecida num canto, a manhã de sábado tava com uma luz linda... ensolarada. No cardápio bolos de arroz e queijo, quiche, pastinhas, sucos, chás e outros acepipes  de fino trato. Música de altíssima qualidade ocupando um lugar de destaque.


Não basta só apoiar, tem que participar!!!!

Gente de todas as idades circulou pela aconchegante Casa Ferraz e um catatau de livros com desconto. A produção da Editora Carlini & Caniato chama a atenção pela diversidade dos títulos e pelo esmero das edições. Quatro livros novos e póstumos do gigante Ricardo Dicke, um de Romulo Nétto, escritor super produtivo, e outro de Laércio Miranda, fotógrafo de primeira que registrou pessoas e regiões diferentes deste Mato Grosso. Ou seja: seis livros lançados de uma tacada só. Muitos autógrafos.


Lambendo a cria


Capturamos o Laércio! 



Um Festival de Livros também é sempre oportunidade para rever amigos. Muitos abraços, beijos e a conversa é colocada em dia. Não tem coisa melhor. Astral nas alturas.


A data do lançamento dos novos títulos da Carlini & Caniato coincidiu com o aniversário da Adélia Dicke, viúva do escritor. Um bolo de aniversário deu direito a um “parabéns pra você”, cantado pelos presentes. Os familiares do escritor apareceram em peso. Percebo que eles se sentem felizes pelo tratamento respeitoso e honroso que lhe é dado, com todos os méritos. Dicke se foi vai fazer dois anos, mas sua obra tá longe de esgotar e nos deixar. Ainda há textos inéditos que virão por aí, tenho certeza, pois vejo aumentar o interesse editorial pelo seu trabalho, de estudiosos, de leitores e admiradores.

Velhos amigos 


As crianças tiveram tempo de se conhecer e se relacionar, depois disso não deram mais sossego. É bacana ver o despertar pela arte da escrita. Letramento num ambiente descontraído.

Novos amigos

 A música ficou por conta de Leonardo Yule e Fidel Fiori que mandaram ver com baixo acústico, viola de cocho e violão. Repertório beleza. De repente, o Guapo irrompe o recinto com seu chapéu de aba e camisa chamativa, figurão. Pegou o violão que tava encostado e lascou uma empolgada “Mercedita”. Bravo! Porque a literatura, arte mãe, combina e precisa da música e merece ser celebrada. Não faltou nada. Uma e meia da tarde saímos de lá felizes da vida. Alma lavada.  


Turma que tocou


Turma que tocou II


Turma que ralou 


As fotos são do Tyrannus e de Thaís Lacerda Lima.