quarta-feira, 30 de março de 2011

Rosa de Hiroshima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada
(Vinicius de Morais e Gerson Conrad)


“Celacanto provoca maremoto”.  Essa frase estranha foi pichada em muros do Rio de Janeiro nos anos 70 e se estendeu aos USA e Europa. A expressão sem sentido e misteriosa surgiu do seriado japonês National Kid, sucesso na década de 60. Dr. Sanada arquiinimigo do herói previa: “Celacanto provoca maremoto”.  De lá pra cá, me parece, a população de Celacantos vem crescendo.


Jornalista Carlos Alberto Teixeira "el pichador" 





National Kid Inimigo n. 1 do celacanto
Março de 2011 foi cingido pelo maior desastre ambiental conhecido, que assolou o minúsculo Japão com um terremoto em escala desmedida seguido de um tsunami de violência sem igual, que literalmente varreu da terra milhares de vidas e arrasou cidades inteiras. Parece que esse povo do “sol nascente” é predestinado aos  arrasos  atômicos: a primeira bomba atômica e agora um dos desastres nucleares mais sérios que temos conhecimento.


A contaminação pela radioatividade atinge as águas superficiais, subterrâneas, ar, alimentos, os animais e a população humana. E migra com ação dos ventos para outros locais longínquos.  Nossos irmãos de olhos puxados compõem uma sociedade, uma civilização, sobre a qual não conhecemos muita coisa, mas que têm cinco mil ou sei lá quantos anos a mais de existência do que nós aqui do Novo Mundo. Apesar de toda essa cultura milenar são vitimados por acidentes naturais, outros nem tanto. Lições de vida não faltam nos quatro cantos do mundo, que é redondo. Equívocos.


Não muito longe de Cuiabá, a 350 quilômetros, uma pequena cidade, conhecida por sua prosperidade neste paraíso do agronegócio que é Mato Grosso, para o deleite das multinacionais do setor, está nas manchetes da mídia. Falamos de Lucas do Rio Verde, onde uma pesquisa apoiada pela Fundação Osvaldo Cruz, detectou a utilização destabelada de defensivos agrícolas numa escala tão impressionante, que até o leite materno (putz, o leite materno!) das mães de Lucas apresenta índices de contaminação. Seria esse o preço do progresso, do desenvolvimento? Francamente... Nenhum modelo de desenvolvimento é justificável quando redunda em conseqüências como a contaminação no alimento mais puro que existe. Ou que era pra existir.



Amamentação segundo Picasso

 O médico e ex-vereador de Cuiabá, Wanderlei Pignati, é um dos responsáveis pela pesquisa, que ainda não está em condições, segundo ele, de se tornar pública, apesar de seus dados preliminares já apresentarem números alarmantes.  

Amamentação segundo Frida



Esse modelo de desenvolvimento adotado em Mato Grosso que, segundo informações (eu diria questionáveis, já que pagamos um passivo ambiental altíssimo), resulta na alcunha de Mato Grosso como um tigre asiático – tem a ver com o Japão. Fosse eu o Pignati, lembrando seus tempos de vereança, mandaria um telegrama em regime de urgência urgentíssima ao governado Silval Barbosa, lavrado nos seguintes termos: “Abre o olho companheiro”.








Choraremos pelo leite derramado?

segunda-feira, 28 de março de 2011


Saudação ao público
Pelo segundo final de semana consecutivo não fico “desconcertado”. Bacana mesmo, que Cuiabá ofereça isso ao seu público. Domingo passado, foi a abertura da temporada da Orquestra do Estado, e neste (27/03), a Orquestra Sinfônica da UFMT fez seu primeiro concerto do ano. Casa cheia nas duas ocasiões, ou seja, não deu pra quem quis. É o que eu tenho dito nos últimos cinco anos: incrível, como a musicalidade ganha espaço nesta terra calorenta. Até em nível de orquestras. Ai daquele que pensa que o cuiabano só gosta de música sertaneja.

Vou para apreciar a boa música e valorizo esse trabalho orquestral, que reúne músicos de formação acadêmica e manda ver. Reparo nos repertórios, na performance dos músicos, do maestro e também no público, na forma como ele se comporta. Acho que ainda falta um pouco de tato, talvez pelo desconhecimento da postura correta quando se está num concerto. Crianças, por exemplo, costumam ser um problema, mas também é covardia, é injusto proibir a presença dessas pequenas criaturas que, normalmente, são até mais sensíveis do que nós, adultos, para com a música. Sei lá. Mas, pelo menos, o público dos concertos não é mal educado como o que vai aos cinemas em Cuiabá. Não me lembro de ter assistido uma única sessão de cinema em Cuiabá, onde um cretino ou uma cretina, deixou seu celular ligado.


A Magnífica Reitora marcou presença

Alguma coisa está acontecendo comigo. Me preocupa, até certo ponto. Do repertório deste domingo, não curti ou não consegui entrar no clima durante a sinfonia nº 1 de Beethoven, a última a ser tocada. Não se trata, tenho certeza, de algo em relação ao desempenho da orquestra. Me diverti e me emocionei com as composições anteriores. A abertura de “Rosamunda”, de Schubert, me encantou com a riqueza do diálogo entre os instrumentos. Achei-a suave a graciosa.


dy Anjos tocando como os anjos

A “Sinfonia Pantaneira”, de Habel dy Anjos, solada pelo próprio com a viola de cocho mexeu comigo. Uma composição que esbanja plasticidade. Começa com uma tristeza bonita de se ouvir e evoca a paisagem pantaneira. Um visual parado e cheio de vida ao mesmo tempo. Depois vai ganhando agilidade e os sons parecem ficar coloridos, com a viola e as cordas mais rápidas. Depois o solista mostra seu virtuosismo e prova que os sons que partem do alaúde pantaneiro (gosto de chamar a viola de cocho assim) registram que esse instrumento regional é mesmo a cara do pantanal. Na parte final da sinfonia fui remetido às sensações do ambiente pantaneiro, com sua alegria e vivacidade. Habel chega a rasquear a viola. Valeu mesmo.

Na sexta-feira liguei pro maestro Fabrício Carvalho para assuntar o concerto e ele me garantiu que eu ia gostar da “Czardas”, de Vitorio Monti, uma composição inspirada na tradicional dança húngara, que eu pensava que não conhecia. Bastou ouvir as primeiras notas para me lembrar. É o tipo de música que basta ouvir uma única vez e depois a gente nunca mais se esquece. Impressionante como a música oscila entre o carinho, a carícia que exige dos intérpretes, para depois lhe cobrar vigor e movimentos mais bruscos. E foi então que pude constatar o raro talento que se chama Yllen Almeida, violinista nascido em Cuiabá e que aos dez anos já tocava na Orquestra da UFMT, e que já rodou pelo Brasil com seus méritos.


Yllen o ex-menino prodígio


Ir a concertos em Cuiabá é um luxo! Nestas duas últimas semanas tivemos um final feliz para os domingos, quase sempre insossos. Infelizmente, pra algumas pessoas, não. Nos dois eventos observei o descontentamento de inúmeras pessoas que não conseguiram assistir às apresentações. Dá uma dor no coração ver o desapontamento em seus rostos. O que será que acontece? Imagino que a divulgação é um dos fatores, agora não sei se porque são bem ou mal divulgados. A temporada é muito pequena, dois dias no concerto da Orquestra Estadual e um dia da Orquestra da UFMT!!!!! De pescoçada, outro dia ouvi uma pessoa entendida comentando que esperava que um teatro, à altura do povo cuiabano, ou melhor, do merecimento do povo cuiabano, deveria estar no planejamento da nova metrópole que será Cuiabá, para receber a Copa 2014. Mas parece que não estão pensando nisso. Ainda dá tempo! Sem dúvida nenhuma, o público aumentou. Então vamos deixar de subestimar. É só ter espetáculos de qualidade que as salas vão ficar lotadas. 

Gosto de ficar reparando os instrumentistas, a maneira de tocar, de sentar, os trejeitos, uns que tocam e deixam transparecer a emoção no rosto, com sorrisos, caretas... outros que acompanham o ritimo com o corpo. Os maestros, além dos solistas, sempre são destaques, impossível não reparar na energia que percorre o seu corpo, puro frênesi, no jeitinho de jogar os cabelos pra trás... poderosos. E, ainda é uma oportunidade de rever velhos amigos. Hoje o especial foi o Osvaldino, funcionário do TU, das antigas, que está na foto abaixo. Voltar para casa depois de um bom espetáculo é voltar feliz, recompensada. Esse é um dos prazeres da vida, melhor se mais socializado.


Osvaldino trampando

Só mais uma coisinha, um pedido pro maestro Fabricio Carvalho... Não dá pra fazer um concerto por mês?


Nós é que agradecemos

Mais um detalhe que não pode passar desapercebido, o Tyrannus quase sempre é pensado e escrito por duas pessoas, então às vezes tem uns desencontros, não trombadas.


 





quinta-feira, 24 de março de 2011



Maria Ribeiro (no canto, à esquerda)  no Capote
Quarta-feira. Termino minhas funções editoriais no jornal e zarpo para a rua, doido pra chegar logo em casa. Uns quarenta minutos me separam do lar, doce lar. Não me incomodo, porque não vou perder esse tempo dentro do ônibus. Sempre encontro o que fazer, com quem conversar, no que reparar. Se o passeio está chato, saco da mochila meu nobre companheiro de viagem, “Confissões de uma máscara”, literatura porreta do célebre Yukio Mishima. No camelódromo aguardo o 103, no qual vou atravessar a cidade. A tarde ainda demora pra declinar e o coletivo não estará cheio, o que me traz felicidade.

Nem cinco minutos e ele chega. Adentro-me e antes de passar a roleta vislumbro a incrível figura de Maria Ribeiro, amiga de longa data, com a qual já compartilhei momentos culturais incríveis. Temos muitos amigos em comum e trabalhamos juntos na peça “O Capote”, uma adaptação livre de Gogol, encenada pelo Grupo de Risco, do qual fazíamos parte em 1988. Só essa peça, que eu a Fátima e o Chico Amorim encabeçamos a montagem, já daria um texto apaixonado aqui, mas ainda não vai ser desta vez.



Da esq. para a dir.: lorenzo, maurício, carlão, mauro e maria


Sigo conversando com Maria, lembrando dos velhos tempos e sempre rindo e um pouco com saudades. Aquela história: “tempo bão, não vorta mais”. Na altura do colégio São Gonçalo, percebo a entrada no ônibus de uma outra pessoa querida. Um amigo das novas gerações, Lauro Justino. Tampo o rosto e deixo Lauro passar sem me perceber. Ele vai para o fundo do ônibus com sua timidez. Com o rosto disfarçado com uma das mãos chamo-o, chamo-o... Ele me descobre, se aproxima e eu apresento-o pra Maria. “Que bom, falo comigo mesmo. Estou com duas pessoas adoráveis que conheci em épocas bem distintas de minha vida”. Não um conflito de gerações, um encontro delas. “Com estes dois, concluo meu monólogo interior, Mishima não vai ter chance”.  E seguimos conversando.

Lauro está esfuziante, feliz da vida. Finaliza os preparativos para um evento, o Touché (sábado, na Casa Fora do Eixo), que comemora um ano do blog http://www.chittabonita.com. Entre as parcerias do Lauro nesse blog está a Bianca, filha do Pop, arquiteto talentoso, que era meu vizinho com quem eu adorava conviver. Depois Pop se mudou, mas sempre tenho notícias dele, porque outro filho seu, o Lucas, é amigo do meu filho. É bom não perder em definitivo os laços com pessoas especiais.

Ramona "Liu Arruda", versão Lauro

O biquinho de Bianquinha

O ônibus chega à Avenida Fernando Correa. Percebo Maria se movimentando. “Vai descer aqui?”, pergunto. Ela concorda e diz que vai no aniversário do Clovito, um dos gigantes das nossas artes plásticas. Adoro os quadros do Clovis Hirigaray. São únicos e põem à prova um talento genial, para poucos. Me bate uma tristeza não sei de que nem porque. Essas coisas de arte, de velhas amizades e encontros fortuitos sempre me emocionam. Fico meio manteiga derretida. “Passe a manteiga”, diria Marlon, brandamente. Espero não ficar manteiga rançosa, muito menos margarina. Mando um abraço para Clovito e Maria desce.

Madona, de Clovito

Prossigo a viagem com Lauro conversando amenidades e lembrando os tempos que trabalhamos juntos na agência Barradas. Lauro vai visitar Lívia Camila. Cuiabá é um ovinho, ainda, apesar de seus 700 mil habitantes, pra mim, já que Lívia, de quem eu também gosto muito, é sobrinha de uma querida amiga dos meus tempos de universidade, a Conceição, ou Shiu, que hoje mora em Roraima.

O 103 chega na UFMT e Lauro vai descer. Pela janela, vejo um arco-íris rasgando o céu pós-chuva. Com uma certa malícia, lembro-o de que quem passar por debaixo do arco-íris, dizem, troca de sexo. Ele quase ri mostrando que conhece a história. Digo algo assim como “vai saber?”. Ele fica com uma cara que me faz lembrar uma fala da Maria Bethânia em um de seus antigos discos... “Era muito difícil, mas nada é impossível”.   

terça-feira, 22 de março de 2011

Clitoria é uma flor

Lea T.
Homens e mulheres são seres complexos. Objetos de pesquisa da maioria das áreas do conhecimento. Do entendimento dessas intricadas mentes, originou uma gama imensa de estudos sobre a psique que começa antes do nascimento e vai até a morte. Além das diferenças inerentes ao sexo a sociedade ocidental ampliou o abismo entre eles, mais sociais do que anatômicas e fisiológicas, principalmente, no que se refere ao prazer que, em decorrência, creio, conduz ao poder. Particularmente, acredito que prazer e poder estão um para o outro, como o outro para um. Sacou a relação?

Como entender a apologia que se desenvolveu em torno do pênis? Registros históricos comprovam que o “falo” era adorado em muitas sociedades antigas como um deus, exemplo? Príapo! Em pleno Século XXI vivemos sob os auspícios da falocracia. O mesmo não se pode dizer do clitóris.

Príapo = fertilidade

O clitóris tem mais terminações nervosas que o pênis. É capaz de intumescer, crescer e até de ejacular.  Enquanto o pênis desempenha funções ligadas à reprodução e ao prazer; o relegado clitóris é única e exclusivamente destinado ao prazer. O “trem” causa tanto temor que, na literatura médica, seu estudo apareceu e desapareceu várias vezes e não se sabe porque. Mesmo hoje são poucas as variações sobre o tema.

A educação ocidental permite ao menino pegar, olhar, manipular o órgão sexual; enquanto à menina a história é carregada de preconceitos sociais e religiosos que o vêem como pecaminoso e sujo e outras coisas. A masturbação masculina é normal e faz parte do processo de aprendizagem, levando os meninos aos primeiros aiaiais, consentidos. A masturbação feminina, tanto na adolescência como na vida adulta, ainda é vista, na verdade não é vista e muito menos falada abertamente. Os nossos aiaiais são silenciosos, pecaminosos e quase criminosos. 


Gênero? Clitoria

Um coisa leva a outra. Penso que, semelhante ao que acontece às mulheres, que são mutiladas na África, fato condenado pela nossa sociedade, a mutilação também acontece aqui: Santa hipocrisia!! O menosprezo que a nossa sociedade falocrata dá ao corpo e ao prazer feminino é uma castração.  O conhecimento do poder do clitóris poderia nos levar a várias viagens de ida e volta, volta e ida... ao paraíso. Acredito, ainda, que isso teria mudado a ordem social ... especulações. Uni-vos siririqueiras!!!!!

Por conta disso muitas teorias e hipóteses foram criadas, discutidas e exploradas. Freud acredita que a mulher tinha inveja do pênis. Acredito que o homem também tem inveja da condição feminina, uma delas é a de gerar e parir. Pode ser que num futuro muito próximo alguém comprove que a gestação é compartilhada, teoria na qual creio.

O meu relato hoje é sobre a experiência de um homem que se sentiu grávido, gerando vida, independente da mulher. Aconteceu e eu convivi com isso.

Depois de uma viagem a um sítio, ele voltou para casa quieto, calado, sonolento... Não muito diferente, mas diferente. Talvez um pouco cansado.

Senti um clima estranho. Às vezes de noite levantava-se exasperado, como se algo incomum acontecia. Uma pontada... meio dor... diferente.

Aos poucos percebeu uma pequena saliência no braço, mas nada que indicasse o que estava prestes acontecer... A pequena protuberância continuou a crescer e começou a incomodar. Às vezes, uma sensação... Algo mexia naquele caroço que se avolumava dia após dia.

Finalmente, não pode esconder o inevitável. Algo sucedia. O braço estava dolorido, vermelho. Uma coisa dentro a crescer e buscar mais espaço.  Medida tomada: médico urgente. Diagnóstico, não do médico, dos amigos: berne!!!!! Um berne crescia dentro de suas carnes. Em busca da causa soubemos que uma mosca varejeira havia colocado seus ovos sob sua pele. Não ficou explicado muito bem como os ovos invadiram seu corpo. Um tempo depois os ovos “eclodiram”, no seu interior, uma larva nasceu e começou a crescer. Cena de cinema, “aliens” ou coisa parecida.

Na mosca

Ao saber da existência daquele ser, nascido no seu interior, repentinamente rompeu, não sabemos de onde, um amor incomensurável, um amor maior que tudo: o instinto maternal. Os dias passaram e o seu braço agora era motivo de cuidados e preocupação. Ao saber que o pequeno verme poderia ser parido sem muito sofrimento, se migrasse direto para um naco de toicinho, não teve dúvidas, o melhor para o meu rebento: comprou um lindo pedaço de bacon.

Na verdade não sei como terminou a história. Parece que o bicho começou a incomodar demais, encheu o saco. Saiu a fórceps, mentira... espremido,  esmigalhado. Doeu um pouco, sem sofrimento. Deixou um buraco, não um vazio, no braço que demorou a sarar. E ficou, não na lembrança, uma cicatriz, que foi esquecida, assim como o filho natimorto. 


domingo, 20 de março de 2011


Enquadradamento torto, mas a orquestra afinada 
Domingo é um dia da semana que nunca é fantástico ou espetacular aqui em casa. Tem futebol na telinha, um rango normalmente mais transado, cervejinha e às vezes a gente consegue incrementar este dia com alguma coisa mais cultural. Assistir um concerto é programa digno para fechar o weekend com classe. E o Tyrannus foi checar a abertura da temporada 2011 da Orquestra de MT no Cine Teatro de Cuiabá. E como valeu a pena.

A Orquestra foi criada em 2005 e vem cumprindo o seu papel. Apresenta repertórios variados, influencia positivamente na formação de músicos regionais e, o que é mais importante, oferece música de ótima qualidade ao público cuiabano e mato-grossense, porque ela também faz turnês se apresentando em várias cidades. Ah, e têm os concertos didáticos que são feitos em escolas onde acontece uma incrível interação com estudantes.
“Precisamos de arte para não morrer de verdade”, registrou Nietzsche. Eu gosto quando me emociono diante de uma manifestação de arte. Se meus olhos pelo menos lacrimejam, já está valendo. Em todos os concertos dessa orquestra, que vi nascer (eu trabalhava na Secretaria de Cultura de Estado na época), meus olhos marejaram, como os do tamanduá mirim, segundo a linguagem cuiabana mais antiga, advinda da vivência com a natureza entre bichos e plantas.
Este foi o quarto ano em que a Orquestra abriu sua temporada tocando Stravinsky, grande compositor erudito e moderno. Moderno, quer dizer que não é tão popular e não chega a ter um nível de aceitação como Bach, Mozart, Beethoven ou Tchaikovsky. Um compositor que flertou escancaradamente com o jazz e outros sons contemporâneos, não significa sinônimo de sucesso garantido, ainda mais para um público que não é habituado a concertos e música erudita. Bom, mas acho que estou mentindo, ou equivocado, porque o público tem mostrado receptividade para com composições não só de Stravinsky, mas também para com músicas de compositores quase desconhecidos do grande público.

Selo de qualidade

 O concerto foi aberto com Guerra-Peixe, um brasileiro, moderno. Seu “Ponteado” bebe da música popular mas é sofisticado, instigante e traz um final grandioso. Do russo Igor Stravinsky rolou a Suíte n. 2, lúdica e inspirada na ambiência circense. De Arthur Honnegger, franco-suíço, do qual, confesso, nunca tinha ouvido falar, a Orquestra tocou Pastorale D’ete, que retrata o passamento das horas ao longo de um dia. Sons e nuance musicais delicadas, bonito de se ouvir e inspiradora de imagens. Depois veio uma valsa de Camille Saint-Saëns (França), quando coube ao exímio pianista cuiabano com reconhecimento internacional, Walter Asvolinsque, o posto de solista. Na opinião deste humilde escrevinhador, que não entende muito de música erudita, este foi o ponto alto do concerto. E olha que não gosto tanto de valsas. O tango nervoso e erudito de Astor Piazzolla (Argentina), “La Muerte Del Ángel” veio em seguida. Boa chance para conferir o sincronismo dos arcos e a entrega dos músicos. Porque não há como tocar tango sem sentimento. Por último, “On the Town”, do maravilhoso Leonard Bernstein. Uma música vibrante, ora mais popular, ora mais erudita, e que é a cara do cinema. Às vezes mais pra filme de ação, às vezes mais desenho animado. Os metais e a percussão roubaram a cena nesta que foi a peça mais ‘bem-humorada’ da noite. Leandro Carvalho, o maestro, tinha hora que parecia dançar, além de reger, nesta peça.


Solista cuiabano

Espírito alimentado e felizes da vida, ainda demos um tempinho no foyeur depois do concerto. Todos que saíam aparentavam felicidade no semblante. Como já disse, não sou especialista na arte da música. O que mais sei mesmo é me emocionar com a beleza e o envolvimento dessa arte sensorial. Ouvi dizer que a acústica do Cine Teatro não é lá essas coisas e fiquei sabendo que teve gente que não conseguiu lugar para assistir ao concerto, o que acontecia sempre lá no Sesc Arsenal. Uma pena, pois a Orquestra de MT dá o seu recado direitinho. Ela, com suas boas performances e seu público cada vez mais fiel, torna de urgência urgentíssima a construção de um espaço cultural para 1.500 pessoas. E ela também pode e deve melhorar, mas essa conversa minha já se alongou demais. Isso aqui é apenas um blog...  


Bernstein é cinema

    
Fomos e registramos

sábado, 19 de março de 2011

Parece o que?
Sábado. Dia especial para olhar a lua. Neste 19 de março aconteceu algo que a tornou a maior já vista, desde março de 1993. O diâmetro do satélite no céu ficou 14% maior. E seu brilho em torno de 33% mais intenso. Mais sorte de quem a observou distante das luzes artificiais, em regiões mais escuras – áreas rurais, por exemplo, onde o esplendor lunático foi surpreendente neste dia. Um ‘luar do sertão’ é o que me vem à cabeça.

Então, estamos falando de uma noite pra se deleitar com esse visual, apesar de que o poeta Aclyse de Mattos titulou um de seus livros com a expressão “Quem muito olha a lua fica louco”. E eu acredito. Pelo menos um pouco. E essa história de ficar com o olhar muito suspenso pode até gerar um incômodo torcicolo.

Para nós, brasileiros, São Jorge tem tudo a ver com a lua. Mais uma contribuição made in África que emplacou aqui no Patropi. “Lua de São Jorge, lua maravilha/Mãe, irmã e filha de todo esplendor/Lua de São Jorge brilha nos altares /Brilha nos lugares onde estou e vou/Lua de São Jorge brilha sobre os mares/Brilha sobre o meu amor”. Diz a canção do Caetano.


É sabido que o homem conquistou a lua, mas eu acho que é ela que vive nos conquistando com sua beleza redonda, protagonista da plástica celestial do universo. E como nos influencia cá na terra. Acho que não há etnia, povo, sociedade ou qualquer outro tipo de agrupamento humano que não tem lá suas relações e significados singulares em torno dela. Cada um no seu estilo. Se eu fosse um licantropo, hoje, por exemplo, viraria o bicho.


"Quando a meia noite me encontrar..."


Será que é possível que neste mundão desporteirado existe algum fotógrafo que nunca clicou a lua? Claro que a gente arriscou uma foto e a postou aqui. A constatação foi a de que o brilho lunar nesta noite, com a nossa máquina simples e nossos conhecimentos precários da arte de fotografar, mais parecia o de uma luz artificial.









"Não há o gente oh não luar como esse do sertão"

A lua e o horóscopo têm um envolvimento enigmático para nós, não astrólogos. Talvez daí venha a expressão que fulano ou sicrana está ‘de lua’.  Lembro-me da minha adolescência, quando descobri a poesia e meu sentimento de mundo mudou radicalmente. Lia aqueles poetas românticos brasileiros e, volta e meia, surgia a lua no entrevero dos versos. Eu achava aquilo fantástico e meio mágico. Depois conheci uns versos de Fernando Pessoa que me puxaram para o mundo real e menos poético. Sabe, pode parecer incrível, mas a poesia também faz a gente cair na real.   


Mr. People
O luar através dos altos ramos,
Dizem os poetas todos que ele é mais
Que o luar através dos altos ramos.
Mas para mim, que não sei o que penso,
O que o luar através dos altos ramos
É, além de ser
O luar através dos altos ramos,
É não ser mais
Que o luar através dos altos ramos.  


E acabou-se. A lua que se arriba na noite, daqui a pouquinho, declina. Eu trago na memória uma coisarada infinita sobre a lua... Eu não devia te dizer/mas essa lua/mas esse conhaque/botam a gente comovido como o diabo”. Valeu, Drummond.

  

quinta-feira, 17 de março de 2011

Um assunto que esquentou a mídia ontem foi a aprovação de um projeto com verbas públicas, coisa de 1,3 milhão, mais ou menos. A grana é para viabilizar um blog onde o cineasta Andrucha Waddington, autor do projeto “O mundo precisa de poesia”, vai dirigir o mito Maria Bethânia Teles Viana Veloso. Segundo o diretor serão tantos posts, quantos forem os dias do ano.


É minha lei, é minha questão
Não pretendo falar especificamente disso. Essa relação cultura e bererê dá muito pano pra manga. As opiniões são controvertidas e parece não haver uma fórmula ideal para repartir o incentivo público aos produtos das artes, sem que no caminho mortos e feridos sejam ou se sintam injustiçados.

Há vários anos me envolvi nessa de gestão cultural e garanto: não é coisa que recomendo para hipertensos. Como editor de cultura, volta e meia, ouço denúncias, desabafos, desafetos e comentários de toda a sorte contra projetos e incentivos aprovados. Quase sempre aqui no nosso mundinho regional. Ouço os questionamentos mais por educação e por amizade, mas não me atrai investigar essas questões. Essas coisas, quero crer, devem e podem ser endereçadas diretamente ao Ministério Público. Esse é um hábito que precisa ser criado.

Protegido  da "cosa nostra", vai encarari?
O que mais me chateia é quando meus interlocutores entram nessa seara já de cara dizendo... “ah, o meu projeto meu foi recusado, enquanto o de fulano e o de beltrano, que não tinha nada a ver, foi aprovado”. De cara já se percebe que o reclamante está raivoso por um motivo pessoal e chutou o caráter coletivo que o incentivo cultural precisa ter pras cucuias.

Algumas vezes fui questionado e meio que sugerido para ser conselheiro de cultura. Cá com meus botões: vôte, cobra d’água... Avaliar trocentos projetos, me expor a picuinhas e vaidades da classe artística e, ainda por cima, não ganhar nenhum jeton?! Tô fora.

Bem, mas voltando ao projeto da Bethânia, agora me deu na telha falar sobre isso, acho que 1,3 milhão para um blog, parece coisa que não combina mesmo. Ou será que meu conceito de blog tá muito desatualizado? Fico pensando, será que é tipo uma aposentadoria pra baiana do mano Caetano? E pelo que sei, muitos medalhões da MPB, gente com carreira cristalizada e público certeiro, entra ano, sai ano, acaba se beneficiando com o din din público. Isso é muito complicado e, às vezes, cheira a mamata.  


O mecenas
Na história da arte, teve um cara que foi um mecenas supimpa.  Lorenzo de Médici, meu xará, viveu no século XV em Florenza, riquíssimo, influênte que protegeu vários artistas de sua época , excelentes opções e inquestionáveis. Foi contemporâneo de Leonardo da Vinci (que não apoiou), Michelangelo e Dante Alighieri.


De Florença, para Cuiabá. Mato Grosso. A lei estadual que incentiva a cultura também não consegue agradar gregos, troianos, cuiabanos e outros. Mas já foi muito pior, vale lembrar. Houve um tempo em que essa lei patrocinava projetos como o Micarecuia e o Bloco do Mingau, eventos que, convenhamos, não têm um perfil cultural significativo.  Vai um abadá aí, ô meu?!


A última mudança em nossa lei aqui, que também não agradou a todos, foi a volta do secretário de Estado de Cultura como presidente do Conselho. Vejá lá, hein Malheiros... A gente tá de olho.   





terça-feira, 15 de março de 2011

Zabé, a loca e o pífano
 Quem não nunca teve vizinho? Quase impossível de pensar, talvez um ermitão, eremita, quem sabe a Zabé da Loca... Não imagino porque uma pessoa decide morar numa loca. Creio que talvez para fugir, sei lá de que, talvez de parentes... vizinhos... Sei que nesse sossego, a velha Zabé pode em paz desenvolver a sua música. 


É do conhecimento popular expressões de nossa inevitável inveja do vizinho: a grama mais verde, a galinha mais gorda, a mulher mais gostosa, o carro mais potente... a menor cobiça de todas é a inveja da reforma da casa do vizinho, pois o mais prejudicado nessa é o vizinho do vizinho. Eu, tu, nós, qualquer um.

Uma obra quase sempre começa com marteladas e não há Nietzsche que agüente, por mais que assegure a possibilidade de vir a filosofar.  A partir daí tudo é possível. Tenho pouca experiência no trato com pedreiros. Deixo essa parte para a minha partner que inventa modas, puxadinhos etc e tal aqui em casa. Então ela que pague o pato. Procuro acompanhar à distância, vigiando pra encontrar um caco de conversa, pra topar com um teco de causo, segurar um flash de gestual, agarrar um pensamento e assim alimentar as minhas neuras literárias.  

Suspensos no patamar
Eu mesmo já dei umas tentando fazer uns reparos, já faz um tempo... A grana tava curta, resolvemos alugar um apartamento. Quando tiramos os móveis e nossos cacarecos restaram nas paredes buracos, muitos, dos quadros e telas. Num relampejo de imaginação artística lasquei uma boa dose de pasta de dente para tapá-los.  Não deu outra: o inquilino reclamou do trabalho porco do pedreiro. Eu, para disfarçar, concordei prontamente.

Tem outra, da Fátima. Numa calorosa discussão com o mestre de obras, pediu, melhor, ordenou que ele desfizesse o trabalho, ele concordou, mas antes disse solenemente: “vai ficar muito escroto do jeito que a senhora quer. A senhora manda... “  

Voltemos às reformas na casa do vizinho... nada pior que quebrar a rotina. Minha amiga Louriza, que mora lá na Chapada, disse que artista não gosta de rotina e acho que faz sentido esse raciocínio. Não combina a arte com mesmice, apesar que em alguns casos pode dar samba numa nota só.

Tijolo por tijolo, um desenho lógico/insólito

Não sou artista, escrevo... admito minha índole artística, sou temperamental. Odeio que quebrem a minha rotina, por exemplo, às sete, sete e pouco da manhã, principalmente com balburdia de pedreiros e dos sons próprios de suas atividades. Insuportável. Incrível que tudo no início de uma obra resulta em barulho: cavar, derrubar, fazer cavalete, transportar material, levantar parede, rebocar... só depois de um tempo inicia a parte silenciosa: assentar piso, azulejar, pintar... Aí ya estoy  acostumbrado. E quando, enfim, termina a obra... vem aquela... imaginou? Errou... enganou-se totalmente. Não tenho a mínima saudade, dou Graças a Deus de poder voltar tranquilo aos meus sonhos das sete, oito, nove e às vezes até as dez horas da manhã, emburacado na minha loca.


Deus lhe pague


PS: Devo toda esta inspiração a obra que começou nesta segunda-feira aqui no vizinho. No final da tarde ia saindo pra caminhar e eles me chamaram pra sei lá o que... essas coisas de obra, vizinho etc. Disse-lhes do meu drama com a barulheira matinal. Me tranquilizaram... A obra vai durar só uns sessenta dias. Putz...

domingo, 13 de março de 2011



O cara
Gosto de uma frase que ouvi o pintor Gervane de Paula dizer: “Artista não é que nem banana, não dá em cacho”. É verdade. Vai chegar um tempo em que essa história de ser ou não artista deixe de ser um mito e pare de embananar a cabeça de tanta gente que tem o dom pra coisa, mas não desabrocha, ou não sabe de desabrochou, não acredita em seu potencial etc. Artista é o caralho... A música do Rubinho Jacobina explode em conceito. Da mesma forma que artista não dá em cacho (ou penca), artista é o caralho.

Depois desse preâmbulo em torno dos inventores da arte, lembro-me de outro artista plástico, grande amigo, o João Sebastião da Costa. “Existem os artistas e existem os mandioqueiros”... Não sei se sei explicar o que ele quis dizer com isso. É assim: se vire, entenda se for capaz. De qualquer maneira, classificar alguém como artista é ser genérico. É pouco. É ator, cineasta, artista plástico, músico. Ou escritor...



Esta conversa parece assumir um aspecto meio “embromation”. Então vamos lá: Nesta segundona (14/03), Dia Nacional da Poesia, será lançado o primeiro livro de Marinaldo Custódio, “Viagens inventadas – crônicas e quase contos” (Editora Entrelinhas), um paulista de Santa Albertina (vai dizer que já ouviu falar dessa cidade?!), atualmente, “pau fincado” neste Mato Grosso. Sujeito letrado, de origem humilde, que se orgulha de dizer que trabalhou no campo, e que tem mestrado em Literatura Brasileira pela Universidade Federal Fluminense. Já percorreu vários veículos de comunicação de MT, quase sempre como revisor.

Seu livro, que traz ilustração de Wander Antunes na capa, tem lançamento às 20:30, no Instituto de Linguagens da UFMT (perto do parque aquático), mas a agitação começa a partir das 19:30, com uma homenagem ao poeta Antonio Sodré, que subiu pro andar de cima recentemente. São 22 textos selecionados pelo autor, que demorou pra se arriscar na ficção. Mas, depois de receber tantos incentivos de jornalistas e amigos das letras e das artes, tomou coragem e pariu.

Marinaldo está entre aqueles escritores modernos que andam dificultando a gente diferenciar o que é conto e o que é crônica. Particularmente, não me preocupo com isso. A literatura é uma arte difícil. Não basta apenas escrever bem para se tornar um escritor decente, que é aquele que define seu próprio estilo, que acrescenta, que inova, que é sincero e sabe se relacionar com as palavras e que também saiba envolver os leitores com a história que narra. Uma arte demasiado racional, mas que, nem por isso, dispensa a liberdade que precisa estar presente no processo criativo.

Ganhei o livro de Marinaldo em janeiro deste ano e aguardava seu lançamento com ansiedade. Estava com muita vontade de elogiar as letras desse autor, que primam pela simplicidade e merecem a atenção de todos. Preciso e gosto de registrar que Marinaldo chega honrando a boa tradição literária desta terra. 



   

sexta-feira, 11 de março de 2011

Feiura

A feiúra das duas complementava-se.  A mãe, sexagenária, mas muito mal tratada aparentava uns oitenta, naquela época em que aparentar oitenta, era oitenta mesmo! Magra, ossuda e incrivelmente descabelada.  Por mais que prendesse os cabelos brancos, encardidos e ondulados, a maioria teimava em ficar em riste como antenas. Era chamada na rua de petequinha véia: magra, pequena e perdendo as penas! No mais, tivera sorte na vida, casou-se bem com alta patente do exército, mas quis o destino que enviuvasse cedo. Apesar da boa pensão nunca mais arranjou alguém. Da união nasceu uma única filha, tão feia e desgrenhada como a mãe. Herdara não sei de quem a burrice, por isso não progrediu na vida, mal conseguiu sair do ginásio. A mãe zelosa da cria preocupava-se com seu futuro. Casar a moça ia ser difícil, nem a generosa pensão do falecido pai iria ajudar. Mas um dia, não é que apareceu um?   Jovem, funcionário público, nem feio nem bonito. Pior, sem graça.  Casaram-se como de praxe com festa, comilança “alavonté”:  arroz com galinha, feijão empamonado, maionese, guaraná e cerveja; sob as velhas mangueiras do feio quintal da casa da mãe.
Tiveram dois filhos, que nessa época não dava pra preconizar se seriam feios como seus parentes, eram crianças. Com os passar dos anos a feiura pregou em todos: mãe e filha com cabelos desgrenhados, vestidos gastos, peitos caídos, gordura dobrando sobre a barriga, bunda caída, canelas marcadas e pezão esburrachado. O antes jovem marido, agora aposentado, envelheceu a olhos vistos, engordou e acomodou-se  num canto escuro da varanda da casa da mãe, numa poltrona velha, pra  ler durante o dia inteiro um único jornal. Os tempos eram outros, a gorda pensão e a aposentadoria do marido já não davam pra todos os gastos da família, precisavam de uma complementação urgente, uns trocados bastavam. Para resolver esse problema a única disponível era a filha, pois a mãe e marido já contribuíam com sua parte. O que fazer? A rua, apesar de fofoqueira, precisava de uma manicure, coisa rara na Cuiabá daqueles tempos. Num dia uma placa aparece pendurada no velho e sujo portão da casa: “Faiz-se pé e mão”.
Pra dizer a verdade, verdadeira, relutei, mas precisei, e fui. O local da manicure e pedicure era no quintal, debaixo das mangueiras, por sinal bem fresquinho. Às vezes, quando esquentava ou ameaçava chover mudavam para a porta da varanda, porque lá dentro era muito escuro. Aí, entre um tapa no mosquito e outro, um copinho de água fresca e um cafezinho requentado, oferecidos pela mãe, a gente esperava a vez com os pés numa bacia de alumínio feia, opaca e amassada, com água morna e sabão em pó.
Mas... não é que a filha da véia tinha até jeito para a coisa? Corta aqui, cutuca ali, mexe numa unha encravada, lixa os pés, corta cutícula, pinta as unhas. Saí satisfeita. Reparei que enquanto ela lixava os pés, caía como de um ralador de queijo, a pele morta dos calcanhares caludos que as galinhas afoitas corriam e se aloitavam pra comer aqueles restos brancos sobre o terrero feio.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Professor Ferraz me ligou dia desses. Está montando um novo coral e me convidou para participar. Sabe que não sou nenhuma especiaria em matéria de soltar a voz, e que apenas pareço fingir que entendo ou não entendo de música erudita, conforme a ocasião. Mesmo assim, me convidou. Professor Ferraz é um sujeito valoroso para as artes e a cultura desta terra, sempre fico pensando. Conheci-o mais de perto quando trabalhamos juntos no departamento musical da Secretaria de Estado de Obras Públicas, coisa de seis, sete anos passados.
Mas já acompanhava seu trabalho com corais de há muito. Sempre atuando garbosamente, muito dedicado e profissional. Uma pessoa distinta, por assim dizer.
Fico pensando no cavanhaque e no bigode do professor Ferraz. Coisas que faziam parte do seu visual, mas que, a gente percebia que ele não investia tanto assim nesses pelos. Pra que...? Já ouvi dizer que cultivar com muito ardor essa história de cavanhaque compondo com bigode é coisa de viado.  
Também me recordo da barriga protuberante de quarentão dele, típica de quem não demonstra grandes amores pelas atividades físicas e ao mesmo tempo toma lá as suas cervejas e exagera no prato. Como estaria, atualmente, a aparência física do professor Ferraz? Mais barrigudo, menos... Com ou sem bigode ou cavanhaque? Não assinalei nenhuma alternativa e apenas me lembrei daquelas questões antigas dos meus tenebrosos tempos de cursinho, quando fui iniciado nos calmantes de pequeno porte, pela minha mãe, por causa de um certo nervosismo que me abateu com a chegada do dia do vestibular. Coisa do passado, definitivamente.  
Ultimamente não fico mais nervoso, a não ser, às vezes, em partidas de futebol. Mas aí me acalmo com as cervejas. Outra história. Nesta hora, o que habita minha cabeça é o convite do professor Ferraz. Eu com essa minha voz que nãos e encaixa direito em tenor ou barítono e que, para piorar, ainda costumava inventar de descambar para o baixo, naipe vocal que sempre almejei. Mas, vamos falar a verdade. O melhor regente que tive em toda minha precária experiência de coralista, foi o professor Ferraz.
Acho que vou encarar essa parada de cantar novamente. Nem que seja só pra conviver com o professor Ferraz e arrebatar mais um pouco do seu conhecimento musical. E me divertir também com seu humor variante.
Em frente a sala do professor Ferraz, naqueles tempos, do outro lado da rua, havia uma loja de roupas femininas... Confecções Benedita. ‘O charme que você precisa’, era o slogan da loja. Calcinhas, sutiãs, corpetes, vestidos, colantes o escambau, tudo a preço de bananinha. E na loja, um aparelho de som furreca urrava praticamente o dia inteiro coisas da Banda Calipso e similares. Enquanto isso, o coitado do professor Ferraz era obrigado a mexer com seus arranjos, suas partituras e pesquisas musicais... Coitado do professor, eu pensava, enquanto ele caminhava pra lá e pra cá, ás vezes, aparentando um personagem acaciano.
E coitado mais ainda dele. É que nestes tempos de suspiros literários, reza a lenda que textos, como o deste pressuposto conto, jamais devem se estender. Leitores se espantam. Fogem. E eu mal tive tempo de caracterizar como desejaria o  personagem destes poucos parágrafos, um sujeito assim meio real, meio de mentirinha. Desculpe, professor Ferraz... As palavras podem parecer poucas, mas vossa senhoria já faz parte do meu imaginário.